Mesmo em meio a muitos avanços no campo da cultura nos últimos anos, assegurar a continuidade das políticas públicas de cultura como políticas de Estado, com um controle e participação social efetivos e, viabilizar estruturas organizacionais e recursos financeiros compatíveis com a importância da cultura para o desenvolvimento do país, ainda são grandes desafios. Tem-se ainda como dificuldade a disputa da concepção de gestão com a cultura política tradicional, repleta de vícios administrativos de descontinuidades, além das tensões partidárias intra e inter governos, somadas a resistência política à institucionalização da participação social, apesar de assegurada na Constituição Federal.
Existe um grande desafio em mudar a “cultura da cultura”. Há a necessidade não só de disseminar ideias, mas de reavaliar a todo instante, conceitos, métodos e diretrizes, levando em consideração todo o processo de transformação social e econômica. Nessa perspectiva, ainda, é essencial que se crie uma base institucional sólida, que seja capaz de consolidar a política cultural enquanto política de Estado e não só de governo.
Num primeiro momento o diálogo e a participação social são essenciais. É inegável a importância de canais, instâncias e mecanismos de consulta, escuta e articulação na qualificação das políticas públicas, proporcionando um refinamento na construção de objetivos e estratégias adequados. Mas é preciso compreender ainda que esses movimentos demandam propósitos e métodos eficazes, no esforço de significar os processos participativos, não perdendo seu sentido de desenvolvimento, nem descolando dos princípios de gestão.
É prioritário que se foque na organização de uma base institucional adequada, que se estruture a partir de organismos culturais fortalecidos e, por uma rede de relações que abarquem tanto o poder público, entes federados do governo em todas as suas instâncias, quanto uma sociedade civil representativa.
38 Compreender a importância do planejamento para a gestão pública da cultura, bem como a existência de instrumentos que a fortaleçam e sedimentem o campo são essenciais. Reconhecer e consolidar espaços de diálogos entre o poder público e a sociedade civil como marcos históricos na construção dessas políticas. A V Conferência Estadual de Cultura alcançou objetivos importantes neste contexto.
Ampliou a participação social na construção dessas políticas e norteou a atuação tanto do poder público, quanto da sociedade civil nos anos seguintes, principalmente na implementação do Sistema Estadual de Cultura.
Notou-se ainda um amadurecimento no discurso da sociedade civil e dos poderes públicos municipais acerca da construção e execução das políticas culturais de modo participativo e compartilhado. Tanto a metodologia adotada, quanto o histórico de participação em conferências anteriores, conduziram o público presente a uma melhor compreensão da dinâmica atual de organização do campo cultural, das dificuldades e restrições impostas aos poderes públicos estadual e federal e da necessidade de implementação e fortalecimento do Sistema Nacional de Cultura.
A V Conferência ao mesmo tempo que estimulou os processos participativos e desenvolvimento dos instrumentos de gestão já implementados, se colocou numa lacuna de atuação no campo, tendo visto que não foi realizada mais nenhuma Conferência, ficando difícil, portanto, mensurar o seu alcance e resultados reais. São já duas gestões, a última ainda em andamento, onde não se oferece nenhuma perspectiva de realização da VI Conferência, muitos menos o estímulo ao diálogo a respeito desse componente do Sistema Estadual de Cultura, que se apresenta como um dos pilares principais para a consolidação do mesmo.
39 ANEXO I:
Descrição dos componentes no Guia de Orientação para os Municípios:
Órgão Gestor de Cultura - Instituição pública responsável por coordenar o Sistema de Cultura e garantir a sua implementação, atuando na execução das políticas no setor. Essas instâncias são estabelecidas a nível nacional, estadual e municipal. Atualmente tem-se a Secretaria Especial de Cultura, integrante do Ministério da Cidadania como órgão federal e a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.
Conselho de Cultura - Instância colegiada permanente, de caráter consultivo e deliberativo, integrante da estrutura político-administrativa do Poder Executivo, constituído por membros do poder público e da sociedade civil. Sua composição é normalmente paritária e deve ser eleita democraticamente por grupamentos da sociedade civil e do poder público, buscando alcançar representatividade territorial e setorizada.
Conferência de Cultura – Encontro realizado periodicamente, entre o poder público e a sociedade civil, convocada pelo Poder Executivo, em suas instâncias federadas, que tem como principais objetivos e avaliação das políticas culturais e a proposição de diretrizes para o Plano de Cultura.
Comissões Intergestores - Instâncias de negociação e operacionalização do Sistema Nacional de Cultura. São de dois tipos: Comissão Intergestores Tripartite, organizada no âmbito nacional, tem a participação de representantes de gestores públicos dos três entes da Federação (União, estados e municípios); e Comissões Intergestores Bipartite, organizadas no âmbito estadual, têm a participação de representantes dos gestores públicos dos Estados e Municípios. As principais funções dessas comissões são promover a articulação entre os entes da Federação, estabelecer, em cada programa, projeto ou ação comum, as atribuições, competências e responsabilidades de cada ente e pactuar a respeito de questões operacionais referentes à implantação dos programas.
