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“A ideologia dominante produz a ideia de que o centro velho não é mais o centro da cidade. Ela teria agora um centro novo.” (VILLAÇA, 2001, p. 346).

Essa ideologia (que outrora foi utilizada para legitimar o que agora é considerado velho, agora passa a ser empregada sobre uma nova área), difundida por uma pequena parcela da população, inculca na mente da maioria a ideia de que o centro é a área onde estão localizadas as atividades da classe dominante. Ideologia que facilita a ação do estado, pois privilegia essa parte do território em função desta ser considerada a mais importante do município, por ali estarem concentradas as atividades econômicas, culturais, religiosas e políticas, ou seja, de dominação da sociedade. Assim, quando o Estado investe nesta área, significa investir na cidade; protegê-la através da legislação urbanística, é o mesmo de proteger a cidade e quando o Estado transfere seus aparelhos para o centro novo criado pelas e para as burguesias, está transferindo-os para o novo centro da cidade (VILLAÇA, 2001, p.

350).

Nesse sentido, se o centro histórico é reconhecido como tal por ser da classe dominante, com o seu abandono por esta classe, e a construção de um novo, destinado a ela, não seria este novo centro, o principal? Esta afirmação possui uma lógica, ou ideologia, do capital, que coloca o centro como algo pertencente à minoria da população e, desta forma marginaliza grande parte da população. Porém, concordamos com Villaça, pois entendemos que o centro principal é aquele pertencente à maioria da população (2001, p. 283). O que ocorre, na verdade, é o deslocamento das atividades, que antes estavam no centro, para uma

nova área, em Campos esta nova área é a Pelinca, pois segundo Villaça, as camadas de mais alta renda levam o centro a deslocar-se em suas direções de forma que “[...] mesmo quando se afastam dele, esse afastamento [...] é [...] em parte neutralizado pelo deslocamento do próprio centro na direção delas.” (2001, p. 249).

Considerando o centro a partir de sua capacidade de atrair a maior parte das pessoas para o seu interior em função de seus elementos internos, e isso o “centro velho” ainda possui grande força de polarização sobre o município e de seus vizinhos, fazendo com que esta área ainda possua grande valor para o mercado (comercial e de serviços). Atualmente ele tem passado por um processo de requalificação (Figura 41), pois, apesar do crescimento de

“outros centros”, ele continua polarizando pessoas e atividades. Segundo Féres, o centro principal, com sua base comercial concentrada nas Ruas João Pessoa, Lacerda Sobrinho, Santos Dumont e Theothônio Ferreira de Araújo, ainda se sobrepõe à Pelinca em relação a vendas, mesmo com o comércio extremamente sofisticado, elitizado e com toda a infraestrutura local. (2009, p. 43). Isso demonstra grande atratividade que esta área ainda apresenta para o comercio e para os serviços. Nesse sentido, Villaça, tratando dos centros das metrópoles brasileiras, afirma:

Os centros de nossas metrópoles, apesar de suas notórias “decadências”, continuam sendo os focos irradiadores da organização espacial urbana.

Continuam sendo a maior concentração de lojas, escritórios e serviços – e também de empregos [...]. Atendem a mais população do que qualquer outro centro [...], uma vez que atraem maior número de viagens (VILLAÇA, 2001, p. 246).

Figura 41 - Processo de requalificação do centro: obra de revitalização e rua já revitalizada (continua).

Processo de requalificação do centro: obra de revitalização e rua já revitalizada (continuação).

Fonte: Arquivo pessoal.

Desta forma, o centro principal ainda possui grande atratividade de pessoas em função dos serviços que oferece, do comércio, dos empregos e de sua grande acessibilidade em relação aos outros pontos do município. Ali, ainda estão concentrados grande parte dos empregos; das lojas, de diversos segmentos, de diferentes lugares, nacionais e internacionais;

dos serviços, os mais diversificados, tais como, bancos, escritórios, consultórios médicos e dentário; jornais; Igrejas, de diversas religiões; etc. Além disso, forma-se o principal terminal rodoviário da cidade, o Terminal Central, para e de onde praticamente todas as linhas municipais se dirigem. Isso faz com que este ponto da cidade ainda possua grandes e numerosos elementos de centralidade, fazendo dele, ainda, um ponto bastante importante.

Nesse sentido, a título de comparação, um levantamento de farmácias existentes na década de 1930 indicou que das doze mencionadas, duas estavam na João Pessoa, duas na Santos Dumont, três na Avenida 15 de Novembro, uma na 7 de Setembro, uma na Rua dos Andradas, uma na Tenente Coronel Cardoso, uma na Carlos de Lacerda e, apenas, uma na Avenida Pelinca. (CARVALHO, 1991, p. 106). Ou seja, apenas uma estava localizada na Pelinca e, consequentemente fora do centro histórico. Atualmente existem cerca de vinte, entre farmácias e drogarias, no centro antigo, enquanto na Pelinca há aproximadamente dez, das quais seis estão localizadas na Av. Pelinca, demonstrando que apesar do surgimento de um novo centro altamente concentrador, o centro histórico ainda possui maior centralidade.

