III. Metodologia Empírica
2. Bases de Dados
Base do programa CrediAmigo
A principal fonte de dados do presente trabalho será à base de dados do próprio programa. As observações são todos os 255 mil clientes ativos em dezembro de 2006, de um universo de 650 mil clientes já atendidos pelo programa desde 1998. A data de entrada de cada cliente no programa é variável, mas a data final é fixa, em dezembro de 2006.
Uma das vantagens desta base de dado em termos de confiabilidade dos dados é que, diferentemente das demais bases, os interrogadores tem total incentivo a extrair informações as mais verdadeiras possíveis, uma vez que é com base nas informações fornecidas pelos clientes que o empréstimo é fornecido e a remuneração do funcionário que realiza o cadastro depende do desempenho do tomador.
ECINF
Entre as bases externas a serem utilizadas temos a pesquisa Economia Informal Urbana (ECINF) criada pelo IBGE para captar informações que permitam conhecer o papel e a dimensão do setor informal na economia brasileira, e que constitui a melhor base disponível de microdados do lado empresarial da economia subterrânea. É uma pesquisa que procura identificar os trabalhadores por conta-própria e pequenos empregadores envolvidos em negócios com cinco ou menos pessoas, com 10 anos ou mais de idade, ocupados em atividades não-agrícolas, e moradores em áreas urbanas, nos domicílios em que eles moram e através deles, visando investigar as características de funcionamento das unidades produtivas. A vantagem é captar aquelas atividades excluídas, ou que são apenas parcialmente captadas, por pesquisas de estabelecimentos formais e pela rede de arrecadação tributária oficial. A ECINF permite dar um mergulho no funcionamento da chamada economia subterrânea, que fica tradicionalmente à margem das políticas e das estatísticas oficiais.
O planejamento desta pesquisa iniciou-se em 1990 com os primeiros resultados dos Censos Econômicos de 1985. Em 1994 foi realizada uma pesquisa piloto no Município do Rio de Janeiro. Porém, a pesquisa somente foi de fato implementada em 1997, abrangendo todos os domicílios situados em áreas urbanas no Brasil. A ECINF só voltou a ser realizada novamente, então,
em 2003, com o apoio do Sebrae, incluindo informações mais detalhadas sobre as características individuais dos proprietários.
A ECINF é composta por dois questionários. O primeiro é o questionários individual, que permite a obtenção das mais diversas informações sobre os micronegócios e o trabalho dos trabalhadores por conta- própria, tais como tipos de gastos em investimentos, receitas, despesas, lucro médio, capital envolvido, área de atuação, motivo da abertura do negócio, período do ano em que funciona, forma de pagamento aceitas, número de clientes e funcionários, nível de formalização, entre muitas outras. O outro questionário é o questionário do domicílio, que provê dados sobre características das pessoas ocupadas nas microempresas, tais como sexo, idade, nível de instrução, vínculo empregatício, ocupação, posição na ocupação, renda familiar, número de pessoas morando com elas no mesmo domicílio, entre outras.
Em 1997 a pesquisa coletou dados de 44.711 unidades econômicas distribuídas entre as áreas urbanas de todas as unidades federativas e em 2003 essa amostra foi de 54.595 domicílios selecionados. Portanto, a ECINF consiste em uma pesquisa rica em dados e possui uma amostra suficientemente grande para se gerar análises e inferências consistentes. Além disso, é importante ressaltar que as pesquisas de 1997 e 2003 foram feitas na mesma época do ano, o que elimina o risco de fatores sazonais interferirem no resultado.
A pesquisa adota um recorte urbano, não só metropolitano, mas por outro lado ela deixa de cobrir as atividades não agrícolas desenvolvidas por moradores de domicílios em áreas rurais. Tal procedimento é justificado não só pela heterogeneidade apresentada entre os setores rurais e urbanos, como pela característica do negócio e pela própria exigência do trabalho de campo.
