Como as pessoas não podem mais fazer Justiça com as próprias mãos, resta a elas a possibilidade solicitar ação do poder estatal, devem provocar a função jurisdicional através do processo,
instrumento por meio do qual os órgãos jurisdicionais atuam para pacificar as pessoas conflitantes, eliminando os conflitos e fazendo cumprir o preceito jurídico pertinente a cada caso que lhes é apresentado em busca de solução.77
O processo é o meio que o poder político dispõe às partes para que possam formular suas pretensões e defesas. A partir do qual, o Estado poderá formular e realizar o Direito àqueles que buscam a Jurisdição.
Para Colucci, “Jurisdição é a função do Estado de compor os conflitos de interesses pela aplicação da lei ao caso concreto”.81 Segundo Rocha, é ela “que tem a finalidade de manter a eficácia do Direito em última instância no caso concreto, inclusive recorrendo à força se necessário”.82
Para Cintra, Grinover e Dinamarco, Jurisdição é,
ao mesmo tempo, poder, função e atividade. Como poder, é a manifestação do poder estatal, conceituado como capacidade de decidir imperativamente e impor decisões. Como função, expressa o encargo que têm os órgãos estatais de promover a pacificação de conflitos interindividuais, mediante a realização do Direito justo e através do processo, E como atividade ela é o complexo de atos do juiz no processo, exercendo o poder e cumprindo a função que a lei lhe comete. O poder, a função e a atividade somente transparecem legitimamente através do processo devidamente estruturado (devido processo legal).83
Opta-se, neste estudo, examinar a Jurisdição como poder, função e atividade do Estado. Nesta seara, estudar-se-á as características que compõem a função e a atividade jurisdicional. Antes, porém, é preciso esclarecer que essa classificação diferencia-se em alguns pontos entre os doutrinadores, mais em questão de nomenclatura do que de conteúdo.
2.2.1 Características da Jurisdição
A Jurisdição possui algumas características que se tornam essenciais para a estruturação da Jurisdição estatal. Isto quer dizer que o ente Estado assume a responsabilidade de resolver os conflitos, apresentando-se de diversas maneiras.
Substituição: A Substituição surgiu a partir do momento que a decisão dos conflitos passou a acontecer fora do âmbito da Justiça privada, o
81 COLUCCI, Maria da Glória Lins da Silva. ALMEIDA, José Mauricio Pinto de, Lições de Teoria Geral do Processo. 4aed. Curitiba: Juruá, 1999. p.20
82 ROCHA, José de Albuquerque. Teoria Geral do Processo. São Paulo: Saraiva, 1991. p.52
83 CINTRA, Antonio Carlos de Araújo; GRINOVER, Ada Pellegrini e DINAMARCO, Cândido Rangel. Teoria Geral do Processo. p.131
Estado toma para si a responsabilidade de apreciar e resolver as controvérsias.
Através da figura do juiz busca uma substituição fiel.
Segundo ensina Greco Filho:
“a característica essencial da Jurisdição, segundo a doutrina consagrada, é a substitutividade, porque o Estado, por uma atividade sua, substitui a atividade daqueles que estão em conflito na lide [...], pois é a função do Estado dizer o Direito e não permitir que os conflitantes busquem Justiça pelas próprias mãos, ainda que legítima, neste sentido a função do Estado em dizer o Direito tem o caráter de definitividade encerrando o devido processo legal”.84
As partes interessadas não podem, nenhuma delas, dizer definitivamente se a razão está com uma ou com a outra: nem podem, senão excepcionalmente, invadir a esfera jurídica alheia para satisfazer-se de uma pretensão. Portando, a única atividade admitida pela lei, quando surge o conflito, é a do Estado que substitui as partes.85
Lide: A lide pode ser entendida como a pretensão resistida, ou mesmo, como o próprio conflito de interesses. Theodoro Júnior afirma que,
“há conflito de interesses quando mais de um sujeito procura usufruir o mesmo bem. [...] Há litígio quando o conflito surgido na disputa em torno do mesmo bem não encontra uma solução voluntária ou espontânea entre os diversos concorrentes.”86 Existindo a lide o Estado quando movido na Jurisdição Voluntária ou na Jurisdição Contenciosa busca solucionar os conflitos. A atividade jurisdicional da lide é uma atividade provocada. Não há Jurisdição sem ação. É importante lembrar que os juízes não saem em busca de lides. Mas elas devem ser movimentadas pelos interessados.
