Este capítulo começou analisando a primeira frase de Jesus no Evangelho de Lucas, em que Jesus se refere a si mesmo, consciente da necessidade de “estar naquilo que é de seu Pai”.
Ele interpreta o seu próprio proceder, dependente de uma relação especial e íntima com Deus, que transcendia a relação com sua família terrena. Esse dever foi expresso com termos ambíguos, que pareciam introduzir uma compreensão ampla do que seria o significado de
“pertencente ao Pai”, incluindo o Templo de Jerusalém, indicando o percurso que Jesus faria, com a dupla narrativa lucana.
Foi visto também, mais detidamente, como a compreensão de Jesus como “Filho de Deus”, indicada em 2,49, se desenvolve no Evangelho. Um título que parece ter certo mistério
233 O texto grego não tem o verbo expresso.
234 Existe uma variante que omite o “meu Pai”, mas ela é de pouca relevância. (BOVON, El evangelio, v. IV, p.
679).
235 ALETTI, Voltar a falar, p. 188.
em Lucas, já que nenhum homem professa a fé em Jesus com esses termos. À luz do anúncio do anjo, percebe-se que o evangelista apresenta Jesus desde o começo do Evangelho como
“Filho de Deus”, como desdobramento para a reta compreensão do messianismo de Jesus, e da sua relação particular com Deus. Essa condição aparece desde o início da sua vida, distintamente do que acontece em outros textos do Novo Testamento. Tal apresentação cria no leitor a expectativa de entender como esse “ser Filho” se manifestará, mesmo que aí a cristologia seja manifestada de modo indireto.
A consciência da relação particular com Deus é manifesta pelo costume que Jesus tem de orar, especialmente em momentos importantes do seu ministério, o que é uma característica particular do evangelho lucano. Além disso, a autoconsciência de Jesus como Filho de Deus é interpelada por outros personagens, como pela voz de Deus e dos demônios. As referências da voz celeste mostram uma relação íntima, afetiva entre Deus e Jesus. As possíveis alusões nos episódios do Batismo e da Transfiguração, além do afeto, já apontam para a última prova da obediência filial, em Jerusalém, identificando Jesus como o “Servo Sofredor” submisso a Deus.
Dessarte, o Filho, inserido na história de Israel e da humanidade, é tentado no deserto, especialmente, em relação à referida submissão.
Na Transfiguração, o Filho de Deus é apresentado como porta-voz do Pai, que deve ser escutado pelos discípulos. No texto, mais uma vez, vê-se elementos que apontam para o fim de sua vida, seja na Paixão, seja na Ressurreição. O Jesus lucano mostra que tem consciência do elemento glorioso, quando anuncia que virá na glória do Pai e na sua, enquanto compreensão escatológica da própria personalidade.
Mas o que realmente prevalece na revelação que Jesus faz da sua relação com o Pai é que se trata de um relacionamento especial, íntimo, com Jesus usando, tantas vezes, o simples vocativo de Pai (πάτερ) para se referir ao Deus de Israel. O Pai é misericordioso e sua misericórdia fundamenta a atitude de Jesus para os pecadores. A alegria do Pai ao encontrar o que estava perdido é apresentada em forma de parábola e mostra como o amor divino provoca atitudes inesperadas diante da mentalidade egoísta e legalista.
Em consequência da misericórdia, percebe-se que o relacionamento de Jesus com o Pai é inclusivo, e ele mesmo revela o desejo de transmitir o conhecimento que é apenas seu, de
“quem é o Pai”. Assim, o Pai se agrada de revelar-se aos pequeninos, numa paradoxal virada da lógica humana. Quando Jesus se refere ao Pai com o íntimo “meu Pai”, mostra o desejo de Deus em transmitir aos homens os dons divinos por meio de Jesus, o Filho.
Jesus ensina os discípulos a orar a Deus, usando a mesma expressão simples e íntima, que testemunha em suas orações. Acima de toda paternidade terrena, o Pai dará o Espírito Santo
a todo aquele que o pedir. Com efeito, o Pai sabe aquilo de que temos necessidade, cuidando daqueles que procuram o que é mais importante, no caso, o Reino de Deus. Dar o Reino ao pequenino rebanho é do agrado do Pai, um Reino que também é dom do Filho, do qual ele dispõe.
O amor do Pai para com Jesus, porém, não elimina os sofrimentos pelos quais Jesus passará. Jesus tem consciência do plano de morte que os homens traçaram para o Filho amado.
Entretanto, mesmo que o matem, ele sabe que triunfará. Sua relação de confiança e obediência ao Pai transparece até na hora da agonia, quando Lucas apresenta Jesus mais sereno do que os outros sinóticos. Jesus reza preocupado, em primeiro lugar, com o “plano divino”, e não foge do cálice que se lhe apresenta.
Diante da pergunta de todo o Sinédrio, Jesus responde afirmativamente quanto à sua identificação como Filho de Deus, declarando que eles mesmos chegaram à conclusão, mesmo sabendo que não acreditarão em suas respostas. Condenado à morte e crucificado, a relação de Jesus com o seu Pai não parece abalada, em nenhum momento, pois Jesus continua a manifestar a misericórdia que é característica da relação pessoal com Deus, de modo que morre confiando seu espírito nas mãos do “Pai”.
Depois da Ressurreição, prestes a subir ao céu, Jesus fala aos discípulos da conveniência de tudo ter acontecido daquele modo, segundo o que estava escrito nas Escrituras, e afirma-lhes que o “prometido do Pai” virá revestir os seus discípulos de força para que cumpram a missão de proclamar a todas as nações o arrependimento.
Deste modo, conclui-se o panorama da consciência que Jesus manifesta da sua relação íntima com “o Pai”, impulsionado pelas possíveis referências ao título “Filho de Deus”
encontradas em Lucas. Porém, um fato que necessita ainda de esclarecimento, e que se apresentou em muitas passagens analisadas, é a consciência do dever da conveniência de se submeter ao Pai e ao seu “plano”, que o Jesus lucano expressa. Tal dever está implícito no verbo δεῖ, presente na primeira fala de Jesus em Lucas, e é a partir desse verbo que o próximo capítulo será desenvolvido.
3 JESUS E A CONSCIÊNCIA DE SUA MISSÃO