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Ao afirmar que o ensaio é um tipo de texto em que o autor evidencia a sua percepção pessoal sobre o assunto em destaque, Massaud Moisés reitera que este gênero textual mantém um traço significativo do formato criado por Montaigne. Utilizando uma linguagem mais próxima do coloquial, o autor pode se exprimir como se estivesse dialogando, muito à vontade, com o seu leitor, entremeando suas próprias reflexões com questionamentos e alusões dirigidas a seu leitor imaginário.

Sem se ater ao rigor estabelecido pelas ciências ou a qualquer forma porventura estabelecida pelo viés artístico que lhe compõe, o ensaio transita livremente nesse espaço, tendo como único objetivo apresentar uma visão distinta para algo já amplamente conhecido e discutido, instigando uma nova reflexão onde já havia uma aceitação (GÓMEZ-MARTINEZ, 1992).

Pensar o ensaio dessa forma e deter-se numa leitura mais atenta dos romances de José Saramago nos revelam que o tom ensaístico é uma marca constante em seus romances, tanto pela forma com que trabalha o discurso histórico, quanto pela maneira que analisa o homem contemporâneo. O tom ensaístico não está restrito apenas àqueles em que ele intitula de ensaios. Ensaio sobre a cegueira e Ensaio sobre a lucidez trazem a marca desse gênero textual no título, e outros de seus romances o apresentam no corpo do seu texto.

O ensaio pode apresentar-se em dois formatos: seguindo a linha estabelecida por Montaigne, ele terá um caráter mais pessoal, expressando as marcas distintivas do eu. Este formato, como vimos, recebe a denominação de ensaio de. Tendo como marca distintiva a impessoalidade de refletir sobre um assunto externo ao eu ou de algumas áreas específicas do conhecimento humano, o ensaio sobre mantém todas as outras características do gênero ensaístico.

Quando escreveu Ensaio sobre a cegueira, Saramago criou um narrador não dramatizado, com liberdade irrestrita de se posicionar dentro ou fora do espaço da narrativa e de refletir sobre os acontecimentos narrados, estabelecendo amplas relações em digressões que se sobressaem à narrativa. Nesses momentos, o narrador se con-funde com o autor implícito e ambos, ideologicamente engajados, tentam induzir o leitor a perceber o universo

extra-literário como um universo de cegos destituídos da capacidade de pensar. Essa cegueira pode ser entendida como a ausência de lucidez ou até como um estado de loucura.

Saramago deixa evidente que vivemos num mundo de cegos que não conhecem a si próprios, não sabem como se relacionar sem subjugar, e se comportam com alheamento e indiferença frente aos acontecimentos ao seu redor.

A cegueira branca é provocada não pela carência das “luzes do esclarecimento”, mas pelo excesso de informações e estímulos que embotam e cansam as vistas, deixando uma marca de indiferença nos olhos, que de tanto ver não conseguem mais perceber ou distinguir, em que nada mais causa estranheza ou desperta atenção. Esse alheamento provocado pela cegueira determina uma atitude passiva em relação aos acontecimentos da vida, uma espécie de alienação que impede a ação.

A epidemia de cegueira branca é uma estratégia in extremis, usada para provocar o desenvolvimento de um olhar perspicaz, que exige ver e conhecer plenamente o que está ao alcance dos olhos, além de buscar, com determinação, o que pode estar obscurecido ou encoberto. Esse é o olhar da lucidez.

A cegueira instaura o caos. A lucidez remete a uma situação organizada, harmoniosa e pacífica, em que a reflexão possibilita perceber situações insatisfatórias e agir para modificá- las.

Ensaio sobre a lucidez revela a cegueira de um governo que, revestido de um discurso democrático, age de forma totalitária e desnorteada tentando suprimir a lucidez despertada na população depois da epidemia de cegueira. Em Ensaio sobre a cegueira a população e o governo estão cegos Em Ensaio sobre a lucidez a população consegue levantar o véu que impossibilitava uma visão plena, mas o governo continua em estado de cegueira e, para manter a posição de poder, exige que a população volte a ser e a se comportar como cegos, num exercício de cumplicidade destituída de reflexão.

