Sabendo disso, duas questões se sobressaem: (1) onde as representações geradas a partir dos conflitos sociocognitivos de educadores pode nos ajudar a compreender o fenômeno das violências? (2) E mais, que marcações sociais as violências passam a carregar nesse grupo de indivíduos e como essas afetam suas ações socioeducativas?
Para discorrer sobre a primeira questão, poderíamos lembrar, conforme destacado por Misse (2016), que perceber a(s) violência(s) como representação social é “uma solução pragmática”, sem dúvidas, “mas que tem a vantagem de não buscar fechar em um significado unívoco ou naturalizado os usos da violência na pesquisa empírica” (MISSE, 2016, p. 59).
Ainda que tal movimento pudesse nos levar para alguns sentidos quase que de senso comum para (tentar) significar as violências, esse não seria o maior dos nossos problemas. Não pretendemos aqui “fechar” um conceito de violências – na verdade, nem mesmo entendemos as violências como um conceito fechado, mas como um fenômeno representado de diferentes formas nos mais diversos grupos.
Esse fenômeno, por sua vez, não é composto apenas por aspectos objetivos, mas também por subjetividades que – como apresenta a TRS – orientam a ação de grupos e indivíduos. Por sinal, essa é a “chave” para respondermos a segunda questão que abre este tópico, no qual daremos prosseguimento no capítulo subsequente. Sobre isso, como conclui Porto:
[…] as subjetividades presentes nas representações da violência interferem, direta ou indiretamente, nos processos de organização das ações e relações sociais, ou seja, nos espaços nos quais o social se produz e se reproduz como espaço de interação. (PORTO, 2006, p. 271).
Claro, com base em alguns referenciais teóricos contemporâneos buscamos uma ajuda para definir as maneiras que as violências podem se manifestar em nossa sociedade moderna (como visto no primeiro capítulo deste trabalho, de forma direta, estrutural, cultural e “da positividade”); todavia, isso não quer dizer que em todos os grupos sociais essas quatro formas de violências são notadas como desdobramentos do fenômeno da violência. Nesse sentido, é essencial, para nosso trabalho, que se insere na área da Educação, utilizar parâmetros de entendimento acerca das violências que desnaturalizem os sentidos (e as existências) dessas. E mais, somente compreendendo como as violências são vivenciadas, contextualizadas e representadas em determinado grupo que podemos vislumbrar formas de combatê-las.
Assim, de diversas formas, por meio de diferentes abordagens e escopos teóricos da TRS, alguns autores já adotaram esse norte para investigar o fenômeno social da violência. Vera Placco (2002), ao buscar as representações sociais de violência a partir de um grupo de jovens estudantes do Ensino Fundamental em São Paulo, entendeu que tal “movimento” teórico serviria para entender como esse fenômeno “afeta ou influi no desenvolvimento social e psicológico do indivíduo, em sua aprendizagem, seus afetos e relações” (PLACCO, 2002, p.
348).
Desse modo, tendo como principal base teórica os trabalhos de Serge Moscovici e Denise Jodelet, os resultados da pesquisa de Placco (e sua equipe) apontam que, para o grupo de jovens investigados, os elementos que melhor caracterizariam a violência seriam o
“comportamento agressivo”, a “falta de respeito pelo outro” e o “abuso de força”;
consequentemente, as situações violentas que mais os aterrorizavam eram as de “assassinato”,
“tiroteio”, “sequestro”, “assaltos” e “estupros” (nessa ordem). Ou seja, vê-se uma grande predominância (naquele caso) do entendimento da violência em suas manifestações diretas.
Numa outra abordagem, inspirada em Jean-Claude Abric, e focando num grupo de estudantes universitários de “classe média baixa” de São Gonçalo, Luciene e Denis Naiff (2005), buscaram levantar os possíveis elementos centrais e periféricos das representações sociais de violência. De acordo com seus resultados, os elementos mais evocados pelos participantes perante o termo indutor “violência” foram: “medo”, “morte”, “assalto”, “falta de educação” e “falta de amor”; termos como “desigualdade social” e “falta de oportunidade”
foram os menos citados. Como inferido pelos autores, para esse grupo social, é baixa a ressonância que encontra nas suas representações a relação entre o aumento nos índices de violência e a situação socioeconômica do país (cf. NAIFF; NAIFF, 2005, p. 114). No entanto, para o grupo pesquisado, houve forte relação entre os termos “violência”, “favela” e “tráfico de drogas”.
