Capítulo 2
estudados e o brasileiro e a disponibilidade de materiais para consulta121. Seguindo a estratégia de enfrentamento do problema delineada no primeiro capítulo, o foco são os tribunais de cúpula, responsáveis pelo julgamento de teses. O estudo começa com a experiência dos Estados Unidos, que vêm lidando, pioneiramente, com a questão do televisionamento de julgamentos desde 1935. Nos tópicos seguintes são analisadas as experiências das Supremas Cortes do Reino Unido, Canadá, México e os tribunais internacionais.
2.2.TELEVISIONAMENTO DE CORTES NOS ESTADOS UNIDOS.
2.2.1. De Hauptmann ao banimento das câmeras em tribunais
A presença de câmeras nos tribunais é um problema que cedo começou a despertar controvérsias nos Estados Unidos. O primeiro grande caso a suscitar discussão entre advogados, juízes e acadêmicos consistiu no julgamento de Bruno Richard Hauptmann, em 1936122. Bruno foi acusado de sequestrar e assassinar o filho de apenas dezoito meses de Charles Lindbergh, então uma celebridade por ter sido o primeiro homem a efetuar um vôo transatlântico. O caso despertou tanto interesse público que mais de setecentos repres entantes da imprensa internacional viajaram até a pequena cidade de Flemington, em New Jersey, para cobrir o julgamento. Registros de época relatam mais de vinte mil pessoas aguardando em filas ao redor do tribunal para ter uma chance de assistir ao julgamento. Houve tanto interesse no caso que os advogados intimaram amigos como potenciais testemunhas apenas para assegurar a presença deles na sessão. Cambistas cobraram entre cem e quinhentos dólares por um lugar na fila que assegurasse a presença no tribuna l.
121 VERGOTINNI, Giuseppe de. Derecho constitucional comparado, ob. cit., p. 70: “Para que a comparação tenha sentido deve dar-se, preferencialmente, entre ordenamentos que tenham
‘elementos de identificação e qualificação comuns’ e entre ‘institutos análogos’. Em outras palavras, para que a comparação seja proveitosa, deve fazer-se entre ordenamentos e institutos que contem com alguns traços comuns que permitam compará-los”.
122 NASHERI, Hedieh. Crime and justice in the age of Court TV, ob. cit., pp. 10-12. A autora registra que até 1935, quando do julgamento do caso Hauptmann, narrado no texto, o uso de câmeras em tribunais era amplamente aceito. Ela cita casos datados de 1924 e 1925. V., ainda, GOLDFARB, Ronald L. TV or not TV, ob. cit., pp. 8-9. COHN, Marjorie; DOW, David. Cameras in the Courtroom, ob. cit., pp. 15-17. BARBER, Susanna. News camera in the courtroom, ob. cit., pp. 3-8.
A intensa publicidade do caso fez com que o Juiz Thomas Trenchard banisse as gravações durante o julgamento, permitindo as filmagens apenas nos recessos da corte. Isso não impediu que cinegrafistas presentes despeitassem a ordem judicial, tal era o clima de balbúrdia. Ao término do julgamento, Hauptmann foi condenado à morte por eletrocussão. Em seu apelo, o réu alegou que as câmeras e a publicidade excessiva tinham prejudicado o seu direito de defesa. Embora o tribunal de apelações tenha rejeitado o recurso sob o argumento de que ele não objetara à presença da mídia em momento oportuno, o Governador do Estado sentiu-se particularmente sensibilizado com as alegações e assegurou ao réu um indulto de último minuto, suspendendo a execução. A resposta do público foi dura:
prontamente fez-se um movimento de coleta de assinaturas para obter o impeachment do governador. Pressionado, ele acabou retirando o indulto e o destino de Bruno Richard Hauptmann restou definitivamente selado.
