2 A HERMENÊUTICA FILOSÓFICA DE GADAMER: A CONSTRUÇÃO DE UMA RACIONALIDADE “AMBIENTAL”
2.1 A CONCEPÇÃO DO TERMO “HERMENÊUTICA” E SUA TRANSFORMAÇÃO AO LONGO DO TEMPO
2 A HERMENÊUTICA FILOSÓFICA DE GADAMER: A CONSTRUÇÃO
Inicialmente, demonstra-se os antecedentes históricos da hermenêutica clássica e a origem do seu vocábulo. A vinculação existente entre o vocábulo “hermenêutica” é o verbo ermeneúein, que traduzido do grego pode significar expressar, expor ou traduzir. Qualquer desses sentidos pode ser entendido como um movimento mental de compreensibilidade, mediação de sentido, retornando do exterior para o interior do significado. A função do ermèneus na Grécia parece aproximar-se da função do prophétes, aquele que realiza a mediação entre homens e os deuses, ou entre os homens e o mediador (NAVARRO, 2015, p. 145).
Na gênese do vocábulo hermenêutica está inserida a mediação como “movimento mental de compreensibilidade”. Isto vai de encontro com o objeto do trabalho, no sentido de que o “novo” Ministério Público Brasileiro, como órgão resolutivo e democrático, promova o empoderamento da sociedade civil, com o fim de realizar a democracia ambiental, e que, através de um procedimento comunicativo de mediação, (instrumento extrajudicial de composição de conflitos), construa a compreensão adequada e a correta aplicação da norma jurídica ambiental, nas questões ambientais relevantes, sempre na busca pela Justiça Ambiental.
O surgimento do termo hermenêutica é controvertido, contudo a teoria, em sua maioria, remete ao semideus Hermes como seu percussor, uma vez que era este quem transmitia a mensagem dos Deuses e a tornava compreensível (STRECK, 2015, p. 60).
A controvérsia encontra resistência nos dizeres de Grondin (1999, p. 55):
[...] a atividade mediadora do processo hermenêutico conduziu, já na antiguidade, a que a família verbal em torno do hermèneus e da hermèneutike fosse relacionada etimologicamente com o deus mediador Hermes. A conexão é, sem dúvida, demasiado patente para ser verdadeira.
Por isso, na filologia mais recente, em quase toda a parte, foi encarada com razoável ceticismo.
A partir da concepção de que a hermenêutica estivesse vinculada à interpretação, levou a uma visão negativa, pejorativa, sobretudo por ficar condicionada a uma eventual subjetividade exacerbada, não obstante o fato de que, desde o seu período
inicial, a hermenêutica se propôs a combater quaisquer arbitrariedades (CUNHA, 2014, p. 212).
Conquanto haja a remissão à mitologia grega, fato é que até o Século XVII não havia formação de uma teoria fundada para se ofertar uma interpretação correta, tendo sido desenvolvida pela teologia, sobretudo, a partir da Reforma Protestante.
Nesse período, a hermenêutica não tinha consciência de si nem tinha um nome, sendo desenvolvida em seguida por outros ramos da ciência como a filologia e ciência do direito, acompanhando a consolidação do Iluminismo que pregava pela universalidade da razão, sendo considerada já na época como uma crítica da exegese e da própria filologia (SCHIMIDT, 2013, p. 25-49).
Como expoente deste período, podemos citar Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher que propôs uma hermenêutica universal desenvolvendo o conceito desta como arte da compreensão, unificando as hermenêuticas setoriais até então vigentes. O autor ganha destaque por inverter a ideia de que o mal-entendido se daria como exceção, indicando que a compreensão pela linguagem, em regra, leva a erros, o que justificaria a necessidade de técnicas que garantissem a correção desses desvios na compreensão (STRECK, 2014, p. 267).
A hermenêutica ganha relevância, conforme bem anota Cunha (2014, p. 214),
[...] a hermenêutica, enquanto arte da compreensão, acaba por ser valorizada, alçando um patamar maior do que aquele em que até então se situava. De fato, quando Schleiermacher fala que sempre haverá possibilidade de desacordo, não apenas em relação aos textos escritos, em que há um distanciamento temporal entre aquele que emitiu a mensagem, registrando-a, e aquele que vai interpretá-la, mas também nos discursos verbais, em que eu estou diante do outro, daí deriva que sempre haverá a necessidade de manusear as técnicas próprias dessa arte da compreensão, que seria a hermenêutica.
