2.1 AS PRINCIPAIS MUDANÇAS, NOS ÂMBITOS PENAL E PROCESSUAL
2.1.1 O CARÁTER PROGRAMÁTICO DO ART . 14 DA LEI 11.340/06, PERTINENTE A
Sabe-se que a Lei Maria da Penha, inspirada pelo Princípio da Especialização, prevê em seu art. 14, a criação de Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher – JVDFM’s, in verbis:
Art. 14. Os juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, órgãos da Justiça Ordinária com competência cível e criminal, poderão ser criados pela União, no Distrito Federal e nos Territórios, e pelos Estados, para o processo, o julgamento e a execução das causas decorrentes da prática de violência doméstica e familiar contra a mulher.
Observa-se que, nitidamente o legislador designou a competência da Justiça Comum Estadual, para processar, julgar e executar as suas demandas, tanto na esfera cível quanto na criminal, visto que o artigo em comento prevê, expressamente, a possibilidade de criação dos JVDFM’s pela União, Distrito Federal e pelos Estados.
Contudo, conforme expõe Souza77, existe a hipótese de o agente ser uma autoridade, detentora foro privilegiado por prerrogativa de função,
77 SOUZA, Sérgio Ricardo de. Comentários à lei de combate à violência contra a mulher: Lei Maria da Penha 11.340/06 – comentários artigo por artigo, anotações, jurisprudência e tratados
devendo este ser julgado pelo Superior Tribunal de Justiça (CF, art. 105, I) ou Supremo Tribunal Federal (CF, art. 100, I, “b”), pois prevalece o foro especial sobre JVDFM.
Aliás, também existe outra possibilidade, pois “a Constituição Federal autoriza que o Procurador Geral da República suscite, perante o Superior Tribunal de Justiça, incidente de deslocamento de competência para a Justiça Federal”78, haja vista as hipóteses elencadas no texto do art. 109, V-A, § 5º, da Constituição Federal.
Todavia, certo é que as duas hipóteses supracitadas são exceções, restando à Justiça Ordinária Estadual, apreciar as causas decorrentes da violência doméstica e familiar contra a mulher.
Por isso, expressamente afastou a Lei dos Juizados Especiais – Lei 9.099/2006, segundo o art. 41 da Lei Maria da Penha.
Sobre essa idéia, cumpre ressaltar as palavras de Souza79: A opção de criar um Juizado com uma gama de competências tão ampla está vinculada à idéia de proteção integral á mulher vítima de violência doméstica e familiar, de forma a facilitar o acesso dela à Justiça, bem como possibilitar ao juiz da causa tenha uma visão integral de todos os aspectos que envolvem, evitando adotar medidas contraditórias entre si, como ocorre no sistema tradicional, onde a adoção de medidas criminais contra o agressor são de competência do Juiz criminal, enquanto que aquelas inerentes ao vínculo conjugal são da competência, em regra, do Juiz de Família80.
internacionais. p. 96.
78 DIAS, Maria Berenice. A Lei Maria da Penha na Justiça: a efetividade da Lei 11.340/2006 de combate à violência doméstica e familiar contra a mulher. p. 61.
79 SOUZA, Sérgio Ricardo de. Comentários à lei de combate à violência contra a mulher: Lei Maria da Penha 11.340/06 – comentários artigo por artigo, anotações, jurisprudência e tratados internacionais. p. 95-96.
80 Enunciado 12 – Os Juizados de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher, quando instalados, deverão ter competência cível e criminal, abrangidas as questões de direito das famílias. (Aprovado no Encontro promovido pela Supervisão das Varas Criminais do TJ/ES, sobre a Lei 11.340/06).
Entretanto, ao não designar a criação dos JVDFM’s, o legislador lotou de discricionariedade a criação desses Juizados, ou seja, esta norma tem apenas cunho programático.
Acerca dessa programática, citam-se as palavras de Souza81:
O legislador preferiu “facultar” a criação desses Juizados, já que usou o verbo “poderão”, e não, “deverão”, isso provavelmente para evitar a alegação de desrespeito à autonomia das Unidades federadas, mas em contrapartida gerou um sério risco de que não haja a efetiva criação desses Juizados ou que sejam criados sem a estrutura física e funcional imprescindível ao seu funcionamento.
