1. INTRODUÇÃO
3.3 CIDADE MODERNA
como ele sai interferindo em todo o controle da máquina na fábrica, vemos o corpo de Carlitos livre como em passos de dança, ele agora está livre sem mecanizações, seu corpo existe sem a máquina. Interessante perceber que quando os outros operários o perseguem para que pare seus passos livres ele usa a máquina. Como os outros estão ligados nela quando ele liga a máquina todos param de persegui-lo e voltam a trabalhar.
Isto ocorre pela afirmação de poder hierárquico e autoritárias existentes nas fábricas, proporcionada pela divisão do trabalho, alienação e produção em serie sob a regência das máquinas.
Esta cena é justamente a explicação da primeira imagem do filme, na qual, aparecem um rebanho de ovelhas brancas e no meio te todas aquelas iguais uma negra, e essa imagem aos pouco cede lugar à imagem de trabalhadores chegando à fábrica.
Carlitos é a ovelha negra, pois deixa de se comportar como todas as outras brancas que são mecânicas, apenas uma pequena engrenagem humana compondo outra engrenagem maior que é a máquina. Carlitos insiste em ser um todo completo, não se submete a ser apenar parte de uma parte maior, isto é a liberdade.
A cidade Moderna, nada mais é do que o fruto de todo um processo histórico inciado com a dissolução do sistema feudal, aprimoramento do sistema capitalista e inovações tecnicas pós Revolução Industrial. Quando nos referimos à arquitetura destas cidades, nos referimos a um movimento artístico denominado modernismo, que determinou a visão de mundo moderno ligado ao desenvolvimento pelas inovações tecnicas. Assim, é neste termo modernismo que:
(...) resumem-se as correntes artisticas que, na ultima década do século XIX e na primeira do seculo XX, propoem-se a interpretar, apoiar e acompanhar o esforço progressista, economico-tecnologico, da civilização industrial. São comuns as tendencias modernistas: 1) a deliberação de se fazer uma arte em conformidade com sua epoca e a renuncia à invocação de modelos classicos, tanto na tematica como no estilo; 2) o desejo de diminuir a distancia entre as artes “maiores” (arquitetura, pintura e escultura) e as “aplicações” aos diversos campos da produção economica (construção civil corrente, decoração, vestuario, etc.); 3) a busca de uma funcionalidade decorativa; 4) a aspiração a um estilo ao linguagem internacional ou europeia; 5) o esforço em interpretar a espiritualidade que se dizia (com um pouco de ingenuidade e um pouco de hipocrisia) inspirar e redimir o industrialismo.
(ARGAN, 1992. Pág. 185)
Este modernismo antes da Primeira Guerra mundial era mais como uma reação às máquinas e a todo o aparato técnico de produção e mercado do que propiciar mudanças efetivas. A importância está no fato de que a partir desse primeiro movimento em cima desta urbanização5 sugeriu-se ações críticas e projetos de mudança.
Após a Primeira Guerra Mundial tais linhas de ação foram sendo colocadas em prática por arquitetos que passaram a projetar, pensar e repensar no ambiente como construção de uma estrutura relativamente permanente com o ideal de colocar a vontade de sua época materializada no espaço.
Jacques Tati se tornou um dos grandes nomes do cinema francês fazendo de sua arte uma crítica à sociedade moderna. No filme Mon Oncle (Meu Tio), Tati usa o personagem Monsieur Hulot para criticar a forma como a sociedade de sua epoca cultuava a modernidade como um Deus salvador e libertador em detrimento de tudo que não era moderno, que era despresível e passível de destruição.
5 Urbanismo como disciplina que estuda e planeja a cidade e seu desenvolvimento nasceu nos seuclos XIX e XX, da necessidade de se resolver os graves problemas estruturais gerados pelo fenômeno urbano com conseqüências na sociedade e economia após a Revolução Insdustrial.
