Neste estudo, os dados foram coletados por meio da aplicação de questionário.
Foram empregados dois instrumentos de pesquisa, validados anteriormente por estudiosos que criaram as escalas. Para medir a identificação com o time, foi utilizada a escala de Wann e Branscombe (1993) e a escala de Petrick (2002) para mensurar o valor percebido.
Ressalta-se que, para melhor embasamento e confirmação das questões, ambas as escalas foram submetidas ao processamento de tradução reversa, por profissional da área e
nativo da língua inglesa. O questionário foi traduzido inicialmente do Inglês para o Português e vice-versa, para conferência e certificação da tradução realizada, de acordo com a indicação de Coster e Mancini (2015).
A identificação com o time que o torcedor reconhece, na visão de Wann e Branscombe (1993) é formada por sete variáveis que constam o bloco A do questionário, e organizadas de A1 a A7 (quadro 9), e demonstram o quão o torcedor se identifica em apoiar o seu time predileto. A versão original da escala pode ser acessada no anexo 1.
Quadro 9 – Escala de identificação com o time, por Wann e Branscombe (1993)
Bloco Indicadores traduzidos e adaptados A
A1 É importante para mim que meu time ganhe A2 Eu me vejo como um fã do meu time
A3 Meus amigos me veem como um fã do meu time
A4 Durante a temporada, eu sigo o meu time, por exemplo: pessoalmente, pela televisão, pela rádio, jornal ou internet
A5 Ser fã do meu time é importante para mim A6 Eu não gosto dos maiores rivais do meu time
A7 Eu costumo exibir o meu time, por exemplo: no local de trabalho, onde moro e/ou na roupa que visto
Fonte: Adaptado de Wann e Branscombe (1993), tradução nossa.
Optou-se por adotar a escala de Wann e Branscombe (1993) por se tratarem de autores destacados ao se estudar sobre marketing esportivo, especificamente o reconhecimento do torcedor como parte do clube. Essa escala procura identificar o quanto o torcedor se sente membro do time e o que faz torcer tanto pelo clube favorito.
Para medir o valor percebido, decidiu-se acatar a escala de Petrick (2002) composta por cinco dimensões e vinte e cinco variáveis para verificar o valor destinado a serviço, que, para este estudo, necessitou passar por adaptações dado ao contexto analisado. A escala multidimensional de Petrick (2002), denominada de SERV-PERVAL, foi inspirada nas lacunas apontadas pelo autor de não encontrar formas mensuráveis de medir o valor percebido por consumidor de serviços, pois o que se tinha na literatura se tratava para medir o valor de produtos tangíveis.
Foram consideradas vinte e quatro das variáveis classificadas pelo autor, excluindo- se a variável “tem preço razoável” por apresentar semelhança ao que se mede na variável
“cobra um preço justo”. Por este motivo, a dimensão monetária foi reduzida e passou a conter cinco variáveis de mensuração.
No quadro 10, são apresentadas as variáveis adaptadas para o contexto futebolístico, agrupadas e organizadas por blocos no questionário aplicado. Para o autor, quando um consumidor está satisfeito com algum produto ou serviço, não necessariamente retrata que o consumo adquirido apresenta um bom valor. Nesse raciocínio, defende-se a escolha por essa escala, uma vez que se procurou medir o valor que o time representa na percepção do torcedor, sejam em dias de vitórias ou em dias poucos favoráveis. A escala original do autor encontra- se no anexo 2.
Quadro 10 – Escala de valor percebido, por Petrick (2002)
Dimensão Bloco Indicadores modificados para o contexto estudado Emoção B B1 Me sinto bem em torcer pelo meu time
B2 Me dá prazer torcer pelo meu time
B3 Me dá uma sensação de alegria torcer pelo meu time B4 Me encanta torcer pelo meu time
B5 Me traz felicidade torcer pelo meu time Comportamento C C1 É fácil para mim me sentir parte do clube
C2 Tenho pouco desgaste para assistir alguma partida C3 Tenho facilidade ao comprar meu ingresso C4 Faço pouco esforço para ir ao estádio
C5 Me sinto realizado quando meu time apresenta bons resultados Reputação D D1 Meu time tem boa reputação no geral
D2 Meu time é respeitado por outros D3 Meu time tem um bom histórico D4 Meu time tem status
D5 Meu time é bem visto na sociedade
Monetário E E1 Quando gasto meu dinheiro com meu time acho que me oferece bons motivos para continuar investindo nele
E2 Quando gasto meu dinheiro com meu time acho que vale o dinheiro pago E3 Quando gasto meu dinheiro com meu time acho que cobra um preço justo E4 Quando gasto meu dinheiro com meu time é compensador para mim E5 Quando gasto meu dinheiro com meu time aparenta ser um bom negócio Qualidade F F1 Assistir a meu time jogar é ver boas jogadas
F2 Assistir a meu time me deixa confiante
F3 Assistir a meu time é um divertimento com que eu sempre posso contar F4 Assistir a meu time me deixa seguro
Fonte: Adaptado de Petrick (2002), tradução nossa.