Em artigo de 2007, Maria Beatriz Ribolla e Geraldo Antonio Fiamenghi Jr., através de procedimentos verbais (discussão em grupo) e não-verbais (colagem), investigaram as representações sociais da violência a partir da perspectiva de três grupos de adolescentes matriculados em escolas de ensino médio da Zona Oeste da cidade de São Paulo. Tendo como principal referencial dentro da TRS o próprio Moscovici, os autores desenvolveram uma pesquisa dividida em duas fases, contando com a participação de um total de 46 jovens entre 14 e 17 anos.
Esse grupo de adolescentes, segundo resultados encontrados pelos pesquisadores, por meio da análise de imagens presentes em revistas, identificou 10 categorias principais de
representações de violências (cf. RIBOLLA; FIAMENGHI JR., 2007, p. 116): 1) cenas de destruições explícitas; 2) cenas de violência nos esportes; 3) cenas de violência envolvendo crianças/jovens; 4) cenas de violência contra a mulher; 5) objetos associados à violência; 6) cenas de violência relacionados à política; 7) cenas de violência envolvendo a família; 8) cenas de violência associadas a crimes; 9) cenas de violência cultural; 10) outros (o que inclui cenas de pessoas apresentando suposto medo, desânimo, etc.). Assim, como concluído pelos autores:
Na perspectiva deste grupo de adolescentes, o que é a violência e seus tipos, foi caracterizado tanto por aspectos físicos quanto morais. Não houve ênfase em uma só questão, mas sim na interação destes fatores por ocorrerem conjuntamente. Dentre as formas de violência citadas, foram evidenciadas as ações físicas contra o outro (brigas, assassinatos), as ações de destruição da natureza e do meio ambiente, as manifestações de preconceitos (idade, raça, classe social), a autoviolência, a falta de respeito e de humildade, a violência produzida pelo descaso político, as ações originadas pelo uso de drogas, a violação do corpo, através da prostituição, a violência cultural e as cenas e imagens mostradas pela mídia tanto de sexo quanto de ataques físicos. (RIBOLLA;
FIAMENGHI JR., 2007, p. 119).
As professoras Ana Lúcia Galinkin, Angela Maria de Oliveira Almeida e Vânia Cristine Cavalcante Anchieta (2012) realizaram estudo acerca do nosso objeto de pesquisa com base num grupo de professores (15, atuantes no ensino médio de duas escolas privada) e noutro de policiais civis (16, pertencentes a quatro delegacias), ambos do Distrito Federal. A abordagem utilizada, segundo as próprias pesquisadoras, foi de base “complementar” (GALINKIN;
ALMEIDA; ANCHIETA, 2012, p. 367), dialogando, além de Moscovici, com os desdobramentos teóricos de Abric, Doise e Jodelet.
Por parte dos professores investigados na pesquisa, a violência foi atribuída especialmente a “grupos externos” – ou seja, que não se aplicava diretamente ao ambiente escolar, aos seus alunos; foram identificadas quatro categorias referentes às causas da violência:
1) familiares; 2) má influência dos grupos de amigos; 3) modismo da violência; 4) modernidade. Já em relação aos policiais, nessa pesquisa, a violência é mais percebida em sua manifestação direta, em elementos da vida cotidiana desses profissionais, tais como:
assassinatos, roubos, estupros etc. Para eles, três são as categorias de elementos que causam a violência: 1) as causas estruturais (ou seja, ações do Estado e/ou do governo), 2) questões familiares; 3) a má índole de algumas pessoas.
