O capitalismo, em todo o processo de sua formação e desenvolvimento, tem como centro do seu projeto político a articulação entre a economia política e a
"economia subjetiva" (LAZZARATO, 2010, p.14). Essa articulação ocorre no âmbito da relação entre os processos de subjetivação e os fluxos econômicos, tecnológicos e sociais, e explicita a recorrência com que o capitalismo cria representações ideológicas e incorpora valores morais e religiosos para fortalecer os laços sociais garantidores da lógica expansionista do capital. Nesse processo articulatório, Deleuze e Guattari (2012) sustentam a existência de duas formas interdependentes e complementares de operacionalização do capitalismo na produção de subjetividade:
a sujeição social e a servidão maquínica.
Enquanto na sujeição social há a produção de um “sujeito individuado” a partir do provimento de papéis e lugares adaptados à finalidade do capitalismo de governar a subjetividade – em um mundo do significante e das disputas das significações, da consciência, do conhecimento e do saber cultural – na servidão maquínica, o indivíduo não mais se constitui como “sujeito individuado”, sujeito econômico (capital humano, empresário de si mesmo), ou como cidadão21, mas como peça de uma engrenagem submetida ao agenciamento da mídia, da empresa, do sistema financeiro, da escola, da televisão, da internet etc., que age por técnicas de modelização e modulação, que se conectam às energias mesmas da vida e da atividade humana apoderando-se do seres humanos por dentro e por fora e formatando-os a partir da intervenção no funcionamento de base dos comportamentos perceptivos, afetivos, cognitivos, linguísticos (GUATTARI, 1980 apud LAZZARATO, 2010).
Maurizio Lazzarato retoma o argumento de Marx (2011), e reafirma que a sujeição social é um processo de personificação das relações de capital, pois
fabrica um sujeito vinculado a um objeto externo (uma máquina, um dispositivo de comunicação, dinheiro, serviços públicos etc.) de que o sujeito faz uso e com o qual ele age. Na sujeição, o indivíduo trabalha ou se comunica com outro sujeito individuado via uma máquina-objeto, que funciona como "meio" ou mediação de sua ação ou uso. A lógica "sujeito- objeto", que constitui o modo de funcionamento da sujeição social, é uma lógica "humana, demasiado humana” (LAZZARATO, 2010, p.29).
Em um balanço provisório, esse autor sustenta que a crise sistêmica do capitalismo e a crise da produção de subjetividade estão estritamente interligadas.
Com o esvaziamento das promessas de riqueza para todos por meio do trabalho duro,
21 Na introdução à Apologia de Sócrates, Platão expressa um pensamento de seu mestre ao dizer que “o cidadão é o cadáver de um homem”. Nesta passagem, Sócrates antecipa a concepção do
“homem egoísta”, do “homem cidadão”, imagem e semelhança do homem burguês (PLATÃO, 2008).
dos créditos e das finanças, essas crises trouxeram novas modalidades de sujeição que se traduzem no homem endividado, acuado pelo poder dos proprietários do capital que o culpabilizam pelos fracassos econômicos, social e político do bloco de poder neoliberal sobre a sociedade dos indivíduos.
O impulso para transformar todo indivíduo em um negócio resultou em vários paradoxos. Dentre eles, pode-se citar o empobrecimento da existência advindo do
“sucesso” individual do modelo empreendedor que, ao impor ao indivíduo os riscos da ação assumida em liberdade para adquirir propriedade, para consumir e "para se empenhar no mercado" conduz a uma depressão difundida em larga escala como um mal do século (IASI, 2014, p. 24).
O fato do capitalismo avançado não ter conseguido uma revitalização básica, tal como era o objetivo dos seus teóricos, pode ser considerado outro paradoxo.
Nesse sentido, Perry Anderson (1995, p. 23) afirma que houve fracasso econômico no neoliberalismo, não obstante reconheça o êxito político e ideológico desse sistema por sua capacidade de disseminar e fazer predominar a ideia de que não há alternativas aos seus princípios e de que todos têm de se adaptar às suas normas.
