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Barreiras de financiamento e o papel do BNDES

Consumidor 2 Desc 35%

4.5 Barreiras de financiamento e o papel do BNDES

Entre 2006 a outubro de 2016 foram 121 empresas do setor de açúcar e álcool foram beneficiadas pelo BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Foram desembolsados R$

18.724,3 milhões divididos em 121 projetos nesse período destinados a implantação/expansão de usinas, cogeração e plantio de cana de açúcar (vide Figura 23). A capacidade instalada de térmicas movidas a bagaço de cana nesse período cresceu 7.494 MW, sendo que, 71,5% tem ao menos parte de sua energia comercializada no ambiente regulado. Os 39,9% restantes tem sua energia destinada

0 50 100 150 200 250 300 350 400

0 50 100 150 200 250 300 350

16º LEN 18º LEN 12º LEE 13º LEE 20º LEN 03º LFA 21º LEN 22º LEN 15º LEE 23º LEN MWméd / ano

R$ / MWh

Preços de Referência (teto) vs. Energia Contratada (2013 - 2016)

Energia Contratada Atualizado - IPCA (set/16) Sem atualização

Excelência Energética Consultoria

Figura 23: Volume de Desembolso do BNDES para empreendimento de açúcar e álcool com cogeração de energia

Elaboração: Excelência Energética, com dados do BNDES, 2016.

Os agentes financiadores, em geral, têm preferência por financiar empreendimentos que comercializaram sua energia no ambiente regulado. Destacamos quatro motivos para tanto:

i. Pulverização do Risco de Crédito: em leilões de energia ou leilões de fontes alternativas, o risco de crédito dos compradores (Distribuidoras) é bem pulverizado, com participação de mais de 30 concessionárias em um certame. Assim, a inadimplência de uma única distribuidora não trará grandes prejuízos ao empreendedor, já que representará uma parcela pequena de sua receita. Em leilões de energia de reserva, o risco de inadimplência também é baixo, já que o pagamento é feito por meio da Conta de Energia de Reserva, onde todos os consumidores rateiam o encargo. Quando a comercialização se dá no ambiente livre, em geral, não há diluição do risco de crédito.

ii. Rating dos Compradores: além da questão da pulverização do risco de crédito no ACR, destaca-se a qualidade do rating do comprador, exceção feita à algumas distribuidoras, principalmente aquelas do Grupo Eletrobras. As distribuidoras são em geral grandes empresas, atuando como monopolista na sua área de concessão e tarifa estabelecida pela ANEEL com repasse integral do custo de aquisição de energia. Caso a comercialização de energia se dê no ACL, a instituição financeira tende a ser mais criteriosa na análise do risco de crédito do comprador da energia.

iii. Prazo do contrato: Os contratos de venda de energia no ACR são de longo prazo, entre 15 a 25 anos para fontes térmicas e possuem receita fixa (com eventuais ajustes em função

0 5 10 15 20 25 30 35

- 500,00 1.000,00 1.500,00 2.000,00 2.500,00 3.000,00 3.500,00 4.000,00 4.500,00 5.000,00

2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016

NUsinas que entrarm em op. comercial

Desembolsos BNDES -R$ milhões

Título do Eixo Volume N.º Projetos

da capacidade de geração do projeto), o que deixa o órgão financiador mais confortável para realizar empréstimos também em longo prazo. Já os contratos firmados no ACL são de curto/médio prazo, com mediana de 5 anos (vide Figura 6), dificultando a obtenção de financiamento na modalidade project finance puro, sem apresentação de garantias reais pelo empreendedor.

iv. Sazonalidade (conceito apresentado em 3.5.3.4): O perfil de geração das termelétricas movidas a bagaço de cana de açúcar é sazonal, coincidente com período de safra e predomínio de geração entre março e novembro de cada ano. Poucos empreendimentos conseguem gerar energia de forma invariável durante todos os meses do ano. Nos contratos de energia do ambiente regulado, a obrigação de entrega do montante contratual é avaliada a cada 12 meses contratuais, portanto, não há qualquer penalidade para o gerador, desde que entregue a quantidade contratada nesse período. No ACL, a sazonalidade da geração é um obstáculo já que é mais difícil encontrar um consumidor que tenha o mesmo perfil da termelétrica. Essa questão é transposta com o gerador ou consumidor assumindo o risco de sazonalização, comprando energia no mercado de curto prazo, com energia valorada ao PLD, no período fora de safra.

O preço, por outro lado, tende a ser inferior daquele praticado no mercado livre. O empreendedor enfrenta trade-off entre preço de venda e a financiabilidade do empreendimento. A Figura 24 apresenta o trade off de forma esquemática.