Para tanto, o questionário foi estruturado em blocos, onde o bloco A refere-se às variáveis para medir identificação com o time e os demais blocos, do B ao F, para medir o
valor percebido pelos torcedores (apêndice A). Para dar início a coleta de dados, optou-se por realizar o pré-teste do instrumento, para compreender o entendimento dos participantes quanto à coerência das afirmativas, e, consequentemente, prosseguir com a amostra total.
3.2.1 Realização do pré-teste do questionário
Antes de iniciar a coleta de dados é importante verificar se o instrumento está adequado e por isso, indica-se efetuar o teste do instrumento. Esse teste recomenda-se ser realizado com indivíduos similares à população a ser estudada (BARBETTA, 2003). Deste modo, o instrumento foi aplicado presencialmente onde os respondentes levaram cerca de quatro minutos para o preenchimento.
Ao todo, foram aplicados 49 questionários em duas ocasiões, em que se procurou investigar a compreensão, a coerência e a clareza das questões na percepção dos participantes que se propuseram a responder. No primeiro momento decidiu-se aplicar no âmbito acadêmico, dada relevância e experiências de discentes e docentes a contribuírem para o questionário. Posteriormente, foram considerados os respondentes que fossem torcedores dos times estudados, Avaí ou Figueirense.
O primeiro teste do questionário foi aplicado nos dias 23/07/2019 e 25/07/2019, com alunos e professores do curso de Graduação em Administração na Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI), que totalizaram 24 respondentes. Desses, onze torcem pelo Avaí, e os demais, treze, para o Figueirense. Nesta etapa, os respondentes pontuaram algumas contribuições para melhorias ao instrumento.
As intervenções feitas pelos participantes foram ocorrendo de acordo com as dúvidas que surgiram no preenchimento, uma vez que foi solicitada a participação para modificações de quaisquer perguntas que se faziam confusas. Dentre os apontamentos ponderados, destacam-se os mais pertinentes (quadro 11), para melhoria do instrumento. As sugestões foram acatadas e as modificações foram feitas, de acordo com o propósito desta pesquisa.
Quadro 11 – Primeira aplicação do pré-teste
Pré-teste Sugestões de melhoria Versão Anterior Versão Corrigida 1ª aplicação do
questionário, Julho/2019.
1ª alteração: O campo em que o torcedor tem que selecionar seu time favorito deve ser alterado para qual time você torce e não com o qual você se identifica;
Selecione um time com o qual você se identifica
Selecione um time para o qual você torce
2ª alteração: Na variável C2 (bloco C, no que diz respeito à dimensão comportamento) as palavras “pouca energia” foi interpretada duvidosamente;
C2 Minhas necessidades são atendidas quando me exige pouca energia em assistir alguma partida
C2 Minhas necessidades são atendidas quando tenho pouco desgaste em assistir alguma partida
3ª alteração: Na variável D1 (bloco D, referente à dimensão reputação) houve um questionamento que deveria indicar no que o time tem boa reputação.
D1 Meu time tem boa reputação
D1 Meu time tem boa reputação no geral
Fonte: Autoria própria
Após as correções, o questionário foi aplicado em um segundo momento, com a participação de outros respondentes. Conforme mencionado anteriormente, o instrumento passou por tradução reversa, entretanto, foi submetido para a correção do professor da área no intervalo entre os pré-testes. Por isso, ressalta-se que somente na segunda aplicação do teste, o questionário estava com a adequação quanto à tradução, isto é, de inglês para português e do português para o inglês.
