3.2 Aspectos teológicos
3.2.4 Comunhão com Cristo
Conforme visto, os hinos do Apocalipse portam consigo o teocentrismo do livro557. Por isso, apresentam Deus por meio das aclamações e atributos. Contudo, aparece em alguns hinos a figura do Cordeiro (5,9-14; 7,10-12; 15,3-4; 19,1-8) e em outros se menciona o Cristo (11,15- 18; 12,10-12). Voltamo-nos para a participação de Cristo, o Cordeiro imolado, no processo de salvação.
553 BAUCKHAM, 1993, p. 33-34.
554 Expressão empregada por Rudolf Otto para designar como o ser humano se sente diante do numinoso:
OTTO, Rudolf. O sagrado. Lisboa: Edições 70, 2005, p. 19.
555 OTTO, 2005, p. 22.
556 OTTO, 2005, p. 49.
557 BAUCKHAM, 1993, p. 23.
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Após o primeiro hino (4,8-11), o autor cria um suspense narrativo antes da primeira apresentação do Cordeiro em 5,6-8558: ninguém é digno de abrir o livro (5,2-3). Então, surge no centro do trono aquele que é o “Leão da tribo de Judá” e o “rebento de Davi” (5,5)559: o Cordeiro imolado, de pé, com sete chifres e sete olhos (5,6). O hino proclamado se dirige ao Cordeiro que é “digno” de abrir o livro, pois “foi imolado” (5,9)560. Os gestos e atributos de adoração dirigidos a Deus (4,8-11), também se destinam ao Cordeiro561.
Na sequência narrativa, o Cordeiro inicia a ruptura dos selos (6,1−8,1). Antes da execução no último selo (8,1), lemos uma visão celeste dos preservados da ira divina, dentre os quais uma multidão incontável com vestes brancas e palmas nas mãos (7,9) proclama um hino (7,10-12) dirigido a Deus, que está sentado sobre o trono, e ao Cordeiro (7,10). A salvação lhes pertence, ou seja, eles têm a tarefa de agir em prol da libertação do povo. Assim, conclui-se o hino com uma doxologia a Deus e ao Cordeiro, cujo centro textual se localiza na ação de graças (h` euvcaristi,a) (7,12).
Com a ruptura do sétimo selo, acontece o toque das trombetas pelos anjos (8,2−11,18), cujo último toque proclama o hino de 11,15-18. Enquanto na seção anterior o Cordeiro atuava abrindo os selos (6,1.3.5.9.12; 8,1), os anjos se assumem, nessa seção, como sujeitos dos atos.
Não há menção do vocábulo Cordeiro em 8,2−11,18. O hino reverencia o Senhor e seu Cristo (11,15) que assumem o reino do mundo562. Enquanto havia descrições, atributos e louvores a Deus e ao Cordeiro, a redação privilegiava a palavra “Cordeiro”; quando começam as ações, privilegia-se a palavra “Cristo” (11,15; 12,10)563. No presente hino (11,15-18), o reinado de Deus se inicia e, consequentemente, o reinado de Cristo. Na segunda parte do hino (11,17-18),
558 CASALEGNO, Alberto. E o Cordeiro vencerá (Ap 17,14): leitura exegético-teológica do livro do Apocalipse. São Paulo: Loyola, 2017, p. 93.
559 Duas expressões de teor messiânico. “Leão da tribo de Judá” se refere ao filho de Jacó em Gn 49,9- 10. A expressão “rebento de Davi” diz respeito à expectativa de um messias da linhagem davídica (Is 11,1; Zc 3,8; 6,12): CASALEGNO, 2017, p. 93.
560 Joseph Verheyden considera a figura do Cordeiro imolado e de pé um dos exemplos de imagens
“estranhas e inesperadas” características do Apocalipse: VERHEYDEN, Joseph. Strange and Unexpected: some Comments on the Language and Imaginary of the Apocalypse of John. In: COLLINS, Adela Yabro (ed). New Perspectives on the Book of Revelation. Leuven: Peeters, 2017, p. 159-206, aqui p. 203-205.