Em relação ao fracasso econômico, Netto (1995, p.31) questiona “até que ponto as propostas neoliberais podem continuar tendo passagem politicamente democrática, na medida em que deterioram a vida da massa da população?”.
Borón (2002, p.12), por sua vez, também ressalta essa preocupação ao indagar
até que ponto pode progredir e se consolidar a democracia em um quadro de miséria generalizada como o que hoje afeta as democracias sul-americanas, que corrói a cidadania substantiva das maiorias precisamente quando mais se exalta sua emancipação política?
Os questionamentos de Netto e Borón partem da necessidade de esclarecer por que a proposta neoliberal tem encontrado legitimação pela via democrática e apontam para a pertinência de se estudar se o conjunto de condições materiais esboçados por Chauí (1999), no item anterior deste capítulo, corresponde a um imaginário social que busca justificá-las (como racionais), legitimá-las (como corretas) e dissimulá-las enquanto formas contemporâneas de exploração e de dominação.
Para essa autora, esse imaginário social corresponde ao neoliberalismo como ideologia cujo subproduto principal é a ideologia pós-moderna “que toma como o ser da realidade a fragmentação econômico-social e a compressão espaço-temporal gerada pelas novas tecnologias e pelo percurso do capital financeiro” (CHAUÍ, 1999,
p.32), correspondendo a uma forma de vida determinada pela insegurança e pela violência institucionalizada pelo mercado22.
Apoiado em Deleuze e Guattari, para quem o desmantelamento do sujeito individuado, destituído de parte da sua consciência e das suas representações, não se dá somente por meio da ideologia, mas pela ação sobre os níveis pré-individual (percepção, sentido, afeto, desejo) e supraindividual (linguísticas, sociais, midiáticas, sistemas econômicos), Lazzarato (2014, p 39) entende esse desmantelamento como processos de desterritorialização (ou de descodificação) que não estão centrados no indivíduo e na subjetividade humana, mas nos maquinismos sociais (empresas, equipamentos coletivos do Estado, sistemas de comunicação etc.), cujos mecanismos se estabelecem em "fluxos de signos que são condições de produção tanto quanto os fluxos de trabalho e de moeda".
Esses processos transformam os homens em algo adjacentes às máquinas.
“Juntos, eles constituem 'homens-máquinas' nos quais homens e máquinas são meras partes recorrentes e intercambiáveis de um processo de produção, comunicação, consumo etc. que os excede” (LAZZARATO, 2014, p. 29).
Também fazem crer que os homens são livres vivendo em rebanhos, com liberdade de consumir as mercadorias que o sistema fabrica para o cidadão que pode adquiri-lo livremente, sob o discurso de que é permitido fazer "tudo o que se quer".
Danny-Robert Dufour descreve essa condição ironizando com a frase "não pensem, gastem" (2008, p. 25) e afirmando que:
ali, portanto, onde muitos nos imaginam livres dos dogmas antigos e são inclinados a nos pensar como que momentaneamente errantes, atordoados, sob o golpe de uma embriaguês provocada por essa libertação, eu nos vejo
22 Bauman (2001, 2005) expressa essa forma de vida como modernidade líquida, caracterizando-a por uma sensação sustentada na lógica totalitária do mercado de que tudo é possível, aceitável, múltiplo, aberto à escolha, ao gosto e à afirmação da vontade individual e que, de tão conhecida, parece óbvia com o seu funcionamento aparecendo como inexorável e irremediavelmente regulador da complexidade da vida política, social e globalizada. Entidade invisível e despersonalizada, mas de presença extensiva e efeitos concretos, a lógica fatalista do social compartilhado sob os determinismos do mercado condiciona a liberdade de escolha e as possibilidades existentes nos domínios da vida, tratando a todos como iguais e estigmatizando as diferenças como defeito, deficiência ou doença que, colocadas sob o peso do fracasso do sujeito, obstaculizam a mobilidade para criar a si mesmo, para tornar a vida uma realização estética, uma obra de arte. Nessa lógica, a sociedade apresenta condições sob as quais seus membros agem realizando mudanças em um tempo mais curto do que o necessário para a consolidação, em hábitos e rotinas, das formas de agir, projetando-se em um mundo em que tudo é ilusório e o que importa é a velocidade e não a duração; consumidores convivendo com a sensação de precariedade, instabilidade, insegurança e incerteza constante, de instantaneidade, desorientação em relação a códigos e regras, liquefação dos padrões de dependência e interação, desintegração da rede social, tolerância à vigilância, à fragmentação e à ligações frouxas.