Schleiermacher postulava por uma hermenêutica geral, comum, universal (allgemeine, em alemão), que lidasse com a arte da interpretação, citando a seguinte metáfora do filósofo: “o que toda criança faz ao construir uma nova palavra e ela não sabe – é hermenêutica. Afirma, que nesse momento, a hermenêutica passa a ser vista como arte, e não mais através de métodos (NAVARRO, 2105, p.
147).
Interpretar, assim, torna-se uma atividade de adivinhação, que acrescenta algo que torna o texto mais bem compreendido do que era para seu autor (re-produção). Daí a frase que, para Gadamer, sintetiza o pensamento de Schleiermacher: “compreender o autor, melhor do que ele mesmo”.
Schleiermacher é o primeiro a desenvolver e ideia de círculo hermenêutico, ao considerar a relação “todo-parte” no processo de compreensão, em que o conhecimento completo estará sempre na circularidade onde o particular só se compreende por meio do todo e vice e versa (SCHIMIDT, 2013, p. 31).
Conferindo significado de maneira mútua e simultânea: entre palavra e a frase; entre a frase e o parágrafo; entre o parágrafo e o resto da obra; entre a obra e toda a bibliografia de seu autor (NAVARRO, 2105, p. 147). Tal concepção foi ressignificada por Heidegger e utilizada como base da filosofia de Gadamer.
Sem pretensão de esgotar o tema, grandes contribuições para a modificação do conceito de hermenêutica foram oferecidas por Wilhelm Dilthey (1833-1911), biógrafo de Schleiermacher, sendo o primeiro a propor uma autonomia das ciências do espírito em face das ciências naturais, elaborando uma justificação para a razão histórica tal qual à da razão pura tinha sido realizada por Kant.
Dilthey, ao analisar as ciências naturais, verificou que gozava de prestígio por sua capacidade de previsibilidade, segurança, verificabilidade, tudo isso garantido pela utilização de métodos rigorosos. Assim, as ciências do espírito, caso quisessem ter o mesmo destaque, deveriam possuir o seu próprio método, uma metodologia geral (NAVARRO, 2015, p. 147).
As ciências da natureza tinham um caráter explicativo, enquanto as ciências do espírito visavam a uma esfera compreensiva da realidade histórica. Cunha afirma que Dilthey ao fazer a referenciada distinção entre as ciências naturais e as ciências humanas (do espírito, em sua terminologia), com base na dicotomia explicar/compreender, pretendeu criar uma disciplina que tivesse por finalidade proporcionar a interpretação objetivamente válida dos objetos de estudo das humanidades, definidos como expressões da vida, entendendo-se essa como experiência humana conhecida a partir de seu interior, portanto dentro do mundo.
Sobre o conceito de hermenêutica postulava Dilthey, o “método adequado para estabelecer a compreensão das realidades apresentadas nas ciências do espírito, o que lhe oportunizou maior valorização” (CUNHA, 2014, p. 216).
Grondin (1991, p. 55) comenta a hermenêutica com Dilthey,
A hermenêutica filosófica tornou-se, então, repentinamente, o termo da moda para toda uma geração filosófica, que começou a afastar-se das estreitas passagens gnoseológicas do neokantismo dominante e em Dilthey pretendia aceitar positivamente um desbravador para uma filosofia não positivista, aberta para a facticidade histórica da vida.
Embora Schleiermacher e Dilthey tenham contribuído para a formação do conceito de Hermenêutica, verificamos ainda tais concepções presas ao que se denomina dicotomia da modernidade entre sujeito-objeto, buscando em métodos procedimentais a “verdade”. Na sua proposta hermenêutica, Gadamer critica a compreensão em Dilthey “por muitos aspectos da ciência cartesiana, principalmente pelo fato de que o passado histórico é pensado em Dilthey como um deciframento, e não como experiência histórica” (NAVARRO, 2015, p. 149).
No próximo capítulo, analisam-se os fundamentos da hermenêutica filosófica fundada por Martin Heidegger, tendo em Hans George Gadamer seu sucessor imediato. A hermenêutica filosófica promove a mudança de paradigma da teoria do conhecimento calcada na relação sujeito/objeto (filosofia da consciência), para a filosofia da linguagem, onde teoria e prática se relacionam, gerando consequências revolucionárias para o Direito, principalmente para a adequada compreensão e aplicação do direito ambiental.