Os bancos, apesar de sua grande concentração na Pelinca, principalmente em sua avenida principal, possuindo seis das nove agências existentes nesta área, ainda concentram- se, como as farmácias, no centro principal, contabilizando um total de dezesseis agências nessa parte historicamente concentradora do território campista.

Por isso, apesar do grande crescimento apresentado pela Pelinca a partir do final do século XX, o centro antigo ainda possui grande diversidade de elementos que expressam sua centralidade intra-urbana, e até mesmo interurbana, fazendo dele, ainda; do ponto de vista econômico, cultural, social e, mesmo, político, pois, apesar dos poderes legislativo, judiciário e executivo não estarem mais concentrados nesta área, ali se concentram as pessoas, instituídas do verdadeiro poder de decisão; o local de maior concentração de atividades e de pessoas, e para onde grande parte destas se dirigem, ou seja, este ponto da cidade ainda é o centro principal. Nas figuras 42 e 43 é possível perceber tal concentração a partir da visualização da distribuição de equipamentos e serviços na área onde se formou historicamente o centro principal e no seu entorno, onde a cada momento dessa história houve a expansão da área central, fazendo dela cada vez mais esparsa, concentrando também nesse entorno as atividades que cresciam no núcleo inicial. A partir da análise de tais cartogramas e sua comparação com a figura 30, distribuição de equipamentos e serviços na região da Pelinca, pode-se perceber a maior concentração de atividades comerciais e de serviços na área do centro histórico, ou principal.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como visto, historicamente o processo de formação das cidades, que se intensifica principalmente a partir do capitalismo industrial, cria áreas diferenciadas, como reflexo do próprio sistema social, dividido em classes, proporcionando preponderância a certos locais, onde as classes dominantes se estabelecem, com suas residências, comércios e serviços.

Tais áreas, destinadas a essas atividades e para essa parcela da população, permanecem sobrevalorizadas (pois sua utilização pelas camadas mais abastadas da sociedade, para a satisfação de suas necessidades, as estabelece como ponto para onde todos querem se instalar, ou melhor, área onde todas as atividades desejam funcionar) até quando um conjunto de fatores favorece a execução das atividades hegemônicas de forma satisfatória.

Ou seja, até quando favoreça os interesses de uma pequena parcela da população, essa que historicamente teve, e ainda tem o poder econômico, político e ideológico para garantir que as amenidades do local onde estão instaladas permaneçam, e até aumentem, estabelecendo o melhor ponto da cidade, através de investimentos, geralmente do poder público para a criação ou melhorias de infraestrutura e de serviços.

Em Campos dos Goytacazes, como em todas as cidades na história, essa área (que favorece e ao mesmo tempo é favorecida pela classe dominante) sempre foi o centro da cidade, que historicamente se formou como tal, porém a partir do final do século XX, com as mudanças sociais, econômicas, políticas e culturais há uma mudança na própria configuração espacial do município e da cidade. E o centro não poderia deixar de escapar, principalmente porque, sendo a parte mais dinâmica do município, onde se concentram atividades (serviços, comércios, residências) e pessoas, passa a ser o local, de certa forma, mais afetado.

As transformações pelas quais tem passado o centro são resultado de um processo de estruturação constante, este que qualquer espaço apresenta quando inserido numa lógica social em permanente processo de transformação. Desta forma, em Campos, inicialmente ocorre a saída das classes mais favorecidas do centro e, posteriormente, sua ocupação pelo comércio e serviços. Porém, não mais voltados apenas para tal parcela da população, ou seja, passando a atender, cada vez mais, a grande massa dessa população que nesse momento passa também a se infiltrar nesse espaço.

Com esse deslocamento das classes mais favorecidas, inicialmente para o Jardim Maria de Queiroz e depois em direção a Pelinca, há a formação de um novo núcleo voltado inicialmente para tais classes e para onde o poder público começa a investir grande parte dos seus recursos – que antes eram concentrados no centro, passando por um processo de

desconcentração, principalmente na direção seguida pela elite, Jardim Maria de Queiroz e posteriormente na Pelinca (Av. Pelinca e seu entorno) –, tais como a criação de infraestruturas e serviços públicos (até mesmo a Prefeitura se instala no entorno desse novo bairro voltado para as classes dominantes), gerando a valorização de toda essa área, ou seja, até mesmo o entorno desse novo núcleo ganha prestígio e equipamentos, e cada vez tendendo a atrair mais atividades e pessoas.

