2 A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E A LEI 11340/2006
esposa em servidão temporária, por período estipulado entre credor e devedor. Isto é, a mulher era vista como uma espécie de mercadoria.80
As conquistas de lugares de destaque na sociedade por parte das mulheres não evitaram que, ainda hoje, a diferença de papéis entre homens e mulheres seja evidente. O que é resultado de um processo histórico.81
A sociedade humana, na qual ainda prevalece a ideologia patriarcal (que estabelece a supremacia masculina) ainda impede o pleno desenvolvimento das mulheres, discriminando-as de diferentes maneiras.82
Da discriminação, uma das conseqüências é a violência, cuja história na sociedade civil está atrelada à própria história da humanidade e está hoje tão presente quanto nunca.
[...] o tema violência está presente em nosso cotidiano como um dos fenômenos sociais mais inquietantes do mundo atual [...] Esse fenômeno aparece em todas as sociedades; faz parte, portanto, de qualquer civilização ou grupo humano: basta atentar para a questão da violência no mundo atual, tanto nas grandes cidades como também nos recantos mais isolados.83
A violência abarca o constrangimento físico e o moral, e pode ser conceituada como:
[...] constrangimento físico ou moral, uso da força, coação, torcer o sentido do que foi dito, estabelecer o contrário do direito à justiça – que se baseia faticamente no dado, dar-se à ética -, negar a livre manifestação que o outro expressa de si mesmo a partir de suas convicções.84
80 TELES, Maria Amélia de Almeida; MELO, Mônica de. O que é violência contra a mulher. São Paulo: Brasiliense S.A., 2002, p. 29.
81 Ibid., p. 30.
82 Ibid., p. 17.
83 GAUER, Ruth M. Chittó. Alguns Aspectos da fenomenologia da violência. In: ______. GAUER, Gabriel J. Chittó; GAUER, Ruth M. Chittó (Org.). A fenomenologia da violência. Curitiba: Juruá, 2004, p. 13.
84 GAUER, op. cit.
A violência contra a mulher atinge todas as classes sociais, raças, etnias e até mesmo posições profissionais e econômicas. Dentre os fatores que geram a violência de gênero, a cultura patriarcal é determinante, a partir dela os homens sentem-se donos de suas mulheres e se vêem no direito de praticar qualquer ato violento contra elas85.
Nas relações antagônicas de poder entre homens e mulheres a ideologia dominante tem o papel fundamental de difundir e reafirmar a supremacia masculina e a inferioridade feminina. Quando a mulher, em geral o pólo dominado desta relação, não aceita como natural o lugar e o papel a ela impostos pela sociedade, os homens recorrem a artifícios mais ou menos sutis para fazer valer seus privilégios – a violência simbólica (moral e/ou psicológica) e a física, que se manifesta nos espaços lacunares em que a ideologização da violência simbólica não se fez garantir.86
Essa violência originada na discriminação histórica contra as mulheres se funda na construção e consolidação de ações explícitas e implícitas que visam a submissão feminina:
A violência é uma das mais graves formas de discriminação em razão do sexo/gênero. Constitui violação aos direitos humanos e das liberdades essenciais, atingindo a cidadania das mulheres, impedindo-as de tomar decisões de maneira autônoma e livre, de ir e vir, de expressar opiniões e desejos, de viver em paz em suas comunidades; direitos inalienáveis do ser humano.87
Geralmente, as agressões são praticadas por maridos ou companheiros e, em função do fator cultural, não raro, a sociedade percebe a violência doméstica como um fenômeno natural, a ser tratado como um problema de ordem privada, numa aprovação tácita do fato. Não há dúvida de que:
[...] a violência sofrida pela mulher não é exclusivamente de responsabilidade do agressor. A sociedade ainda cultiva valores que incentivam a violência, o que se impõe a necessidade de se tomar consciência de que a culpa é de todos. O fundamento é cultural e
85 SILVA, 1992, p. 57-60.
86 Ibid., 57-8.
87 TELES; MELO, 1959, p. 23.
decorre da desigualdade no exercício do poder e que leva a uma relação de dominante e dominado.88
A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 226, parágrafo 8º, atribui ao Estado a responsabilidade de coibir a violência doméstica, numa primeira menção da questão pela legislação brasileira. A Lei n. 9.099/95 instituiu os Juizados Especiais Criminais, já previstos na Constituição Federal. Tais Juizados visavam à simplificação da Justiça Penal, ao possibilitar soluções mais rápidas a casos de menor potencial ofensivo, assim considerados em razão da pena cominada em abstrato. Assim, muitos casos de violência doméstica eram tratados como violação de menor potencial ofensivo e quase que na totalidade dos casos, paravam nos juizados. Mas estes se mostraram ineficazes no combate à violência doméstica porque esses casos passaram a ser banalizados, já que a pena cominada ao agressor, quase sempre, não passava do pagamento de uma cesta básica ou prestação de serviços à comunidade.89
A Lei n. 11.340, de 7 de agosto de 2006 (Lei Maria da Penha), no seu artigo 5º, considera violência doméstica como aquela: “[...] compreendida no espaço de convívio permanente de pessoas, com ou sem vínculo familiar, inclusive as esporadicamente agregadas”.90
A Lei foi assim denominada devido ao que aconteceu com a farmacêutica Maria da Penha Fernandes. Em 29 de maio de 1983, em Fortaleza, Ceará, ela foi atingida por um tiro de espingarda enquanto dormia. O tiro foi dado por seu marido, o economista Marco Antônio Heredia Viveiros, um colombiano naturalizado brasileiro. O tiro atingiu a coluna da vítima, destruiu a terceira e a quarta vértebras, e a deixou paraplégica. Marco Antônio negou a autoria do disparo, atribuindo-o a um
88 DIAS, Maria Berenice. A lei maria da penha na justiça: a efetividade da lei 11.340/2006 de combate à violência doméstica e familiar contra a mulher. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007, p.
