3 O SISTEMA DE ENSINO VOCACIONAL:
EMBATES E CONTRADIÇÕES
Os anos de 1966 e 1967 corresponderam à fase de consolidação do Sistema de Ensino Vocacional. Nesse período, segundo a análise da documentação disponível, houve uma sistematização metodológica das atividades didático-pedagógicas, representada pela elaboração dos Relatos dos Supervisores das Áreas, em 1966, e pela organização de um Relatório Geral, das atividades desenvolvidas em cada ginásio, preparado pela orientação Pedagógica de cada Ginásio para o SEV, em 1967. Juntamente com essa sistematização, elaborou-se a ampliação que se estabeleceria a partir de 1968, com a criação do Curso Noturno, do Segundo Ciclo e do Ginásio Estadual Vocacional de São Caetano do Sul, onde deveria se realizar a experiência de Curso Ginasial em meio período.
Essa consolidação assinalava-se, também, pela superação de crises originadas de embates políticos entre o SEV e a própria Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.
foram uma constante em seu trabalho.120 Segundo relato de sua Coordenadora, em relação ao Ensino Vocacional:
Na Secretaria de Educação, era visível o interesse de alguns setores na revogação da legislação que permitiu essa experiência. Na verdade o Serviço do Ensino Vocacional viveu ao longo de sua existência um processo de permanente tensão, desde os tempos do governador Adhemar de Barros. Os vários setores do governo usaram de todos os meios para opor-se ao Ensino Vocacional, no que sempre foram apoiados pelo Departamento de Educação da Secretaria de Educação. Adhemar de Barros era famoso pela prática de corrupção administrativa. Sob seu governo, foram mudados os quadros das Secretarias de Estado, e na Educação não foi diferente. O novo secretário da Educação, Dr. Ataliba Nogueira, conhecido professor da Faculdade de Direito da USP, era também uma figura conhecida nos meios políticos e intelectuais como reacionário (MASCELLANI, 1999, p. 97).
Ainda segundo Maria Nilde, a corrupção vigente no governo Adhemar de Barros, chegou até o Serviço do Ensino Vocacional de modo grosseiro (Idem, 1999, p. 98). A Coordenação do SEV, era alvo de solicitações da esposa do governador (Leonor Mendes de Barros), dos titulares das Casas Civil e Militar, do Gabinete do Secretário da Educação e de deputados estaduais do Partido Social Progressista – PSP, tradicional agremiação política liderada pelo governador. As solicitações eram para contratação de professores e vagas para alunos, sem que se cumprissem as normas e critérios de seleção do SEV. Os pedidos eram completados por ameaças de cortes de verba, de cancelamento de comissionamentos de professores ou técnicos.
Em 1965, em artigo publicado no dia 13 de fevereiro, o jornal O Estado de São Paulo informava os seus leitores sobre o Planejamento do ensino vocacional, destacando o trabalho realizado pelo conjunto de todos os professores dos ginásios vocacionais que, durante duas semanas, estiveram reunidos no ginásio da Capital. Além de planejar as atividades para o ano letivo, os professores tiveram contatos com especialistas em vários ramos da cultura,121 o que contribuía para o êxito do planejamento que se encerrou com a apresentação de um grupo coral e outro de jograis, integrados pelos professores (EFS, Cx. 6, G. I, Doc. 4).
120 O Sistema de Ensino Vocacional conviveu com quatro governos estaduais, durante os quais houve nove titulares da Secretaria da Educação dos quais cinco são mencionados por sua relação com momentos específicos da história do Vocacional: governo CARLOS ALBERTO ALVES DE CARVALHO PINTO, de 31/01/1959 a 31/01/1963, Secretários: Luciano Vasconcelos de Carvalho, Carlos Pasquale; governo ADHEMAR PEREIRA DE BARROS de 31/01/1963 a 05/06/1966 (quando foi cassado pelo Governo Federal), Secretários: Padre Baleeiro, Ataliba Nogueira ; LAUDO NATEL, de 06/06/1966 a 15/03/1967 e ROBERTO COSTA DE ABREU SODRÉ, de 15/03/1967 a 15/03/1971. Secretário: Ulhoa Cintra.
121 O artigo menciona a presença dos professores: Oliveiros S. Ferreira; Juvenal Veiga Soares; Rudyl Pia Macedo de Queiroz; Ricardo Giancolli; Antonio Ruffo; Pasquali Petrone; Renato Silveira Mendes e João Teodoro d´Olim Marote
Tão auspiciosamente anunciado, esse sofisticado trabalho de planejamento (em relação à total ausência de qualquer procedimento semelhante na rede pública), foi conturbado, no ginásio da capital, logo no início do ano letivo; o não atendimento à solicitação de matrícula do filho de um funcionário de confiança do Secretário da Educação, que não atendia aos critérios de seleção do Ginásio Estadual Vocacional Oswaldo Aranha, desencadeou o episódio que se tornou conhecido como a crise de 65.
