• Nenhum resultado encontrado

5. PENSAR E REPENSAR: DOCUMENTÁRIO BRASILEIRO NO SUBDISTRITO DA

5.1 Cineclube no subdistrito da Cidade Tiradentes?

Não seria o cineclube uma alternativa para o alcance da educação cinematográfica para esses jovens? Uma educação emancipadora, capaz de fazer pensar questões tão essenciais para uma vida com maior reconhecimento e percepção ampla do cotidiano?

Relembre-se que o grupo apontou a falta de cinemas e filmes documentários brasileiros , assim como a distância entre o centro da cidade e a periferia, como impeditivos para um maior desenvolvimento cultural cinematográfico. Sendo assim, o cineclube é uma solução viável.

O cineclube surgiu na Europa, especificamente na França na década de 1920, e, no Brasil no Rio de Janeiro em 1928, com o chamado Chaplin Club. Em São Paulo, em 1940, surge o Clube de Cinema de São Paulo. Vários cineastas do mundo frequentaram cineclubes, entre os quais podemos destacar Glauber Rocha e Cacá Diegues no Brasil, Jean-Luc Godard na França e Win Wenders na Alemanha.

Existem três etapas nas sessões de um cineclube: a mediação entre o filme e o público;

a exibição do filme; e o debate, que chamamos de “horizontal-democrático”.

Na primeira entrevista que fizemos com B., da Força Ativa, ela afirmou que houve algumas iniciativas de cineclube no subdistrito da Cidade Tiradentes, mas que foram dispersadas ao longo do tempo.

De acordo com o grupo de jovens pesquisados, duas das integrantes mencionaram nunca terem assistido um debate sobre filmes nacionais de arte. De acordo com E.K., este tipo de atividade poderia ser uma iniciativa das escolas para promover ações reflexivas por meio da cinematografia nacional de arte. E.K. afirma que não há preparo dos professores, e acredita que a possibilidade de formação de professores na área do cinema crítico poderia ser uma grande contribuição para a construção do reconhecimento da cultura nacional.

Segundo Pimentel (2011, p. 21-22) a escola se encontra limitada na relação entre a educação de jovens e o cinema, tendo em vista a formação de professores ainda defasada na linguagem midiática. A autora também concorda que existe um espaço ausente de discussões e interpretações, e que o cinema poderia ser uma possibilidade de trazer ao jovem imagens e reconhecimento do seu pensar, de sua ação e comportamento. Neste sentido, o discurso dos jovens entrevistados está adjacente à nossa percepção e dos estudos neste campo interdisciplinar.

Em nossa pesquisa participante, conduzimos o grupo de forma a deixá-lo livre para expressar as suas impressões sobre as temáticas abordadas. Os participantes do grupo passaram de “objetos de pesquisa” para “sujeitos da ação investigativa”, e nós, coletivamente, transformamos o não-conhecimento em aprendizado fílmico, sempre com posturas ativas dentro do grupo focal.

O filme Menino 23 foi o documentário experimental que proporcionou ao grupo informações desconhecidas sobre o Movimento Integralista e seu significado no Brasil, sobre a estrutura escravagista da sociedade brasileira e sobre o fascismo, que são assuntos amplamente discutidos no momento político-social do Brasil contemporâneo. Embora alguns participantes não tenham assistido o filme até o dia da discussão, todos colocaram suas impressões no decorrer da pesquisa. Podemos dizer que esse documentário foi de cunho realista e não ficcional pelo fato de representar dados históricos da época em forma de filme.

Figura 14 – Tijolos nazistas: um escárnio na história16

Os jovens demonstraram desconforto ao assistirem o documentário, especialmente por se depararem com a denúncia do filme em relação aos grupos nazistas existentes numa fazenda no interior de São Paulo entre 1930 e 1950, assim como o tráfico de meninos negros saídos do Rio de Janeiro e enviados para a fazenda. Nesta mesma fazenda, foram encontrados tijolos com insígnias nazistas (Figura 14). Podemos dizer que houve uma possível identificação por parte de alguns jovens do subdistrito da Cidade Tiradentes com os personagens do filme, tendo em vista o fato da maioria serem negros.

16 https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/em-2003-tijolos-com-suasticas-revelaram-fazenda- de-trabalho-forcado-no-brasil.phtml

Podemos chamar esse documentário de “cinema do povo”, pelo fato de ele trabalhar a história dos negros num passado longínquo, mas que faz muito sentido nos momentos atuais do século 21, em que negligências sociais, a exclusão e o preconceito racial ainda predominam.

