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A cobertura do jornal O Globo sobre as UPPs

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 77-82)

da opinião pública. Agora, nos interessa investigar como se deu a participação do jornal O Globo nessa cobertura.

a quantidade de vezes que o tema UPP foi manchete na Primeira Capa do jornal no período de 2009 a 2018:

Tabela 1 - Manchetes jornal O Globo

ANO NÚMERO DE MANCHETES NA PRIMEIRA PÁGINA

2009 28

2010 88

2011 73

2012 29

2013 20

2014 115

2015 60

2016 17

2017 10

2018 NENHUMA

Fonte: A autora, 2019.

Na primeira página de um jornal aparecem as notícias de maior destaque da edição do dia, conhecidas como manchete, e chama a atenção como esse número era relativamente alto nos anos de implantação das UPPs, chegando ao ápice em 2014. Nesse ano, foram instaladas as duas últimas unidades de polícia pacificadora e o assunto chegou a ocupar 31,5% do espaço das primeiras páginas durante todo o ano. A partir de 2015, esse número de inserções diminuiu e chegou a zero em 2018, ano em que a discussão política sobre segurança pública e violência foram mais evidentes devido à disputa eleitoral com a escolha do novo presidente do país e novo governador para o estado do Rio de Janeiro.

Os pesquisadores Burgos et al (2011) também revelaram dados de uma pesquisa realizada pelo CESEC – UCAM que indica que na opinião dos policiais que trabalhavam nas UPPs, a mídia apresentava o projeto melhor do que eles mesmos acreditavam que era. Sendo assim, interessa compreender quais os critérios utilizados pelo jornal O Globo para destinar tanto espaço para o assunto em suas publicações.

Outro aspecto sobre a cobertura do jornal O Globo no caso das UPPs foi evidenciado pelo pesquisador Pedro Barreto Pereira (2017), relacionado ao processo de construção das representações sociais: o medo branco. Esse seria o medo antigo das elites, ainda da época da

escravidão no Brasil, de uma revolta dos escravos contra a classe senhorial. Escravos e senhores foram se transformando com o passar dos anos e ganhando outras nomenclaturas de acordo com cada época, mas o conflito entre brancos e pretos continua até hoje. Mesmos personagens, mas como nomes diferentes, entra em cena a fala do “cidadão de bem” e do

“bandido”, “ou aquele sujeito matável, cujo crime está inscrito de maneira indelével em sua alma” (PEREIRA, 2017, p.20).

Já vimos anteriormente com Caldeira (2011) que a narrativa do medo acaba por disseminar ainda mais preconceitos contra moradores de áreas como as favelas. Pereira (2017) corrobora essa afirmação com sua pesquisa, indicando que para que o medo seja utilizado como motor para o controle da população é preciso que esteja ancorado em discursos sólidos.

“O acúmulo de notícias, no decorrer de décadas, sobre violência urbana consolida na população o sentimento de que se vive em uma sociedade insegura e nas autoridades governamentais, a importância de realizar uma agenda em que a lei e a ordem sejam prioridades” (PEREIRA, 2017, p. 31).

Para comprovar sua hipótese, Pereira (2017) analisou 90 reportagens sobre as UPPs publicadas pelo jornal O Globo no ano de 2010 e percebeu que, destas, 38% mostravam as favelas como territórios sitiados e 29% como origem da violência, o que criava um quadro predominante de violência e criminalidade sempre que o assunto era favela. Além disso, ele também analisou as narrativas em 376 matérias (reportagens, notas, artigos sobre oito favelas ocupadas por UPPs) publicadas no jornal e também em suplementos de bairro e revista do O globo no período de janeiro de 2014 a agosto de 2016.

O resultado que encontrou indica que 80,5% delas conduzia os leitores para relatos de conflito e criminalidade ligadas às UPPs, reforçando a interpretação para a necessidade de ordem e lei nas favelas. Pereira (2017, p.159) também analisou as vozes contidas nessas matérias, ou seja, de quem eram as falas mais recorrentes nessas matérias (considerando vozes ligadas ao Estado, moradores, estudiosos, etc) e descobriu que 60% eram falas estatais que apresentavam as UPPs como benéficas para os moradores e parte de uma política já consolidada de segurança pública.

