3 A LEITURA SINCRÔNICO- -SCHUMPETERIANA
3.3 A teoria marxiana da distribuição
3.3.1 Assalariamento e lucro " normal "
em Marx
O ponto de partida da crítica de Marx à teoria ricardiana da distribuição é o mesmo de sua crítica à teoria ricardiana do valor e dos preços: a recusa à redução do processo social de distribuição à dimensão "técnico-natural" da pro- dução. Contudo o reducionismo ricardiano não se apresenta da mesma forma no nível da teoria dos preços e da distribuição. E isto porque, como todo o
"ismo" não dialético, o ricardianismo não incorpora conscientemente a contra-
dição e acaba caindo em contradição consigo mesmo. Nos termos de nossa discussão, isso significa dizer que, para essa corrente teórica, a distribuição é tanto um atributo da "fertilidade do solo" quanto da "história e cultura nacional"
e da "força e organização dos trabalhadores". Vale dizer: de um lado, o reducionismo mais vulgar da distribuição às circunscrições naturais da produ- ção; de outro, a máxima indeterminação teórica que se faz esconder pelo deslo- camento da questão para fora da Economia Política. É contra esse jogo dúplice de reducionismo tecnicista e de indeterminismo que Marx diz:
Na sua concepção mais banal, a distribuição aparece como distribuição dos produtos e assim como que afastada da produção e, por assim dizer, independentemente dela. Contudo, antes de ser distribuição de produtos, ela é: primeiro, distribuição dos instrumentos de produção e, segundo, distribuição dos membros da sociedade pelos diferentes tipos de produção, o que é uma determinação ampliada da relação anterior (subordinação dos indivíduos a relações de produção determinadas). A distribuição dos produtos é manifestamente o resultado dessa distribuição que é incluída no próprio processo de produção, cuja articulação determina. Considerar a produção sem ter em conta essa distribuição, nela incluída, é manifestamente uma abstração vazia, visto que a distribuição dos produtos é implicada por essa distribuição que constitui, na origem, um fator de produção (Ibid., p. 11-12, grifos nossos).
O sentido da intervenção de Marx é inequívoco. Para esse autor, um determinado padrão de produção carrega consigo determinações distributivas.
Só que essas determinações não se ancoram (como num certo Ricardo e, posteriormente, no neoclassicismo) diretamente na produtividade do solo ou na substituibilidade de homens por máquinas. Antes, elas se ancoram naquelas determinações especificamente sociais, que definem a forma de apropriação (comunal, estatal, privada, etc.) e o padrão de controle (democrático e universalizado, ou centralizado e excludente) dos meios de produção.
Ora, o capitalismo é caracterizado, antes de mais nada, pela forma privada e excludente de apropriação dos meios de produção. Afinal, quando se diz que a propriedade dos meios de produção é, rigorosamente, privada, já se diz que a produção só é mediatamente social e que a ordem econômica é hegemonizada pelo mercado;26 e, quando se acrescenta a essa determinação a excludência, o que se faz é reconhecer que nem todos os produtores são proprietários, e a ordem mercantil desdobra-se numa ordem assalariada, o que, por sua vez,
26 Para a análise da relação entre propriedade privada dos meios de produção (enquanto um poder de comando absolutamente distinguido do uso e da posse) e ordem mercantil, ver Marx (1978a). Voltar-se-á (ainda que topicamente) a essa questão no próximo capítulo. Por enquanto, ela não pode ser mais do que apresentada, uma vez que seu tratamento rigoroso envolve a transcendência da perspectiva "sincrônico-schumpeteriana" de leitura de Marx.
esclarece a relação entre assalariamento e capitalismo. O primeiro só é o funda- mento do segundo para Marx, na medida em que sintetiza as duas determina- ções essenciais e contraditórias do mesmo: ordem mercantil e excludência;
igualdade formal e desigualdade real; equivalência aparente e inequivalência substantiva.27
Mas, se o assalariamento é a outra face do capital, o salário deve ser a condição do lucro e não propriamente o seu limite, como pretendem os ricardianos dos mais distintos matizes. De fato, essa é a tese de Marx, que será apresentada já no Capítulo IV de O Capital e cujo desenvolvimento é o objeto de todo o Livro I dessa obra. Sua complexidade e contradição com o senso comum exigem sua qualificação desde já.