A importância do documentário nesta pesquisa, portanto, foi fazer a mediação entre a realidade dos jovens e a história apresentada pelo filme. O grupo demonstrou motivação ao debater a proposta do filme e exerceu posicionamentos reflexivos e críticos que aproximaram o fato explicitado na película como sendo a manipulação dos negros no trabalho escravo da fazenda. O grupo demonstrou a percepção de que a sociedade brasileira prefere manter a submissão do povo da periferia em relação à sua chance de emancipação. Portanto, percebemos a potência que o cinema documentário provocar no desenvolvimento intelectual, crítico e autônomo dos jovens.

Segundo Mattos (2018, p. 476), a formação de uma massa crítica por meio de teses acadêmicas, cursos, seminários e mostras, além dos filmes e vídeos, ultrapassou o objetivo mercadológico do documentário brasileiro e estabeleceu uma interação fiel entre arte e sociedade, afirmando o seu caráter informativo, reflexivo e cultural.

O cineclube, dessa forma, pode ser um espaço de discussão de filmes documentários , com o firme objetivo de cultivar o hábito de documentários nacionais nesta pesquisa, concluímos que o cinema capitalista de entretenimento é coberto de propagandas sobre como ser feliz através da compra de mercadorias ou de estilos de vida que se distanciam da veracidade do mundo brasileiro e da periferia de São Paulo.

O cineclube do qual tratamos não teria fins lucrativos e nem exibiria filmes que reproduzem o modo de produção capitalista, como é o caso de alguns dos filmes que são apresentados no Spcine do subdistrito da Cidade Tiradentes. Após nossas discussões sobre cinema e formação de público junto aos jovens periféricos, percebemos uma confluência de suas reivindicações em direção às características de exibição do cineclube ideal, que seria um espaço de discussão sobre os filmes que educam.

L.A. demonstrou ser articulada em relação às questões sobre a formação de público em cinema documentário brasileiro no subdistrito da Cidade Tiradentes e pontuou a importância dos debates em grupo, que são esclarecedores no tocante ao cinema e ao cotidiano. Reiterou também a dificuldade de locomoção para ir aos cinemas do centro, o custo alto dos bilhetes

para quem é trabalhador e ganha um salário-mínimo, e a falta de preparo dos professores da rede pública, entre outras questões do cotidiano de quem vive no bairro. As discussões sobre o cinema nacional de arte conscientizou-a sobre as necessidades de reconhecimento e de políticas culturais.

Na percepção de L.A., a maioria dos moradores do bairro consome as produções do cinema capitalista que não acessam a consciência nem promovem a reflexão sobre os problemas da vida em periferia.

De acordo com Silva-Galeão (2007, p. 92), as atividades organizadas ou estéticas, quando refletem criticamente sobre a dominação, contribuem para o processo de emancipação social e reconhecimento, abrindo uma possibilidade de libertação contra as formas de opressão e a ausência de criatividade. O espaço coletivo de um cineclube focado na projeção de filmes engajados no subdistrito da Cidade Tiradentes poderia viabilizar o encontro dos moradores do bairro com o lugar que habitam e partir daí tecer sobre onde e como estão localizados nesse lugar.

Isto não quer dizer que todos os filmes nacionais de arte abordem questões da periferia de São Paulo. Contudo, os filmes alternativos, independentes, educativos e nacionais se aproximam da realidade nas temáticas históricas e sociais que apresentam. Ou, nas palavras de L.A.:

Eu acho muito importante ter esse tipo de discussão. Quando você faz esse tipo de discussão com quem não é da periferia, [as pessoas] já tem um mestrado das opiniões. Mas elas não moram aqui. Seria bom ter essas discussões aqui nas escolas. Assim, teríamos mais senso crítico. A gente não é escutado. A gente não tem uma voz ativa. (L.A).

Acreditamos que a leitura das obras cinematográficas deveriam se respaldar numa leitura do todo social e não especificamente como privilégio apenas de uma determinada classe social. A jovem L.A. demonstra uma percepção de que existe uma ideia pré-formada daqueles que não vivem o cotidiano periférico. De acordo com Ferreira,

A Arte, necessidade ontológica que é, está umbilicalmente ligada ao processo de autoformação da humanidade, e nos termos de uma estética marxista não pode ser vista como contemplação desprendida e imparcial do todo social, tampouco como puro entretenimento deleitável e deslumbrado (FERREIRA, 2013, p. 73)

6. ESTIGMA DO TRIPÉ E RELAÇÃO DE PODER NAS