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2. DIAGNSTICO DA QUESTˆO REGIONAL NO BRASIL

2.8. Conclusªo

indústrias entrassem em declínio e se dispersassem, pela existência de recursos acumulados (Friedman, 1972). Na concepção dos novos distritos industriais, baseados na desintegração vertical, através de empresas cooperativas, os recursos de pesquisa são concentrados em poucos centros, criados em regiões novas ou virgens (Piore & Sabel, 1984; Storper, 1989; Lipietz &

Leborgne, 1988). Em ambos os casos, a existência de base regional de ensino e pesquisa e mercado de trabalho profissional são fatores fundamentais para a atração de atividades industriais19.

No caso do Brasil, a concentração industrial prévia, a desigualdade do potencial de pesquisa e de renda dificultam um processo de desconcentração industrial para as regiões pobres ou vazias. Assim considerando, não resta dúvida que as melhores condições para a localização de atividades de alta tecnologia estão predominantemente no estado de São Paulo e secundariamente no corredor que vai de Belo Horizonte a Porto Alegre20. Nesse sentido, a busca de recuperação de regiões pobres e estagnadas e a ocupação de regiões vazias deveriam tomar como um dos instrumentos básicos a montagem de base de pesquisa e desenvolvimento específicos para essas regiões.

Sul e pelo próprio estado de São Paulo, excluída a sua Área Metropolitana, ampliou sua participação na produção industrial do país de 33% para 51% entre 1970 e 1990. Isto permite conciliar a idéia de reversão da polarização da Área Metropolitana de São Paulo, que de fato ocorreu, com a idéia de uma aglomeração nessa macro-região.

Embora tenha ocorrido um relativo processo de desconcentração industrial nos últimos 20 anos, vários elementos parecem atenuar a possibilidade de sua continuação, pelo menos na velocidade e na direção registradas. Em primeiro lugar, nas década de 1980 e início de 1990 a economia brasileira foi atingida por uma forte crise. De uma taxa média de crescimento de 9% ao ano na década de 1970, para toda a década de 1980 o crescimento global da indústria brasileira não chegou a 10%. Como na economia brasileira, as transformações regionais da indústria se fazem fundamentalmente em função da orientação locacional dos novos investimentos e não pela relocalização de plantas já existentes, o processo de crise freou ou congelou as alterações regionais da produção. Em segundo lugar, as transformações tecnológicas e estruturais em curso parecem dificultar o processo de desconcentração macro-espacial, reconcentrando as atividades modernas na área mais desenvolvida do país.

Em terceiro lugar, a crise geral da economia brasileira levou à simultânea redução dos investimentos estatais diretos e da construção de infra-estrutura, o que seguramente prejudicará o processo de desconcentração industrial. Além disso, a orientação da política econômica, com abertura externa, as privatizações e a criação do MERCOSUL seguramente beneficiarão a região mais desenvolvida.

Em quarto, tem-se o problema estrutural mais relevante para a análise da questão regional brasileira, qual seja, a distribuição regional e pessoal da renda. Embora o país possua uma população de aproximadamente 140 milhões de habitantes, a dimensão absoluta do mercado ainda é relativamente pequena, se

comparado com os países industrializados, pelo fato de que o nível de renda médio é baixo e está fortemente concentrado.

Nestes termos, o mercado interno no Brasil ainda estaria por ser construído. Assim, o perfil da distribuição regional e pessoal da renda apresenta-se como o grande obstáculo para uma efetiva política de desconcentração regional da indústria no Brasil. Além das dificuldades estruturais para a distribuição advindas das necessidades de mudanças na estrutura produtiva, ocorre também uma recorrente reação política e ideológica para a efetivação de uma política de tal envergadura, que implicaria mudanças na política de gastos públicos, de distribuição da carga tributária e de alterações no sistema patrimonial.

Apesar disso, o potencial das fronteiras agropecuária e mineral indica a possibilidade de sucesso dessas atividades nas Regiões Centro-Oeste e Norte do país, podendo constituir-se em alternativa macro-espacial para a desconcentração de um conjunto de atividades.