Plano de Cultura - Instrumento de gestão de médio e longo prazo, no qual o poder público assume a responsabilidade de implantar políticas culturais que ultrapassem os limites de uma única gestão de governo. O Plano estabelece estratégias e metas, define prazos e recursos necessários à sua implementação. É
40 elaborado pelo órgão gestor com a colaboração do Conselho de Política Cultural, a quem cabe aprová-lo. Os planos nacional, estaduais e municipais devem ter correspondência entre si e serem encaminhados pelo Executivo para aprovação dos respectivos poderes legislativos (Congresso Nacional, Assembleias Legislativas e Câmaras de Vereadores), a fim de que, transformados em leis, adquiram a estabilidade de políticas de Estado.
Sistema de Financiamento à Cultura - Conjunto dos instrumentos de financiamento público da cultura, tanto para as atividades desenvolvidaspelo Estado, como para apoio e incentivo a programas, projetos e ações culturais realizadas pela sociedade. Podem ser Orçamento Público, Fundo, Incentivo Fiscal e Investimento.
Sistema de Informações e Indicadores Culturais - Conjunto de instrumentos de coleta, organização, análise e armazenamento de dados – cadastros, diagnósticos, mapeamentos, censos e amostras - a respeito da realidade cultural sobre a qual se pretende atuar. Por meio do levantamento dos artistas, produtores, grupos de cultura popular, patrimônio material e imaterial, eventos, equipamentos culturais, órgãos públicos e privados e movimentos sociais de cultura é possível planejar e executar com maior precisão programas e projetos culturais. Os indicadores podem ser qualitativos e quantitativos.
Programa de Formação na Área da Cultura - Conjunto de iniciativas de qualificação técnico-administrativa – cursos, seminários e oficinas - de agentes públicos e privados envolvidos com a gestão cultural, a formulação e a execução de programas e projetos culturais.
Sistemas Setoriais de Cultura - Subsistemas do SNC que se estruturam para responder com maior eficácia à complexidade da área cultural, que se divide em muitos setores, com características distintas. Em geral, a necessidade de criar subsistemas – como os de bibliotecas, museus, do patrimônio cultural, das artes e outros – surge nos lugares onde as demandas específicas se ampliam de tal forma que é preciso organizar estruturas próprias para seu atendimento.
41 ANEXO II:
São componentes do Sistema Estadual de Cultura:
I - organismos de gestão cultural: a) o Conselho Estadual de Cultura;
b) a Secretaria de Cultura, seus órgãos e entidades; c) sistemas setoriais de cultura do Estado; d) sistemas municipais de cultura ou órgãos municipais de cultura; e) instituições de cooperação intermunicipal; f) instituições de cooperação interestadual, nacional e internacional.
II - mecanismos de gestão cultural: a) Plano Estadual de Cultura, planos de desenvolvimento territorial e setoriais de cultura; b) Sistema de Fomento e Financiamento à Cultura; c) Sistema de Informações e Indicadores Culturais; d) Sistema de Formação Cultural.
III - instâncias de consulta, participação e controle social: a) Conferência Estadual de Cultura; b) colegiados setoriais, temáticos ou territoriais de cultura; c) Fórum de Dirigentes Municipais de Cultura; d) Ouvidoria do Sistema Estadual de Cultura; e) outras formas organizativas, inclusive fóruns e coletivos específicos da área cultural de iniciativa da sociedade (BAHIA, 2011).
Secretaria de Cultura - Órgão gestor do Sistema Estadual de Cultura, tem o compromisso de coordenar a política cultural do Estado, cumprindo seus objetivos de acordo com as diretrizes assumidas, além de ser a responsável por estimular e acompanhar as ações do Sistema a nível municipal.
Conselho Estadual de Cultura - Órgão colegiado que tem como finalidade a formulação da Política Estadual de Cultura, é formado por 30 (trinta) membros titulares e igual número de suplentes, sendo dois terços da sociedade civil e um terço de representantes do poder público. Os membros são escolhidos democraticamente, levando em consideração sua representatividade no campo. São nomeados pelo Governador.
Sistemas setoriais de cultura – São responsáveis pela articulação e integração dos planos e programas nas diversas áreas de atuação da cultura, contribuindo diretamente com a organização desses setores, de forma estruturante, em todos os elos da cadeia produtiva.
Sistema de Fomento e Financiamento à Cultura – Gerencia os recursos orçamentários disponíveis, garantindo a criação, pesquisa, produção, circulação, fruição, memória, proteção, valorização, dinamização, formação, gestão, cooperação e ao intercâmbio nacional e internacional dos bens culturais. Entre os mecanismos de
42 fomento previstos pela Lei destacam-se o Fundo de Cultura da Bahia (FCBA), o Fazcultura, Calendário das Artes, Pontos de Cultura e os Carnavais Ouro Negro e Pipoca Pelô.
