Essa nova experiência de amor, na abordagem inaciana, não pode ficar reduzida ao campo do mero emocional. A experiência religiosa deve ter uma repercussão decisiva na configuração da vida (na disposição de sua vida).
Está chamada a modificar profundamente o conjunto de seu mundo de valores, pensamentos, condutas, etc., do exercitante para a saúde da alma. Os Exercícios são, nesse sentido, e tal como o foram para o próprio Inácio, uma proposta de transformação profunda da identidade pessoal131.
Iniciamos a conclusão deste capítulo com esta frase, acima citada, pois ela sintetiza o que pretende ser a Primeira Semana dos Exercícios Espirituais. Esta Semana é um tempo de experimentar o amor de Deus. No desenvolvimento deste capítulo surgiu a seguinte pergunta:
Por que muitas pessoas não mudam, ou melhor, não se deixam guiar por Deus durante e após os EE.EE? Inácio tinha razão de começar a experiência dos Exercícios com o tempo de purificação interna, visto que o amor pode ser obstruído pelas desordens afetivas, neste caso, pelos pecados. A experiência religiosa, ou melhor, “o sentir e saborear” (EE 2) o amor de Deus pode ser bloqueado pelas desordens internas que, eventualmente, estão presentes, atuantes e diabolicamente (que causa divisão) agindo no interior da pessoa. O próprio Jesus
128 GARCIA, Luis Maria Domínguez. Las "afecciones desordenadas": influjo del subconsciente en la vida espiritual. Bilbao: Mensajero: Sal Terrae, [199-]. p. 162.
129 JURADO, 2010, p. 54.
130 CALVERAS, 1941, p. 45-46.
131 MORANO, 2003, p. 44.
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afirmou: “todo o reino dividido contra si mesmo acaba em ruína e nenhuma cidade ou casa dividida contra si mesma poderá subsistir”132.
Tendo consciência da dinâmica interna das pessoas, Inácio elaborou o método, presente no livro dos Exercícios Espirituais, especialmente a Primeira Semana, para ajudar os exercitantes a acolherem a graça de Deus “sem determinar-se por afeição alguma desordenada” (EE 21). De fato, o encontro com Deus não pode ser programado, mas sim preparado. O Peregrino adaptou a metodologia dos EE.EE às diferentes pessoas para que a abertura à graça fosse pessoal e profunda. Desse modo, ele apresentou o Princípio e Fundamento como um caminho que conduz a um fim, isto é, ao amor. Por isso, os Exercícios são uma experiência de uma história de amor. Tal vivência (amor) vai se tornando intensa à medida que há docilidade diante de Deus e consciência dos obstáculos que podem interferir nesta relação. O mau espírito é diabólico pois divide, confunde, entristece e causa perturbação na experiência de fé e na confiança em Deus.
Na Primeira Semana o exercitante acolhe a graça de conhecer a malícia do pecado no contexto da relação com Deus. Tal conhecimento não se limita ao intelecto, mas, ele é, principalmente, afetivo. Um conhecimento interno e afetivo capaz de gerar repugnância no exercitante diante do mal. Todo esse processo interno se dá na presença de Cristo, o qual, como fonte de amor, tem condição de ordenar e estruturar a pessoa internamente. É interessante observar que Inácio de Loyola, após ter vivido a 1ª Semana na experiência de Deus em Manresa, relata que “as coisas pareciam-lhe novas”133. A experiência do amor de Deus favorece um novo modo de conhecer a realidade. O exercitante, marcado pelo pecado e o mal, e principalmente, pelo perdão e o amor, é afetado por uma afeição fundamental de “em tudo amar e servir” (EE 233) a Deus presente e atuante em todas as coisas.
A graça fundamental de agir In Domino leva em consideração a consciência do exercitante de ser um pecador perdoado, ou melhor, alguém que faz a experiência interna do amor incondicional de Deus, com muito afeto. De fato, o colóquio da misericórdia (EE 53) ajuda o exercitante a experimentar o amor ilimitado do Criador. São Paulo tem uma frase que sintetiza o que Santo Inácio de Loyola espera da Primeira Semana dos Exercícios Espirituais:
“para que Cristo habite, pela fé, em vossos corações; a fim de que, estando arraigados e fundados no amor, possam perfeitamente compreender com todos os santos, qual é a largura,
132 Mateus 12, 25.
133 INÁCIO DE LOYOLA, 1991, p. 41.
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o comprimento, a altura e a profundidade e, assim, conhecer o amor de Cristo que excede todo entendimento...”134
Os Exercícios Espirituais do Peregrino de Loyola capacitam o exercitante a aderir à proposta de Deus e, diante disso, crescer humana e espiritualmente para encontrá-Lo presente e atuante na realidade, em todas as coisas e circunstâncias. De acordo com Xavier Dumortier,
“confrontado com o Evangelho, é provável que os movimentos interiores se façam sentir:
alegria, paz, desconfiança, perturbação... discernir esses movimentos interiores e reencontrar a bússola interior que me indica o caminho que Deus quer fazer comigo”135.
