CAPÍTULO II REDES SOCIAIS E CONFLITOS JURÍDICOS
2.3. Casos relevantes
O mundo virtual tem gerado vários conflitos, pode se dizer ser uma sociedade paralela, e muita das vezes aquilo que é exposto nas redes sociais, pode gerar dano a alguém.
A internet tem tido vários tipos de conflito entre princípios constitucionais como direito a privacidade e a liberdade de imprensa no qual será feito uma abordagem referente aos seguintes casos: caso Mônica Iozzi vs Gilmar Mendes; Caso Marcela Temer vs Folha de São Paulo; Caso Ricardo Coutinho; Caso Denise Pieri Nunes;
2.3.1. Caso Mônica Iozzi vs. Gilmar Mendes60
A atriz Mônica Iozzi foi condenada a pagar indenização ao ministro Gilmar Mendes, pelo fato de ter, por meio da rede social (Instagram), publicado uma foto sua transpassada na diagonal pelo questionamento “cúmplice?”, com a seguinte legenda: “Gilmar Mendes concedeu Habeas Corpus para Roger Abdelmassih, depois de sua condenação a 278 anos de prisão por 58 estupros”. Narra ainda, que na descrição de sua publicação a atriz teceu o seguinte comentário: “Se um ministro do Supremo Tribunal Federal faz isso… Nem sei o que esperar…”.
Nos argumentos contidos na Exordial, o Ministro Gilmar Mendes alega estar sendo ofendido em sua honra, através da associação do Ministro a prática de crimes e imputação de cumplicidade referente aos crimes de estupros de Roger Abdelmassih.
Em sua defesa, a atriz alegou que não houve dano e que somente exercia sua livre manifestação do pensamento, presente no Direito Constitucional, através do art. 5º, inciso IV61.
A questão jurídica em análise é o confronto entre os Princípios Constitucionais 60 BRASIL. Tribunal de Justiça do Distrito Federal. Ação de Indenização por Danos Morais. Requerente:
GILMAR FERREIRA MENDES Requerido: MONICA IOZZI DE CASTRO. Sentença. Julgador: GIORDANO RESENDE DA COSTA. Disponível em: <http://cacheinternet.tjdft.jus.br/cgibin/tjcgi1?>. Acesso em:
29/10/2017.
61 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm>. Acesso em: 20/05/2018.
Liberdade de Expressão e o Direito à Honra.
Em sua sentença, o Juiz Giordano de Rezende entendeu que a mesma exagerou na sua liberdade de expressão e acerca da Responsabilidade Civil contemplada nos artigos 186 e 927 do Código Civil62, condenou a atriz ao pagamento no valor de trinta mil reais a fim de compensar o dano causado ao autor pelo uso indevido de sua imagem.
2.3.2. Caso Marcela Temer vs. Folha de São Paulo63
O que ensejou a ação com relação ao caso Marcela Temer foi um pedido de liminar, proibindo a veiculação de reportagem sobre a chantagem recebida pela autora por um Hacker.
A questão jurídica em análise é o conflito entre Princípios Constitucionais, como, direito a intimidade, privacidade, liberdade de expressão e liberdade de imprensa.
A autora alegou que eventuais reportagens sobre o material encontrado no celular trazia risco à intimidade e à vida privada, e poderia violar o sigilo de comunicações.
Em contrapartida a ré, Folha de São Paulo, argumentou que todas as informações obtidas pelo jornal foram extraídas de ações judiciais públicas e de livre acesso, e que vinham sendo acompanhadas há meses por repórteres.
O juiz Hilmar Castelo Branco Raposo Filho, da 21ª Vara Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, proibiu que o jornal Folha de São Paulo e outros veículos, publicassem informações obtidas do celular da primeira-dama por um hacker, e alegou violação a intimidade de Marcela Temer.
Com relação ao caso, houve diversas manifestações nas redes sociais relacionadas à decisão do juiz Hilmar, muitos argumentaram que a liminar concedida, proibindo a veiculação da informação seria censura prévia, sendo que a mesma é proibida na Constituição de 88, pois restringe o direito de informação que todos têm direito.
2.3.3. Caso Ricardo Coutinho64
62 BRASIL. Código Civil. Lei 10.406, de 10 de janeiro de 2002. 1ª edição. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2002.
63NEITSCH, Joana. Caso Marcela Temer expõe conflito entre privacidade e liberdade de imprensa.