O caso Hauptmann gerou profunda comoção entre os juristas norte- americanos e acabou por determinar o destino das câmeras nos tribunais pelas décadas vindouras123. Desde 1932, a American Bar Association (equivalente à Ordem dos Advogados) opunha-se publicame nte ao uso de câmeras em tribunais sob o argumento de que elas
“chocam nossa sensibilidade”124. A execução de Hauptmann após um julgamento reputado
“circense” acelerou o processo de banimento formal. Em 1937, o Cânone 35 dos Cânones de Ética Profissional e Judicial125 proibiu as fotografias e filmagem durante as sessões judiciais, sob o argumento de que o uso de mecanismos audiovisuais “subtrairiam a dignidade essencial dos procedimentos”, degradando a corte, além de deturpar o entendimento do público sobre o processo judicial126. Em 1952, o televisionamento foi adicionado ao rol de proibições, sob o argumento de que causaria distrações indevidas aos participantes do processo judicial.
123 Hedieh Nasheri narra que o procurador geral do Estado de New Jersey optou por atuar no cas o pessoalmente, tornando-se uma estrela na mídia nacional. O advogado responsável pela defesa de Hauptmann incorporou ao seu cartão e timbre do escritório a alusão ao fato de ter atuado no caso.
(Crime and justice in the age of Court TV, ob. cit., p. 12).
124 GOLDFARB, Ronald L. TV or not TV, ob. cit., p. 24. NASHERI, Hedieh. Crime and justice in the age of Court TV, ob. cit., p. 12.
125 O cânone dizia o seguinte: “Procedimentos em Cortes devem ser conduzidos com apropriados dignidade e decoro. Tirar fotografias nas salas de julgamento, durante as sessões da corte ou nos recessos entre os procedimentos, e transmissão dos procedimentos, são como detratores da dignidade essencial dos procedimentos, degradadores da Corte e criadores de concepções equivocadas a respeito disso na mente do público e não devem ser permitidos”. Cf. NASHERI, Hedieh. Crime and justice in the age of Court TV, ob. cit., p. 13.
126 GOLDFARB, Ronald L. TV or not TV, ob. cit., p. 24.
Seguindo o movimento iniciado pela American Bar Association, o Congresso dos Estados Unidos alterou o Código de Processo Penal (Federal Rules of Criminal Procedure), fazendo nele incluir a Regra n° 53, proscrevendo a transmissão de julgamentos em tribunais federais. Na década de 50, a proibição ao uso de câmeras era adotada em praticamente todos os Estados, à exceção de Colorado, Oklahoma e do Texas127. Foi exatamente nestes locais que foram surgindo casos em que se discutia o balanceamento adequado entre as garantias da primeira, sexta e décima quarta emendas, que preveem, respectivamente, os direitos à liberdade de imprensa, publicidade de julgamentos e o devido processo legal. A Suprema Corte dos Estados Unidos já havia discutido o papel da televisão em um julgamento criminal em Rideau v. Louisiana, embora tecnicamente não se tratasse de um problema de transmissão de julgamento, mas sim dos atos que lhe precederam128. Finalmente, para o termo de 1965, a corte decidiu selecionar um caso e se debruçar sobre o tema: Estes v. Texas.
2.2.2. As câmeras no banco dos réus: Estes v. Texas (1965).
Com o avanço dos meios de comunicação de massa, a Suprema Corte dos Estados Unidos teria que enfrentar, em algum momento, o problema do televisionamento de julgamentos, em especial os de natureza criminal. O primeiro caso julgado por ela é Estes v. Texas, decidido em 7 de junho de 1965. O processo tem início com as acusações de fraude dirigidas a Billie Sol Estes, financista do Texas e amigo pessoal do Presidente Lyndon Johnson129. O julgamento recebeu intensa atenção do público e da mídia, tant o que teve que ser desaforado do Condado de Reeves para o Condado de Smith, distantes em 800 quilômetros (por consequência, inclusive, de Rideau v. Louisiana). O pedido de transmissão
