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1. INTRODUÇÃO

1.3. Conceito de Dotação e Talento

Essa temática apresenta uma variedade de conceitos e explicações para potencial de alto nível. A área de dotação e talento conta com vários pesquisadores, que definem alta capacidade a partir de diferentes variáveis (Feldhusen, 1996;

Guenther, 2006).

Essas escolhas de terminologia têm implicações diretas com o processo de identificação e com a educação a ser ofertada a esses estudantes. No Brasil, vários termos são utilizados para se referir à alta capacidade: potencial superior, portadores de altas habilidades / superdotação, capacidades e talentos, sobredotação, comportamentos superdotados, altas habilidades / superdotação, altas habilidades ou superdotação, dotação e talento, entre outros (Alencar, 2006;

Alencar & Fleith, 2007; Almeida & Capellini, 2005; Guenther 2006, 2008, 2011, 2013;

Pocinho, 2009).

Em torno dessa variedade de termos, a legislação brasileira na LDBEN nº9394/96, adotou a terminologia alta habilidades / superdotação. Sobre essa questão, Guenther (2011) ressalta a tradução equivocada de High Ability que em português – alta capacidade – traduzida como altas habilidades; e ao ser adotada a palavra superdotado, uma tradução, também, alterada do termo inglês gifted (dotado), ‘super’ veicula uma ideia errônea, que alimenta e reaviva o uso ligado ao senso comum existente na área. Essa autora faz referência a Antipoff, que foi

“visceralmente contrária a esse termo e apontou as conotações negativas do prefixo

‘super’, que lembra ‘super-homem’ e ‘avis rara’ (p.207)”.

Vale destacar que essa polêmica impulsionou mudanças na legislação brasileira, mais recentemente, na alteração da LDBN nº 9394/96, pela Lei 12.796/2013, que alterou a terminologia trocando a barra (/) pela palavra ou, ou seja, altas habilidades ou superdotação.

A definição do conceito de dotação ainda traz polêmicas, dificultando a compreensão na área. O Modelo de Enriquecimento de Renzulli (1986), uma proposta referenciada pelos órgãos oficiais no país, utiliza os conceitos como sinônimos, sem realizar diferenciações claras, indicando, de maneira geral, que a intervenção deva acontecer no mesmo espaço e tempo da sala regular, o que não tem apresentado resultados significativos, a julgar pelos indicadores oficiais relacionados ao número de estudantes em intervenção nos registros do INEP.

J. Gallagher & S. Gallagher (1994), referindo-se a crianças dotadas e talentosas, diz que as mesmas requerem programas educativos diferenciados e serviços além daqueles providenciados pelo programa escolar regular.

Angoff (1988), em estudos aprofundados por Gagné (2009) sobre dotação e talento, revisa centenas de pesquisas, analisando as medidas de aptidão separadas das medidas de desempenho, o que possibilitou clarear esses construtos. Ele define aptidão como capacidade natural própria do indivíduo, e dotação como presença de capacidade natural, poder físico e mental de aprender sem ensino ou treino intencional. Assim, capacidade natural atua como potencial para a ação em qualquer campo, independente de áreas, e antecede ao desempenho.

De acordo com Gagné (2009), no contexto internacional, percebe-se que a utilização dos dois termos, dotação e talento, não significam dois conceitos diferenciados. Em seus estudos, o autor constatou que a maioria dos pesquisadores utilizam as palavras como sinônimas, e outros evitam utilizar o termo talento (Renzulli, 1986; Sternberg, 2003). Gagné (2009) afirma, ainda, que, quando há diferenciação, existem equívocos ao diferenciá-las. Por exemplo: dotação como uma ordem mais elevada de excelência do que talento; dotação igual alta capacidade cognitiva e talento para outras formas, como artes e esportes; dotação como capacidade desenvolvida e consolidada em oposição a talento, capacidade em construção.

Ainda nessa temática de discussão, Gagné (2009) ressalta outra questão ligada à influência da linguagem coloquial para definição do termo talento, como talento natural, expressa inclusive nos dicionários, que apresentam talento como sinônimo de dotação e vice e versa. O autor adverte que a confusão, ao definir talento como capacidade natural e como habilidade sistematicamente adquirida, não se limita somente à linguagem coloquial, já que alguns estudiosos da área também cometem esse equívoco. Aponta, como exemplo, os estudos de Feldhusen (1994), que propõe substituir o termo talento por dotação, o que, para Gagné, produziu mais desordem na área.

No Brasil, Guenther (2006, 2008, 2009, 2011, 2013) concorda com Gagné na adoção dos construtos dotação e talento. Para a autora, a definição proposta torna possível o desempenho de alta qualidade nas diversas áreas do conhecimento

problema de conceituação vai além da questão ligada à semântica.

