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A COLISÃO ENTRE O PODER DE HIERÁRQUIA DO EMPREGADOR E A DIGNIDADE DO EMPREGADO

A HARMONIZAÇÃO ENTRE OS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS DA PROPRIEDADE E DA PRIVACIDADE: Hermenêutica e interpretação

2.5 A COLISÃO ENTRE O PODER DE HIERÁRQUIA DO EMPREGADOR E A DIGNIDADE DO EMPREGADO

Não existe norma que regulamente a finalidade da restrição de direitos fundamentais dos empregados e nenhuma forma de interpretação irá reduzir o papel do princípio da proporcionalidade, mas o principio da proporcionalidade será chave das medidas restritivas, sendo que embora os critérios disponíveis não imputem soluções definitivas podem auxiliar o interprete na busca de cada caso.

No caso do direito do trabalho, a proteção a função social não serve só para gerar lucros, mas também como meio de inserção social do indivíduo, da preservação de seu equilíbrio emocional e psíquico, da satisfação e da promoção pessoal; da manutenção da solidez das famílias enquanto células básicas da unidade e da estabilidade da nação. Em última análise, serve como um poderoso instrumento de preservação da paz e da harmonia na sociedade. 140

A Constituição Brasileira tem como um dos fundamentos da República a dignidade da pessoa humana, e, assegura a vida com qualidade, inclusive com direito a um meio ambiente ecologicamente equilibrado, não podendo ser

139 PEREIRA, Maria Fernanda Pires de Carvalho. Sobre o Direito vida e ao meio ambiente frente aos princípios da dignidade humana e da razoabilidade. In: ROCHA, Cármen Lúcia Antunes Rocha. O direito à vida digna. Belo Horizonte: Fórum, 2004, p. 286.

140 LEITE, Roberto Basilone. Ecologia do Trabalho: A simbiose entre o direito do trabalho e o direito ambiental. Disponível em:

http://aplicacao.tst.jus.br/dspace/bitstream/handle/1939/3834/rev69_1_15.pdf?sequence=1 Acesso em 10 de Junho de 2013.s.a, p.6

interpretada ou explicada por outra lei para tolerar atividade que coloque em risco a vida, a integridade e a segurança dos trabalhadores.

Além disso, a Carta Magna estabelece expressamente como direito social dos trabalhadores urbanos e rurais a redução dos riscos inerentes ao trabalho, por meio de normas de saúde, higiene e segurança, apresentadas no artigo 7º, XXII e no artigo 200: “Ao sistema único de saúde compete, além de outras atribuições, nos termos da lei: VIII - colaborar na proteção do meio ambiente, nele compreendido o do trabalho”.

A Consolidação das Leis do Trabalho, no capítulo segurança e medicina do trabalho, prevê no artigo 154: “A observância, em todos os locais de trabalho, do disposto neste Capitulo, não desobriga as empresas do cumprimento de outras disposições que, com relação à matéria, sejam incluídas em códigos de obras ou regulamentos sanitários dos Estados ou Municípios em que se situem os respectivos estabelecimentos, bem como daquelas oriundas de convenções coletivas de trabalho.”

Entretanto, o direito fundamental à saúde e à vida não pode ser restringido de forma que impeça o processo econômico, isso porque o ambiente de trabalho está inserido no mercado econômico e as inovações tecnológicas são necessárias para a crescente qualidade de vida. O princípio do direito à sadia qualidade de vida tem como fundamento o “direito à vida”, disposto em nossa Constituição de 1988. A ideia contemporânea desta proteção jurídica é de que não basta viver ou conservar a vida, mas é preciso ir além, ou seja, buscar e conseguir a qualidade de vida. 141

Sendo assim, não existe uma preocupação específica da legislação trabalhista pátria com o ambiente do trabalho como um todo, sendo que a CLT se limita a estabelecer dispositivos relativos à segurança e medicina aplicáveis a empregadores e empregados, mas não trata do ambiente geral em que o empregado trabalha.

Ensina-nos Sebastião Geraldo de Oliveira:

141 MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental brasileiro. 14. ed. São Paulo: Malheiros Editores, 2006, p. 149-150

“O meio ambiente do trabalho está inserido no meio ambiente geral (art.

