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AS RELAÇÕES DE PODER E O PODER DAS RELAÇÕES NA ESCOLA

2. AS CONTRIBUIÇÕES DA ESCOLA

2.2. AS RELAÇÕES DE PODER E O PODER DAS RELAÇÕES NA ESCOLA

O relacionamento entre os indivíduos na sociedade é bem difícil, porém é inevitavelmente necessária, pois “a espécie humana só é humana à medida que se efetiva em sociedade; não se é humano fora de um tecido social” (SEVERINO, 1996, p.68). Todavia, os indivíduos que compõem uma sociedade não estão todos em condições de igualdade, há sempre um indivíduo exercendo o domínio sobre o outro. Portanto, todas as relações estão inexoravelmente impregnadas pelo poder. Na escola, as relações de poder se dão principalmente entre estudantes e professores revelando a assimetria entre estes sujeitos. É o que se confirma em Jardim:

A escola, como campo de visibilidade, é um espaço para o exercício de uma vontade de verdade e, conseqüentemente, para o exercício do poder. Lugar privilegiado da morada da verdade: onde se observa, classifica, regula e mensura resultados técnicos. Nesse lugar – a escola – alguém exerce o papel de portador de uma verdade (o saber) e que, também, usa de instrumentos para que a verdade seja extraída (o poder), sendo assim, ele é um espaço do dizível e do visível (2006, p.104).

O poder exercido na escola é um “[...] poder invisível que só pode se exercer com a cumplicidade daqueles que não querem saber que a ele se submetem ou mesmo que o exercem” (BORDIEU apud CASTRO, s/p,1998) configurando-se como um poder simbólico em que o professor detém o conhecimento e o transmite ao estudante de uma forma aparentemente neutra, mas que verdadeiramente está permeado por discursos de verdade7 moldando sua forma de pensar e atos segundo saberes científicos. Assim, poder e saber mostram-se intimamente ligados e a escola se apresenta como uma instituição onde a hierarquia, o controle e a vigilância são mecanismos de disciplinarização8 dos estudantes.

Segundo Jardim,

[...] a educação não será mais vista como espaço neutro ou morto do desenvolvimento das relações sociais, ou das relações entre os indivíduos.

Muito pelo contrário, o espaço pedagógico é um campo aberto, cortado pelas relações de poder que passam desde os primeiros passos da aprendizagem, onde o poder regula, produz, molda indivíduos, fabrica imagens-modelos e avalia (2006, p.105).

7 Verificar a expressão em Foucault, 1971.

8 O termo disciplinarização pode ser entendido como o processo de produção de corpos dóceis e submissos.

Segundo PRATA (2005, p. 109) baseada nas idéias de Michel Foucault.

Segundo Foucault (1977) apud Prata, a partir do século XX as instituições, dentre as quais está a escola, são marcadas pela disciplina a fim de que o exercício do poder e o controle sobre os corpos dos estudantes fosse mais eficaz, tornando-os mais dóceis (2005, p.109). E as formas para disciplinar os estudantes são as mais variadas: divisão por classes, avaliações, a própria arquitetura da escola, as normas, os padrões, a classificação dos estudantes. Todos estes mecanismos fazem da escola um local onde os indivíduos estão sob controle. Como afirma Foucault apud Prata,

A ordenação por fileiras, no século XVIII, começa definir a grande forma de repartição dos indivíduos na ordem escolar: filas de alunos na sala, nos corredores, nos pátios; colocação atribuída a cada um em relação a cada tarefa e cada prova; colocação que ele obtém de semana em semana, de mês em mês, de ano em ano; alinhamento das classes de idade umas depois das outras; sucessão dos assuntos ensinados, das questões tratadas segundo uma ordem de dificuldade crescente. E nesse conjunto de alinhamentos obrigatórios, cada aluno segundo sua idade, seus desempenhos, seu comportamento, ocupa ora uma fila, ora outra; ele se desloca o tempo todo numa série de casas; umas ideais, que marcam uma hierarquia do saber ou das capacidades, outras devendo traduzir materialmente no espaço da classe ou do colégio essa repartição de valores ou dos méritos. Movimento perpétuo onde os indivíduos substituem uns aos outros, num espaço escondido por intervalos alinhados (2005, p.108).

Claro que as regras são importantes para que a convivência seja minimamente organizada, mas elas não justificam algumas práticas aceitas no ambiente escolar e que são até mesmo recomendadas pelos professores mais experientes aos mais novos, como elogiar os estudantes que tiram notas altas na frente de todos da classe, usar palavras depreciativas ao se referir aos estudantes que não obtiveram a média de nota estabelecida pela escola, fazer comparações.

