Antony nada fizera, mas um homônimo cometera um crime e era procurado pela polícia. Ele disse isso aos guardas, mas não adiantou.
Enjaulado, foi-lha oferecido um advogado. Passaram dias e por um falha processual o advogado não conseguiu peticionar no prazo ao Juiz, requerendo a soltura de seu cliente (que era absolutamente inocente).
O Juiz não apreciou o pedido por excesso de prazo, mas percebeu que se tratava de homonímia. Disse, então, para o advogado recorrer.
Dias depois, no exato momento em que o Tribunal finalmente concedera liberdade a Antony, ele se suicidava. Amarrando uma corda feita de pedaços de tecido a uma grade do teto do refeitório, ele se enforcou. Um dia ates havia sido violentado em sua celapor dois outros prisioneiros.79
Ocorreu nos EUA, porém, no mesmo mundo que todos vivem.
E onde está a dignidade humana destes homens que morreram desta forma tão violenta e cruel?
E este último que morreu por um equívoco daqueles que deveriam o proteger, e por mera burocracia judiciária.
Agora, histórias contadas por Rizzato Nunes, que ocorreram no Brasil, também alterado apenas o nome:
Antonio da Silva mora na cidade-satélite chamada Ceilândia, nos arredores de Brasília, Distrito Federal.
Numa tarde de abril de 2000, foi até um bosque perto de sua humilde casa e retirou um pequeno pedaço de casa de uma árvore par fazer chá.
É que sua esposa adoecera e todos os dias ali na região tomam chá da casca daquela árvore, que é muito bom para a saúde.
Mas, para espanto e surpresa de Antonio, logo ao retirar a casca da árvore foi preso por um policial, pois desrespeitara a lei ambiental brasileira.
Foi encarcerado junto com vários presos perigosos.
Arguido pela imprensa sobre o porquê de ter arrancado a casca da árvore, mostrou-se atônico como um livro de Kafka. Mal pode entender a pergunta. Que dirá do “direito”. Sempre tomara aquele chá, como todos os outros.
Ficou mais de 15 dias prezo!80
79 NUNES. Rizzato. O princípio Constitucional da Dignidade Humana. Doutrina e Jurisprudência. São Paulo: Saraiva, 2002. Pag. 02
80 NUNES. Rizzato. O princípio Constitucional da Dignidade Humana. Doutrina e Jurisprudência. São Paulo: Saraiva, 2002. Pag. 03
E com tantas pessoas realmente más no mundo cometendo atrocidades, se preocupam com um pedaço da casca da árvore, tirada para fazer chá.
Agora a história de Marta de Souza e de seus quatro filhos menores, com dois, quatro, cinco e oito anos, sendo que o de dois anos encontrava- se muito doente, com infecção intestinal, ela não possuía dinheiro nem para comprar os medicamentos que o SUS receitou:
Marta e seus filhos moravam há mais de dez anos num barraco construído pelo marido, já falecido. João de Souza era pedreiro e com muito esforço conseguiu construir o barraco. Antes de morrer, João entregou para Maria alguns documentos e disse que ela os guardasse, pois eram muito importantes. Era o compromisso de compra do terreno onde estava o barraco.
Certo dia ouviu baterem na porta do barraco. Atendeu: era um homem, que se apresentou como Oficial de Justiça de uma Vara Cível do Fórum. Entregou um documento e pediu para Marta assinar.
Ela assinou: era a única coisa que sabia fazer, pois é analfabeta;
apenas aprendeu a assinar o nome.
O Oficial de Justiça disse para Marta que aquele papel era muito importante e que ela devia procurar um advogado.
O Oficial de Justiça foi-se embora. Marta ficou um pouco preocupada, mas como faria para encontrar um advogado? Onde iria? “ Deve custar dinheiro”, pensou. Mas ela não tinha nem para o remédio de seu filho.
Nada fez.
Passados alguns meses, o Oficial de Justiça voltou. Estava acompanhado de outras pessoas. Eles expulsaram Marta e os filhos do barraco, tiraram os pertences e derrubaram-no.
