saúde mental e compreender como essa dinâmica funciona na atividade laboral dentro de uma instituição de ensino superior.
O objeto de estudo desse trabalho é a Universidade Federal de Ouro Preto, o que difere sobremaneira das relações estabelecidas em uma organização privada. Suas peculiaridades como o aproveitamento de servidores em atividades que não condizem com suas atribuições, bem como as dificuldades ligadas ao recebimento de recursos, bem como a aquisição de quaisquer materiais, bastante característicos da Administração Pública brasileira tornando o cenário diferenciado, podendo causar maior desconforto, principalmente no tocante à expectativa do profissional diante de sua atividade.
Após a análise dos formulários e das entrevistas, é possível vislumbrar o cenário em que os docentes estão inseridos. De maneira geral podemos notar que os profissionais demonstram grande apreço pela Universidade Federal de Ouro Preto campus João Monlevade, sentindo-se satisfeitos em necessidades ambientais básicas e na infraestrutura disponibilizada para o trabalho.
No tocante às relações interpessoais firmadas entre os professores, há uma sensação de vazio e solidão, já que a rotina tende a isolá-los de uma vivência social saudável e, mesmo a atividade acadêmica com suas múltiplas tarefas, bem como as carências de pessoal da própria Universidade não têm comportado um trabalho em equipe concreto. As pressões por resultados – atingidos preferencialmente dentro de prazos surreais – coloca-os em situação de estresse, nervosismo e isolamento, na busca pelo rendimento do tempo.
No campo acadêmico, os professores se percebem como atores importantes da formação de seus alunos, fato confirmado inclusive pelo fator de reconhecimento que eles apontaram – sentem-se reconhecidos pelos próprios alunos e ex-alunos, no dia a dia.
Também a forma como desenvolvem suas atividades, seja em sala de aula, seja em orientação, demonstra um comportamento de comprometimento e paixão pelo trabalho.
Obviamente, alguns pontos fracos foram apontados, como a necessidade de melhorias em estruturas especificas ou mesmo na organização pedagógica do campus de João Monlevade.
O que ocorre é que, confrontando a teoria dejouriana de que o trabalho por si só traz sofrimento ao trabalhador, no caso dos professores a falta de colaboração, de mais profissionais que possibilitem melhorias no processo ensino-aprendizagem, através do tripé ensino-pesquisa-extensão, a falta de tempo para todas as tarefas laborais e para a vida íntima, são fatores que geram frustração e ansiedade nos profissionais, demandando imediata atenção da instituição, buscando ações que viabilizem maior qualidade de vida a esses profissionais.
Não se pode olvidar que em suas mãos estão futuros profissionais das mais diversas áreas, bem como o futuro da própria Universidade, que depende de um eficiente e pontual trabalho docente para garantir seus índices frente ao Ministério da Educação e sua excelência na pesquisa e desenvolvimento.
A percepção que os docentes têm de seu papel e os resultados obtidos junto aos alunos colabora para que eles queiram melhorar e desenvolvam suas atividades com afinco e responsabilidade. Tanto que a maior parte deles considera a docência positiva. Conforme apurado no referencial teórico deste estudo, a satisfação do profissional com sua atuação e, consequentemente, sua busca pela melhoria contínua passa por questões ligadas a perceber-se importante e perceber que seu trabalho rende frutos.
O prazer pela atividade de docência é nítido entre os profissionais em relação à geração de conhecimento no tocante lecionar e pesquisar, de fato trabalharem com aquilo para o qual efetivamente se prepararam. Na contramão desse cenário, os professores estão inseridos num contexto de múltiplas atividades, esgotamento e estresse que ocorrem de maneira concomitante. Ações ligadas à docência, como a sala de aula e as orientações aos alunos, concorrem com as atividades administrativas e aquelas ligadas à progressão profissional.
Um fato que ficou bem evidente nas entrevistas é que muitos professores se sentem frustrados em relação a atividade administrativa, isso poderia ser revisto de maneira normativa com que essas atividades fossem divididas de maneira que não os sobrecarregassem e tivessem um devido reconhecimento ao serem executadas.
Existe um desgaste, apontado pelos profissionais e reafirmado pelos dados estatísticos, no tocante ao trabalho nos finais de semana e ao cansaço por desempenhar as atividades no período noturno, refletindo-se no sono dos professores. A qualidade de vida e tempo de qualidade com familiares e amigos deve ser pensada e institucionalizada com vistas à proteção da saúde mental dos trabalhadores que, conforme já introduzido pela Escola Humanística da Administração, não se motivam apenas com o salário e precisam de uma válvula de escape para as pressões do dia a dia.
Enfim, levando-se em conta a legislação em vigor para servidores públicos federais, bem como suas limitações quando o assunto é a valorização e o investimento no funcionário – qualquer alteração deverá está prevista na Lei 8112/1990 – o que resta, mas não menos eficaz, é a adoção de políticas de recursos humanos que sejam mais favoráveis aos servidores, permitindo-lhes descansos regulares, tempo de vida social de qualidade, percepção de valor e diminuição das situações de sofrimento no trabalho.
Em vista que muitos docentes sentem a necessidade de um espaço para discussão, seria de grande valia a criação do mesmo para trocas de experiências, ideais, melhorias, arbitragem para organização do trabalho e até mesmo pessoais. Após esse estudo, ficou evidente que os docentes encontram formas diversas para se esquivar das situações de maior desgaste. Isso é reflexo de um quase instinto de sobrevivência, já que todos precisam trabalhar. Há que se lembrar, entretanto, que um funcionário satisfeito agrega muito mais valor à instituição ao qual pertence que um funcionário muito bem remunerado, mas carente em outros aspectos de sua vida.