Ao afirmar que a escola torna os corpos dos estudantes mais dóceis, Foucault expressa o que ocorre com muita freqüência na escola: a modelagem de pessoas para aceitarem os acontecimentos com facilidade, pessoas menos críticas, passivas, exatamente da maneira como a cultura escolar contempla. É o que se confirma em Louro apud Prata,

Diferenças, distinções, desigualdades... A escola entende disso. Na verdade, a escola produz isso. Desde seus inícios, a instituição escolar exerceu uma ação distintiva. Ela se incumbiu de separar os sujeitos, tornando aqueles que nela entravam distintos dos outros, os que a ela tinham acesso. Ela dividiu também, internamente, os que lá estavam, através de múltiplos mecanismos de classificação, ordenamento, hierarquização (2005, p.111).

Alunos disciplinados são sinônimos de alunos calados e que não questionam os professores e por conseqüência dependentes. Ora, isto parece contraditório: em um mundo onde os indivíduos devem ser cada vez mais capazes de tomar suas próprias decisões a escola quer formar pessoas cada vez mais dependentes porque

não cabe mais à educação proporcionar aos alunos conhecimentos como se fossem verdades acabadas; ao contrário, ela deve ajudá-los a construir seu próprio ponto de vista, sua verdade particular a partir de tantas verdades parciais (POZO, 2004, p.35).

Ao invés de a escola ser um espaço onde os indivíduos se apropriam do conhecimento científico acumulado pela sociedade através dos tempos, sendo capazes de pensar sobre este conhecimento, o que se tem são indivíduos moldados para agir e pensar de forma pré- estabelecida. Parece que o modelo disciplinar no qual a escola atual está pautada, está em declínio, e, fortalece o bullying. Como resultado professores e estudantes não se entendem, a escola não cumpre seu papel porque não o entende assim como os professores. Atitudes sutis, inocentes praticadas por professores, tais como a exposição das notas, a comparação entre estudantes, a depreciação daqueles que, porventura não conseguem acompanhar o mesmo ritmo dos outros, conversas que ocorrem muitas vezes na sala dos professores em que estes

“compartilham” uns com os outros suas opiniões sobre os alunos, além da destruição do espírito crítico e investigativo, demonstram que, a maioria dos professores carrega para a sua profissão o mesmo modelo disciplinar em que foram formados, sem ao menos questioná-lo:

prova incontestável de que a escola molda as atitudes. Adorno apud Antunes e Zuin complementa,

A autoridade é imposta a partir do exterior. Porém é esta idéia de emancipação que precisa ser inserida no pensamento e na prática educacionais, na mão contrária à mera transmissão de conhecimentos e à simples modelagem de pessoas, já que ninguém tem o direito de modelar alguém a partir de seu exterior – seja para o bem ou para o mal alguém não pode decidir pelo outro como deve ou não agir. Pensamento e prática educacionais devem estar na direção de produzir uma consciência verdadeira, em que as ações possam ser de fato frutos da razão daqueles que, emancipados, tornam-se capazes de tomar as rédeas das esferas pública e privada de suas próprias vidas (2008, p.38).

2.3. QUANDO O HUMANO NOS É ESTRANHO9: A DESUMANIZAÇÃO DOS HOMENS

O artigo 3º inciso IV da LDBEN que trata dos princípios do ensino institui como um deles: “o respeito à liberdade e o apreço à tolerância.” Contudo, o bullying entre outras definições nada mais é que uma demonstração de intolerância contrariando assim, um dos princípios que regem o ensino brasileiro. Isto vem fortalecer a idéia de que a escola e a educação não têm conseguido cumprir o papel de formar pessoas e ainda mais nos dias atuais, em que os seres humanos parecem se comportar como animais irracionais, desprovidos de razão, incapazes de medir as consequências de seus atos.

Relações interpessoais pressupõem tolerância e respeito e, principalmente respeito às diferenças. Sobre isto Dausset in Valette, Giovacchini, Audier apud Severino diz:

A liberdade de pensamento, a livre expressão de opiniões, o livre exercício das culturas não são mais que a expressão das diversidades individuais dentro do respeito de mutua estima. Cada indivíduo tem um direito inalienável à diferença porque, biológica e ideologicamente, a diferença não é um direito mas uma necessidade absoluta, poderíamos até dizer, um dever em relação à espécie humana (1994, p.84).