Parece fazer sentido restringir a ECINF aos segmentos dos menores produtores urbanos e deixar a análise do seu complemento para outras pesquisas de campo, como o Censo Agrícola do IBGE4. Eles permitem combinar perguntas referentes a estabelecimentos e aquelas relativas às
4 Não são consideradas pessoas ligadas a atividades criminosas, circunscrevendo a análise ao espectro de práticas econômicas “socialmente aceitas”.
famílias o que permite estudar as inter-relações existentes entre informalidade e pobreza.
Entre as principais variáveis de interesse da Ecinf para esta pesquisa estão resposta à pergunta se o entrevistado, conta-própria ou pequeno empregador, utilizou nos três meses anteriores à pesquisa algum empréstimo, crédito ou financiamento para exercer sua atividade; se o entrevistado possui uma dívida que esteja pagando; quais os fatores que os micro- empreendedores acham que mais dificultam o seu negócio; e acerca da origem do capital empregado para abrir o negócio.
POF
A Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) tem como finalidade principal obter a estrutura de consumo da população. O objetivo da pesquisa é a atualização da cesta básica de consumo e obtenção de novas estruturas de ponderação, tanto para os índices de preços do IBGE quanto para os índices de outras instituições. Os dados podem ser utilizados também para traçar perfis de consumo das famílias pesquisadas e atender a diversos interesses relacionados às áreas de estudos e de planejamento.
A primeira POF realizada pelo IBGE ocorreu em 1987-1988 e possui a mesma abrangência geográfica da pesquisa realizada em 1995-1996, que compreendeu as Regiões Metropolitanas de Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Porto Alegre, Distrito Federal e Município de Goiânia. A POF 1996 conta com uma amostra de 16.060 domicílios, onde foram obtidas as informações das despesas realizadas durante distintos períodos de referência (sete, trinta, noventa dias ou seis meses), cujas informações foram coletadas de outubro de 1995 a setembro de 1996.
Em 2003, o IBGE voltou a campo e coletou informações de 48.470 domicílios. Além da realização da pesquisa em todo território nacional, a nova POF apresentou diferenças importantes em relação às anteriores, como a inclusão de aquisições não-monetárias e opiniões das famílias sobre qualidade de vida. Utilizamos neste trabalho majoritariamente a POF 2003.
O objetivo do uso da POF neste presente estudo foi complementar a análise do lado pessoa física dos negociantes, com aspectos da demanda por
bens e serviços relacionados, como acesso a cartão de crédito e cheque especial, despesas com crédito, atraso de contas, além de fornecer percepções subjetivas de diversos aspectos da vida dos indivíduos.
PNAD
A Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios (PNAD) é coletada anualmente pelo IBGE desde 1976. A pesquisa abrange todo o Brasil, exceto as áreas rurais de Rondônia, Acre, Amazonas, Roraima, Pará e Amapá, e só não é realizada nos anos em que acontece o Censo Demográfico, como 1980, 1991 e 2000, para evitar sobreposição. A partir de 1992, a PNAD foi reformulada, o questionário foi aumentado e foram realizadas mudanças conceituais, cujos impactos ainda não foram completamente definidos.
A PNAD tem uma amostra probabilística de cerca de 100 mil famílias, e contém informações sobre diversas características demográficas e sócio- econômicas da população. Especificamente: (i) Características dos domicílios:
localização, tipo e estrutura do domicílio, número de cômodos e dormitórios, condição de ocupação, abastecimento de água, esgotamento sanitário, destino do lixo, iluminação elétrica, bens duráveis; (ii) Características dos indivíduos:
sexo, idade, religião, cor, raça, nacionalidade e naturalidade; (iii) Características das famílias: composição da família e relação de parentesco;
(iv) Características educacionais: alfabetização, escolaridade e nível de instrução, espécie de cursos; 5) Características da mão-de-obra: ocupação, posição na ocupação, ramo de atividade, carteira de trabalho, horas trabalhadas, rendimento, contribuição previdenciária, procura de trabalho e trabalho anterior.