Por fim, o Nordeste Brasileiro continua em sua situação de atraso relativo, apesar do crescimento diferenciado da Bahia e do Maranhão. A expansão de sua economia deveria estar articulada com projetos que fossem compatíveis com a lógica do crescimento industrial e do país. A esse respeito, cabe mencionar o relativo sucesso de atividades e regiões com expansão produtiva moderna e competindo no mercado nacional.

3. PROPOSI˙ES DE POL˝TICA

Tendo em vista o objetivo de compatibilizar competitividade industrial com desenvolvimento regional, seis linhas de política são propostas, uma geral e cinco específicas.

i) Reformulaªo global do sistema institucional e de incentivos regionais.

Considerada a existência dos mecanismos de incentivos para as Regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, através do FINOR, FINAM, PIN, PROTERRA e Fundos Constitucionais, além do FISET, das transferências negociadas e do Fundo de participação de Estados e Municípios, entre outros, e questionado o seu custo e resultados, torna-se necessário avaliar e racionalizar sua aplicação, inclusive unificando esses instrumentos a fim de evitar sua simultaneidade e concorrência.

Dada a dimensão territorial do país e o desnível econômico e social entre as regiões, não se pode pensar na retirada do Estado da questão regional brasileira. No entanto, torna-se necessário o estabelecimento de orientações claras e explícitas sobre os critérios e prioridades na aplicação desses recursos. A existência de mecanismos de tráfico administrativo e corrupção e o pequeno resultado obtido exigem ação enérgica das várias instâncias governamentais.

Para isto deveriam ser consideradas as seguintes orientações gerais21:

- Restabelecimento do sistema de planejamento da economia brasileira, compatibilizando os objetivos de desenvolvimento econômico, eficiência produtiva, justiça social e ordenação do território;

21 As orientações deste ponto basearam-se em uma das alternativas formuladas em Araújo, Tânia Bacelar de et alii. Planejamento Nacional e Planejamento Regional, texto apresentado ao Fórum O Novo Mapa da Economia Brasileira: Desafios do Planejamento Regional, Rio, IPEA, 1993.

- Substituição do sistema de incentivos fiscais regionais pela criação de um Fundo de Desenvolvimento Regional, com alocação de recursos através de um plano plurianual de investimentos aprovado pelo Senado;

- Extinção dos Ministérios da Integração Regional e Ação Social, extinção ou reformulação profunda dos órgãos regionais de desenvolvimento;

- Estudo da forma institucional mais adequada para a formulação e operação dos programas de desenvolvimento regional e aplicação do Fundo de Desenvolvimento Regional, de forma descentralizada, eficiente, leve e não-corporativa.

ii) Desenvolvimento do sistema de transportes rodoviÆrios visando integrar o mercado nacional e acelerar a desconcentraªo industrial das Æreas metropolitanas, especialmente da de Sªo Paulo, potenciando o crescimento industrial da Regiªo Centro-Sul.

São consideradas prioritárias as duplicações das seguintes rodovias:

- BR 381, ligando São Paulo a Belo Horizonte;

- BR 116, no tronco sul, ligando São Paulo a Curitiba e Porto Alegre, pelo interior;

- BRs 376 e 101, no trecho Curitiba - Florianópolis;

- BR 116, no tronco norte, ligando Volta Redonda - Além Paraíba - Salvador;

- BRs 262 e 381, ligando Belo Horizonte - Ipatinga - Governador Valadares;

- BRs 040 e 050, ligando Brasília - Delta, na divisa com São Paulo.

A duplicação destes trechos rodoviários teria um grande efeito sobre a reestruturação do espaço industrial no Brasil, permitindo articular o processo de reversão da polarização da Área Metropolitana de São Paulo com um processo de desconcentração industrial dentro da grande macro-região que vai

da região central de Minas até o nordeste do Rio Grande do Sul, incluída toda a faixa litorânea do Paraná e Santa Catarina. Além disso, dada a existência de grandes troncos rodoviários ligando o litoral e a Área Metropolitana de São Paulo com o nordeste e oeste daquele Estado, penetrando no sentido do norte do Paraná, Mato Grosso do Sul e Triângulo Mineiro, a grande macro-região mais desenvolvida do país se completaria e abriria a possibilidade de expansão industrial em padrões de eficiência, complementaridade e competitividade. Ao mesmo tempo permitiria uma melhor distribuição da malha urbano-industrial, evitando o processo de concentração econômica e populacional em poucos pontos e conseqüentemente reduzindo os custos econômicos e sociais da concentração.

iii) Construªo de grandes troncos ferroviÆrios, ligando as fronteiras agrcola e mineral aos portos de exportaªo.