Vindo da periferia confusa aos olhos de quem assiste mas ordenada para os personagens que a compõem, vemos M. Hulot ir visitar a sua irmã, uma casa se localiza em um bairro moderno da cidade. No caminho o tio Hulot passa pelas ruinas de um muro que simbolicamente nos remete ao pensamento de ruptura da cidade tradicional com a cidade moderna através do que David Harvey chama em seu livro Condição Pós-Moderna de “destruição criativa”. Assim temos de um lado os moradores do bairro tradicional, como toda sua “desordem” e alegria de viver em meio às dificuldades e do outro a família moderna, exageradamente formalizada atingindo estados de monotonia.
Cenas do filme Mon Oncle, de Jacques Tati, 1958.
(Fonte: http://images.google.com.br/images?gbv=2&hl=pt- BR&q=mon+oncle+adoro+cinema&btnG=Pesquisar+imagens)
O novo mundo criado pela modernidade so é possivel em detrimento das cinzas do antigo. A imagem do muro destruído em primeiro plano e os predios modernos em segundo plano é de muita valia a partir do momento que nos ajuda a compreender que não mais existem o eterno e o imutável.
O artista, alegou Frank Lloyd Wright – um dos maiores arquitetos modernistas -, deve não somente compreender o espirito de sua época como inciar o processo de sua mudança. (HARVEY, 1986. Pág. 28)
No filme tudo que vemos na moderna casa da irmã do M. Hulot foi projetado para trazer tal bem estar, porém, vemos um incômodo com tais aparatos tecnologicos. Tudo na cozinha era para facilitar a vida da dona de casa, o portão principal e da garagem são eletronicos, portanto abrem sozinhos, o design dos moveis é futurista e colorido. No entanto, a cozinha proporciona desafetos quando tio Hulot tenta lidar com ela, o portao não funciona deixando o casal preso dentro de sua propria garagem, o sofá com desing arrojado quase impele a vizinha de seu lugar com o seu desconforto. Em casos extremos e situações exageradas Jacques Tati mostra como a modernidade pode gerar até mesmo
o caos no cotidiano das pessoas.
Quando M Hulot transcorre a estrada deste muro, vemos a ruptura espacial e humana. Pois a destruição não ocorre somente no espaço fisico mas também no psicológico. Os ambientes na casa moderna do filme são frios remetendo a uma vida monotonamente regrada. A disposição dos móveis e a arquitetura da casa ditam as regras da família, tornando suas vidas frias e vazias como a própria casa. Tati coloca seu personagem como antagônico desta situação, vemos quando ele dá um palhaço de papel a seu sobrinho a felicidade desde e logo brinca e assovia em contra-ponto à locomotiva moderna que o pai o da, que produz indiferença. Em uma cena vemos a irmã de M. Hulot estabelecendo regras praticas ao filho como lavar as mãos esfregando-as, tirar o sapato, pendurar o casado direito, em contra ponto a imagem das crianças do bairro de M. Hulot que correm livremente brincando umas com as outras. Uma das primeiras cenas vemos, a câmera posicionada no capô do carro, a imagem do asfalto com o carro em movimento seguindo as setas estabelecidas e ao chegar na garagem o retângulo exatamente demarcado para o posicionamento do carro. Observando a moldura que a modernidade impõe na vida daquelas pessoas, a rigidez e a plastificação da vida social.
Por isso, o processo de mudança quando se trata do espaço refletido das cidades deve ser mais baseado na essencia humana do que nas suas criações. Esta seria uma maneira, como o arquiteto por exemplo, encontraria de realizar um projeto relativamente permanete, pois o ponto de chegada, que seria a realização para o bem estar do homem, é efêmero, tendo que ser constantemente restabelecido.
David Harvey entende a cidade como “libertador da identidade humana” partindo da ideia de que “ser moderno é fazer parte de um universo em que, como disse Marx, “tudo que é sólido se desmancha no ar” (HARVEY, 1986. Pág 20). E é desde ponto que surge a necessidade de se destruir para criar um novo sob os ecombros do antigo. A destruição criativa surge nesse ponto em que o muro deve ser destruído para dar lugar ao novo moderno, tendo a consciência de estar em constante reformulação.