127 NASHERI, Hedieh. Crime and justice in the age of Court TV, ob. cit., p. 14.
128 No referido caso, julgado em 1963, após cometer um assalto a banco com o sequestro de três empregados e assassinato de um deles, o suposto criminoso foi entrevistado pelas autoridades policiais locais. A gravação da entrevista, com a confissão do crime, foi divulgada à imprensa e retransmitida nas redes de TV locais. Ante o referido quadro, os advogados do réu solicitaram o desaforamento do julgamento, o que restou negado pelo juiz local, com a consequente condenação do réu à morte. A Suprema Corte anulou o julgamento, sob o argumento de que o indeferimento do desaforamento nas circunstâncias narradas viola o devido processo legal. Rideau v. Lousiana, 373 U.S. 723 (1963).
129 De acordo com Cohn e Dow, Estes teria induzido fazendeiros texanos a comprar equipam entos de fertilização que não existiam e, posteriormente, realizado hipotecas sobre propriedades fictícias (Cameras in the Courtroom, ob. cit., p. 19).
por rádio e televisão do julgamento, contestado pelo réu, acabou inicialmente deferido pelo juiz da causa.
Nos anais do caso, foram registradas a presença de doze cinegrafistas na sala de julgamentos, cabos e fios espalhados, três microfones na mesa do juiz e outros nas dos jurados e advogados. Em razão da grande algazarra instaurada no julgamento preliminar (pre trial hearing), o juiz do caso acabou por reconsiderar a decisão anterior e deferir o pedido para que as câmeras não fossem utilizadas durante todo o tempo do julgamento do mérito do caso. Por consequência da pressão pública ou não, o resultado foi a condenação de Billie Sol Estes em toda as instâncias ordinárias, o que motivou a interposição de recurso à Suprema Corte por violação à cláusula do devido processo legal, prevista na 14a Emenda à Constituição dos Estados Unidos130.
Para o Justice Clarke, representante da maioria, a garantia de publicidade dos julgamentos, prevista na sexta emenda, deve servir primariamente para evitar o uso de tribunais como instrumentos de perseguição e opressão contra réus pelo Estad o. O voto expressa a visão de que a publicidade é uma garantia essencialmente dos réus, e apenas de modo mais tênue relacionada aos demais membros da coletividade. Clarke e seus seguidores defendem que o propósito do processo judicial é a descoberta da verdade, condição sine qua non para um julgamento justo. Para que esta atividade seja realizada, é preciso que seja mantida uma atmosfera adequada, que entra em risco com a presença das câmeras.
Em sua defesa, o Estado do Texas afirmou que nenhum prejuízo concreto em razão do televisionamento fora demonstrado. Em corajosa passagem, sobre a qual se voltará adiante, afirmou que “considerações psicológicas são para psicólogos, não para os tribunais, porque elas são puramente hipotéticas”. Justice Clarke refutou essa ideia asseverando que a corte pode realizar prognósticos e neles basear uma eventual declaração de inconstitucionalidade. Como não houve, no caso concreto, qualquer demonstração específica
130 14ª Emenda. “Seção 01. Todas as pessoas nascidas ou naturalizadas nos Estados Unidos, e sujeitas à sua jurisdição, são cidadãos dos Estados Unidos e do Estado onde residem. Nenhum Estado poderá fazer ou executar lei que restrinja os privilégios ou imunidades de cidadãos dos Estados Unidos; nem pode qualquer Estado privar qualquer pessoa da vida, da liberdade ou propriedade sem o devido processo legal; e nem negar a qualquer pessoa dentro de sua jurisdição a igual proteção das leis”.
de prejuízo por parte do recorrente, é exatamente com base nesse potencial impacto negativo da televisão sobre os atores do julgamento que Clarke baseará sua declaração de inconstitucionalidade.