Agora Marta e os quatro filhos estão morando ao relento, a céu aberto, num terreno exatamente do outro lado da rua da terra onde estava construído seu barraco.81
São histórias antigas, mas nem por isso deixam de ser verdadeiras. Hoje em dia, as histórias ainda são piores, moça que mata pai e mãe que estão dormindo, em sua cama. Ou pai que joga sua filha do prédio. Pai que tortura menina com queimaduras, priva de tratamento médico, a mantém em um quartinho, presa e amarrada, até que leva para o hospital, infelizmente tarde demais, pois não agüenta e morre lá.
81 NUNES. Rizzato. O princípio Constitucional da Dignidade Humana. Doutrina e Jurisprudência. São Paulo: Saraiva, 2002. Pag. 03-04
Mãe que depois de um ato impensado engravida, e com 8 meses de gravidez resolve que não é isso que quer, e aborta a criança, e o enterra, e vai continuar a viver sua vida sem peso na consciência.
E assim vão inúmeras situações em que inexiste a dignidade humana, ferindo qualquer vestígio dela.
Fazendo uma análise do artigo I da Declaração Universal dos Direitos do Homem, “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.” Ele relata simplesmente a vida como um conto de fadas, infelizmente não é o que ocorre diariamente, ainda temos que conviver com pai matando filho, filho matando pai, inocentes morrendo a cada segundo, sendo que para isso parar de ocorrer, seria simples, seguir ipsi literis o disposto no art. I.
Assim, estudando artigo por artigo, verifica-se que nem tudo está como deveria estar, mas pelo menos, o interesse em ter uma vida como a disposta na Declaração dos Direitos Universais do Homem, está claramente comprovada, resta agora, colocá-la em prática todos os dias, por todas as pessoas.
Outro artigo que é importante ser ressaltado e comentado é o III, “Todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.” Quem dera isso fosse respeitado todos os dias, a cada minuto, ou melhor, a cada segundo, pessoas iam deixar de morrer violentamente, pela falta de segurança.
O artigo IV, “Ninguém será mantido em escravidão ou servidão;
a escravidão e o tráfico de escravos serão proibidos em todas as suas formas” é polemico, quem acredita que ainda existem formas de trabalho escravo? E sim, existe. Não somente pessoas adultas como crianças também, é somente ler revistas ou assistir ao jornal. Impossível de acreditar, porém verdade.
Se for analisar, artigo por artigo em quase todos, existem situações que hoje em dia, século 21, ainda ocorrem contrário ao que está disposto na Declaração Universal Humana, ou em qualquer disposição relativa a isso.
Essa foto abaixo demonstra uma destas situações onde se percebe explicitamente a ausência do princípio da dignidade humana. Ela foi tirada no Conflito de Biafra, em 1968. Na foto o menino espera cupons para receber leite e peixe em um centro de nutrição.
82
Conflito de Biafra, 1968. Menino espera cupons para receber leite e peixe em um centro de nutrição. Foto: Divulgação/H. D. Finck/CICV.
Rizzato Nunes83 defende que a dignidade da pessoa humana não se trata de uma categoria relativa e variável, pois ela nasce juntamente com o indivíduo. Destarte, todo indivíduo tem dignidade só pelo fato de ser pessoa. A dignidade da pessoa humana demonstra uma conquista da razão ético-jurídica, fruto da reação à história de atrocidades que, infelizmente, marcam a experiência humana, até mesmo em dias atuais.
Já foi utilizado este ensinamento para encerrar o capítulo antecedente, porém necessário se faz, a presença deste mesmo ensinamento no presente capítulo:
(...) Se de um lado, a qualidade da dignidade cresce, se amplia, se enriquece, de outro, novos problemas em termos de guarida
82 Disponível em: http://www.band.com.br/jornalismo/galeria Acesso em: 24 de outubro de 2010.
83 NUNES. Rizzato. O princípio Constitucional da Dignidade Humana. Doutrina e Jurisprudência. São Paulo: Saraiva, 2002. Pag. 50
surgem. Afinal, na medida em que o ser humano age socialmente, poderá ele próprio – tão dignamente protegido – violar a dignidade de outrem.