O jornal O Globo é um ator importante para a sua legitimação e também para as consequências desta, no sentido de que justifica, para o seu grande público, os efeitos adversos resultantes da política implementada, de que reivindica ainda mais repressão contra a população pobre, negra e marginalizada e de que privilegia declarações dos atores sociais do Estado. Deste modo, o periódico contribui decisivamente para a utilização de medidas punitivas, repressivas, autoritárias e discricionárias, como o encarceramento em massa, a tortura e a morte de jovens negros e pobres, o cerceamento do direito de ir e vir e as remoções de moradores das

favelas da cidade do Rio de Janeiro, ainda que publicamente se posicione de maneira contrária a algumas dessas práticas (PEREIRA, 2017, p. 176).

A pesquisa de Pereira (2017) é bem reveladora sobre como a cobertura do jornal O Globo oferece um discurso sobre as favelas que direciona a opinião pública para concordarem com políticas de segurança de controle e extermínio nas favelas cariocas. No entanto, é mais voltada para o aspecto da produção das notícias em si. Meu interesse é aprofundar mais sobre a recepção dessas notícias, ou seja, como essas matérias influenciam a formação de opinião pública por meio da análise dos comentários dos leitores publicados no jornal.

As manchetes da Primeira Página e os comentários dos leitores sobre as UPPs revelam o sistema da branquitude informando e formando a opinião pública? Analisando as manchetes na Capa do jornal e os comentários sobre esses textos publicados posteriormente, é possível perceber se houve um aprendizado sobre esse tema similar ao que acontece nos processos educativos formais? No próximo capítulo, investigaremos mais detalhadamente esses aspectos.

3 OPINIÃO OU LEITORES QUE CONCORDAM COM O JORNAL?

Adequando a metodologia de análise de conteúdo proposta por Recuero (2018) aos objetivos desta pesquisa, analisaremos os dados encontrados nas Primeiras Capas e nos comentários dos leitores das edições do ano 2014, cujo conteúdo possuía a palavra-chave UPP. Assim, temos uma divisão em 4 passos: 1) Análise de frequência; 2) Classificação; 3) Análise de coocorrência; e 4) Análise da produção de sentidos.

No primeiro passo, separamos as unidades de análise dentro dos dados escolhidos. São duas (02) unidades macros: Negro e Branco; e as unidades menores: Inteligente; Violento;

Vulnerável; Bandido; Criminoso; Traficante; Pobre; Vagabundo; Ameaçador; Perigoso; Paz, Assassino; Tranquilo; Ladrão; Feio; Beleza; Bonito; Mal; Bem; Rico; Civilizado; Belo;

Capitalista; Comunista; Democrático; Sociável. A ideia é utilizar essas unidades, que são um conjunto de adjetivos substantivos e verbos, para verificar todas as vezes que elas aparecem próximas às palavras “branco” e “negro”. Vale lembrar que levaremos em consideração palavras similares.

Em seguida, passamos para a Análise de Frequência, em que iremos verificar quais dessas palavras e suas variantes aparecem com mais frequência no material pesquisado. As palavras mais repetidas entrarão na próxima fase e as demais serão descartadas. A quantidade total de matérias e comentários de leitores é a base para medirmos qual será a frequência relevante.

Na fase da classificação, as palavras selecionadas anteriormente serão classificadas de acordo com os estímulos que despertam em seus receptores. Queremos entender que tipo de sentimentos esses dados, aparecendo juntos das palavras Branco ou Negro, geram nas pessoas. Buscamos identificar os seguintes sentimentos: Medo – Segurança; Repulsa – Empatia; Raiva – Calma; Tumultuado - Tranquilo.

O próximo passo é o momento de analisar a coocorrência das unidades menores e macros. Analisando a quantidade, frequência e o tipo de sentimento provocado quando aparecem próximas, é possível identificar o conceito apresentado e aprendido pela repetição?

Buscamos verificar se essa coocorrência indica a “manutenção da branquitude” ou a

“democracia racial”.Para começar, apresentamos as manchetes da primeira capa e os comentários dos leitores selecionados por conterem a palavra-chave: UPP.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 77-82)