Clarke aponta diversos riscos decorrentes do televisionamento de julgamentos à busca pela verdade, função primária do processo. Na opinião dele, é elevada a probabilidade de que o processo seja negativamente afetado pela simples e mera presença das câmeras. O primeiro desses riscos recai sobre os jurados. O júri pode acabar enviesado em decorrência da transformação de um processo em uma cause célèbre, seja por influência direta da mídia, seja pelo meio social em que vive. A publicização do nome e rostos de jurados pode torná-los objeto de críticas e comentários de jornalistas e da própria comunidade. O risco de ser reconhecido na rua e sofrer com o repúdio do público pode, em abstrato, impedir que o jurado tenha o equilíbrio e a imparcialidade necessários ao julgamento. Clarke também sugere que a presença das câmeras pode causar distrações indevidas nos jurados. O risco não é apenas a mesmerização causada pelo “ponto vermelho”, que significa a gravação e transmissão da imagem local, mas também o desconforto decorrente da sensação de ser observado por uma plateia de desconhecidos, e a constante preocupação com a formação de uma imagem pública.
O segundo risco apontado pelo juiz é a degradação na qualidade dos testemunhos. A câmera, como registrado, teria o poder de causar embaraço pes soal, impedindo a adequada busca pela verdade. Tal como os jurados, a transformação de testemunhas em pessoas públicas poderia causar desincentivos à colaboração com a justiça. A possibilidade de acompanhar o julgamento pela televisão poderia influenciar n o que elas têm a dizer em juízo. O terceiro ponto consiste na responsabilidade adicional que recai sobre o juiz. Ao invés de ocupar-se unicamente com o objetivo de realizar um “julgamento justo”, ele também terá que disciplinar o uso adequado da câmera. Clarke reitera, nessa passagem, o risco de distrações causadas pela mera presença das câmeras em ambientes judiciais. Ele pondera, ainda, a pressão dos meios de comunicação para que os julgamentos sejam abertos, influenciando negativamente na delicada ponderação que compete aos juízes efetuar ao decidirem pela abertura das portas do tribunal. Os juízes de um Estado vão se sentir compelidos quando juízes de outros Estados abrirem suas cortes.
O último risco trazido pelas câmeras diz respeito ao impacto de las sobre o réu. As imagens divulgadas sobre os seus gestos podem atrapalhar a sua participação no procedimento. Um ambiente de tranquilidade, diz ele, é essencial para que o réu possa exercer sua defesa com proficiência. “Um réu em julgamento por um crime específico tem direito a seu dia em uma Corte, não no estádio, ou cidade ou uma arena nacional”131. O sentimento público, segundo Clarke, tem o poder de afetar o julgamento. Na medida em que a televisão tem o condão de afetar, e talvez até de definir, esse sentimento, ela pode retirar do acusado o direito ao julgamento justo. A pressão popular exercida sobre jurados e testemunhas para que promovam a condenação é algo que não pode ser provado processualmente, mas que é um dado da realidade, tanto que foi suficiente para convencer associações e órgãos públicos a banir as câmeras de cortes de justiça. Por todas essas razões, o voto do Justice Clark reconhece a incompatibilidade intrínseca entre o televisionamento de julgamentos criminais e o direito ao devido pr ocesso legal previsto na 14a emenda à Constituição dos Estados Unidos.
Chief Justice Warren, seguido pelos Justices Douglas e Goldberg, apresentou voto concorrente ao relator. O voto que profere é mais denso, sob o ponto de vista teórico, e menos ocupado dos efeitos empíricos das câmeras, analiticamente apreciados por Clarke. A conclusão pela incompatibilidade entre câmeras e cortes se assenta em três premissas: (i) as câmeras acabam por retirar dos julgamentos o seu propósito, com inevitáveis impactos sobre os participantes do processo; (ii) elas criam no público a impressão errada sobre os propósitos dos julgamentos criminais, afetando a dignidade da corte e reduzindo a confiabilidade dos julgamentos; e (iii) elas individualizam certos réus, submetend o-os a condições de julgamento muito mais duras e prejudiciais do que as experimentadas pelos demais. Warren recusa um teste de “prejuízo real” (actual prejudice) como parâmetro para que seja declarada a inconstitucionalidade de um julgamento específico, a ssim porque o prejuízo causado pela televisão “pode ser tão sutil que escapa aos métodos ordinários de prova”132.