São listadas algumas alternativas, das quais se destacam:

- Ferronorte, ligando Cuiabá a Santa Fé do Sul (SP) e em seguida pela FEPASA até os portos de Santos e São Sebastião (SP);

- Corredor Leste-Oeste, ligando Cuiabá ao Triângulo Mineiro, continuando pela RFF até Belo Horizonte e pela EFVM até os portos de Capuaba-Tubarão (ES). Alternativamente, o traçado seria desviado no sentido do Norte-Noroeste de Minas e Goiás;

- Corredor Norte, ligando o Mato Grosso a Carajás onde encontraria a Estrada de Ferro da Cia. Vale do Rio Doce, ligando ao porto de Itaqui (MA).

Como essas três alternativas são em princípio concorrenciais, por estabelecer a ligação de Mato Grosso a três portos alternativos; como o Corredor Norte permite compatibilizar o ganho de competitividade da fronteira, pelo barateamento do custo do frete internacional; e como o Maranhão se apresenta como alternativa macro-espacial para o desenvolvimento regional brasileiro, considero-o como prioritário, embora o Projeto da Ferronorte pareça já estar em vias de concretização.

iv) Polticas para o Nordeste.

Dentro do quadro de atraso relativo e de problemas sociais que se acumulam no Nordeste Brasileiro, e dado o objetivo de compatibilizar eficiência produtiva com geração de emprego e renda, são indicados um conjunto de medidas que contribuiriam para reestruturar a economia e o espaço nordestinos:

a) Reforço do Corredor de Exportação Norte, canalizando excedente do Centro-Oeste e da Fronteira Nordestina no sentido do Maranhão. Este corredor poderia permitir a formação de um complexo agroindustrial naquele Estado. Simultaneamente, a Grande Carajás poderia permitir a expansão do pólo metalúrgico do Maranhão. Estes dois projetos poderiam servir de base para efeitos diversificantes posteriores, tornando o Maranhão uma alternativa macro-espacial de desconcentração da economia brasileira, bem como para a solução dos problemas econômicos e sociais do Nordeste.

b) Reforço da expansão e integração do complexo químico da Bahia e sua integração com a cloroquímica de Sergipe e Alagoas.

c) Expansão e integração do complexo agricultura irrigada- agroindústrias nos Vales do São Francisco e Açu.

d) Expansão, modernização e integração do complexo têxtil- confecções no Ceará.

e) Apoio ao desenvolvimento do Turismo na Orla Nordestina.

f) Transformação da agricultura da faixa úmida, com concentração de pesquisa na área biotecnológica.

g) Seleção de cadeias produtivas ou projetos, mediante avaliação dos setorialistas.

v) Poltica tecnolgica e educacional.

Na linha dos pólos tecnológicos ou dos centros de modernização tecnológica, reforçar a criação de centros de pesquisa e integração com o sistema produtivo.

Considerada a tendência concentradora desses centros na região mais desenvolvida do país, e considerado o objetivo de ganho de eficiência e de excelência nas áreas específicas, dever- se-ia buscar a montagem de centros especializados, segundo a vocação das regiões, evitando instituições politécnicas, incapazes de formar massa crítica nas regiões menos desenvolvidas. Ao mesmo tempo, esse critério evitaria a pulverização de recursos. Neste sentido, é importante reforçar as iniciativas locais e orientar o apoio de instituições como o SEBRAE para as especificidades regionais.

vi) Reavaliaªo do sistema de incentivos para a Zona Franca de Manaus.

Avaliar o custo e os resultados obtidos pelo parque industrial instalado em Manaus com vistas a uma redefinição desse sistema à luz dos objetivos de crescimento industrial e de desenvolvimento regional para o país.

Estudar a viabilidade de construção de um porto em Macapá e modernização do sistema de navegação Manaus-Macapá, de forma a transformar a Zona Franca de Manaus e facilitar seu papel como centro exportador.

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