200, VIII, da Constituição da República), de modo que é impossível alcançar qualidade de vida, sem ter qualidade de trabalho, nem se pode atingir meio ambiente equilibrado e sustentável ignorando o meio ambiente do trabalho. Dentro desse espírito a Constituição de 1988 estabeleceu expressamente que a ordem econômica deve observar o princípio de defesa do meio ambiente (art. 170, VI).”142

Por meio de uma visão sistêmica e globalizante, o meio ambiente deve ser interpretado como um bem jurídico unitário, abarcando os elementos naturais, o ambiente artificial (meio ambiente do trabalho) e o patrimônio histórico-cultural, pressupondo-se uma interdependência entre todos os elementos que integram o conceito, inclusive o homem. 143

Para Bodnar, ambiente ou entorno é tratar do lar comunitário que a todos abriga e cujo destino geral está a ele vinculado. Assim, essa necessária consideração de vínculos solidários com todo o entorno, atual e futuro, e com as futuras gerações, impõe uma indistinta e eficaz proteção por meio do Direito e da jurisdição. 144

Segundo Mattos, existem várias definições para o desenvolvimento sustentável, estabelecidas com propósitos diferentes, motivo pelo qual os conceitos e aplicação têm também alcances distintos e, por conseguinte, os indicadores necessários para seu seguimento variam de acordo com os interesses do grupo social que se apropria do discurso. De qualquer modo, estão sendo construídos consensos em torno da ideia de que democracia política, equidade social, eficiência econômica, conservação ambiental e diversidade cultural são os alicerces e indicadores da sustentabilidade para as gerações futuras. 145

142 OLIVEIRA, Eloete Camilli. A função social da empresa. In HASSON, Roland. Direito dos trabalhadores e direitos fundamentais. Curitiba: Juruá, 2003.

143 MARCHESAN, Ana Maria Moreira; STEIGLEDER, Annelise Monteiro; CAPPELLI, Sílvia. Direito Ambiental. 4. ed. Porto Alegre: Verbo Jurídico, 2007.

144 BODNAR, Zenildo. A solidariedade por meio da jurisdição ambiental. Disponível em http://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&frm=1&source=web&cd=60&ved=0CH4QFjAJO DI&url=http%3A%2F%2Fperiodicos.uem.br%2Fojs%2Findex.php%2FEspacoAcademico%2Farticle%

2Fdownload%2F12211%2F7978&ei=fvG1UaLuLOmt0AHWsoHwDQ&usg=AFQjCNG0lwFm3w3hpmL JvrYc5zB8eqBpTg&sig2=6l_6hPIkKS2hzU1REBzUew&bvm=bv.47534661,d.dmQ. 2011, p. 25

145 MATTOS, F., Democracia e Eco-Sustentabilidade, In: revista CREA-RJ, 1999, p.14.

Assim, José Afonso da Silva, ressalta que o meio ambiente do trabalho merece consideração específica, sendo este o local em que se desenvolve boa parte da vida do trabalhador, cuja qualidade dessa vida depende da qualidade do ambiente. A proteção ambiental se exterioriza quando a degradação se torna ameaça ao bem-estar, à qualidade de vida ou mesmo à sobrevivência do homem.

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O ser humano, dono de inteligência e diferente dos outros animais, está no planeta, provavelmente, para provar que pode sobreviver sem estar no estado de natureza, e que é possível viver em uma organização política democrática adstrita aos paradigmas de participação, da política de tolerância, da distribuição da riqueza, da utilização sustentável do meio ambiente, da solidariedade e da diversidade e do socialismo, de tudo, não necessariamente nessa ordem. 147

A proteção do meio ambiente laboral exige ampliação de medidas que venham a garantir uma maior efetividade ao direito fundamental do trabalhador, porque é o direito do empregador, o de proteger seu patrimônio; já o de terceiros termina onde começa o direito, a intimidade e dignidade do empregado.

Para Raimundo Simão de Melo, o meio ambiente do trabalho é um dos mais importantes e fundamentais direitos do cidadão trabalhador, e que, sendo este desrespeitado, provoca agressão a toda a sociedade. No final das contas, é o trabalhador quem custeia a previdência social, que por inúmeras razões, corre o risco de não poder mais oferecer proteção até mesmo aos seus segurados do próximo século. 148 Portanto, o meio ambiente deverá ser sustentável no ambiente externo, e também, no local de trabalho, pois salvaguarda o homem contra as formas de degradação da sua sadia qualidade de vida.

Para Ana Carolina Gonçalves Vieira “o trabalho é reconhecidamente fator relevante de dignidade para o homem. Se este mesmo trabalho atua como

146 SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo, 8ª ed., São Paulo: Malheiros Editores, 2002, p.54.

147 CRUZ, Paulo Márcio. FERRER, Gabriel Real. Os novos cenários transnacionais e a democracia assimétrica. Disponível em:

<http://www.jfce.jus.br/internet/esmafe/materialDidatico/documentos/integracaoSulamericana/novosC enariosTransnacionais.pdf.> 2009. Acesso em 09 de Junho de 2013, p. 12.