Já em professores da rede pública de São Paulo, a pesquisa de Alexandre da Silva de Paula, Sérgio Kodato e Francielle Xavier Dias (2013), teve como principal objetivo investigar as concepções e as significações de violência nas escolas, produzidas por professores do ensino médio e fundamental. Nesse artigo, o principal referencial dentro da Teoria das Representações
Sociais é, novamente, Serge Moscovici. Dessa forma, o estudo realizou uma análise de conteúdo amparada numa categorização dos discursos dos professores, o que gerou alguns temas importantes em relação à violência em suas experiências pessoais e pedagógicas, tais como: os sentidos da prática docente; a saúde mental do professor; os vínculos entre professores e alunos; as atitudes de resignação e fatalismo em relação aos problemas escolares etc. Como destacam os pesquisadores:
A análise das representações sociais de violência nos permitiu acessar a atividade empírica da consciência de professores, sua produção de saberes e sentidos interligados na trama do tecido social. Nas explicações sobre o fenômeno empírico, os sujeitos entendem que é um fenômeno histórico inerente à violência social e à degradação das famílias, e o professor é um ser insignificante que pouco age sobre o mundo da sala de aula e interpreta estereotipadamente a conduta dos alunos, legitimando a criminalização da pobreza e da indisciplina. (...) Diante disso, entendemos que as representações sociais de violência nas escolas, ancoradas em concepções de inexorabilidade, naturalização, imobilismo e pessimismo, constituem um campo conflituoso no que tange à produção de subjetividade, no sentido de implicar-se no combate à violência, através do incremento e melhora da produção pedagógica. (PAULA; KODATO; DIAS, 2013, p. 254).
Na visão de outro grupo, composto por egressos do sistema prisional de Uberlândia- MG, Thalita Mara Santos e Eleusa Gallo Rosenburg (SANTOS; ROSENBURG, 2014) entrevistaram 8 indivíduos entre 21 e 36 anos de idade. Os resultados apontados no artigo indicam que as representações sociais de violência partilhadas pelos sujeitos da pesquisa estiveram ancoradas nas ideias de normalização e familiarização com a violência, objetificando diversas vivências de situações violentas ao longo de suas vidas. Segundo as autoras, “isso implica a fragilização na tentativa de determinar o que é aceitável e tolerável dentro dessas vivências” (SANTOS; ROSENBURG, 2014, p. 108).
Como último exemplo “prático”, o artigo de Maria Adelina França (2018) apresenta os resultados de pesquisa sobre as representações sociais de violência (e tipos de violência) vivenciados por diferentes segmentos sociais de Itaquera-SP. Tal como o trabalho anteriormente citado, a investigação foi embasada principalmente em Moscovici. Os grupos focais investigados nessa região foram os seguintes: jovens; empresários; moradores de um
“condomínio popular”; e ativistas sociais.
Para esse último grupo citado, dos “ativistas”, o campo simbólico da violência foi representado por uma ideia de “violência do Estado”, o que, segundo a autora, foi entendido como uma aproximação da conceituação de violência estrutural. No grupo dos “moradores”, a violência foi percebida como fenômeno “cotidiano” de suas vivências; por consequência disso, França (2018) afirma que essas pessoas não tinham “consciência de que várias das
situações que vivenciavam eram formas de violência” (FRANÇA, 2018, p. 8). Para os jovens, uma das formas de representar a violência era como forma de “expressão”, de poder, o que fez a autora da pesquisa inferir que esse grupo possuía uma condição de alta vulnerabilidade social, repleta de violências. Por fim, para os empresários entrevistados, a representação da violência foi marcada por aspectos que se referiam ao espaço público, tendo como partida o ponto de vista de seus espaços privados: suas casas, famílias, valores etc. (cf. FRANÇA, 2018, p. 12).
Assim, com essa breve revisão das investigações acerca das representações sociais de violências publicadas anteriormente no Brasil, podemos destacar três apontamentos: 1) a predominância do uso das obras de Serge Moscovici como principal referencial dentro da Teoria das Representações Sociais – e, paralelamente, o pouquíssimo diálogo com a abordagem societal de Willem Doise nessas pesquisas; 2) a maior facilidade dos grupos sociais pesquisados em representar a violência em suas manifestações diretas – deixando em segundo plano suas outras formas; 3) a diferença na forma de se perceber a violência de acordo com alguns aspectos sociais do grupo analisado.86