Ou seja, por mais que por sermos humanos, e por isso estarmos protegido por tal princípio, não impede de que individualmente um prejudique ao outro. E isso evidentemente é fato, não é preciso olha muito longe, para ver as conseqüências que pessoas egoístas, orgulhosas e ambiciosas demais causam ao seu semelhante.
É repugnante observar que em um mundo cheio de riquezas perceba-se neste mesmo mundo tanta miséria e pobreza. Pessoas com tanto outras com tão pouco.
Esse assunto com certeza tem haver e muito com o princípio da dignidade humana visto que se pugna pela efetivação da dignidade humana quanto sociedade, porém esquece-se de analisar se cada um faz isso com aquele que convive consigo. Uma coisa é certa, não se pode cobrar o que não se consegue realizar.
A percepção do homem quanto ao fato de ser solidário e digno uns com os outros geralmente se mostra frustrada, são poucos os que valorizam a dignidade humana alheia.
Uma questão das muitas que merecem um olhar bem mais de perto é a prostituição infantil, ela tem sido um tumor para nossa sociedade, destruindo o que tem de mais inocente e puro, a infância.
Perguntas como: Porque tais situações acontecem agredindo tanto a dignidade humana? O que se pode fazer pra não se repetir e perdurar? Essa foto retrata muito bem o que se quer expressar84:
84 Disponível em: http://www.amnesty.org/es Acesso em: 24 de outubro de 2010.
85
Foto produzida por Amnesty International.
Outra situação que merece ser ressaltada são os famosos mensalões, a falta de decência para com o povo que elege alguém para representá- lo, e sem a mínima consideração tira, privando os muitos que nada tem do pouco que conseguem ter.
Como podem não reagir ao ver alguém passando fome, como podem não se indignar, com o fato de alguns esbanjando dinheiro com coisas fúteis enquanto outros não fazem sequer uma refeição diária decentemente. Se lendo é difícil de entender, quem sabe vendo, será melhor:
85 Disponível em: http://www.br.amnesty.org/ Acesso em: 24 de outubro de 2010.
86
Foto: Rastreadores de Impurezas
Situações como esta, simplesmente não deveriam existir.
Deveria prevalecer sempre a solidariedade e igualdade. Mas o egoísmo e a ambição de sempre querer tudo para si e sempre mais, dificulta essa possibilidade.
Um pouco mais longe, mas infelizmente neste mesmo mundo, de uma maneira um pouco mais grave, na África, o que mata a grande maioria não são tiros, balas perdidas, nem assaltos ou seqüestro, infelizmente lá, o que mais leva a vida das pessoas, e de pouquinho em pouquinho, lentamente e agonizantemente é a falta de ter o que comer, tiram forças de onde não tem para continuar a tentar sobreviver.
Sofrem pelo que muitos nem dão valor, uma refeição diária, têm de conviver com a sua própria fome, além das dos seus filhos, vendo-os lentamente perder a vida. Como não se comover?
86 Disponível em: http://www.rastreadoresdeimpurezas.org/ Acesso em: 24 de outubro de 2010.
87
Foto tirada por Kevin Carter em 1994.
A foto acima foi tirada no ano de 1994, pelo fotógrafo Sudanês Kevin Carter, ele ganhou o prêmio Pulitzer de foto jornalismo com esta fotografia, tirada na região de Ayod, uma pequena aldeia em Suam, ela percorreu o mundo todo, demonstrando com ela, a ausência explicitamente da dignidade humana.
A figura de uma pequena menininha esquelética, notoriamente desnutrida, rastejando sobre a terra, em direção ao campo das Nações Unidas, a 1 km de distância, esgotada de fome, sem forças para continuar, a ponto de morrer, enquanto um abutre se encontra atrás dela, esperando ansiosamente pela morte da pequena menina. Ninguém sabe o que aconteceu com ela, nem mesmo Kevin Carter, que saiu do local após tirar a foto.