Desde logo, é preciso que se entenda que o assalariamento não é uma determinação primária do lucro em Marx. Ou, dito de outro modo, para esse autor, pode haver lucro sem que haja assalariamento. Basta que — como nas formas especificamente mercantil, usurária ou financeira de capitalização28 — um determinado processo de intercâmbio de mercadorias e/ou dinheiro permita a apropriação de um ∆D que não se encontra referido a qualquer contribuição/
/remuneração do trabalho daquele que o apropria. Donde se conclui que a determinação primária do lucro para Marx é ser excedente apropriado no mercado.
Neste plano mais geral e subdeterminado, o lucro é, em Marx, assim como em Smith, Walras ou Schumpeter, uma apropriação mercantil rigorosamente excedentária29. E ainda em consonância com esses três autores, Marx vai reco-
27 Sobre a relação entre assalariamento e capitalismo, ver Marx (1983), O Capital, Livro I, seções II e VI. Como se sabe, essa relação é objeto de uma extensa polêmica entre nós, tendo em vista o nosso passado escravista-mercantil e a sobrevivência de relações de produção não especificamente (ou, pelo menos, não formalmente) capitalistas no campo.
Infelizmente, o resgate exaustivo dessa polêmica nos imporia um desvio de rota prejudicial ao desenvolvimento dos argumentos centrais. Para os interessados no debate, recomenda- mos a leitura do capítulo terceiro de nosso trabalho de Mestrado, onde procuramos esclare- cer a posição de Florestan Fernandes sobre a pertinência das categorias capitalismo e revolução burguesa no Brasil a partir do confronto com posições teóricas distintas, ver Paiva (1991). Nesse mesmo trabalho, procuramos demonstrar a convergência (diga-se de passagem, reconhecida pelo próprio autor) da leitura de Florestan Fernandes com a leitura característica da Escola de Campinas sobre o tema e que tem sua expressão seminal no trabalho de Mello (1982).
28 A esse respeito, ver Marx (1983, Livro 1, p. 137).
29 Por "rigorosamente excedentária" quer-se significar aqui uma apropriação que: (a) não diz respeito a qualquer contribuição produtiva do agente apropriador; (b) transcende as neces- sidades de reprodução material do agente apropriador. Essa dupla especificação é impor- tante, na medida em que, numa leitura mais "frouxa" de Smith, Walras ou Schumpeter, se
nhecer que, se o lucro fosse só isso, ele não se poderia constituir como uma forma perene de apropriação,30 o que significa dizer: a perenização/
/normalização do lucro pressupõe a existência e a perenidade de uma relação de inequivalência no interior de um sistema econômico assentado sobre a troca de equivalentes. Essa é uma contradição que Marx expõe em termos sobejamente conhecidos31 e que resolve pela identificação da relação salarial como sendo essa relação particular que normaliza o lucro capitalista enquanto apropriação sem equivalente de trabalho comandado por regras de equivalência. Em seus termos:
Para extrair valor do consumo de uma mercadoria, nosso possuidor de dinheiro precisaria ter a sorte de descobrir dentro da esfera da circulação, no mercado, uma mercadoria cujo próprio valor de uso tivesse a característica peculiar de ser fonte de valor, portanto, cujo verdadeiro consumo fosse em si objetivação de trabalho, por conseguinte, criação de valor. E o possuidor de dinheiro encontra no mercado tal mercadoria específica — a capacidade de trabalho ou a força de trabalho (Ibid., p. 139).
Não há como se subestimar o achado teórico que Marx anuncia nessa passagem. Mas, tampouco, há como superestimá-lo. E ambos os desvios são prováveis, tendo em vista a forma ambígua com que o autor apresenta sua tese na passagem citada. Como em todo o Livro I (e, na verdade, como em virtualmente todos os seus escritos), Marx utiliza-se da categoria valor tanto
poderia pretender que, para esses autores, os ganhos "extraordinários" de um produtor mercantil independente derivados de quaisquer vantagens produtivo-competitivas desen- volvidas, introduzidas e processadas pelo mesmo dessem origem a um "lucro". Se essa interpretação for aceita, a caracterização de lucro e excedente dos mesmos não se coadunaria com a de Marx, para quem "[...] o possuidor de mercadorias pode formar valores por meio do seu trabalho, mas não valores que se valorizem" (Marx, op. cit., Livro I, p. 138.).