Na conferência dessa tradução, identificou-se que foi despercebida a variável “quando gasto meu dinheiro com meu time aparenta ser um bom negócio” que pertence à dimensão monetária, deste modo, essa variável passou a fazer parte no questionário modificado. A segunda aplicação, portanto, ocorreu nos dias 27/07/2019 e 28/07/2019, com moradores da cidade de Tijucas/SC. Os moradores que contribuíram com a pesquisa torcem, predominantemente para o Figueirense, com a representação de quinze torcedores, seguidos de dez que torcem pelo Avaí, totalizando 25 respondentes.
Nesse segundo momento, não houve questionamentos e contribuições e, por isso, depois de realizado os testes, optou-se por testar o modelo em um dos estádios, para averiguar a rotina da aplicação da pesquisa, bem como a maneira de abordagem aos torcedores, de modo a alcançar a máxima eficiência e qualidade com as respostas.
3.2.2 Teste aplicado no estádio Orlando Scarpelli
A coleta de dados deu-se início no interior do estádio do Figueirense, na partida contra o Guarani Futebol Clube, no dia 31/08/2019, na vigésima rodada do Campeonato Brasileiro da Segunda Divisão, série B. De acordo com o calendário dos clubes estudados, este foi o primeiro jogo do período em que a pesquisa foi aplicada e, por este motivo, o teste do instrumento foi realizado no estádio Orlando Scarpelli, com os torcedores do Figueirense.
Neste jogo, a pesquisa foi aplicada com os torcedores que estavam dentro e fora do estádio, com o intuito de fazer um teste a campo e, por este motivo, optou-se por não considerar esses questionários para a análise definida desta pesquisa.
Com o uso de pranchetas, os questionários impressos, no formato frente e verso, foram entregues aos torcedores que estavam nos assentos aguardando o início da partida.
Observa-se que o instrumento era autorrespondível e suas instruções enfatizavam o caráter acadêmico, para reforçar a confiabilidade da pesquisa.
Para entregar o questionário, optou-se por utilizar pranchetas, de modo que o vento, por exemplo, não desconcentrasse o torcedor e facilitasse no preenchimento. Apesar de ter a autorização do clube quanto ao uso das pranchetas, ao entrar no estádio houve bloqueio por parte dos seguranças, pois se trata de um objeto perigoso para ser usado nesse ambiente. Além disso, como justificado pelos profissionais, seria difícil de controlar o uso das dez pranchetas diante da chegada de outros torcedores próximos da aplicação, ocasionando tumultos.
Apesar da ocorrência desse episódio, os responsáveis pela autorização da pesquisa imediatamente entraram em contato com os seguranças e permitiram a entrada, desde que as pranchetas fossem distribuídas próximas umas das outras, para melhor visualização e recolhimento. O uso desse objeto, portanto, foi necessário para a comodidade do respondente apoiar e fixar o questionário.
Para garantir imparcialidade durante a aplicação, optou-se por utilizar uma camisa na cor branca, que continha o símbolo da universidade, representada nesta pesquisa, e o brasão da área de estudo, Administração, na cor azul. A cor azul, para os torcedores do Figueirense, remete ao time rival, Avaí, e por isso, houve comentários quanto ao uso da camisa, o qual gerou certo desconforto na abordagem com esses torcedores. Além disso, as canetas
esferográficas disponibilizadas, na cor preta e azul, também foram remetidas a comentários, pelo mesmo motivo. Desta forma, diante dos comentários expostos, optou-se por trocar a camisa e algumas canetas, por cores neutras nas aplicações posteriores, a fim de evitar constrangimentos para a pesquisa.
Embora o instrumento tenha sido modificado, com a contribuição dos testes, alguns torcedores opinaram quanto ao formato do questionário que foi entregue. No campo em que o torcedor assinalava o time para qual torce, estavam expostos os dois clubes da capital catarinense, objeto de estudo desta pesquisa (apêndice B). Isso gerou discussões entre os torcedores, como, por exemplo, “estamos competindo com o rival, pontuem nota máxima para o nosso time”, que de certa forma gerou a preocupação com a veracidade e a qualidade dos dados, se no questionário permanecerem com a exposição dos nomes dos dois times.
Além desse entrave, outras afirmativas apresentaram interpretações duvidosas, como as compostas do bloco C. A dimensão comportamento não estava adequada ao contexto, pois surgiram dúvidas no preenchimento desse bloco. Por isso, as alternativas foram reajustadas, conforme foram apontadas pelos torcedores para as coletas posteriores.