Quatro meses após o dia em que esta foto foi tirada, o fotógrafo suicidou-se, tomado pela culpa e forte dependência às drogas.
87Disponível em: http://pesquisafotografica.blogspot.com Acesso em: 24 de outubro de 2010.
88
Esta não tem história, ou pelo menos não encontrei, mas a imagem já é o suficiente para demonstrar o que se quer expressar. Ela demonstra a total falta de dignidade para com as pessoas humanas, afeta até mesmo a dignidade de quem está meramente olhando para isso, e de não conseguir fazer nada pra mudar isso sozinho.
Quem dera se um dia, cada um olhasse para o outro como olha para si mesmo, querendo para o outro, aquilo que quer para si, quem sabe assim, o mundo seria um pouco mais agradável de viver.
88 Disponível em: http://nihilsubsolenovum.files.wordpress.com/2008/07/africa.jpg Acesso em: 24 de outubro de 2010.
3.2 DA APLICABILIDADE DO PRINCIPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA.
Foi abordado acima o tema ausência da Dignidade da Pessoa Humana, demonstrando algumas das muitas situações onde a observância deste princípio é falha, aqui, serão demonstradas situações onde a aplicação dele ocorre.
Todos deveriam reger-se pelo princípio da dignidade da pessoa humana, o mundo seria com certeza muito mais confortável e agradável de se viver, ainda mais por se tratar de um princípio que ilumina todos os demais princípios e normas constitucionais e infraconstitucionais e justamente por isso ele não deve, nunca, ser desconsiderado em nenhum ato de interpretação, aplicação ou criação de normas jurídicas.89
Sendo os tribunais um dos instrumentos da aplicação da justiça, o concessor dos direitos, e aquele que pune ao ferir estes, certamente aplicam e concretizam o princípio da dignidade humana.
De nada seria útil se nem mesmo este princípio restasse protegido pelo tribunal, já que tudo e todos devem obediência a ele.
De acordo com o Tribunal de Justiça de Santa Catarina, na área de Direito de propriedade temos:
APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO REIVINDICATÓRIA C/C PERDAS E DANOS - ESCRITURA PÚBLICA DE COMPRA E VENDA DEVIDAMENTE ASSENTADA NO REGISTRO DE IMÓVEIS - PROPRIEDADE COMPROVADA - TROCA DE IMÓVEL REALIZADA ENTRE O AUTOR E A SOGRA DA REQUERIDA ¿
SUPERVENIENTE SEPARAÇÃO DA REQUERIDA, E
CONTINUAÇÃO DA OCUPAÇÃO INJUSTA QUE JUSTIFICOU A RETOMADA DO IMÓVEL - REQUISITOS DA REIVINDICATÓRIA PREENCHIDOS - INEXISTÊNCIA DE POSSE AD USUCAPIONEM E NÃO PREENCHIMENTO DOS REQUSITOS PARA USUCAPIÃO URBANA COM FIM DE MORADIA - AFASTAMENTO DOS EFEITOS DA REVELIA - MANUTENÇÃO DA SENTENÇA DE PROCEDÊNCIA - DETERMINAÇÃO PARA PERMANÊNCIA DA REQUERIDA NO IMÓVEL ATUALMENTE OCUPADO PELO AUTOR - DIREITO FUNDAMENTAL À MORADIA - SOBREPOSIÇÃO DA DIGNIDADE HUMANA AOS LIMITES DA TÉCNICA PROCESSUAL - POSSIBILIDADE DE DISCUSSÃO SOBRE O IMÓVEL EM AÇÃO
89 NUNES. Luiz Antônio Rizzato. O princípio constitucional da dignidade da pessoa humana : doutrina e jurisprudência; 1ª Ed. São Paulo: Saraiva. 2002. p. 51
PRÓPRIA QUE AUTORIZA MEDIDA DRÁSTICA - RECURSO DESPROVIDO.
