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Como se produz e reproduz a força de trabalho?

Todas as atividades humanas têm, em sua origem, o trabalho.

Antes de tudo, o trabalho é um processo de que participam o homem e a natureza, processo em que o ser humano com sua própria ação, impulsiona, regula e controla seu intercâmbio material com a natureza. Defronta-se com a natureza como uma de suas forças. Põe em movimento as forças naturais de seu corpo, braços e pernas, cabeça e mãos, a fim de apropriar-se dos recursos da natureza, imprimindo-lhes forma útil à vida humana. Atuando assim sobre a natureza externa e modificando-a, ao mesmo tempo modifica sua própria natureza. (MARX, 1984, p. 202)

É através desta centralidade ontológica que Marx sempre buscou investigar o tema, atravessando toda a sua obra. Desde os Manuscritos Econômico-Filosóficos, de 1844, Marx discutiu dialeticamente o fato de que o trabalho é, ao mesmo tempo, uma dimensão fundante do ser humano enquanto ser social e, na sociedade capitalista, ganha características de estranhamento ou alienação, onde os sujeitos sociais não se enxergam no fruto do seu trabalho12.

Marx (1984) chama a atenção à relação que se estabelece no momento em que o possuidor de dinheiro encontra no mercado não o trabalho, mas o trabalhador. “O que este vende é sua força de trabalho. Ao começar realmente seu trabalho, já deixa este de pertencer-lhe, não lhe sendo mais possível vendê-lo. O trabalho é a substância e a medida imanente dos valores, mas ele próprio não tem nenhum valor”. (MARX, 1984, p. 664). O que sim produz valor em forma de capital é a força de trabalho na medida em que efetiva o seu trabalho num processo produtivo. Trabalho existe apenas como potencial, como possibilidade, e só se realiza através do emprego da força de trabalho. Ainda assim, o que

12 A alienação do trabalho é fruto desse processo em que o trabalhador não detém nenhum controle sobre o processo produtivo, as matérias primas, os meios de produção e, consequentemente, sobre as

mercadorias que produz. Muito pelo contrário: passam a dominá-lo. (MARX, 2004)

se encontra no mercado são trabalhadores, homens e mulheres de carne e osso, e não trabalho em abstrato.

No desenvolvimento histórico-social e na produção e reprodução do capital, o trabalho passa a ser uma relação social na qual o trabalhador entrega o valor de uso de sua força de trabalho a um capitalista que detém os meios de produção, e que emprega essa força de trabalho para produzir mercadorias e acumular capital gerando, aí sim, valor e mais-valor.

A força de trabalho, ainda que seja uma mercadoria como outras, possui duas características especiais que devem ser consideradas: (1) é a única capaz de produzir mais-valor; (2) não pode ser “produzida” de forma capitalista.

Em relação à primeira característica, é ela que faz com que o trabalhador seja “o meio de produção mais imprescindível ao capitalista” (MARX, 1984, p. 666). Na medida em que o trabalhador consome os meios de produção pertencentes ao capitalista para a realização do seu trabalho, transforma-os em um produto que conterá mais-valor, processo que Marx denomina como consumo produtivo. Nesse processo, portanto, a força de trabalho é capaz de valorizar o valor, produzindo o mais-valor que estará contido no produto final e que será realizado (consumado) no processo de circulação quando a mercadoria for vendida.

Da segunda característica especial da força de trabalho, podemos concluir que já que não é possível que máquinas ou um processo capitalista “produzam” novos trabalhadores, o capital depende da reprodução biológica da espécie humana. E mais do que “produzir” novos seres humanos, há uma série de processos necessários para fazer o trabalhador se reproduzir no dia a dia. Portanto, a primeira característica de ser capaz de produzir mais-valor só se efetiva na medida em que a segunda acontece: a reprodução social da força de trabalho.

Em O Capital, além do que chamou de consumo produtivo, Marx desenvolveu o conceito de consumo individual, que seria o consumo dos meios de subsistência para a reprodução do trabalhador ou, em suas palavras, para “reproduzir músculos, nervos, ossos e cérebro do trabalhador existente e para gerar novos trabalhadores” (MARX, 1984, p. 666).