Sistema de Informações e Indicadores Culturais (SIIC) – Implantado pela Secretaria em 2012, é responsável pela sistematização, interpretação e disponibilização de dados e informações que subsidiam as ações da política cultural.
Sistema de Formação Cultural – Um conjunto de ações que garantem a formalização e capacitação dos agentes culturais, tendo como prioridade o aperfeiçoamento técnico, artístico e de gestão.
Colegiados setoriais, temáticos ou territoriais – Instâncias convocadas pelo poder público, que tratam de questões territoriais ou relacionadas a segmentos culturais específicos, sendo composto pelo poder público e atores culturais da sociedade civil, que representam as especificidades de cada colegiado. Atualmente a Secretaria dispõe de 18 (dezoito) colegiados setores, acompanhados pela centralizada e por suas autarquias, a saber: Fundação Cultural do Estado da Bahia (Colegiados Setoriais das Artes - Artes Visuais, Audiovisual, Circo, Dança, Literatura, Música, Teatro); Fundação Pedro Calmon (Arquivo e memória, Bibliotecas, Livro e Leitura; Centro de Culturas Populares e Identitárias (Culturas Populares, Cultura Afrobrasileira, Culturas Indígenas); Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Museus, Patrimônio Cultural); Superintendência de Promoção Cultural (Design, Moda); Superintendência de Desenvolvimento Territorial da Cultura (Colegiado de gestão participativa dos espaços culturais).
Fórum de Dirigentes Municipais de Cultura - Instância de caráter consultivo, opinativo e organizativo, integrante, que tem o objetivo de promover a articulação dos municípios baianos para a formulação e execução de políticas culturais, contribuindo com o desenvolvimento local e territorial da cultura.
Plano Estadual de Cultura - Aprovado por unanimidade no plenário da Assembleia Legislativa da Bahia, orienta as políticas públicas de cultura, valorizando e promovendo a diversidade artística e cultural da Bahia, garantindo o acesso de todo cidadão aos bens e serviços artísticos e culturais e, estimulando a criação e a produção cultural.
43 Conferências Estaduais de Cultura - Espaços de debate e proposição de políticas, programas e ações para o campo cultural, por representantes do poder público, da sociedade civil, das comunidades culturais, artistas, produtores, agentes e articuladores. É uma das formas da sociedade civil interferir e participar da formulação e execução das políticas culturais, visando garantir uma gestão democrática da política cultural do município, do estado e do país.
44 REFERÊNCIAS
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<http://www.cultura.ba.gov.br/arquivos/File/publicacaolegislacaodaculturanabahia.pdf
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______. Secretaria de Cultura (SECULT). Disponível em: <www.cultura.ba.gov.br>.
Acesso em 30 de janeiro de 2019.
______. Blog V Conferência Estadual de Cultura. Disponível em:
<https://conferenciadecultura.wordpress.com/>. Acesso em 30 de janeiro de 2019.
_______. Decreto nº 11.695, de 03 de setembro de 2009. Disponível em:
<http://governo-ba.jusbrasil.com.br/legislacao/818896/decreto-11695-09>. Acesso em 10 de outubro de 2019.
______. Lei nº 12.365/2011, de 30 de novembro de 2011. Dispõe sobre a Política Estadual de Cultura, institui o Sistema Estadual de Cultura, e dá outras providências.
Disponível
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Acesso em 03 de fevereiro de 2019.
______. Decreto nº 13.025, de 19 de julho de 2011. Disponível em: <http://governo- ba.jusbrasil.com.br/legislacao/1028421/decreto-13025-11>. Acesso em 20 de março de 2019.
______. Lei nº 12.365/2011, de 30 de novembro de 2011. Dispõe sobre a Política Estadual de Cultura, institui o Sistema Estadual de Cultura, e dá outras providências.
Disponível em:<http://www.cultura.ba.gov.br/wp-content/uploads/2010/06/Lei-12.365- de-30-11-2011-Lei-Org%C3%A2nica-da-Cultura.pdf>. Acesso em 03 de outubro de 2019.
BARBALHO, Alexandre. Políticas Culturais no Brasil: Identidade e diversidade sem diferença. In: RUBIM, A. A. C.; BARBALHO, A. (Orgs.). Políticas Culturais no Brasil.:
EDUFBA, 2007.
BARBOSA, Juciara Maria Nogueira. Descompasso: como e porque o modernismo tardou a chegar na Bahia. In: ENCONTRO DE ESTUDOS MULTIDISCIPLINARES
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BOTELHO, Isaura. A política Cultural e o plano das ideias. In: RUBIM, A. A. C.;
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