Disponível em: <http://www.gazetadopovo.com.br/vida-publica/justica-e-direito/caso-marcela-temer-expoe- conflito-entre-privacidade-e-liberdade-de-imprensa-1kx3razfcl6tfl2p3lk383l05>. Acesso em: 29/10 /2017.
64 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. LIMINAR DE RECLAMAÇÃO. Rcl 24760. Disponível em:
O judiciário atualmente acumula decisões em que há o pedido de remoção de conteúdo das redes sociais, como no caso envolvendo o Governador da Paraíba, Ricardo Coutinho.
No pedido Ricardo Coutinho pleiteou, pela remoção ou bloqueio do perfil da ré Pâmela Bório, no Instagram e Facebook, em razão das mensagens publicadas que maculam a imagem do autor, homem público e atual Governador do Estado da Paraíba, por se tratar de publicações inverídicas, difamatórias, injuriosas e caluniosas no instagram e facebook contra o autor.
No referido caso, houve o conflito entre Princípios Constitucionais, liberdade de expressão e direito a honra. O autor alega que tal publicação denigre a usa honra e a ré alegou exercer sua liberdade de expressão e o direito a informação, consagrado na Carta Magna.
O juiz da 7ª Vara Cível de João Pessoa (PB) afirmou que as mensagens maculavam a imagem do governador ao estabelecer relação indireta com fatos criminosos sem apresentar provas.
Na reclamação, a jornalista alega que a decisão afrontou o julgamento do STF na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF 130).
O caso foi para o Supremo no qual o Ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), concedeu liminar na Reclamação (RCL) 24760 suspendendo os efeitos de decisão que determinou a remoção de postagens da rede social Instagram, da jornalista, relativas ao governador da Paraíba, Ricardo Coutinho.
2.3.4. Caso Denise Pieiri Nunes65
No caso, a promotora Denise Pieri Nunes, ajuizou demanda judicial contra Google, Yahoo e Microsoft em 2009, questionando a existência de resultados de buscas na internet envolvendo seu nome relacionado a reportagens sobre suspeitas de fraude do XLI Concurso da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro.
Na época, o Conselho Nacional de Justiça, ao analisar o caso, entendeu que não havia elementos suficientes para confirmar a fraude, mas reconheceu problemas em práticas
<http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=328743>. Acesso em: 18/05/2018.
65 GALLI, Marcelo. STJ julga caso que discute desindexação de resultado de pesquisa na internet.
Disponível em: <https://www.conjur.com.br/2017-nov-06/stj-julga-desindexacao-resultado-pesquisa-internet>.
Acesso em: 25/05/2018.
adotadas pela organização do concurso.
Denise alegou que a indexação dos resultados relacionados ao conteúdo causaria abalos à sua dignidade, e pediu a filtragem dos resultados de busca por seu nome, desvinculando-a de quaisquer reportagens relacionadas aos fatos.
Após o ocorrido, ela passou em outro concurso público e atualmente exerce cargo de promotora de Justiça no Rio de Janeiro.
Contra a decisão, o Google interpôs recurso especial no STJ pedindo a aplicação da jurisprudência consolidada no tribunal sobre a impossibilidade de ordem de remoção e, mais ainda, de monitoramento prévio direcionado a provedor de buscas na internet — especialmente em um contexto de informação de notório interesse público.
Em primeira instância, a sentença julgou os pedidos improcedentes. O magistrado entendeu que os sites de busca não são responsáveis pelo conteúdo das notícias encontradas pelos internautas.
O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, porém, reformou a decisão para condenar as três empresas a instalarem filtros de conteúdo que desvinculassem o nome da autora das notícias sobre a suposta fraude, sob pena de multa diária de R$ 3.000,00 (três mil reais).
O voto de desempate foi dado pelo ministro Paulo de Tarso Sanseverino, determinando a desindexação do conteúdo. O ministro argumentou que “os sites de busca se tornaram importantes ferramentas, especialmente para consultar fatos e informações sobre pessoas, podendo apresentar dados que prejudicam o indivíduo pesquisado a depender dos links apresentados”.
Há uma singular característica, com relação às decisões acimas descritas, em todas elas, usam os mecanismos de controle judicial, como remoção, ou mesmo, impedem a veiculação de informação, em defesa dos princípios das personalidades quando confrontados com a liberdade de expressão e informação.
Não há como negar que a convivência virtual tem que respeitar os direitos de todos, porém, a internet é uma importante ferramenta para o fortalecimento da democracia se usada de maneira racional por toda sociedade.
CAPÍTULO III – LIBERDADE DE EXPRESSÃO, LIBERDADE DE IMPRENSA E