Ao realizarmos uma análise comparativa a partir dos dados da PNAD entre os negócios que possuem até 5 empregados e encontram-se na área urbana, versus os demais, verifica-se que apenas 2,9% dos empregadores encontram-se na área rural, com esse percentual sendo bem mais expressivo quando analisamos os conta-própria, com 21,7%. Isso significa que a ECINF, ao realizar a pesquisa apenas na área urbana, acaba por excluir uma parcela significativa da população dos trabalhadores por conta-própria. A partir da análise da PNAD observamos também que a ECINF, por se restringir aos empregadores com até 5 empregados, exclui de sua pesquisa cerca de 26%
dos empregadores (mais de 6 empregados).
PME
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) implantou a Pesquisa Mensal de Emprego (PME) em 1980. A PME é uma pesquisa de periodicidade mensal sobre mão-de-obra e rendimento do trabalho, e inclui as seis principais áreas metropolitanas do Brasil: Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.
A PME é uma pesquisa em painel, e replica o esquema de amostragem da US Current Population Survey (CPS), visando a coletar informações do mesmo domicílio por oito vezes durante um período de 16 meses. É realizada em bases rotativas, através de entrevistas mensais às famílias durante quatro meses consecutivos, retirando-as da amostra durante oito meses e em seguida as entrevistando novamente por mais quatro últimos meses. Entre 4.500 a 7.500 famílias são entrevistadas por mês em cada uma das seis áreas metropolitanas, somando, ao todo, aproximadamente 35.000 famílias. Em agosto de 1988, o tamanho da amostra foi reduzido para aproximadamente 30.000 famílias por mês. O aspecto longitudinal da PME – isto é, acompanha as mesmas pessoas ao longo do tempo - permite analisar o risco individual ocupacional e de renda, bem como a probabilidade de crescimento e de formalização dos negócios. Desde a implantação da PME, ocorreram modificações na pesquisa, com o objetivo de melhor captar as características da população em idade ativa e sua inserção no sistema produtivo. Os temas tornaram-se mais amplos, englobando os efeitos conjunturais e as transformações do mercado de trabalho. Contudo, as questões gerais de demografia e de trabalho são as mesmas desde fevereiro de 1982.
A disponibilidade de informações mensais construídas a partir da Pesquisa Mensal do Emprego (PME) nos permite trabalhar com médias anuais, o que evita problemas de sazonalidade, além de permitir uma análise detalhada da dinâmica do processo. A principal restrição da PME, que está na abrangência do conceito de renda utilizado, uma vez que trabalha apenas com a renda proveniente do trabalho, não nos atrapalha tanto, na medida em que renda do trabalho representa o lucro dos trabalhadores por conta-própria e
empregadores.
Censo Demográfico
O Censo demográfico é uma pesquisa domiciliar que acontece de 10 em 10 anos e procura entrevistar 10% da população brasileira em todo o território nacional. O Censo detalha características pessoais e ocupacionais de todos os membros dos domicílios e possui informações detalhadas sobre fontes de renda, acesso à moradia, serviços públicos e bens duráveis, entre outros. A pesquisa concernente aos domicílios é restrita aos domicílios ocupados e nos permite traçar um perfil da população brasileira com informações referentes à educação, renda e acesso a ativos. O Censo tem como grande vantagem à possibilidade de abertura municipal e inframunicipal das informações.
O Censo permite analisar as tendências de longo prazo da população e da renda. O desenho amostral adotado compreende a seleção sistemática e com eqüiprobabilidade, dentro de cada setor censitário, de uma amostra dos domicílios particulares e das famílias ou componentes de grupos conviventes recenseados em domicílios coletivos, com fração amostral constante para setores de um mesmo município. A coleta de dados do Censo 2000 foi realizada no período de 1º de agosto a 30 de novembro de 2000, abrangendo 215.811 setores censitários, que constituem as menores unidades territoriais da base operacional do censo. A operação censitária pesquisou 54.265.618 domicílios nos 5.507 municípios existentes no ano 2000, em todas as 27 Unidades da Federação.
Todas as bases supramencionadas têm a virtude de captar a operação da economia informal o que é particularmente relevante para a análise em questão.