Warren enxerga a atividade jurisdicional como um sacerdócio. Ele sustenta que o ocorrido no Texas foi uma “dessacralização da corte” por câmeras e repórteres.
131 Estes v. Texas, 381 U.S. 549 (1965).
132 Estes v. Texas, 381 U.S. 578.
A transmissão de julgamento entremeada por comerciais é um atentado à dignidade da jurisdição, segundo ele considera. A forma de organização dos juízos e tribunais no sistema americano compõe o que considera o conceito constitucional de julgamento justo. O Chief Justice chega a comparar o julgamento de Estes aos julgamentos em massa ocorridos em regimes ditatoriais.
A parte final da opinião de Warren tem por objeto as garantias do julgamento público e das liberdades de expressão e de imprensa. Quanto à publicidade, Warren afirma que tal garantia pertence, primeiramente, ao réu, objetivando impedir que os tribunais sejam utilizados como instrumentos de perseguição. O público também pode se beneficiar da abertura dos julgamentos, mas ela não confere nenhum benefício especial à imprensa ou, em particular, à indústria da radiodifusão. Warren afirma que se a entrada de um membro da imprensa , assim como qualquer outro membro do público, é regularmente permitida no julgamento, não há supressão da liberdade de imprensa. Trata-se de uma concepção moderada sobre o princípio da publicidade processual.
Justice Harlan apresentou voto em separado, concorrendo com o resultado, mas por fundamento diverso. O voto de Harlan é essencial para a compreensão do holding fixado pela Suprema Corte dos Estados Unidos. É a opinião dele que representa o voto médio que verdadeiramente exprime a opinião da Corte, eis que quatro juízes votaram pelo desprovimento do writ of certiorari – Clarke, Warren, Douglas e Goldberg – e outros quatro votaram pelo seu provimento – Stewart, Black, Brennan e White.
Harlan principia o voto reconhecendo que a televisão tem inegáveis potenciais perniciosos (mischievous potentialities, no original) para os processos judiciais.
Todavia, ler na constituição norte-americana uma proibição tout court à transmissão de julgamentos seria inibir o potencial experimental dos Estados que compõem a federação. Em casos altamente notórios, como o analisado, as considerações contrárias ao televisionamento superam fatores em sentido oposto, razão pela qual é de ser reconhecida a violação ao devido processo legal.
Harlan se recusa a enxergar na sexta emenda – que prevê a publicidade dos julgamentos – um direito subjetivo ao televisionamento, em favor dos grupos de mídia.
Na visão dele, um julgamento público requer apenas que a corte seja aberta àquele que desejar
entrar, sentar, se houver lugar disponível, observar e comportar-se com o decoro exigido pelo processo judicial. O potencial de ser espectador em um julgamento é o suficiente ao entendimento da garantia constitucional. Inexiste, portanto, um direito à transmissão, gravação ou de qualquer modo registrar o que lá acontece. O Justice anota que os direitos da imprensa estão limitados à porta da sala de sessões: uma vez no interior, os jornalistas têm os mesmos direitos e deveres que os demais membros do público.
Harlan afirma que os argumentos em favor do uso de câmeras não são especialmente persuasivos. A razão principal mais comum para o interesse do público em certo julgamento não é o eventual aprendizado, mas sim o drama humano e a curiosidade. Por outro lado, Harlan se refere ao amplo consenso existente entre as associações de juízes, advogados e nos Estados quanto ao banimento das câmeras em julgamento. Em conclusão, ele afirma que a corte não deve evitar um juízo quanto à constitucionalidade do televisionamento simplesmente em razão da possibilidade de mudança fática no futuro (i.e., quando a tecnologia permitir que as câmeras não sejam um transtorno). Quando e se esse dia chegar, a matéria poderá ser revista à luz do devido processo legal.