Dentro dos limites do absolutamente necessário, o consumo individual da classe trabalhadora, portanto, transforma os meios de subsistência, proporcionados pelo capital em troca de força de trabalho, em nova força de trabalho explorável pelo capital. É produção e reprodução do meio de produção mais imprescindível ao capitalista, o próprio trabalhador. O consumo

individual do trabalhador constitui fator da produção e reprodução do capital, processe-se dentro ou fora da oficina, da fábrica etc., dentro ou fora do processo de trabalho, do mesmo modo que a limpeza da máquina, ocorra ela no processo de produção ou em determinadas pausas. Pouco importa que o trabalhador realiza seu consumo individual tendo em vista sua própria satisfação e não a do capitalista. As bestas de carga saboreiam o que comem, mas seu consumo não deixa, por isso, de ser um elemento necessário do processo de produção. A conservação, a reprodução da classe trabalhadora, constitui condição necessária e permanente da reprodução do capital. O capitalista pode tranquilamente deixar o preenchimento dessa condição por conta dos instintos de conservação e de perpetuação dos trabalhadores.

(MARX, 1984, p. 666, grifo nosso)

Reforçando as palavras de Marx, o consumo individual proporciona a “produção e reprodução do meio de produção mais imprescindível ao capitalista, o próprio trabalhador” por ser detentor da única mercadoria, a força de trabalho, capaz de gerar mais-valor. Queremos chamar atenção ao fato de que, neste trecho, Marx deixa claro que o consumo individual do trabalhador é fator da produção e reprodução do capital, seja dentro ou fora do processo de trabalho. Isso porque é condição absolutamente indispensável para a roda do capital girar, seja por garantir a renovação de energias do trabalhador para mais um dia de exploração ou, ainda, a renovação geracional da classe trabalhadora. E ainda, porque tal consumo realiza o mais-valor contido nos produtos que compõem sua cesta básica de subsistência, histórica e socialmente determinada.

O que uma série de teóricas feministas chamam a atenção, neste trecho, é para o raciocínio de Marx de que o capitalista poderia deixar a reprodução dos trabalhadores por conta dos seus “instintos de conservação e perpetuação”13. Na realidade, o processo de reprodução social da força de trabalho, até mesmo por ser imprescindível ao capitalista, é fruto de importantes investidas, tanto no nível material e objetivo, quanto no ideológico e espiritual. Envolve um jogo de forças complexo, contraditório, entre capital, trabalhadores e Estado capitalista, atravessado historicamente pela luta de classes. Como afirma Vogel (2013, p. 189), “Diversas características da reprodução da força de trabalho e da opressão das mulheres na sociedade capitalista surgem da lógica da acumulação capitalista em si.”

13 Sobre isso, Vogel (2013) argumenta: “Nas palavras de Marx, o trabalhador “produz constantemente riqueza material, objetiva, mas na forma de capital, de um poder alheio que o domina e explora; e o capitalista produz constantemente força de trabalho, mas na forma de fonte subjetiva de riqueza, separada dos objetos nos e pelos quais somente pode ela se realizar; em resumo, ele produz o trabalhador, mas como trabalhador assalariado. Essa reprodução incessante, essa perpetuação do trabalhador, é condição sine qua non da produção capitalista”. Tais declarações dramáticas são verdadeiras em um sentido amplo, mas lançam pouca luz sobre o status teórico da reprodução da força de trabalho na sociedade capitalista, e menos ainda sobre a maneira como ela ocorre.” (VOGEL, 2013, p. 197)