15. 89 BUGLIONE, Samantha. Justiça: a mulher enquanto metáfora do direito penal. Discursos sediciosos: crime, direito e sociedade, Rio de Janeiro, n. 9, ano 5, jul. 2000. p. 214.
90 BRASIL. Lei n. 11.340, de 7 de agosto de 2006. Cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, nos termos do § 8o do art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres e da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher; dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; altera o Código de
Processo Penal, o Código Penal e a Lei de Execução Penal; e dá outras providências. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2006/Lei/L11340.htm>. Acesso em jun. 2010.
suposto assaltante. Depois de uma semana, ao retornar à sua casa, a vítima sofreu um outro atentado. Maria da Penha recebeu uma descarga elétrica enquanto tomava banho. O autor do crime declarou que tal descarga elétrica não poderia produzir qualquer lesão à vítima. As agressões foram premeditadas, pois, dias antes das agressões, ele tentou convencer a esposa a celebrar um seguro de vida, do qual ele seria beneficiário. A prova testemunhal de empregados do casal, a intenção do agressor de que sua esposa celebrasse um contrato de seguro, bem como o encontro da espingarda utilizada no crime foram dados decisivos91.
Marco Antonio foi levado a júri em 1986 e acabou condenado. No entanto, a defesa recorreu e o júri foi anulado, por falha processual.
Novamente julgado em 1996, o agressor pegou 10 anos e 6 meses de reclusão. Houve apelação até os tribunais superiores, e Marco Antonio ainda permaneceu livre até 2002 quando, finalmente, foi preso, passados 19 anos da primeira tentativa de homicídio.
Atualmente, porém, já beneficiado pela progressão no regime prisional, cumpre pena em liberdade e reside no Estado do Rio Grande do Norte.92
Os procedimentos legais e instrumentos processuais brasileiros vigentes à época colaboraram para a morosidade da Justiça. Em razão disso, o Centro pela Justiça pelo Direito Internacional (CEJIL), o Comitê Latino-Americano de Defesa dos Direitos da Mulher (CLADEM) e a vítima formalizaram denúncia à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA. Assim, a Comissão da OEA publicou o Relatório nº 54, de 2001, no qual concluiu que:
[...] a República Federativa do Brasil é responsável da violação dos direitos às garantias judiciais e à proteção judicial, assegurados pelos artigos 8 e 25 da Convenção Americana em concordância com a obrigação geral de respeitar e garantir os direitos, prevista no artigo 1 do referido instrumento pela dilação injustificada e tramitação negligente deste caso de violência doméstica no Brasil. Que o Estado tomou algumas medidas destinadas a reduzir o alcance da violência doméstica e a tolerância estatal da mesma, embora essas medidas ainda não tenham conseguido reduzir consideravelmente o padrão de tolerância estatal, particularmente em virtude da falta de efetividade da ação policial e judicial no Brasil, com respeito à violência contra a mulher. Que o Estado violou os direitos e o
91 ELUF. Luisa Nagib. A Lei Maria da Penha. 2007. Disponível em:
<http://pfdc.pgr.mpf.gov.br/clipping/abril/a-lei-maria-da-penha-1>. Acesso em: 29 de maio de 2010 [s.p.]
92 Ibid.
cumprimento de seus deveres segundo o artigo 7 da Convenção de Belém do Pará em prejuízo da Senhora Fernandes, bem como em conexão com os artigos 8 e 25 da Convenção Americana e sua relação com o artigo 1 da Convenção, por seus próprios atos omissivos e tolerantes da violação infligida.93
O Relatório recomendou ainda que se mitigasse a tolerância estatal à violência doméstica contra a mulher no Brasil, de forma a:
[...] simplificar os procedimentos judiciais penais a fim de que possa ser reduzido o tempo processual, sem afetar os direitos e garantias do devido processo [e estabelecer] formas alternativas às judiciais, rápidas e efetivas de solução de conflitos intrafamiliares, bem como de sensibilização com respeito à sua gravidade e às conseqüências penais que gera94.
Mas, a violência doméstica não se circunscreve àquela praticada contra a mulher, mas na maior parte dos casos ela é a vítima desse tipo de violência.
O artigo 5º da Lei Maria da Penha dispõe que: “Configura violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial”.