84 GRECO FILHO, Vicente . Direito Processual Civil. p. 168
85 CINTRA, Antonio Carlos de Araújo; GRINOVER, Ada Pellegrini e DINAMARCO, Cândido Rangel. Teoria Geral do Processo. p.132
86 THEODORO JUNIOR, Humberto. Curso de Direito Processual Civil. Vol. 1.Rio de Janeiro:
Forense, 2003, p. 31.
Coisa Julgada: a solução dos conflitos de forma definitiva, através da coisa julgada, mostra que a Jurisdição é capaz de manter a segurança e a certeza jurídica. Assegura as partes o conforto de extinção definitiva de determinado conflito. Necessário se faz observar que a coisa julgada não é condição essencial da Jurisdição, mas é entendido como atributo específico.
Mesmo Liebman que é considerado um adepto da coisa julgada entende que os efeitos da sentença se produzem independentemente da coisa julgada:
[...] De fato, os efeitos possíveis da sentença (declaratório, constitutivo, executório) podem, de igual modo, imaginar-se, mesmo em sentido puramente hipotético produzidos independentemente da autoridade da coisa da julgada, sem que por isso se lhe desnature a essência. A coisa julgada é qualquer coisa mais que se ajunta para aumentar-lhe a estabilidade, e isso vale igualmente para todos os efeitos possíveis da sentença87. Neste aspecto, a solução dos conflitos não se alcança só com a coisa julgada, o instrumento da sentença já traz uma certeza jurídica e pacífica. A coisa julgada é a estabilidade das decisões. Toda sentença, após transcorridos os prazos para recursos, ou já esgotados os recursos que podiam ser interpostos, faz coisa julgada formal. Não podendo sofrer modificação e nem impugnação dentro do processo.
A coisa julgada material é alcançada com a sentença de mérito (salvo algumas exceções), sua eficácia projeta-se fora do processo em que a sentença foi proferida. Os efeitos da sentença tornam-se imutáveis, após transitada materialmente em julgado, as partes (ou seus sucessores) não poderão mais discutir ou reclamar o objeto da lide que a sentença denegou ou atribuiu a qualquer uma das partes envolvidas. Tem-se neste aspecto a eficácia vinculativa plena, que a atividade jurisdicional produz.
Imparcialidade: necessária para dirimir os conflitos, a fim de alcançar um resultado justo, independente das partes que estão litigando. A figura, juiz natural, legitimamente investido no cargo, vai representar o Estado. A
87 LIEBMAN. Enrico Tullio.Eficácia e Autoridade da Sentença. Trad. de Alfredo Buzaid e Benvindo Aires; Trad dos textos posteriores à edição de 1945 e notas relativas ao Direito de Ada Pellegrini Grinover. 3. Ed. Rio de Janeiro: Forense, 1984, p. 19/20.
decisão do juiz será centrada na lei e o fim a ser alcançado deve ser a Justiça.
Para tanto concede então algumas prerrogativas à magistratura, como a vitaliciedade, a inamovibilidade e a irredutibilidade dos vencimentos.
O juiz que pretende alcançar a Justiça não pode negar a força de seu poder de decisão. Neste aspecto, analisar politicamente a organização das Sociedades deve ser a função do juiz. Não deve o magistrado tomar posições partidárias, mas entender que suas decisões devam dar um tratamento eqüitativo às partes a fim de assegurar a Justiça...