Vale dizer: para Marx, enquanto excedente mercantil, o lucro pressupõe a apropriação de trabalho alheio sem equivalente. Nesse sentido, a remuneração superior de um trabalho superior (exponenciado) não é lucro. E não o é na medida em que essa remunera- ção não se configura como um excedente, nem em sua fonte (a troca de trabalho alheio por trabalho próprio), nem em seu destino (a reprodução das condições de vida do produtor independente).
30 Sobre o caráter instável (e socialmente instabilizador) das formas pré-capitalistas de valori- zação, ver Oliveira (1976).
31 "A transformação do dinheiro em capital tem de ser desenvolvida com base nas leis imanentes ao intercâmbio de mercadorias, de modo que a troca de equivalentes sirva de ponto de partida. Nosso possuidor de dinheiro [...] tem de comprar as mercadorias por seu valor, vendê-las por seu valor e, mesmo assim, extrair no final do processo mais valor do que lançou nele. Sua metamorfose [...] tem de ocorrer na esfera da circulação e não tem de ocorrer na esfera da circulação. São essas as condições do problema. Hic Rhodus, hic salta!" (Marx, op. cit., p. 138).
em seu sentido rigoroso (enquanto uma unidade particular de contabilização do produto social) quanto como proxy dos preços, o que impõe uma ambigüidade que está por trás dos "excessos transformacionistas" do marxismo de inflexão ricardiana. Afinal, a afirmação de que a força de trabalho é aquela mercadoria
"[...] cujo valor de uso [tem] a característica peculiar de ser fonte de valor [...]"
é absolutamente verdadeira — na verdade, definicionalmente verdadeira —, se se entende por valor a contabilização do produto social em termos de trabalho.
Mas não o é, se se toma a categoria valor como equivalente a valor de troca ou preço32.
A depender de como se lê a passagem de Marx reproduzida acima, a questão da inidentidade entre valor e preço (e, conseqüentemente, da inidentidade entre mais-valia e lucro bruto) torna-se insignificante ou absolutamente fundamental. Mais exatamente, se se lê a passagem acima como afirmando meramente que a normalização do lucro pressupõe a existência de uma mercadoria particular, cujo uso produtivo gere um retorno (em produto, valor, ou preço) superior ao seu custo (em produto, valor ou preço), então, o fato de que esse produto seja mensurado em termos de valor é de somenos importância. A única questão relevante passa a ser a dos determinantes da crônica subvalorização dessa mercadoria particular. Mas, se se lê a passagem acima
32 Diga-se de passagem, Marx explicita em uma longa e importante nota de pé de página aposta ao final da segunda seção do Capítulo IV, donde foi extraída a citação anterior o fato de estar utilizando a categoria valor também como proxy dos preços em sua discus- são da normalização do ganho capitalista. Segundo Marx: "De acordo com essa discussão, o leitor compreende que isso significa apenas: a formação de capital tem de ser possível também quando o preço da mercadoria seja igual ao valor da mercadoria. Ela não pode ser explicada pelo desvio dos preços das mercadorias em relação aos valores das mercado- rias. Se os preços se desviam realmente dos valores, então é preciso começar por reduzi-los aos últimos, ou seja, abstrair essa circunstância como sendo casual, para ter pela frente, em sua pureza, o fenômeno da formação de capital com base no intercâmbio de mercadorias e não ser confundido em sua observação por circunstâncias secundárias, perturbadoras e estranhas ao verdadeiro decurso. Sabe-se, aliás, que essa redução não é, de modo algum, um mero procedimento científico. As constantes oscilações dos preços de mercado, o seu aumento e queda se compensam, se anulam reciprocamente e se reduzem a um preço médio como sua regra imanente. Esta constitui a estrela-guia, por exemplo, do comerciante ou do industrial, em cada empreendimento que abranja espaço de tempo maior.
Ele sabe, por conseguinte, que, considerando-se um período mais longo como um todo, as mercadorias realmente não são vendidas, nem abaixo, nem acima, mas de acordo com o seu preço médio. Se o pensamento desinteressado fosse ao todo de seu interesse, então ele precisaria colocar o problema da formação do capital assim: como pode surgir o capital sendo os preços regulados pelo preço médio, ou seja, em última instância, pelo valor das mercadorias? Digo 'em última instância' porque os preços médios não coincidem diretamente com as grandezas de valor das mercadorias, conforme acreditam A. Smith, Ricardo, etc." (Marx, op. cit., p. 138, grifos nossos).
como se ela dissesse que o trabalho vivo é a única fonte, não só do valor e da mais-valia (que o é por definição!), mas do valor de troca e do lucro bruto, então haveria que se demonstrar essa assertiva a partir de um conjunto de movimentos teóricos dos quais a "transformação" dos primeiros nos últimos é apenas um momento.