Figura 24 - Trade Off entre ACL e ACR Elaboração: Excelência Energética

ACL ACR

Excelência Energética Consultoria

O BNDES sempre exerceu papel fundamental no financiamento de empreendimentos do setor de energia elétrica, e por ser uma instituição pública, atua como instrumento do Governo Federal para estimular setores da economia de seu interesse, por meio de empréstimos de longo prazo e condições de financeiras mais atrativas que as instituições privadas.

Atualmente a principal restrição para o financiamento do BNDES é a disponibilidade de recursos da instituição. Comparando-se o volume de desembolsos totais do banco de janeiro a outubro de 2016, verifica-se queda de 34,6% quando comparado com mesmo período do ano de 2015, e queda de 51,2% quando isolados os desembolsos para o setor de energia elétrica. Trata-se do menor volume de desembolso desde 2008. Essa queda reflete a situação atual da economia brasileira, que vive uma das maiores crises econômicas de sua história. O volume de recursos não deve apresentar aumentos já que será oriunda de pagamento de financiamentos concedidos, ou seja, sem novos aportes de recursos por parte do Tesouro Nacional. As Figura 25 e Figura 26 apresentam dados do histórico de desembolsos totais do BNDES, e especificamente para o setor de energia elétrica, respectivamente.

Figura 25: Desembolsos Totais BNDES – R$ milhões correntes Elaboração: Excelência Energética com dados do BNDES, 2016 -

40.000 80.000 120.000 160.000 200.000

1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 Até out.16

R$ milhões

Desembolsos do BNDES

Figura 26: Desembolsos BNDES para o Setor de Energia Elétrica – R$ milhões correntes Elaboração: Excelência Energética com dados do BNDES, 2016

Sob nova presidência desde maio de 201634, o BNDES tem revisitado seu papel, e o discurso agora é pela redução da participação do banco, desenvolvimento do mercado de capitais através de instituições financeiras privadas e sempre que possível a taxas de mercado35. A Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), por exemplo, tem sofrido aumentos (vide Figura 27) de forma que o subsídio (diferença entre o custo de captação do BNDES e a taxa cobrada em empréstimos) tem reduzido. A tendência é da TJLP se aproximar da taxa SELIC, quando a economia estabilizada.36

Figura 27: Histórico da TJLP

Elaboração: Excelência Energética com dados do BNDES, 2016

34 Maria Silvia Bastos Marques foi sucessora do Luciano Coutinho, que ficou de maio de 2007 a maio de 2016.

- 5.000 10.000 15.000 20.000 25.000

1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 Até out.16

R$ milhões

Desembolsos BNDES - Setor de Energia Elétrica

0,00 2,00 4,00 6,00 8,00 10,00 12,00 14,00

jan/2000 ago/2000 mar/2001 out/2001 mai/2002 dez/2002 jul/2003 fev/2004 set/2004 abr/2005 nov/2005 jun/2006 jan/2007 ago/2007 mar/2008 out/2008 mai/2009 dez/2009 jul/2010 fev/2011 set/2011 abr/2012 nov/2012 jun/2013 jan/2014 ago/2014 mar/2015 out/2015 mai/2016 dez/2016

%

Histórico - TJLP

Excelência Energética Consultoria

A atuação do BNDES poderia ser diversificada, pensando em mercado com maior atuação de instituições financeiras privadas em financiamentos de longo prazo, atuando como garantidor nos empréstimos ao invés de financiador. A vantagem dessa alternativa é, além da redução dos custos de garantia pelos empreendedores, a aceitação pelos bancos privados, incentivando o mercado de capitais e estimulando novas fontes de recursos de longo prazo. A Tabela 8 apresenta proporção de garantias reais e pessoais exigidas pelo BNDES nos desembolsos realizados de 2002 até outubro de 2016 para empreendimentos que visam implantação/expansão de unidades de açúcar e álcool, plantio e cogeração.

Garantia Valor (R$ mi) %

Real 35,51 0,2%

Pessoal 315,52 1,6%

Definida pelo agente financeiro 7.324,64 37,3%

Real / pessoal 11.187,31 57,0%

Real / pessoal / outra, de natureza específica ou mista 640,78 3,3%

Pessoal / outra, de natureza específica ou mista 134,74 0,7%

Total 19.638,5

Tabela 8: Garantias de desembolsos realizados para setor, incluindo cogeração (R$ milhões) Fonte: Excelência Energética, com dados do BNDES, 2016.

Outra forma para ampliar a participação do BNDES seria através do braço de investimento do banco, o BNDES Participações S.A (BNDESPAR). Os investimentos do BNDESPAR estão concentrados nos processos de capitalização e desenvolvimento de empresas nacionais, por meio de participações societárias de caráter minoritário e transitório. Em 30 de setembro de 201637, o ativo total do BNDESPAR atingiu R$ 75.196 milhões e um patrimônio líquido de R$ 70.067 milhões.