Nessa produção social, do poder público e privado, que acaba sendo apropriada por apenas uma pequena parte da população, ou seja, aquela que pode pagar os altos custos do solo, dos aluguéis, ou mesmo da manutenção de um imóvel nesse lugar, há o surgimento de um novo centro comercial bastante diversificado e que cada vez mais se destaca na escala municipal, e mesmo intermunicipal, ao atrair também pessoas de outros municípios, durante o horário comercial, com suas lojas, serviços de bancos, restaurantes, serviços médicos e odontológicos, entre outros; e durante a noite, após o horário comercial, através dos seus bares e restaurantes, que atraem um grande número de pessoas, geralmente das classes de maior poder aquisitivo, fazendo com que as lojas deste local também funcionem num período maior de tempo que as da área central.

Contudo, apesar dessa grande expressividade apresentada por esse novo centro, em função de suas residências e edifícios, comércio e serviços (públicos e privados), o centro histórico, que historicamente se estabeleceu como centro principal, não perdeu o seu espaço, e continua a concentrar ainda um grande número de atividades comerciais e de serviços maior do que aquela encontrada no novo centro, a Pelinca. Sendo assim, o “centro velho” ainda possui poder polarizador maior que o “novo centro” em relação à quantidade de pessoas que atrai, pois no primeiro além do grande número de empregos que concentra, fazendo com que um grande contingente de trabalhadores para lá se desloque todos os dias e por ali tenha de satisfazer suas necessidades de comércio e serviços, há o terminal rodoviário central, para onde praticamente todas as linhas se dirigem, fazendo com que grande parte da população tenha necessidade de passar pelo centro histórico.

Por tais motivos, reconhecemos ainda a preponderância do centro histórico, pois, apesar da saída do poder político e de algumas atividades comerciais, ele ainda possui a força econômica, através do seu forte comércio e do setor de serviços (públicos e privados), religioso, ali estão concentradas as principais igrejas, de diversas religiões, e principalmente por sua força social, ou seja, por sua força de conter em seu interior, durante um longo período do dia, grande parte das pessoas do município, e mesmo de outros.

Por isso, os elementos que estabelecem as centralidades continuam grandemente concentrados no centro histórico, fato percebido na entrada cada vez maior de novos estabelecimentos, apesar de certa tendência de desconcentração, algumas áreas passaram a possuir núcleos comerciais, principalmente a Pelinca, que possui grande concentração de tais elementos e que também tem atraído, cada vez mais, novos estabelecimentos. Porém, esta desconcentração se mostra relativa, pois apesar de algumas atividades preferirem a Pelinca, há, sempre, um grande número, de outras atividades, que procuram o centro histórico. Sendo este local, um ponto privilegiado da cidade, assim como a Pelinca se coloca atualmente, mas em relação ao poder de polarização, o centro histórico continua a ser principal.

Assim, tais áreas, tanto o centro principal quanto a Pelinca, são pontos de grande importância para o capital, pois, em razão de sua grande atratividade, respondem, melhor que quaisquer outras áreas do município, e mesmo numa escala regional, a lógica de reprodução do capital.

Com isso, até aqui, podemos perceber algumas transformações ocorridas no papel e na prática da centralidade em Campos dos Goytacazes e, assim, compreender que tais mudanças têm influenciado toda a dinâmica municipal, ou seja, influencia o próprio espaço, pois não há mais somente um ponto concentrador de atividades, para onde todos devem se deslocar. Com a criação de novos lugares dotados de tais atividades, principalmente de um novo centro que, assim como o centro histórico, possui concentração e diversificação, onde os impactos de tal concentração começam a se revelar, assim como já ocorria no centro histórico; na economia, que recebe os impactos do crescimento da cidade e de novas áreas valorizadas; e na própria vidada das pessoas, pois estas, quando pertencem as classes de maior poder aquisitivo, conseguem se inserir nos lugares dotados melhor qualidade para a sua manutenção, enquanto a restante é relegada as periferias sem infraestrutura ou o que resta no centro velho (porém, mesmo nesse centro velho, não significa o seu acesso a todos, pois a formação de um centro novo não significou a diminuição absoluta do preço dos seus imóveis). Além disso, há a questão da própria cultura, que recebe grande impacto em função da não necessidade de se deslocar sempre para o centro para a satisfação de necessidades, e com o surgimento de outros lugares que passam também a exercer tal função.

A partir destas considerações, que concebem a cidade como um espaço em constante processo de estruturação, é possível perceber no espaço campista, e municípios vizinhos, uma nova mudança que se enseja a partir da inauguração do Boulevard Shopping, no Parque Rodoviário, atraindo grande contingente populacional, principalmente no período da noite,

para o consumo e lazer. Isso vem a complexificar ainda mais a dinâmica intra-urbana no município.

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