Não será preciso esclarecer que Schumpeter lê a citação anterior na primeira perspectiva. Para esse autor, o cerne do argumento de Marx não se encontra na particularidade do trabalho de ser a "única fonte do valor", uma vez que isso é assim por força da definição marxiana de valor enquanto trabalho objetivado. O cerne do argumento de Marx encontrar-se-ia na particularidade da relação de intercâmbio entre trabalhadores e capitalistas, derivada da fragilidade estrutural do poder de barganha dos primeiros. Uma fragilidade que Marx resgataria na caracterização da mercadoria que vendem como mera potência de trabalho, mas que, contraditoriamente (e aqui a segunda ambigüidade terminológica da passagem anterior), se reocultaria na caracterização dessa mercadoria como força de trabalho, o que leva Schumpeter a criticar essa opção terminológica, afirmando que "Arbeitskraft [é] normalmente traduzido, de maneira não muito satisfatória, por 'força de trabalho', mas deveria sê-lo por trabalho em potência ou trabalho potencial" (Schumpeter, 1984, p. 45).
A crítica é correta e resgata o fato de que o que Marx quer traduzir com essa categoria é a impossibilidade de os trabalhadores transformarem em
"ato" sua "potência" (e necessidade) de trabalhar sem que o capital os empregue. Ou, ainda, como o diz Marx, resgata o fato de que "Sobre a base capitalista, [...] não é o trabalhador quem emprega os meios de trabalho, mas os meios de trabalho, o trabalhador" (Marx, 1983, livro 1, v. 2, p. 209).
No limite, a idéia de Marx é que, no assim chamado mercado de trabalho, são os capitalistas que oferecem trabalho, e não os trabalhadores. Estes últimos só podem oferecer seu desejo/necessidade de trabalhar.33 Um desejo/
/necessidade que só se efetiva se os capitalistas — que efetivamente comandam o processo de produção-trabalho — oferecerem as condições de trabalho para o trabalhador potencial. E só o fazem se, nesse processo, auferirem um ganho sobre os custos de produção, vale dizer, apenas na medida em que o valor da produção total do sistema exceder a parcela apropriada pelos trabalhadores.
Como se sabe, Marx deriva a possibilidade dessa apropriação excedente do fato de que o valor da força de trabalho é cronicamente inferior ao valor do
33 "Quem diz capacidade de trabalho não diz trabalho, como quem diz capacidade de digestão tampouco diz digestão. Para este último processo, é reconhecidamente necessário mais do que um bom estômago." (Marx, op. cit., v. 1, p. 143).
produto gerado pelo trabalhador que o capital emprega. Uma derivação que — na aparência — é absolutamente ortodoxa e que pouco acrescentaria à concep- ção smitho-ricardiana de uma taxa natural de salário relativamente estável no plano dos valores de uso e suficientemente deprimida no plano dos valores (de troca) para garantir a geração/apropriação de um excedente capitalista.34
Na leitura de Schumpeter, contudo, o substrato comum das teorias marxiana e ricardiana do lucro esconde uma profunda diferença. E isso na medida em que, se Marx pretendesse tão pouco, sua leitura seria rigorosamente a mesma de Ricardo e padeceria da mesma inconsistência, qual seja a de que:
[...] numa economia em concorrência perfeita, os ganhos de exploração induziriam os capitalistas a expandir a produção, ou a tentar expandi-la, pois, do ponto de vista de cada um deles, isso significaria mais lucro.
Para tal, teriam de acumular. [Mas] o efeito global tenderia a reduzir a mais-valia, através do decorrente aumento nas taxas salariais e também, talvez, devido à decorrente queda nos preços dos produtos [...]
(Schumpeter, op. cit., p. 51).
Vale dizer: identificar as teorias marxiana e ricardiana da distribuição envolve atribuir a Marx não só a subdeterminação ricardiana da taxa de salário, como as contradições daí oriundas. Afinal, pretender que a taxa de salário (ou o valor da força de traballho) seja rigorosamente definida pelo padrão de subsistência (ou pelo valor dos bens necessários à reprodução daquela força) envolve cair em um naturalismo que Marx, corretamente, recusa. E se, por oposição a esse naturalismo, nos abrimos às determinações histórico-culturais, não há como fugir do reconhecimento de que essas determinações passam (sem se esgotarem aí) pelo mercado e pela dinâmica da oferta e da demanda de força de trabalho.
