4.1 DIRETRIZES CURRICULARES NACIONAIS E O NOVO PERFIL DE FORMAÇÃO
4.1.1 Base Comum Nacional: e o conceito de Docência
As Diretrizes Curriculares propõem um novo enfoque para a formação do pedagogo quando sinalizam como eixo central do currículo do curso de Pedagogia, a formação para a docência como base comum nacional. Esse enfoque suscita algumas questões que merecem reflexões e apontamentos. As DCN’s compreendem o trabalho docente como um campo de
conhecimento, que privilegia a formação do professor para a Educação Infantil, Ensino Fundamental nos anos iniciais, o Ensino Médio na modalidade Normal, a gestão e a pesquisa.
A Docência configura-se como base da formação do licenciado em Pedagogia. No entanto, a docência apresenta-se nas Diretrizes de uma forma “ampliada”, excedendo as atividades de ensino-aprendizagem em sala de aula. Consiste também na gestão, pesquisa e na produção de novos saberes, estendendo a função do licenciado em Pedagogia, como gestor envolvido nas atividades de planejamento, avaliação e a pesquisa, o que se dará paralelamente aos trabalhos desenvolvidos nas funções de docente. De acordo com as DCN’s será a reflexão e análise sobre a própria prática, ou seja, a relação teoria e prática do trabalho docente.
Os pesquisadores (LIBÂNEO E PIMENTA, 1999) censuram a docência como base comum nacional quando trazem em sua escrita a discordância do campo de atuação do pedagogo, que, conforme as DCN’s, é tão vasto que vai além da sala de aula, abrange a gestão e a pesquisa, e questionam por que então a docência permanece como base comum nacional.
Libâneo (2006d, p. 64) critica o enfoque dado nas DCN’s sobre a docência, pois entende que a abordagem ali posta para a docência empobrece o curso de Pedagogia, “a docência, constitui-se em desdobramentos da pedagogia e, sendo assim, ela é a base, o suporte da docência, não o inverso. E a pedagogia não pode ser reduzida a um curso, já que ela é, antes, um campo científico”. Continua o autor,
Precisamente pela abrangência maior do campo conceitual e prático da pedagogia como reflexão sistemática sobre o campo do educativo, pode-se reconhecer na prática social uma imensa variedade de práticas educativas, portanto uma diversidade de práticas pedagógicas. Em decorrência, é pedagoga toda pessoa que lida com algum tipo de prática educativa relacionada com o mundo dos saberes e modos de ação. Não restritos à escola. A formação de educadores extrapola, pois, o âmbito escolar formal, abrangendo também esferas mais amplas da educação não- formal e formal. Assim, a formação profissional do pedagogo pode desdobrar-se em múltiplas especializações profissionais, sendo a docência uma entre elas.
(LIBÂNEO, 2006, p. 850- 851)
Franco (2003) citada por (LIBANÊO, 2006b, p. 861) concorda com as ideias do autor ao afirmar que reduzir a formação do curso de Pedagogia à docência é descaracterizar o curso, pois compreende que o campo de atuação do Pedagogo, vai além do trabalho docente, e que, a Pedagogia constitui em uma ciência muito mais ampla.
Subsumir a pedagogia à docência é não somente produzir um reducionismo ingênuo a esta ciência, como também ignorar a enorme complexidade da tarefa docente, que, para se efetivar, requer o solo dialogante e fértil de uma ciência que a fundamente, que a investigue, compreenda e crie espaço para sua plena realização.
A docência, para Aguiar et al, (2006, p. 830), é definida como uma articulação do processo pedagógico com os espaços educativos, que abrange a aptidão de reflexão sobre as relações que integram e interagem no contexto das relações socioculturais, políticas e econômicas.
[...] o trabalho docente e a docência implica uma articulação com o contexto mais amplo, com os processos pedagógicos e os espaços educativos em que se desenvolvem, assim como demandam a capacidade de reflexão crítica da realidade em que se situam. Com efeito, as práticas educativas definem-se e realizam-se mediadas pelas relações socioculturais, políticas e econômicas do contexto em que se constroem e reconstroem.
A docência como base comum é um fim já presente nos cursos de licenciatura, entretanto, o fato de a docência estar balizada como base comum nas DCN’s, essa estariam apontando para uma descaracterização do curso de Pedagogia, uma vez que todos os licenciados terminam os cursos de licenciatura aptos para atuarem em um determinado campo da docência. Libâneo (2002, p. 209), ainda destaca que a “docência está presente em todas as práticas sociais, como o ato de ensinar e aprender, e não exclusivamente na escola”. Dessa maneira, a docência não deveria permanecer como base comum nacional nas DCN’s, pois a docência é inseparável do ato de ensinar. Nas DCN’s a docência é apontada como uma atividade extensiva ao ato de ensinar a gestão e a pesquisa, assim, percebe-se então que existe uma contradição dentro das próprias Diretrizes, quando estas apontam a docência como base comum. Campos (2007, p. 74), ao explica sobre a posição da ANFOPE defensora da tese da Docência como da base comum nacional, aponta que:
A proposta da ANFOPE ancora a formação do pedagogo a luz de uma base comum nacional, fundamentada numa abordagem sócio-histórica de educador, que pressupõe uma formação que assegure a docência como base de formação para os profissionais da educação.
Helena Freitas (1999, p. 10) pesquisadora da Anfope discorre em um de seus artigos que a base comum nacional é resultado de muita discussão e ressignificação e se constitui em um conjunto de princípios norteadores que foram sendo construídos no decorrer da história da Anfope. Afirma ainda a autora que a concepção de base comum se dá articulada em seis princípios: “a) sólida formação teórica e interdisciplinar; b) unidade teoria e prática; c) gestão democrática; d) compromisso social e político dos profissionais da educação; e) trabalho coletivo e interdisciplinar; f) formação inicial interrelacionada com a formação continuada”.
Para Marques (2000, p. 24) a base comum nacional deve ser uma compreensão básica de conhecimento para a formação,
A base comum nacional ‘não deve ser concebida como um currículo mínimo ou em um elenco de disciplinas, e sim como uma concepção básica da formação do educador e a definição de um corpo de conhecimento fundamental’. A Pedagogia e as demais licenciaturas deverão assumir essa base comum, desde que todas formam professores e a docência constitui a base da identidade profissional de todo educador [...].
Nesta afirmação de Marques (2000) compreende-se que a base comum não deveria ser a docência, mas sim, as disciplinas que dão embasamento ao conhecimento teórico do curso de Pedagogia. Seria então, denominada a base comum, uma questão de critérios e diretrizes do currículo do curso, na qual consistiria a prerrogativa de conteúdos específicos do curso e a relação com a prática educativa. Ainda, Marques (2000, p. 27) ressalta a relevância deste critério de base comum e afirma que “é de fundamental importância que a base comum aponte para uma organização curricular baseada em matriz epistemológica que veja a teoria e a prática pedagógica de forma indissociável”. Nesse sentido, a base comum seria então uma unidade mínima de algumas disciplinas do currículo do curso, que consistiria em um principio de integração para superar a fragmentação das disciplinas e promover uma vinculação dos conhecimentos básicos do curso de Pedagogia.