Contudo, os seres humanos não têm compreendido este dever elementar da espécie humana, o que pode ser observado pelo crescente número de casos de bullying. Infelizmente o respeito deixou de ser importante nas relações entre as pessoas e, enquanto a escola se preocupa com o vestibular no fim do ano, as provas finais, recuperação, reforma na escola, aquisição de novos aparelhos e etc, todos os dias seja na sala de aula, ou no pátio, os estudantes se desrespeitam sem que se reflita sobre a responsabilidade parcial que a escola tem em formar pessoas. Com relação à compreensão humana, Morin expressa:

A compreensão humana nos chega quando sentimos e concebemos os humanos como sujeitos, ela nos torna abertos a seus sofrimentos e suas alegrias. [...] É a partir da compreensão que se pode lutar contra o ódio e a exclusão (2004a, p.51).

Desta forma, resta à escola tentar punir os culpados pela violência física que vêem acontecer, e se compadecer daqueles que foram vítimas, o que não irá contribuir em nada na resolução do problema do bullying, aliás, “a vitimização dificilmente humaniza suas vítimas”

9 Paródia de parte do título do capítulo 1 do Livro Aquisição de conhecimento de Juan Ignacio Pozo

(BAUMAN, 2004, p.107). Será que é natural as vítimas se tornarem agressoras? Aceitar este fato não seria de certa forma, aceitar, banalizar a violência? Como exposto no capítulo 1 deste trabalho, é comum aquele que foi agredido tornar-se agressor em um futuro próximo e mais comum ainda é a atitude complacente das pessoas quanto a esta conduta, ao aceitar este fato como algo natural. Assim, além de não recuperar os que inicialmente foram agressores, acaba-se criando outros agressores com esta aceitação e perpetuando o ciclo de violência.

Mostra-se o lado conservador da educação, pois não se pode esquecer que a educação é dual:

pode ser incrivelmente transformadora, mas também poderosamente reprodutora.

Também contribui para o bullying a própria situação de vida que se tem atualmente: o tempo sempre é escasso, os pais não acompanham a vida de seus filhos e a tecnologia tem provocado uma perda gradual da convivência entre as pessoas, tão essencial para aprender a lidar com as diferenças e exercitar a tolerância. Só se consegue ser tolerante quando colocado diante de situações que exigem tolerância, e isto torna-se difícil em simulações computacionais, jogos, salas de bate-papo na internet: ser humano é algo que se aprende na convivência com o outro. Do contrário, as habilidades exigidas para se conviver bem, senão pelo menos amigavelmente com as pessoas, não são desenvolvidas em nós e, na verdade, até há um esforço bastante significativo em não aprendê-las, pois a intenção dos seres ditos humanos atuais é não se envolver para não estreitar laços com ninguém, a fim de que sempre haja a possibilidade de terminar este e partir para um outro relacionamento. É o que afirma Schluter e Lee apud Bauman:

Nós entramos em nossas casas separadas e fechamos a porta, e então entramos em nossos quartos separados e fechamos a porta. A casa torna-se um centro de lazer multiuso em que os membros da família podem viver, por assim dizer, separadamente lado a lado (2004, p.84).

O valor das diferenças que faz a Humanidade tão diversa, rica em detalhes, está se tornando um problema com consequências graves para todos. As barbáries não cessam e o amor ao próximo, a solidariedade, a compaixão, são atitudes dignas de premiação e projeção, dada a sua ocorrência esporádica. E Bauman confirma:

Amar ao próximo como amamos a nós mesmos significaria então respeitar a singularidade de cada um – o valor de nossas diferenças, que enriquecem o mundo que habitamos em conjunto e assim o torna um lugar mais fascinante e agradável, aumentando a cornucópia de suas promessas (2004, p. 101).

Todos os homens trazem em si uma humanidade comum e ao mesmo tempo uma diversidade cultural inerente a cada ser humano. Isto quer dizer que a humanidade precisa reconhecer sua diversidade na singularidade e sua singularidade na diversidade. E uma educação que vise realmente o aperfeiçoamento dos homens deveria sinalizar neste sentido: o da compreensão da condição humana, o entendimento de que todo ser humano merece respeito porque há características iguais entre nós, estamos sujeitos às mesmas adversidades da vida apesar de nossas diferenças. Segundo Morin (2004) os termos que compõem relação triádica indivíduo/espécie/sociedade não devem ser compreendidos cada um deles separadamente como se fossem um fim em si mesmo, mas em sua totalidade interativa. Morin explana que:

Os indivíduos são produtos do processo reprodutor da espécie humana, mas este processo deve ser ele próprio realizado por dois indivíduos. As interações entre indivíduos produzem a sociedade, que testemunha o surgimento da cultura, e que retroage sobre os indivíduos pela cultura. [...] É a unidade humana que traz em si os princípios de suas múltiplas diversidades. Compreender o humano é compreender sua unidade na diversidade, sua diversidade na unidade. É preciso conceber a unidade do múltiplo, a multiplicidade do uno (2004b, p. 54-55).

