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4. AS POLICRISES: A CRISE DA GLOBALIZAÇÃO, OCIDENTALIZAÇÃO E O

5.3 Agronegócio brasileiro

5.3.3 As TICs e o agronegócio

agronegócio têm sido contemplados com dispositivos legais favoráveis, fiscalização fraca, leniência das autoridades com delitos, como o não pagamento de multas ambientais, dominação informacional e cultural por meio da cooptação mídia etc., a fim de manter a sua hegemonia.

Diversas TICs são utilizadas pelas empresas agroindústrias para acelerar sua expansão econômica e dominação ideológica. Nas próximas seções, será discutido como algumas dessas tecnologias influenciaram o processo produtivo do agronegócio, enquanto outras influenciaram o modo de viver da sociedade brasileira, a fim de criar necessidades de consumo e formar um público consumidor de seus produtos.

mais-valia globalizada e sem essa unicidade de tempo, a unicidade técnica não teria eficácia (SANTOS, 2020, p. 26).

Na década de 70, duas estatais são criadas para dar suporte técnico ao agronegócio: a Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural (EMBRATER)12 e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) a fim de promover a assistência técnica e incentivar o uso de novas tecnologias pelos agricultores. Torres et al. (2013, p. 1219) demostram que como resultado destas medidas houve uma elevação expressiva na adoção de tecnologias como “colheitadeiras, tratores e fertilizantes que, aliado à presença da assistência técnica e das pesquisas agropecuárias promoveram a alteração na base de produção no campo”.

O uso dessas tecnologias ampliou “a produtividade agrícola e promoveu o surgimento dos complexos agroindustriais viabilizando o que hoje denominamos de agronegócio brasileiro”

(TORRES et. al, 2013, p. 1219).

O papel da informação no processo agrícola passou a ser elementar com a inserção das TICs na cadeia de produção. A comunicação e o fluxo de informações entram diretamente no processo de produção das empresas, além de se tornarem o insumo para as inovações tecnológicas-produtivas do pós-fordismo (MARAZZI, 2009). “Compreende-se aqui como a comunicação e sua organização produtiva enquanto fluxo de informações se tornam tão importante quanto a energia elétrica na época da produção mecânica” (MARAZZI, 2009, p.

16).

A comunicação permite uma produção cada vez mais personalizada. Algumas TICs possibilitaram a coleta, armazenamento e processamento de dados das mais diversas etapas que um produto percorre, desde o cultivo ou extração das matérias-primas, até seu beneficiamento e fabricação, passando pela etapa de armazenamento, distribuição até a sua compra pelo consumidor final. A automação das vendas pelos leitores ópticos, por exemplo, permite acesso a dados como quantidades de bens demandados, períodos de maior consumo, rentabilidade etc.

Da mesma forma, a utilização de cartões de crédito gera dados de consumo de seus proprietários, facilitando assim singularizar o consumo em massa, controlar a demanda de produtos e seus ciclos de vida. As vendas dos produtos passam a determinar o fluxo da própria produção (MARAZZI, 2009).

Podemos notar uma nova transformação do capitalismo onde a comunicação, os dados, a informação e o conhecimento têm papel preponderante para a manutenção da estrutura do

12 A EMBRATER foi extinta em 1990 e em 2013, foi criada Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural.

poder hegemônico. Alguns autores se incumbiram de nomear e caracterizar essa nova sociedade que está emergindo, conforme é problematizado no discurso de Albagli e Maciel (2011):

Sociedade do conhecimento (Machlup, 1962; Drucker, 1968), sociedade pós- industrial (Bell, 1973) e sociedade da informação (Porat, 1976), estiveram focadas nas mudanças no perfil das ocupações e nas estruturas do emprego, não se colocando ainda claramente a nova dimensão do papel da informação, do conhecimento ou do imaterial em sentido amplo; e, menos ainda, a questão do poder. O que se evidenciava então era o maior peso, nas economias, do setor terciário ou de serviços (em que o valor é produzido fundamentalmente nas interações entre pessoas), bem como o aumento da participação das atividades de produção e processamento da informação nas estruturas de trabalho e emprego (ALBAGLI; MACIEL, 2011, p.12).

O sistema econômico atual atravessa mais uma metamorfose, porém coincide com diversos modelos de produção. Não houve uma substituição do extrativismo, ou do capitalismo industrial, nem do fordismo, nem do pós-fordismo pelo que atualmente é chamado capitalismo pós-moderno ou imaterial. Todas as formas de capitalismo coexistem. É importante considerar que a economia imaterial toma forma em um terreno muito material. As empresas de informação e tecnologia são grandes compradoras de matéria-prima provenientes do extrativismo a exemplo do Nióbio (Nb), que está sujeito ao mesmo modo de exploração descrito nesta dissertação no item 5.2.

Para Santos (2020, p. 26) “as técnicas apenas se realizam, tornando-se história, com a intermediação da política das empresas e dos estados de forma conjunta e separada”.

Atualmente vários grupos reconhecem a importância das instituições, das condições socioculturais, do papel do Estado e das políticas públicas nas relações entre ciência, tecnologia e inovação (ALBAGLI; MACIEL, 2011). Para Adorno (2009, p. 6) “a racionalidade técnica hoje é a racionalidade da própria dominação, é o caráter repressivo da sociedade que se auto aliena”.

Podemos perceber que o padrão tecno científico capitalista reforça e aumenta o afastamento do humano da natureza, que “em vez de construir compreensões fundamentais sobre o funcionamento dela, de seu metabolismo e de seus processos vitais, decide explorá-la, dominá-la e transformá-la” (ACOSTA; BRAND, 2018, p. 67). Por exemplo, o uso da técnica para a prática da obsolescência programada, forma intencional de produzir mercadorias que irão se tornar obsoletas num curto espaço de tempo, e assim, influenciar na compra de novos produtos, explicita a ideia de que a natureza é um insumo, um recurso manipulável negando a ela o tempo necessário para renovar-se (ACOSTA; BRAND, 2018).

Um aspecto importante a se observar acerca das inovações tecnológicas é a desigualdade sobre a disponibilidade do acesso a elas por parte considerável da população ou por inabilidade

para utilizá-las. Avanços tecnológicos supostamente democratizantes, na verdade, são instrumentos que reforçam e criam formas de desigualdade, exploração e alienação (ACOSTA;

BRAND, 2018).

Algumas empresas agroindustriais se sentem ameaçadas diante das mudanças necessárias apontadas pelos cientistas para o enfrentamento dos danos a biosfera geradas por elas e que contribuíram para o Antropoceno. Nesse cenário, segundo Léna (2012, p.) a

“desinformação se tornou um instrumento com grande potencial que permite jogar dúvidas e alimentar controvérsias”. Propaganda com conteúdo enganoso para conquistar a simpatia dos consumidores e utilização da mídia patrocinada por lobistas para enfraquecer o discurso científico por meio de geração de dúvida e controvérsias (LÉNA, 2012; ISSBERNER, 2018).

6. A INDÚSTRIA CULTURAL A SERVIÇO DO DISCURSO DO AGRONEGÓCIO