O exercício da lucidez revela uma forma de democracia que se utiliza de meios ditatoriais para impor as suas decisões, sem levar em consideração a vontade expressa pela população. Há aqui uma sugestão para abrir os olhos e examinar atentamente o que os governantes têm feito em nome de seu povo e com a aquiescência irrefletida dele.

Os romances de Saramago devem ser lidos e interpretados em dois níveis: o primeiro e mais evidente é o da narrativa, que pode ser percorrido pelo leitor visando conhecer a história e saber como ela termina. Entretanto, se o leitor conseguir ultrapassar esse limite, encontrará uma camada de múltiplas significações, que se inicia com a narrativa e se projeta indefinidamente através dos horizontes da compreensão do leitor.

Umberto Eco, em seu livro Seis passeios pelos bosques da ficção (1994), propõe um exercício metafórico de pensar o texto narrativo como um bosque cheio de caminhos que se bifurcam levando a lugares distintos, em que pode haver trilhas bem definidas ou caminhos a serem criados pela vontade e possibilidades do leitor. Em função disso, o leitor pode atravessar o bosque seguindo a trilha estabelecida, ou passear, buscando conhecer amplamente esse bosque - narrativa.

O objetivo de Saramago, declarado em várias entrevistas, é fomentar a reflexão sobre os assuntos discutidos, alegoricamente, em seus romances. Isso significa que ele, como escritor engajado que é não quer somente que atravessemos o bosque e alcancemos a outra extremidade. Ele almeja que fiquemos no bosque durante o tempo que for necessário para compreender as mensagens implicitamente tecidas naquela narrativa, abrindo os olhos e reparando o que for necessário para que o sonho da razão não produza monstros.

No projeto desse trabalho, pretendíamos investigar a existência de algum elemento que estabelecesse o diálogo entre os dois Ensaios de Saramago e que justificasse a semelhança dos títulos. Outra relação também poderia explicar a denominação escolhida para esses dois romances. Saramago poderia não relacionar os seus textos entre si, mas com os Essais de Montaigne, aproximando-se mais do estilo deste último, que escreveu ensaios variados, evidenciando a marca do seu eu.

A finalização desta pesquisa nos assegura que Saramago buscou no estilo de Montaigne referências para criar Ensaio sobre a cegueira. Entretanto, na composição de Ensaio sobre a lucidez, o escritor buscou muito mais referências na narrativa apresentada em seu primeiro Ensaio, do que no estilo criado pelo escritor francês. Esse artifício relaciona a narrativa de Ensaio sobre a lucidez àquela apresentada em Ensaio sobre a cegueira, mas o distancia intensamente do estilo criado por Montaigne.

Em síntese, poderíamos afirmar que Ensaio sobre a cegueira mantém, pelo tom ensaístico, uma relação com o estilo elaborado por Montaigne e Ensaio sobre a lucidez estabelece a relação com o primeiro Ensaio, mas se distancia significativamente do gênero ensaístico.

Ao conceber a lucidez como condição alcançada por quem cegou para tomar consciência de que olhava sem conseguir ver plenamente, Saramago relaciona não só os elementos da narrativa, mas também o assunto focalizado.

Ao tematizar a questão do olhar, Saramago se dedica a um assunto que diversas vezes apresentara de forma implícita em romances anteriores, evidenciando uma intertextualidade temática entre alguns romances seus.

Voltando à metáfora apresentada por Umberto Eco de pensar o texto narrativo como um bosque, imaginamos que o percurso estabelecido no projeto deste trabalho teria nos conduzido por uma trilha já mais ou menos conhecida. O interesse em descobrir novos caminhos nos desviou dessa trilha, mostrando-nos um bosque cheio de intensas significações.

O caminho que nós percorremos é apenas um, entre vários outros existentes no bosque: alguns desses caminhos já foram encontrados, provavelmente ainda há vários outros a serem descobertos e outros tantos a serem criados. Isso significa que a finalização deste trabalho demonstra uma possibilidade interpretativa para os Ensaios de Saramago e podem sugerir outras leituras para esses bosques – narrativas.

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