A reação do Secretário foi determinar o afastamento da Diretora Administrativa do Ginásio, professora Thomyres Alves. A Coordenadora do SEV e seus assessores, bem como os professores, em protesto contra a atitude do Secretário e em solidariedade à diretora afastada, colocaram seus cargos à disposição. As professoras Maria Nilde Mascellani e Olga Bechara, que havia assumido, interinamente, a direção do Ginásio, foram descomissionadas, devendo, portanto, afastarem-se dos cargos que ocupavam no Vocacional. Em seguida, Ataliba Nogueira nomeou Lygia Furquim Sim e Joel Martins, que haviam participado da equipe criadora do Vocacional, respectivamente, para a Coordenação do SEV e para a Direção do G.V. Oswaldo Aranha.
Uma pequena nota, publicada no dia 8 de março, pelo jornal Folha de São Paulo, traz a seguinte observação: Ginásio Vocacional – do Brooklin, em crise, por alegada interferência política. Antes que a coisa se complique uma explicaçãozinha sua, prof. Ataliba, sempre tão gentil (EFS, Cx. 6, G. I – 2 B, Doc. 24).
Não se registrou nenhuma explicação do Secretário e todo o Sistema de Ensino Vocacional reagiu: pais de alunos, professores, os próprios alunos do G. V. Osvaldo Aranha e dos ginásios do interior se manifestaram contra as atitudes do titular da pasta da Educação e se movimentaram para reverter a situação.
Essa reação teve ampla cobertura da imprensa paulista: jornais, rádios e a televisão se ocuparam do problema. No acervo reunido por Edneth Ferrite Sanches, há 37 documentos sobre o caso, dos quais seis são cópias de ofícios de pais e professores sendo todos os outros artigos de jornais. Em geral, as posições assumidas são de protesto contra as atitudes do Secretário, tanto determinando a matrícula do aluno como demitindo as professoras. As manifestações são no sentido de defender e assegurar a continuidade da experiência; na defesa das dirigentes do SEV e do Ginásio, insiste-se que não se trata, simplesmente, das pessoas envolvidas, mas da importância que as mesmas tinham tido na criação e continuavam tendo na implementação da experiência de renovação educacional.
Nesse sentido, um exemplo significativo é o documento citado a seguir:
CONCLUSÕES DO DOCUMENTO QUE OS ASSESSORES E SUPERVISORES DO SERVIÇO DO ENSINO VOCACIONAL E DOS ORIENTADORES DOS CINCO GINÁSIOS VOCACIONAIS DO ESTADO ENCAMINHARÃO AMANHÃ (TERÇA-FEIRA) À PROFA.
LIGIA FURQUIM SIM.
Cópias desse documento foram entregues à Associação de Pais para que dele tomem conhecimento.
1. Um sistema de ensino é significativo não somente pelas pessoas que o realizam mas pela filosofia que o conduz.
2. O sistema que se define como educação democrática não poderá prosseguir se a própria vivência democrática sofrer solução de continuidade.
3. Entendemos que, em regime de normalidade, qualquer substituição, eventual ou permanente, é perfeitamente justificável e aceita uma vez que essa substituição não envolve uma filosofia.
4. na situação presente, conformar-se com uma substituição de elementos da equipe implicaria na negação dos princípios que norteiam o nosso trabalho.
5. Entendemos que a solução intermediária de substituição de um líder não seria a solução efetiva que o momento de nossa vida escolar exige.
6. Em todo mecanismo de liderança, a substituição de um líder só poderá ser real se estiver condicionada a todo um processo natural e espontâneo.
7. Entendemos que a aceitação da atitude de renúncia honesta e leal, da Coordenadora afastada, sugerindo nomes de professores da rede para sua substituição, significaria o rompimento de uma posição educacional filosófica.
8. Entendemos que nós, educadores, não teríamos resposta de ordem moral para nossos alunos quando fôssemos acusados de fraquejar na defesa dos objetivos de nosso trabalho.
9. Entendemos que não há, nos propósitos que nos unem, nenhum culto a pessoa ou uma defesa personalista, mas tão-somente uma coerência entre princípios e ação democrática.
10. Entendemos que, se fomos convocados para planejar um tipo de escola, onde se desse ênfase especial ao plano de educação moral, social e cívica desenvolvida através de vivência democrática, estaríamos fugindo a este propósito no momento que acolhêssemos uma solução intermediária.
11. Entendemos que será muito mais honesto abandonar a obra (que perderia, mesmo, seu espírito, na situação presente) do que conciliar aspectos de ordem material e social que, não a representando, não poderiam ser justificados.
12. Entendemos que, se a situação de realidade que vivemos comporta e exige mesmo tentativas de adequação da escola às novas situações, realizadas no País ou fora dele, todas elas merecem nosso respeito.
13. Considerando que tais tentativas envolvem problemas de formação de personalidade, há necessidade de se ter bem presente a coerência entre o que se propõe e o que se realiza, coerência que deve ser mantida mesmo em situação de crise.
14. Considerando o exposto, reafirmamos nossa solidariedade à Coordenadora afastada, reiterando em caráter irrevogável, na próxima terça-feira, dia 23, nosso pedido de demissão, sempre dentro do espírito de ordem, disciplina e respeito à autoridade investida, princípios