A minoria composta pelos Justices Stewart, Black, Brennan e White se recusou a reconhecer a existência de uma regra constitucional proibitiva de televisionamentos de casos criminais. A opinião da minoria começa por reconhecer a mutabilidade das técnicas de comunicação com o público. Registra que a regra proibitiva resultante do julgamento em questão é profundamente perigosa à liberdade de imprensa e comunicação, vinculadas à primeira emenda. Assim, a primeira parte do voto minoritário é dedicada à demonstração de que nenhum prejuízo efetivo ocorrera à defesa do réu. A minoria reconhece que o televisionamento traz sérios riscos de ordem constitucional, mas afirma que nenhum deles se verificou no caso concreto. Assim porque, em razão da intensa publicidade, os juízes de primeiro grau optaram pelo desaforamento, pela prorrogação do julgamento e, finalmente, os jurados foram mantidos em um ambiente separado (sequestration), sem acesso ao rádio ou à televisão durante todo o período em que o caso esteve sub judice. Durante o julgamento, fo i determinada a construção de uma cabine na parte de trás da sala de sessões, evitando-se assim que o aparato de televisionamento ocupasse espaço próximo às partes, jurados e juiz.
Embora inexista invocação da primeira emenda pelas partes, a minoria registra profunda preocupação com os impactos que a decisão poderá causar na livre
circulação de ideias e, mais especificamente, no direito do público de saber o que acontece nas cortes. Stewart afirma que impor aos meios de comunicação o ônus de justificar sua presença é um raciocínio estranho às liberdades da primeira emenda. Embora a minoria não reconheça um direito subjetivo ao televisionamento de julgamentos, ela também não reconhece uma proibição constitucional a tal atividade. Por este motivo, e pela inexistência de prejuízo específico demonstrado por Billie Sol Estes, desprovê o recurso.
2.2.2.1. Críticas à Estes e desdobramentos subsequentes
Como se vê, o tribunal trabalha com um juízo de probabilidade, baseado na experiência ordinária, quanto aos resultados produzidos pelas câmeras em relação aos julgamentos criminais133. A sua apreciação final é tremendamente negativa. Como somente três Estados da federação permitiam o televisionamento naquele momento histórico, e a tecnologia empregada para esta finalidade era bastante invasiva, somente casos problemáticos seriam capazes de alcançar a Suprema Corte. Estes reflete, portanto, o que deveria ser a exceção em se tratando de julgamentos televisionados: uma figura pública, amigo pessoal do Presidente, acusado de fraude financeira. É com base em um caso extremo e problemático que a Suprema Corte fez sua jurisprudência em 1965, o que lembra o velho ditado americano: hard cases make bad law (casos difíceis produzem jurisprudência ruim).
Vale registrar que a corte sequer considerou, em sua apreciação, outros modelos de televisionamento, como um realizado por televisões públicas. A maior parte das críticas dirigidas por Clarke e Warren se referem à forma como a mídia convencional trata os réus criminais – como mencionado antes, trata-se de um problema de tratamento das imagens e sons, e não algo intrínseco ao televisionamento – e à forma como a mídia se portou no interior dos julgamentos (desobedecendo às ordens judiciais, por exemplo). Regras claras sobre o comportamento de jornalistas e cinegrafistas no interior dos tribunais poderiam solucionar grande parte dos problemas apontados no julgamento de Billie Sol Estes. Uma
133 BARBER, Susanna. News camera in the courtroom, ob. cit., pp. 61-62. Em Turney v. Ohio, 273 U.S. 510, a Suprema Corte empregou inferência similar para declarar inconstitucional regra estadual que atrelava a remuneração dos juízes à condenação de réus. A corte considerou o procedimento tão inconsistente com a garantia do devido processo legal que optou por declará-lo inconstitucional, mesmo reconhecendo que os juízes norte-americanos, imbuídos de espírito público, não cederiam ao incentivo. É duvidoso que as câmeras tenham um potencial tão direto para desequilibrar a paridade de armas como o incentivo financeiro mencionado no caso.