561 BAUCKHAM, 1993, p. 54-58.
562 Observe-se o verbo no singular (basileu,sei) tendo como sujeitos o Senhor e seu Cristo (11,15). R.
Bauckham explica como um detalhe gramatical para incluir Jesus no culto monoteísta (BAUCKHAM, 1993, p. 60).
563 A palavra “Cristo” ocorre apenas sete vezes no Apocalipse. O uso concentra-se no início (1,1.2.5) e no fim (20,4.6) do livro com as mencionadas ocorrências no centro (11,15; 12,10). O autor prefere a imagem do “Cordeiro” (vinte e nove vezes) usada a partir de 5,6.
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verifica-se a presença do verbo “reinar” (11,17) e de outros verbos relacionados ao agir divino que explicitam a soberania de Deus e de Cristo (11,18)564.
No hino central (12,10-12), a salvação começa a se realizar juntamente com o reinado de Deus e a autoridade de Cristo (12,10). Deus e Cristo executam o julgamento na cena da batalha entre Miguel e o dragão. A vitória se realiza por meio do “sangue do Cordeiro” e do
“testemunho da palavra” (12,11). A morte e ressurreição de Jesus e o martírio dos seus seguidores garantem a vitória da comunidade. Os cristãos pertencem ao reino de Cristo e de Deus e não ao Império Romano565.
As visões continuam no decorrer dos capítulos 12−14. Em 15,1-2, mostra-se um novo sinal em continuidade com 12,1.3. O novo cântico de Moisés (15,3-4) é também cântico do Cordeiro (15,3). No entanto, o conteúdo do hino se dirige a Deus. As “grandes e admiráveis obras” de Deus acontecem por meio de Cristo. O reconhecimento e o louvor a Deus consideram a ação histórica de Jesus.
Das visões percebidas do capítulo anterior, passa-se à audição da voz celestial ordenando aos anjos o derramamento das taças da ira divina (16,1). Após o derramamento da terceira taça (16,4), ouve-se o hino (16,5-7) do enaltecimento da justiça divina. Nesse hino, não se menciona o Cordeiro nem Cristo.
Após a visão da besta e da grande prostituta (17,1-18) e a queda de Babilônia (18,1-24), o hino final (19,1-8) celebra esses eventos e convida para as núpcias do Cordeiro. O hino parece se dirigir unicamente a Deus: a salvação, a glória e o poder pertencem a Deus (19,1), seus juízos são justos e verdadeiros (19,2), ele julgou a grande prostituta (19,2), ele vingou o sangue dos seus servos (19,2), os tementes e servos o louvam (19,5), ele reinou (19,6). Contudo, na parte final (19,7-8) justifica-se o júbilo por causa das núpcias do Cordeiro com sua esposa preparada.
O louvor dirigido a Deus introduz na comunhão em Cristo.
Os hinos, bem como a narrativa do Apocalipse, apresentam o Cordeiro em função de Deus. A cristo-logia do Apocalipse faz compreender a teo-logia. Deus e o Cordeiro recebem os
564 KONINGS, Johan. O senhor passou a reinar (Ap 19,6). Estudos Bíblicos, v. 2, n. 78, p. 95-101, 2003.
565“A afirmação de João de que a realeza pertence aos seguidores de Jesus subtende outra afirmação: o império não pertence a Roma. Essa afirmação, por alguém que era um profeta em um círculo de diminuta ekklesiai era, já se vê, ridícula, se o ouvinte aceitava a mitologia de Roma. Contudo, o Apocalipse afirma que o imperium de Roma cessara nas ekklesiai que resistiram a ele”. (HOWARD-BROOK, Wes;
GWYTHER, Anthony. Desmascarando o imperialismo: interpretação do Apocalipse ontem e hoje. São Paulo: Loyola, 2003, p. 268).
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mesmos atributos e honras, demonstrando a mesma dignidade de um e de outro566. A atuação de Deus se realiza por meio do Cordeiro, que manifesta o agir divino e participa do julgamento.