como potencialmente submissos a um novo deus, uma nova divindade quase nada perversa, de resto, já que, em vez de nos proibir, nos deixa a rédea solta sobre o pescoço: não há mais regulamentação moral, laisser faire. Em suma, teríamos caído sob a dependência de um novo deus meio que sadeano, o Divino Mercado, que nos diria: “Gozem!” (DUFOUR, 2008, p. 16).
E o gozo apregoado pelo mercado nada tem de natural, como queriam os economistas clássicos. Apresenta-se como uma realidade construída historicamente e que requer a constante e ininterrupta intervenção ativa do Estado para regular e supervisionar a concorrência, garantindo a perpetuação de uma relação de desigualdade entre diferentes unidades de produção intra, inter e transnacionais. A falácia do “livre-mercado” torna-se um instrumento ideológico para justificar objetivos táticos de disseminação ilimitada do espírito competitivo e de manipulação das subjetividades. Como salientam Pierre Dardot e Christian Laval, “a exigência da universalização de uma norma da concorrência ultrapassa largamente as fronteiras do Estado, atingindo até mesmo os indivíduos em sua relação consigo mesmo” (2016, p. 377). Para esses autores,
a racionalidade neoliberal produz o sujeito de que necessita ordenando os meios de governá-lo para que ele se conduza realmente como uma entidade em competição e que, por isso, deve maximizar seus resultados, expondo-se a riscos e assumindo inteira responsabilidade por eventuais fracassos”
(DARDOT; LAVAL, 2016, p. 328).
A “captura” da subjetividade pela lógica do capital inibe, mas não exclui, a possibilidade da formulação de pensamentos inconformistas. Giovanni Alves (2011, p.114) chama atenção que essa
captura não ocorre de fato, como o termo poderia supor. Estamos lidando com uma operação de produção de consentimento ou unidade orgânica entre pensamento e ação que não se desenvolve de modo perene, sem resistências e lutas cotidianas. Enfim, o processo de “captura” da subjetividade do trabalho vivo é um processo intrinsecamente contraditório e densamente complexo, que articula mecanismos de coerção/consentimento e de manipulação não apenas no local de trabalho, por meio da administração pelo olhar, mas nas instâncias socioreprodutivas, com a pletora de valores- fetiche e emulação pelo medo que mobiliza as instâncias da pré- consciência/inconsciência do psiquismo humano”.
Essa nova razão do mundo, a razão neoliberal, realiza a extensão da racionalidade mercantil a todas as esferas da existência humana, não excluindo, obviamente, as práticas pedagógicas e a própria relação trabalho-educação que discutiremos no próximo capítulo.
Pelo exposto, conclui-se que o aprofundamento das contradições do sistema capitalista, com o advento do neoliberalismo e da financeirização do capital, não tem
potencializado, até o momento, a transição para um sistema de produção contra- hegemônico, tendo em vista as inúmeras estratégias criadas nas últimas décadas para a consolidação desse sistema que é ontologicamente desumanizante e ambientalmente degradante.
2 AS BASES ONTOLÓGICAS, EPISTEMOLÓGICAS E POLÍTICAS DA RELAÇÃO