Após a pessoa reconhecer internamente que é pecadora amada por Deus, ela dará continuidade à experiência humana e espiritual. No próximo capítulo veremos como Inácio apresenta um modelo de seguimento que é a pessoa de Jesus. Antes, porém, de fazer uma eleição, ou melhor, uma opção por Jesus, o Peregrino continuará o trabalho de purificação dos afetos, porém, o foco não será somente o pecado, mas a dinâmica interna dos mecanismos que podem limitar a liberdade. Para tanto, Inácio apresenta nos Exercícios Espirituais outro pedido de graça, outra petição fundamental no processo da formação do novo modo de ser:
“conhecimento interno da pessoa de Jesus, que por mim se fez homem, para que eu mais o ame e o siga” (EE 104).
134 Efésios 3, 17-19.
135 DUMORTIER, François-Xavier. Tradição jesuítica: pedagogia, espiritualidade, missão. São Paulo:
Loyola, 2006. p. 155.
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3 “CONHECIMENTO INTERNO DO SENHOR....” (EE 104)
A expressão “conhecimento interno do Senhor, que por mim se fez homem, para que mais o ame e o siga” (EE 104) está situada na Segunda Semana dos Exercícios Espirituais de Inácio de Loyola. Ela não se limita à 2ª Semana, mas perpassa as próximas Semanas. Temos a impressão que Inácio, através dos exercícios propostos, espera que o exercitante encontre a Vontade de Deus, ou melhor, o que Deus permite que a pessoa seja. Por isso, a partir de agora, o foco não será mais a dinâmica e a malícia do pecado, mas a pessoa de Jesus. Para Domínguez Morano, “desejar e conhecer o que seja mais agradável à sua divina bondade (EE 151), desejar e optar por aquilo que mais nos conduz ao fim para que fomos criados (EE 23).
Este desejo configura a dinâmica dos EE.EE desde o Princípio e Fundamento até o final...”1. Desse modo, vamos seguir o caminho proposto por Inácio no seu livro para analisarmos como a experiência do “conhecimento interno da pessoa de Jesus” (EE 104) vai sendo gestada no interior do exercitante. Em primeiro lugar, vamos resgatar quem era Jesus Cristo para o Peregrino. Num segundo momento, vamos comentar e procurar entender o objetivo de Inácio com os seguintes exercícios: o Apelo do Rei (EE 91-98), os Mistérios da Infância e vida oculta de Jesus (EE 101-134) e, neste contexto, aprofundaremos a oração de contemplação e a oração de aplicação dos sentidos. Em seguida, retornaremos à sequência dos exercícios propostos por Inácio, tais como: o Preâmbulo para considerar estados de Vida (EE 135), a Meditação de Duas Bandeiras (EE 136-147), os Três Binários de Homens (EE 149- 156), os Mistérios da Vida Pública de Jesus (EE 158-163), as Três Maneiras de Humildade (EE 164-168), o Preâmbulo para fazer Eleição e Reforma de Vida (EE 169-189), as Regras para a mesma finalidade com maior discrição de espíritos (EE 328-336), as Regras a observar no encargo de distribuir esmolas (EE 337-3440, a Terceira Semana (EE 190-204) e as Regras para ordenar-se daqui por diante na alimentação (EE 210-217).
Tendo consciência da importância e centralidade da Ressurreição na vida cristã, optamos por analisar a Quarta Semana dos Exercícios juntamente com a Contemplação para Alcançar Amor, ou seja, na próxima petição do “conhecimento interno de tantos bens recebidos” (EE 233), pois acreditamos como o Padre Géza Kovecses que “a 4ª Semana é o período mais sublime, o ponto alto, a síntese da totalidade dos EE.EE. Caracterizam-na a densidade espiritual, o êxtase do Amor”2.
1 MORANO, Carlos Domínguez. Psicodinámica de los ejercicios ignacianos. Santander: Mensajero:
Sal Terrae, 2003. p. 143.
2 KOVECSES, Géza [Comentários]. In: INÁCIO DE LOYOLA, Santo. Exercícios Espirituais. Porto Alegre: [s.n.], 1966. p.137.
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