É possível afirmar que produção e reprodução do capital ditam a reprodução da classe trabalhadora. Mesmo que na aparência exista uma independência do trabalhador – até “as bestas de carga saboreiam o que comem” (MARX, 1984, p. 666) – ela deve ser relativizada. Ainda que não esteja preso por grilhões como o escravo romano, como afirma Marx, o trabalhador está “preso a seu proprietário por fios invisíveis”, mesmo havendo “mudança contínua de seus patrões e a ficção jurídica do contrato” (MARX, 1984, p. 667). Ou, poderíamos ainda acrescentar, ainda que tenha uma aparente autonomia para decidir com quem vai casar, quantos filhos quer ter, que produtos de limpeza e a comida que vai comprar no mercado, quais temperos vai usar para fazer o almoço, o que quer fazer com seu tempo livre, os fios invisíveis ainda estão ali, assombrando nossas vidas e limitando nossas escolhas. E, de acordo com a posição social que ocupa, suas condições de vida estarão mais ou menos limitadas. Afirmar isso não é absolutizar a dominação do capital, mas até pelo contrário, compreender que as esferas da luta de classes vão muito além da relação de exploração que se estabelece no local de trabalho. E que a relação entre as classes só é plenamente compreendida se observarmos seu conjunto e seus interesses estratégicos em oposição14.

Vogel (2013) se propõe a avançar na investigação teórica dos processos de reprodução social da força de trabalho, que não foram investigados por Marx, e que de acordo com ela são as engrenagens fundamentais da opressão à mulher no capitalismo.

Marx considerava que a reprodução da força de trabalho era central para a reprodução social, mas nunca ofereceu uma explicação exaustiva do que ela implicava. Às vezes focava na renovação do trabalhador individual; em outros pontos, frisava a importância da manutenção e substituição dos membros não- trabalhadores da classe trabalhadora. (VOGEL, 1983, 188)

O desafio que a teoria da reprodução social busca enfrentar é dar conta dessa

“explicação exaustiva” e determinar o status teórico da reprodução social da força de

14 “(...) cada capitalista individual, assim como o conjunto dos capitalistas em cada esfera de produção particular, participa na exploração de toda a classe operária pelo conjunto do capital e no grau dessa exploração, não simplesmente por simpatia geral de classe, mas por interesse econômico direto, porque a taxa média de lucro depende do grau de exploração do trabalho total pelo capital total. (...) Isso demonstra com uma exatidão matemática por que os capitalistas, ainda que se comportem entre si como falsos irmãos na concorrência que se fazem, constituem não obstante uma verdadeira franco-maçonaria em relação ao conjunto da classe operária.” Portanto, as relações de classes não podem reduzir-se ao confronto entre patrão e operário na empresa. Social, a exploração pressupõe o metabolismo da

concorrência, a formação de uma taxa média de lucro, a determinação do tempo de trabalho socialmente necessário.” (BENSAID, 1999, p. 160)

trabalho a partir da crítica da economia política. Compreender a relação entre capital e trabalho expressa não apenas na produção, mas também na reprodução das condições de produção. Compreendendo como a lógica do capital incide em todas as partes da vida e, portanto, compreendendo o caráter social de todos os tipos de trabalho. Dessa forma, escapamos de uma compreensão economicista do capitalismo e da própria luta de classes, que reduz a luta dos trabalhadores ao seu local de trabalho e a questões salariais. Inclusive dando a essa um sentido mais amplo, de que a luta por melhores condições de trabalho é a luta por melhores condições de vida.

(...) o capital expropriou a vasta maioria de nós dos meios de nossa subsistência, assim como dos meios de produzi-la. Como resultado, tudo que nós fazemos para reproduzir o mundo é necessariamente condicionado pelas necessidades do capital. Ainda assim a dominação desse, não é absoluta.

Precisamente porque as pessoas retêm algum controle sobre a sua reprodução social e biofísica, outros interesses e dinâmicas relacionais podem rivalizar, e de fato o fazem, com o imperativo capitalista. Lutas pelo acesso ao aborto, creches e cuidados às crianças, melhores salários, água potável, por exemplo, remodelam as relações entre trabalhadores e capital, e entre os próprios trabalhadores. (FERGUSON, 2017, p. 27-28)

Não só a questão salarial (ou os conflitos no local de trabalho) determinam o valor da força de trabalho, ou dito em outras palavras, as condições para a sua reprodução. Se o valor é o tempo de trabalho socialmente necessário à sua reprodução, como é possível determinar a reprodução social da força de trabalho para além, simplesmente, do consumo individual? De que forma o capital depende e determina os processos de reprodução social da força de trabalho e como podemos compreender teoricamente, a partir da crítica da economia política, tal dinâmica?