1. "Em restando comprovado pela autora a titularidade do domínio da área reivindicada, a individuação da coisa e a posse injusta da ré, o acolhimento da pretensão reivindicatória é medida que se impõe"
(TJSC, Apelação Cível n. 2005.016297-2, de Blumenau, Relator:
Des. Subst. Carlos Adilson Silva, julgado em 18/09/2009).90
Aqui neste julgado cita-se o princípio da dignidade humana, devido ao fato de que a apelante ficaria sem lugar para morar, quando da casa ela fosse retirada, infringindo assim sua dignidade, portanto tratando-se de desfazimento de permuta, foi determinado que após a desocupação da apelante do imóvel em discussão, o apelado deverá imediatamente deixá-la morar na casa que foi juntamente com o imóvel da lide, objeto da permuta. Portanto há o interesse no resguardo da dignidade humana dela, assegurando-a uma moradia já que aquela que perderá era onde morava.
Aqui, um julgado na área do Direito Previdenciário, também do Tribunal de Santa Catarina:
Apelação Cível. Previdenciário. Cautelar. Restituição de valores pagos a mais pelo INSS. Descontos no atual benefício percebido pelo segurado. Art. 115, II, da Lei n. 8.213/91. Boa-fé. Princípio da irrepetibilidade das verbas alimentares.
Muito embora o art. 115, inciso II, da Lei n. 8.213/91 preveja, de fato, a possibilidade de desconto de pagamento de benefício além do devido, há que se interpretar tal autorização restritivamente, dada a manifesta natureza alimentar do benefício previdenciário, a evidenciar que qualquer supressão de parcela deste comprometeria a subsistência do segurado e seus dependentes, em afronta ao princípio do respeito à DIGNIDADE HUMANA (art. 1º, III, da CF/88).
Assim, não se pode negar as condições mínimas para a sobrevivência do segurado, diminuídas por um erro que a ele não pode ser atribuído, cometido unicamente pela Administração. Nesse passo, a aplicação da disposição em comento restringe-se às hipóteses em que, para o pagamento a maior feito pela Administração, tenha concorrido o beneficiário. (TRF4, Ap. Civ. n.
2008.71.09.000557-3, rel. Des. Celso Kipper, j. 12.6.2009).91
90 Apelação Cível n. 2006.048165-5, de São José. Relator: Juiz Saul Steil. Juiz Prolator: Denise de Souza Luiz Francoski . Órgão Julgador: Primeira Câmara de Direito Civil Data: 29/10/2010.
91 Apelação Cível n. 2009.047452-5, de São Miguel do Oeste. Relator: Des. Pedro Manoel Abreu. Juiz prolator Marcelo Elias Naschenweng. Orgão Julgador: Terceira Câmara de Direito Público. Data:
13/10/2010
Neste julgado, foi usado como fundamento na decisão, o princípio da dignidade da pessoa humana, pois tratava-se de verba de caráter alimentício, e estavam fazendo descontos, sem autorização da aposentada, aduzindo que fora pago a mais o benefício de auxilio doença. Prevaleceu o direito dela, em não ter prejuízo em sua aposentadoria, pois se tratava de seu meio de sustentar.
Aqui, encontramos o princípio da dignidade humana, no direito Civil, mais especificadamente em contratos:
REVISÃO CONTRATUAL. ABERTURA DE CRÉDITO PESSOAL.
REVISÃO DE CONTRATO. PACTA SUNT SERVANDA.
RELATIVIZAÇÃO. CUMPRIMENTO PARCIAL DO PACTO.
IMPOSSIBILIDADE DE RATIFICAÇÃO DE CLÁUSULAS ABUSIVAS.
O princípio da força obrigatória dos contratos (pacta sunt servanda) não é absoluto e deve ser interpretado de acordo com a DIGNIDADE da pessoa HUMANA, a função social do contrato e as disposições do Código de Defesa do Consumidor.
Do mesmo modo, as cláusulas nulas não podem ser corroboradas pelo cumprimento parcial do pacto, porque a nulidade decorre da própria lei (CDC, art. 51).