Em termos conceituais, violência doméstica é mais abrangente que violência contra a mulher, mas esta última pode ocorrer em maior escala, já que não ocorre apenas no ambiente doméstico.
O agressor possui várias formas para externar sua agressividade e, faz-se necessário distinguir em que consiste a conduta do agressor.
A Lei Maria da Penha tratou, no seu artigo 7º, da definição das formas de violência doméstica e familiar contra a mulher, para uma melhor adequação típica:
Art. 7o São formas de violência doméstica e familiar contra a mulher, entre outras: I - a violência física, entendida como qualquer conduta
93 ORGANIZAÇÃO DOS ESTADOS AMERICANOS. Comissão Interamericana de Direitos Humanos (2000). Relatório n° 54/01. Caso 12.051: Maria da Penha Maia Fernandes. 4.abr.2001. Disponível em: <http://www2.fpa.org.br/portal/modules/news/article.php?storyid=227>. Acesso em jun. 2010.
94 Ibid.
que ofenda sua integridade ou saúde corporal; II - a violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da auto-estima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação; III - a violência sexual, entendida como qualquer conduta que a constranja a presenciar, a manter ou a participar de relação sexual não desejada, mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força; que a induza a comercializar ou a utilizar, de qualquer modo, a sua sexualidade, que a impeça de usar qualquer método contraceptivo ou que a force ao matrimônio, à gravidez, ao aborto ou à prostituição, mediante coação, chantagem, suborno ou manipulação; ou que limite ou anule o exercício de seus direitos sexuais e reprodutivos; IV – a violência patrimonial, entendida como qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades;
V - a violência moral, entendida como qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria.
Esta não é uma enumeração estanque das formas de violência contra a mulher que a lei abrange, já que o caput do art. 7º traz a expressão “entre outras”.
Pode-se ver que a violência física, apesar de ser a mais facilmente comprovada, não é a única forma de agressão praticada. A interpretação das formas elencadas pode definir a violência física como:
A ofensa à vida, saúde e integridade física. [...] [A violência psicológica] é a ameaça, o constrangimento, a humilhação pessoal.
[A violência sexual é] o constrangimento com o propósito de limitar a autodeterminação sexual da vítima, tanto pode ocorrer mediante violência física como através de grave ameaça (violência psicológica). [A violência patrimonial é a] retenção, subtração, destruição de instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos. [E a violência moral,] em linhas gerais, são os crimes contra a honra da mulher.95
Deve-se ponderar, ainda, sobre a possibilidade de ocorrência não explícita de violência ou aquela que não deixa marcas. Há situações em que não é fácil
95 PORTO, Pedro Rui da Fontoura. Violência doméstica e familiar contra a mulher: lei 11.340/06:
análise crítica e sistêmica. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2007, p. 25.
comprovar as agressões, o que serve, por vezes, como justificativa para que não seja feito o registro da ocorrência, como explicita Silva:
Além do fato de não haver provas materiais (lesões, por exemplo) nos casos de violência simbólica e até em algumas situações de agressão física (por exemplo, alguns agressores preferem atingir regiões que não deixam marcas visíveis, como a cabeça, cujos sinais são ocultados pelo cabelo), outro fator obstaculizante do encaminhamento legal é a dificuldade de se oferecerem testemunhas oculares. No caso da chamada violência doméstica, é comum sua ocorrência no espaço do lar, onde quase sempre não é presenciada por ninguém.96
O âmbito doméstico é definido pelo vínculo e pelas relações exigidas para a caracterização da violência doméstica ou familiar contra a mulher; é compreendido como o espaço em que se dá alguma forma de agressão referida no artigo 7º da Lei n. 11.340/2006. Para tanto, basta que se consume na unidade doméstica de convívio entre pessoas, mesmo que estas estejam apenas esporadicamente agregadas e não tenham vínculo afetivo ou familiar entre si.
Já não prevalece o caráter espacial do lar ou de coabitação, mas sim o vínculo familiar decorrente do parentesco natural, por afinidade ou por vontade expressa (civil). [...] dispensa-se tanto a coabitação sob o mesmo teto, quanto o parentesco familiar, sendo suficiente relação íntima de afeto e convivência, presente ou pretérita. A adjetivação
‘íntima’ já pressupõe que se trata de uma relação de caráter sensual, ao menos, inspirada em interesses sexuais, e não simples amizade97.
Por muito tempo, as agressões praticadas contra as mulheres não eram vistas como crime, na sociedade brasileira, pelo fato de ocorrerem no âmbito privado, em relações íntimas. E até recentemente a violência praticada contra a mulher no âmbito familiar não recebia a devida atenção da sociedade, do legislador e do Poder Judiciário. No cenário internacional, o reconhecimento integral dos direitos humanos da mulher só veio a ocorrer em 1993, na Declaração e Programa de Ação de Viena. O artigo 18 da Declaração de Viena dispõe que “os direitos
96 SILVA, 1992, p. 59. (grifos da autora)
97 PORTO, 2007, p. 25.
humanos das mulheres e das meninas são inalienáveis e constituem parte integral e indivisível dos direitos humanos universais.”98