148 MELO, Raimundo Simão de. Meio ambiente do trabalho: prevenção e reparação – juízo competente. Repertório IOB de Jurisprudência, n. 113/97, caderno, s.a. p. 250.

desestabilizador psicológico, o empregado acaba derrotado, humilhado, sem entender realmente o que se passa com ele.” 149

Os direitos sociais não se prestam para dar ao brasileiro, apenas o mínimo. Ao contrário, eles reclamam um horizonte eficaz, progressivamente mais vasto. Dependendo disso, está o comprometimento da sociedade e do governo e da riqueza produzida pelo país, conforme enfatiza Clèmerson Merlin Cleve:

Aponta a Constituição Federal de 1988, portanto, para a ideia de máximo, mas de máximo possível (o problema da possibilidade). O conceito do mínimo existencial, do mínimo necessário e indispensável, do mínimo último, aponta para uma obrigação mínima do poder público, desde logo sindicável, tudo para evitar que o ser humano perca sua condição de humanidade, possibilidade sempre presente quando o cidadão, por falta de emprego, de saúde, de previdência, de educação, de lazer, de assistência, vê confiscados seu desejos, vê combalida sua vontade, vê destruída sua autonomia, resultando num ser perdido no cipoal das contingências, ficando à mercê das forças terríveis do destino.

Os direitos sociais, o princípio da dignidade humana, o princípio da sociedade (dedutível da Constituição Federal de 1988 que quer erigir um Estado democrático de direito) autorizam a compreensão do mínimo existencial como obrigação estatal a cumprir e, pois, como responsabilidade dos poderes públicos.150

Dessa forma ao assumir os riscos de seu empreendimento, o empregador toma a si a obrigação de adotar providências que garantam a segurança de seu patrimônio. Iniciativa esta, que encontrará larga resposta por parte da tecnologia moderna. Assumir os riscos de seu empreendimento significa não os transferir aos trabalhadores.151

Os valores de ordem econômica não podem ser postos como absolutos que sobressaiam à efetivação dos direitos sociais cujo propósito consiste na concretização dos princípios da igualdade e da dignidade da pessoa humana.

149 VIEIRA, Ana Carolina Gonçalves. Assédio Moral no ambiente de trabalho: uma violação silenciosa a dignidade humana no âmbito das relações de emprego. In: Reis, Daniela Muradas;

Mello, Roberta Dantas; Coura, Solange Barbosa de Castro. Trabalho e Justiça Social: um tributo a Mauricio Godinho Delgado. São Paulo: LTr, 2013.

150 CLÈVE, Clémerson Merlin. Para uma dogmática constitucional emancipatória. Belo Horizonte:

Ed. Fórum, 2012, p. 28.

151 PEREIRA, Alberto Luiz Bresciani de Fontan. Revistas Pessoais em empregados: a dignidade da pessoa humana e os limites ao poder diretivo do empregador. In: Reis, Daniela Muradas;

Mello, Roberta Dantas; Coura, Solange Barbosa de Castro. Trabalho e Justiça Social: um tributo a Mauricio Godinho Delgado. São Paulo: LTr, 2013, p. 285.

Nesse sentido, Alice Monteiro de Barros explica: “a solução dos conflitos envolvendo os direitos fundamentais do empregado e do empregador passa ela ponderação das circunstâncias que envolvem o caso concreto e a sanção a ser aplicada deverá observar uma adequada proporção de meios e fins.” 152 Eis que, restrições a revistas íntimas, por exemplo, deve ser realizada com base na supremacia da dignidade da pessoa humana e na valorização social do trabalho, enquanto pilares constitucionais e republicanos, na vedação a tratamento desumano ou degradante, e no resguardo da intimidade, da vida privada e da honra. 153

152 BARROS, Alice Monteiro. Curso de Direito do Trabalho. 9ª Ed. São Paulo: LTR, 2013, p. 151.

153 PEREIRA, Alberto Luiz Bresciani de Fontan. Revistas Pessoais em empregados: a dignidade da pessoa humana e os limites ao poder diretivo do empregador. In: Reis, Daniela Muradas;

Mello, Roberta Dantas; Coura, Solange Barbosa de Castro. Trabalho e Justiça Social: um tributo a Mauricio Godinho Delgado. São Paulo: LTr, 2013, p. 285.

CAPÍTULO 3

FUNDAMENTOS DA RELAÇÃO DE TRABALHO NO DIREITO