Guenther e Gagné (2010), discorrendo sobre alguns fatores que levam à confusão dos construtos, abalizam que isso pode ocorrer, já que ambos se referem às capacidades humanas e são normativos, pois apontam indivíduos que se diferem da norma ou da média da população, e indivíduos que apresentam comportamentos notavelmente superiores, se comparados à população em geral.

Na proposta de Gagné, Modelo Diferencial de Dotação e Talento - DMGT - (1999, 2005, 2008, 2009), os conceitos são definidos de forma clara:

- Dotação significa posse e uso de capacidades naturais notáveis, chamadas aptidões, em pelo menos um domínio de capacidade, a um grau que coloca o indivíduo, pelo menos, entre os 10% mais altos no grupo de pares compatíveis.

- Talento designa desempenho notável de habilidades sistematicamente desenvolvidas, em pelo menos um campo de atividade humana, a um grau que coloca o indivíduo entre, pelo menos, os 10% mais alto no grupo de pares compatíveis, que são ou já foram ativos naquele campo.

Os construtos apresentam características diferentes. Dotação (capacidade natural, potencial, aptidão) tem origem genética; é passível de influência de maturação; é desenvolvida lentamente; é influenciada por educação informal; é resistente a estímulos; é estimulada pela vivência cotidiana e acumulada em longos períodos de tempo. Talento (desempenho superior e habilidade notável, competência, expertise que implica comportamentos, ações e atitudes visíveis e captáveis) é caracterizado por aprendizagem intencional; crescimento rápido;

passível de ensino, treino, prática; responde a estímulos externos; e traz respostas imediatas. (Gagné, 2008; Guenther, 2011)

Nessa perspectiva, o desenvolvimento de um talento segue características diferentes e divergentes do desenvolvimento da dotação. Segundo Guenther (2011), desenvolver talento pode ser uma via manejável para a educação, ao passo que desenvolver capacidade exige vivência diversificada em amplas redes de educação informal e ampliação da experiência de vida. No entanto, em termos de transferência e sedimentação de conexões, desenvolver dotação é mais promissor.

Ainda nessa discussão, capacidade é um conceito mais abrangente, pois se refere tanto à dotação quanto a talento: dotação, que se refere à capacidade natural;

talento, que se refere à capacidade adquirida.

Vale ressaltar que esta pesquisa centrou-se na metodologia Caminhos para Desenvolver Potencial e Talento – CEDET (Guenther, 2011), que utiliza como base teórica para a identificação o Modelo Diferencial de Dotação e Talento de Gagné;

essa posição amplia os elementos constitutivos e explicativos do construto em questão, e considera tanto a origem genética, como as influências e as interações do ambiente no desenvolvimento da capacidade identificada nos domínios da inteligência, da criatividade, e do socioafetivo.

Dito isso, destaca-se que, nessa tese, foi adotada a terminologia dotação e talento, construtos diferenciados por Gagné (2009). Contudo, quando se tratar da legislação brasileira, serão utilizadas as expressões adotadas oficialmente.

Outro ponto importante a ressaltar é que, nessa pesquisa, a análise recai na perspectiva humanista (Maslow 1970, 1976; Combs, A, Richards, A., Richard, F, 1976; Antipoff, H., 1973, 1992,2002; Guenther e Combs, 1980; Guenther, 1997). Por essas considerações, e amparados nos resultados obtidos da pesquisa10 que abaliza o trabalho do CEDET como o mais promissor na Educação dos mais capazes no Brasil, identificou-se o objeto de investigação desse estudo: a relação entre o trabalho desenvolvido pelo CEDET e o desenvolvimento da potencialidade de seus estudantes.

Nessa direção, emergiu a seguinte questão: Que resultado, em termos de desenvolvimento geral e pessoal dos estudantes, pode ser atribuído ao trabalho do CEDET?

Essa questão exigiu a caracterização do trabalho desenvolvido no Centro para o Desenvolvimento do Potencial e Talento, apontando como objetivo geral:

Verificar quais os efeitos do trabalho educativo do CEDET no desenvolvimento da potencialidade de seus estudantes.

10 Pesquisa: O Atendimento às crianças e jovens com Dotação e Talento: a experiência do CEDET de Assis. Santos, R. Faculdade de Ciências e Letras - UNESP - Campus Araraquara. CAAE:

35608014.10000.5400 Parecer nº: 946.523.

pesquisa buscou como objetivos específicos:

 Analisar o referencial teórico e legal que orientam o atendimento às crianças e jovens com alta capacidade;

 Identificar e descrever a metodologia Caminhos para Desenvolver Potencial e Talento – CEDET: sua base teórica, o processo de identificação e de intervenção educativa;

 Analisar os resultados obtidos pelo trabalho desenvolvido no Centro para o Desenvolvimento do Potencial e Talento – CEDET;

 Enunciar formas/caminhos possíveis para a identificação e desenvolvimento das potencialidades de crianças e jovens com dotação e talento.