No próximo capítulo serão destacadas algumas considerações sobre as entrevistas realizadas, a fim de que tudo o que foi exposto neste capítulo seja evidenciado.

3. UM GRITO EM MEIO AO SILÊNCIO

“Ouve-me, ouve o meu silêncio. O que falo nunca é o que falo e sim outra coisa. Capta essa outra coisa de que na verdade falo porque eu mesma não posso.”

(Clarice Lispector)

Neste capítulo será apresentada a pesquisa de campo realizada através de entrevistas com quatro pessoas que foram vítimas de bullying escolar. São licenciandos e professores do Ensino Superior do Instituto Federal Fluminense campus Campos Centro (IFF) entrevistados no período entre dezembro de 2009 e fevereiro de 2010. Para não haver qualquer constrangimento, as identidades dos entrevistados serão preservadas e, portanto serão identificados por números. Este capítulo tem por objetivo analisar as respostas das pessoas entrevistadas, baseando-se nas idéias expostas nos dois capítulos anteriores. Cabe esclarecer que as análises não têm a intenção de julgar ou criticar se as atitudes foram certas ou não, mas elucidar as idéias expostas através de situações reais.

METODOLOGIA DO TRABALHO

A metodologia escolhida para este trabalho, inicialmente, seria entrevistar licenciandos que estivessem cursando o último período de qualquer um dos cursos de Licenciatura oferecidos pelo Instituto Federal Fluminense campus Campos Centro, e que tivessem sofrido bullying em alguma fase de suas vidas, seja na infância ou até mesmo na universidade. A escolha pelos licenciandos do último período se deu pelo fato destes estarem muito próximos de ingressar no mercado de trabalho, e, conseqüentemente de enfrentar situações semelhantes ou mais graves do que vivenciaram, possibilitando uma visão mais concreta e crítica do bullying, a fim de que estejam preparados não somente para enfrentar, mas também para ajudar seus alunos a lidar com as circunstâncias que envolvem o bullying.

Entretanto, houve dificuldade em encontrar estes estudantes porque as pessoas que são vítimas deste tipo de violência não expõem o problema para outros. Conforme a idéia que o título do capítulo traz, é um grito no silêncio. Com o auxílio de alguns colegas foi possível identificar pelo menos quatro pessoas para entrevistar.

O instrumento de pesquisa escolhido para este trabalho foi a entrevista, uma das estratégias disponíveis quando se quer fazer pesquisa qualitativa exploratória e que se propõe a compreender fatos observados no meio social. A pesquisa realizada baseia-se numa análise descritiva e minuciosa das situações relatadas pelos entrevistados, não se preocupando em quantificar, ou seja, traduzir em gráficos ou números os dados recolhidos na entrevista, mas explorar a forma como ocorrem as situações. Como afirma Bauer e Gaskell, “a finalidade real da pesquisa qualitativa não é contar opiniões ou pessoas, mas ao contrário, explorar o espectro de opiniões, as diferentes representações sobre o assunto em questão”. (2002, p. 68). Portanto, a investigação qualitativa direciona a construção do trabalho, porque fornece dados em um âmbito mais amplo, e o investigador encarrega-se de selecionar as questões mais importantes.

A entrevista mostrou-se um método adequado ao tema do trabalho, já que visa compreender a partir de um fato amplo, as especificidades encontradas no relato de cada entrevistado. O número de entrevistados justifica-se pela dificuldade em encontrar pessoas que atendessem aos objetivos deste trabalho, ou seja, professores e licenciandos do 8º período que falassem abertamente sobre o bullying que sofreram.

3.1. A FUNÇÃO DA FAMÍLIA

A instituição familiar exerce um papel fundamental na vida de todos os seres humanos. Nesta instituição são apreendidos os valores, os comportamentos, enfim a personalidade é construída. No entanto, atualmente a família não tem cumprido com seu papel na formação humana dos indivíduos, transferindo toda a responsabilidade para a escola que, na verdade, possui uma responsabilidade parcial. Por esta razão, é cada vez mais comum os pais culparem a escola pelo mau comportamento dos seus filhos e quaisquer outras atitudes socialmente indesejáveis. Conseqüentemente, os alunos oriundos destas famílias desestruturadas, levam para a escola tudo o que aprenderam na família. Além da desestruturação da família, os pais não conseguem identificar a ocorrência do bullying, como se observa na resposta do entrevistado 1:

Devido ao fato dos meus colegas de classe não falarem comigo e por isto eu era uma pessoa isolada, a escola resolveu me encaminhar para o serviço psicológico da escola para entender o que estava acontecendo comigo, o por quê do meu comportamento. Minha família foi informada e não deu importância, meus pais disseram que eu era daquele jeito mesmo, que não era necessário “esquentar” a cabeça. Na verdade, minha família aprovava o meu comportamento porque considerava que por eu ser quieto conseguia boas notas e era elogiado por ser um garoto tido como bem comportado.” (Entrevistado 1).