Assim, enquanto não sejam criados os JVDFM’s, tem-se que as demandas deverão ser deslocadas para as Varas Criminais, conforme expõe o texto do art. 33, da Lei 11.340/06, in verbis:
Art. 33. Enquanto não estruturados os Juizados de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher, as varas criminais acumularão as competências cível e criminal para conhecer e julgar as causas decorrentes da prática de violência doméstica e familiar contrata mulher, observadas as previsões do Título IV desta Lei, subsidiada pela legislação processual pertinente.
Aliás, parece “ser bastante estranho, inclusive do ponto de vista do princípio constitucional do juiz natural, esta competência cível “delegada”
a um juiz de competência criminal”82.
Observa-se que este questionamento, faz insurgir dúvidas quanto a (in)constitucionalidade do art. 33, visto ser de competência privativa do Tribunais “eleger seus órgãos diretivos e elaborar seus regimentos internos, com observância das normas de processo e das garantias processuais das partes, dispondo sobre a competência e o funcionamento dos respectivos órgãos
81 SOUZA, Sérgio Ricardo de. Comentários à lei de combate à violência contra a mulher: Lei Maria da Penha 11.340/06 – comentários artigo por artigo, anotações, jurisprudência e tratados internacionais. p. 95.
82 MOREIRA, Rômulo de Andrade. A lei Maria da Penha e suas inconstitucionalidades. São Paulo:
RT, 2008. p. 212.
jurisdicionais e administrativos”, segundo art. 96, inciso I, alínea a, da Constituição Federal.
Diante disso, cumpre ressaltar a posição de Cunha e Pinto83: [...] ao determinar a acumulação, por uma vara criminal, de competência cível e criminal, o legislador infraconstitucional invadiu matéria de competência exclusiva dos respectivos tribunais, rompendo com a regra que garante a independência dentre os poderes e assegura o “autogoverno da Magistratura” [...]
a alteração de competência, assim como a criação de novas varas (art. 96, I, d, da CF), é matéria, portanto, que não admite ingerência de outro poder (no caso, o Poder Legislativo), pelo que a lei, nesse tópico, contém vicio de inconstitucionalidade.
E ainda, na obra de Cunha e Pinto84 cita-se a observância do supracitado pelo Deputado Antonio Carlos Biscaia, como membro da CCJC – Comissão de Constituição e Justiça e da Cidadania, que apresentou voto em separado identificando tal inconstitucionalidade, ao tempo em que tramitava o projeto que deu origem a Lei 11.340/06.
Diante disso, oportuna ressaltar o Enunciado 8685: “É inconstitucional o art. 33 da Lei 11.340/2006 por versar matéria de organização judiciária, cuja competência legislativa é estadual (art. 125, § 1º, da Constituição Federal)”86, resultante do Encontro de Juízes dos Juizados Especiais Criminais e de Turmas Recursais do Estado do Rio de Janeiro.
Portanto, conclui-se ser imprescindível a criação dos JVDFM’s, diante a inconstitucionalidade da norma. Além disso, posto que o procedimento adotado até o momento, faz gerar acúmulo de processos, que
83 CUNHA, Rogério Sanches; PINTO, Ronaldo Batista. Violência doméstica: Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006) – comentada artigo por artigo. p. 174.
84 CUNHA, Rogério Sanches; PINTO, Ronaldo Batista. Violência doméstica: Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006) – comentada artigo por artigo. p. 167.
85 O encontro foi realizado em setembro de 2006, em Búzios. Os enunciados foram publicados no DOE do Rio de Janeiro, em 11.09.2006, e podem ser consultados, ainda, no Informativo 37/2006, da Adv/Coad.
86 CUNHA, Rogério Sanches; PINTO, Ronaldo Batista. Violência doméstica: Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006) – comentada artigo por artigo. p. 167.
certamente acarretarão aos demais processos problemas quanto a sua tramitação.
E ainda, ressalta-se que somente os JVDFM’s terão legitimidade para apreciar, julgar e executar os processos dessa natureza.
2.1.2 A exigibilidade da lavratura de inquérito policial, na apuração do delito