A fim de buscar o status teórico da reprodução social e, mais especificamente, do trabalho doméstico, buscaremos concretizar este trabalhador em sua diversidade. Na medida em que relacionamos a reprodução social da força de trabalho com a totalidade do capitalismo, inevitavelmente precisamos definir quem são as trabalhadoras e trabalhadores responsáveis por garantir os processos de trabalho, de que corpos e subjetividades15 estamos falando. Arruza (2020) nos ajuda a elucidar a questão:

Mas as trabalhadoras não são entidades abstratas, as trabalhadoras são seres humanos, o que significa que têm corpos concretos, têm sentimentos e

15 De acordo com Arruza (2020), “a TRS é também uma teoria da subjetivação no sentido de que permite compreender a conformação, a moldagem de um certo tipo de subjetividade, pois o trabalhador explorado não é um "trabalhador abstrato".” (ARRUZA; BHATTACHARYA, 2020, p. 43, tradução livre)

pensamentos específicos determinados por processos históricos, que precisam ser disciplinados para trabalhar, e essa disciplina afeta diretamente o processo produtivo. Assim, quando olhamos para o processo de produção (por exemplo, no capítulo sobre a jornada de trabalho em O Capital), já encontramos um trabalhador menos abstrato do que encontramos em outros capítulos. Por exemplo, se lemos os capítulos sobre máquinas, já descobrimos que o que está em jogo não é apenas um processo de extração de valor, mas também um processo de dominação, de opressão, por meio de máquinas. Gosto de usar a formulação de Daniel Bensaïd do capitalismo como uma totalidade contraditória de relações de exploração, alienação e dominação (ou seja, opressão). Em última análise, o capitalismo é essas três coisas em uma. Não há hierarquia entre elas, não é útil falar em termos de hierarquias porque esses três elementos são co-constitutivos e trabalham juntos para que o capitalismo exista. (ARRUZA; BHATTACHARYA, 2020, p. 43-44, tradução livre)

As diferenças entre os corpos dos trabalhadores e suas subjetividades são usadas pelo capital para produzir desigualdades no interior da classe trabalhadora, reforçar e renovar as relações de exploração, alienação e dominação. Ferguson (2017) afirma que há uma “unidade diversa, concreta” da classe trabalhadora (FERGUSON, 2017, p. 27), que é feita por pessoas de diferentes corpos, do sexo feminino e masculino com suas diferenças biofísicas, de pele preta, marrom, vermelha, amarela, branca, nascidos em localidades geograficamente distintas, com suas culturas, costumes, vestimentas, comidas, expressões artísticas, rituais religiosos e espirituais, ocupando lugares distintos da vida urbana e rural. Atravessada, portanto, por subjetividades diversas, determinadas social e historicamente. Compreender de que forma se dá a reprodução social da força de trabalho identificando as múltiplas determinações das relações sociais, e qual o lugar que ocupa o trabalho doméstico na totalidade do capitalismo, é a tarefa para o próximo capítulo.

2 O LUGAR DO TRABALHO DOMÉSTICO NA TOTALIDADE CAPITALISTA Neste capítulo, abordaremos mais detidamente a reprodução social da força de trabalho e nos centraremos em sua dimensão privada, os lares familiares, buscando conceituar trabalho doméstico à luz da crítica da economia política. Investigando se o trabalho doméstico produz ou não valor e se deve ser compreendido como parte do sistema capitalista ou de sistemas distintos que se inter-relacionam. Abordaremos de que forma esse debate se expressa em vertentes da teoria feminista. Por fim, faremos breves considerações sobre o processo de acumulação primitiva na formação do modo de produção capitalista e de que forma isso impactou a instituição das famílias e das classes sociais no capitalismo.