JUROS REMUNERATÓRIOS. LIMITAÇÃO À TAXA MÉDIA DE MERCADO. NÃO ABUSIVIDADE.92
Aqui, neste julgado, existe a aplicação do Princípio da Dignidade Humana, pois o apelante queria impedir que houvesse a revisão do contrato, alegando o “pacta sunt servanda”, a força obrigatória dos contratos, porém, sobrepõe a ele o princípio da dignidade humana, que foi o que prevaleceu.
Encontra-se o principio da dignidade aplicado, também no Direito Tributário:
APELAÇÃO CÍVEL - TRIBUTÁRIO - AQUISIÇÃO DE VEÍCULO PARA TRANSPORTE DE PORTADOR DE DEFICIÊNCIA FÍSICA - PLEITO DE ISENÇÃO DO IPVA - POSSIBILIDADE - AMPLIAÇÃO DO ALCANCE DA NORMA - PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS DA IGUALDADE E DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA -
92 Apelação Cível n. 2010.000218-4, de Chapecó . Relator: Gilberto Gomes de Oliveira . Juiz Prolator:
Giuseppe. Battistotti Bellani. Órgão Julgador: Câmara Especial Regional de Chapecó . Data:
05/11/2010.
PRECEDENTES DA CORTE - SENTENÇA MANTIDA - RECURSO DESPROVIDO.93
Como fundamentação neste julgado usou:
Deveras, em que pese a Lei n. 7.543/88 e o Regulamento aprovado pelo Decreto n. 2.993/89, estabeleçam que a isenção do IPVA somente seja concedida em casos de veículos adaptados e conduzidos exclusivamente por portadores de deficiência física, bem como o art. 111 do Código Tributário Nacional determine que os dispositivos legais que disponham acerca de isenções tributárias devam ser interpretados literalmente, deve o julgador ampliar o alcance daquela norma às situações em que representantes legais utilizam o veículo em proveito do deficiente, sob pena de afronta aos princípios constitucionais da igualdade e da dignidade humana. [...]
Ora, se a lei concede isenção do ICMS para a compra de veículos adquiridos por pessoas portadoras de deficiência física, ainda que sejam eles conduzidos por seus representantes legais, não se pode permitir que a isenção do IPVA se restrinja tão-somente àqueles automóveis dirigidos exclusivamente pelo deficiente, porquanto estar- se-ia conferindo um tratamento desigual a pessoas em situações essencialmente idênticas.
Percebe-se que, neste caso, também é observado e com grande relevância o princípio que aqui é o objeto de estudo, não é por não conduzir o veículo que não teria o mesmo direito que qualquer outro deficiente físico teria, pois merece atenção especial, assim como condições igualmente concedidas aos seus iguais.
No Direito de Família, também se encontra resguardado a Dignidade Humana, senão vejamos:
DIREITO DE FAMÍLIA. AÇÃO NEGATÓRIA DE PATERNIDADE.
DEMANDA MOVIDA POR TERCEIRO. ILEGITIMIDADE. EXAME DE DNA QUE EXCLUI O ESTADO DE FILIAÇÃO. IRRELEVÂNCIA NA HIPÓTESE. RECONHECIMENTO ESPONTÂNEO, VOLUNTÁRIO E IRRESPONSÁVEL DA PATERNIDADE. ATITUDE QUE EM PRINCÍPIO APARENTA GESTO DE NOBREZA E QUE
POSTERIORMENTE, ANTE A FRUSTRAÇÃO DO
RELACIONAMENTO MANTIDO COM A GENITORA DA MENOR, TRANSFORMA-SE EM DESASTRE PARA A INFANTE.
COMPORTAMENTO QUE DEVE SER DESESTIMULADO EM HOMENAGEM AOS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E DA PATERNIDADE RESPONSÁVEL ESTATUÍDOS NO ART. 226, § 7º, DA
93 Apelação Cível n. 2010.059967-0, de Palhoça . Relator: Cláudio Barreto Dutra . Juiz Prolator:
Luciana Santos da Silva . Órgão Julgador: Quarta Câmara de Direito Público . Data: 04/11/2010