Este fragmento do relato do entrevistado 1 confirma como a falta de diálogo pode se tornar um fator determinante para o agravamento do bullying. Outro aspecto a ser destacado a partir deste fragmento é que a escola identificou o comportamento do entrevistado que era resultado do bullying, pois não é comum a escola conseguir identificar, visto que a vítima na maioria dos casos sofre em silêncio, por sentir vergonha, ou por acreditar que a escola não tomará nenhuma atitude diante do acontecimento.

Porém, diferentemente do primeiro entrevistado, o entrevistado 3 recebeu o apoio da família, isto mostra a importância do diálogo dos pais com os filhos e como isto foi decisivo para a superação do entrevistado 3 conforme descrito abaixo:

“Estava perdendo o interesse pela escola. A conversa com meus pais permitiu que eles me apoiassem o que me deu forças novamente para enfrentar as dificuldades.”

(Entrevistado 3).

Desta maneira, para que o bullying seja superado é necessária a parceria da escola com a família. Neste sentido, Cleo Fante escreve que

[...] o modelo educativo familiar será sempre o grande referencial na vida de cada indivíduo. Se for positivo, o indivíduo desenvolverá autocompreensão, auto-aceitação, auto-estima, autoconfiança e capacidade de auto-superarão na vida. Do contrário, terá o seu desenvolvimento psicossocial e socioeducacional prejudicado, tornando-se exposto a todo tipo de comportamento violento e influência negativa, por falta de referenciais e de segurança emocional (2005, p. 184).

3.2. RELAÇÃO ENTRE PROFESSOR E ESTUDANTE

A profissão docente é muito difícil de ser exercida. A responsabilidade sobre este profissional é, sem dúvida muito séria, o que torna o docente alguém que precisa rever continuamente seus métodos, atitudes e por uma razão muito simples: os docentes estão a todo tempo lidando com seres humanos. E talvez umas das questões mais difíceis de lidar, sejam as relações de poder nas quais estão envolvidos docentes e estudantes, a forma como o professor se relaciona com o poder que lhe é conferido. Até mesmo a forma escolhida para avaliar o desempenho do estudante, o privilégio dado a alguns tidos como mais inteligentes ou mais capazes, todos estes atos configuram maneiras que o poder atravessa as relações entre estudantes e professores. O relato do entrevistado 1 ajuda a mostrar isto:

Os meus colegas me tratavam de forma agressiva não porque queriam, mas porque eram maltratados pelos professores por minha causa. Estudava com bolsa na escola onde

cursei o Ensino Fundamental e minha família cobrava de mim boas notas. Por isto me empenhava em conseguir e os professores me faziam elogios rasgados e comparações entre

eu e meus colegas. Uma vez, um professor que eu tive disse a um colega de classe: Você nunca vai chegar aos pés de (entrevistado 1). Em outra ocasião, lembro como se fosse ontem meu professor de geografia sempre na véspera da prova fazia uma revisão fazendo perguntas

direcionadas, um menino não conseguiu responder e ele disse:(entrevistado 1), responde para este asno.” (Entrevistado 1).

Atualmente, é pouco provável que um professor chame um aluno de asno e nada aconteça. Há o respaldo da Lei para garantir ao estudante, bem como a sua família, que o professor ou qualquer outro funcionário da escola seja punido, porém a questão fundamental não é esta, mas as concepções de professor, escola e poder que estão escondidas atrás desta atitude. Os elogios, o reconhecimento por um bom desempenho não são censurados, todavia a maneira como o docente faz, isto é o mais importante. Será que o menino que não conseguiu responder a uma pergunta é menos inteligente ou menos capaz que outro estudante por esta razão? Afinal, errar não é algo tão natural e necessário ao processo de aprendizagem? A escola é um local onde os estudantes têm passado por um processo de inculcação de pensamentos, idéias, atitudes e um dos promotores deste processo é o professor. Mas a função do professor pode ser definida em Werneck:

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