Mas isso envolve reconhecer que a taxa de salário passa a ser função da taxa de acumulação. E, como esta última é compulsiva em Ricardo e função do nível de excedente — que é um resíduo do salário —, chega-se à contradição de que a taxa de salário é função da taxa de salário. Quanto menor esta última, maior será o lucro, e, quanto maior o lucro, mais intensa será a acumulação, maior será a demanda de força de trabalho, e maior será a taxa de salário final.
Em suma: o salário baixo estimula a acumulação que conduz a uma situação de salários altos e de profit squeeze.
34 "Mas o trabalho passado que a força de trabalho contém, e o trabalho vivo que ela pode prestar, seus custos diários de manutenção e seu dispêndio diário, são duas grandezas inteiramente diferentes. A primeira determina seu valor de troca, a outra forma seu valor de uso. O fato de que meia jornada seja necessária para mantê-lo vivo durante 24 horas não impede o trabalhador, de modo algum, de trabalhar uma jornada inteira. O valor da força de trabalho e sua valorização no processo de trabalho são, portanto, duas grandezas distin- tas. Essa diferença de valor o capitalista tinha em vista quando comprou a força de traba- lho." (Ibid., p. 159).
É fácil perceber que esse resultado contradita diretamente o objetivo de Marx anunciado acima: explicar a normalização/perenização do lucro capitalis- ta enquanto forma especificamente mercantil de apropriação de excedente.
Porém, como diz Schumpeter,
Basta olhar para o objetivo analítico de Marx para perceber que ele não estava obrigado a aceitar a batalha em terreno onde era tão fácil derrotá- -lo. Pois só é fácil enquanto vemos na teoria da mais-valia nada mais que uma proposição acerca de processos econômicos estacionários em equilíbrio perfeito. Como seu objetivo na análise não era um estado de equilíbrio — que, segundo ele, a sociedade capitalista nunca poderia alcançar —, mas, pelo contrário, um processo de incessante mudança na estrutura econômica, a crítica nas linhas acima não é completamente decisiva. A mais-valia pode ser impossível em equilíbrio perfeito, mas pode sempre existir, já que tal equilíbrio nunca pode estabelecer-se (Schumpeter, op. cit., p. 48).35
O núcleo da interpretação de Schumpeter da solução marxiana para a questão da perenidade do lucro é a idéia de que a forma relativa (e, mais especificamente, a forma relativa extraordinária36) é a forma fundamental da mais-valia. Vale dizer, para Schumpeter, não se pode ler Marx como se este acrescentasse — como um apêndice importante, mas inessencial — as determinações da mais-valia relativa a um sistema teórico já auto-suficiente, quando determinado apenas em termos da mais-valia absoluta. Ou, ainda (resgatando a terminologia especificamente marxista): o alongamento da jornada de trabalho e a depressão da taxa de salário, as duas determinações centrais da mais-valia absoluta, antecedem apenas formalmente os ganhos (que são indissociáveis dos diferenciais) de produtividade associados ao desenvolvimento da cooperação, da divisão técnica do trabalho e da incorporação de meios mecanizados de produção ao processo de trabalho, que são as determinações centrais da mais-valia relativa.
35 Na seqüência dessa passagem, Schumpeter diz: "Esta defesa não resgata a teoria do valor- -trabalho particularmente quando aplicada à mercadoria-trabalho ou o argumento sobre a exploração tal como é apresentado. Mas nos permite uma interpretação mais favo- rável quanto ao resultado, se bem que uma teoria satisfatória de tais excedentes vai despi- -los da conotação especificamente marxista" (Idem, ibidem). No nosso ponto de vista, esses comentários de Schumpeter só fazem sentido na medida em que, como se viu acima, a leitura que esse autor fazia da teoria marxiana do valor-trabalho no interior de Capitalismo, Socialismo e Democracia ainda a identificava com a versão ricardiana da mesma, onde o valor não é mais do que o "fundamento" dos preços. Nos quadros de uma interpretação do valor como expressão em trabalho do produto social, as derivações críticas acima não fazem sentido.
36 A forma relativa extraordinária é a forma relativa não socializada e, portanto, que ainda não se resolveu em uma depressão do valor da força de trabalho, mas que se impõe pela desigualdade de produtividade das distintas firmas atuantes em um mesmo mercado. A esse respeito, ver Marx (op. cit., p. 253).