visando à melhora das condições de trabalho para professores e maior qualidade no atendimento às crianças na educação infantil.
2.2 Condições de Trabalho e os Efeitos sobre o Processo Saúde-sofrimento-
A pesquisa de Ramazzini iniciou-se com a observação do modo como um operário exercia seu ofício – o esvaziamento de uma cloaca:
[...] observei que um dos operários, naquele antro de Caronte, trabalhava açodadamente, ansioso por terminar; apiedado de seu labor tão impróprio, interroguei-o por que trabalhava tão afanosamente e não agia com menos pressa, para que não se cansasse demasiadamente, com o excessivo esforço. Então, o miserável, levantando a vista e olhando-me desse antro, respondeu: “Ninguém que não tenha experimentado poderá imaginar quanto custaria permanecer neste lugar por mais de quatro horas, pois ficaria cego”
(RAMAZZINI, 2000, p. 76).
As intensas e extensas narrativas sobre as doenças sistematizadas por Ramazzini foram publicadas em sua obra “De Morbis Artificum Diatriba”. No ano 2000, através do Ministério do Trabalho e Emprego, o livro ganha uma edição, em português, na comemoração aos 300 anos do lançamento da 1ª edição original (ARAÚJO- ALVAREZ; TRUJILLO-FERRARA, 2002).
O processo de transformação de longo prazo ocorrido nas nações europeias, pela “revolução capitalista”, encontrou condições de possibilidades para ser concluído primeiramente na Inglaterra, completando-se na formação do Estado-nação e na Revolução Industrial (NEMI; SCHRAIBER, 2019, p. 4), em finais do século XVIII e início do século XIX.
A Revolução Industrial gerou profundas mudanças na organização da sociedade trabalhadora. Com a descoberta das máquinas (as primeiras, de fiação e tecelagem) o trabalho manual/artesanal foi substituído pelo trabalho industrial. Os trabalhadores passaram a trabalhar para um patrão, na qualidade de empregados ou operários, não participando dos lucros do produto final. O modo de produção capitalista explorava a classe trabalhadora (LIMA et al., 2009). Surgia, naquele contexto, a ideia de “força de trabalho”; donos de fábricas (empregadores) começaram a se preocupar com a saúde de seus empregados, pois eles sabiam que os trabalhadores estavam submetidos a uma forma de trabalho acelerada e desumana e esta forma de trabalho poderia gerar problemas ao processo produtivo (MENDES;
DIAS, 1991, p. 341). Portanto, o foco da preocupação do empregador era o processo produtivo.
Em função dessa intensa exploração, aconteceram muitos movimentos revolucionários no século XIX, contrários ao modo de produção capitalista.
Juntamente com esses movimentos, desenvolveu-se o Movimento de Medicina do
Trabalho, entre 1800 e 1850. A origem deste Movimento deu-se em um fato ocorrido em 1830, quando Robert Dernham, dono de uma fábrica têxtil inglesa, perguntou ao seu médico particular como ele poderia cuidar da saúde dos seus operários para garantir a produtividade. A resposta do médico foi:
Coloque no interior da sua fábrica o seu próprio médico, que servirá de intermediário entre você, os seus trabalhadores, e o público. Deixe-o visitar a fábrica, sala por sala, sempre que existam pessoas trabalhando, de maneira que ele possa verificar o efeito do trabalho sobre as pessoas. E se ele verificar que qualquer dos trabalhadores está sofrendo a influência de causas que possam ser prevenidas, a ele competirá fazer tal prevenção. Dessa forma você poderá dizer: meu médico é a minha defesa, pois a ele dei toda a minha autoridade no que diz respeito à proteção da saúde e das condições físicas de meus operários […] (MENDES; DIAS, 1991, p. 341).
O médico particular de Robert foi contratado para trabalhar na fábrica. A partir desta conversa, nasceu o Primeiro Serviço de Medicina do Trabalho (1830) que se expandiu, posteriormente, para países desenvolvidos e depois para países periféricos (MENDES; DIAS, 1991, p. 342). Esta medicina – medicina do trabalho – inaugurou um modelo teórico preventivista que pode ser compreendido como preventivismo de base industrial, a serviço do modo de produção capitalista.
No entanto, para combater a forma com que o capitalismo atuava, um grupo de médicos progressistas, preocupados, de fato, com a saúde dos empregados, aliou-se à classe trabalhadora, para com eles e por eles, lutar por condições dignas de trabalho: nascia o movimento de Medicina Social (DA ROS; LIMA; MAXIMO, 2016).
Esses médicos, ao entrarem nas fábricas, disseram: as pessoas adoecem e morrem em função do jeito que vivem; com este regime de exploração da força de trabalho morrerão todos. Esse movimento médico foi chamado Movimento de Medicina Social (DA ROS, 2000).
Um dos pesquisadores mais importantes do Movimento de Medicina Social foi Friedrich Engels. Em 1845, quinze anos portanto após ter sido criado o Primeiro Serviço de Medicina do Trabalho, Engels realizou o estudo “A situação da classe trabalhadora na Inglaterra”. Durante dois anos, ele pesquisou o ambiente de trabalho do operariado inglês, em várias cidades, tais como Manchester, Liverpool, Glasgow, Preston, Birmingham. Ele observou vários efeitos perversos do modo de produção capitalista, naquele contexto, tais como: carga horária de trabalho desumana (16 horas/dia); ausência de saneamento, de ventilação (as fábricas não tinham janelas);
salários insuficientes para alimentar o trabalhador; gestantes tendo filhos no chão de fábrica; crianças trabalhando, a partir dos 04 anos, para garantir a sua comida;
pessoas vivendo em quartos úmidos e sujos, comendo alimentos adulterados, usando roupas esfarrapadas. A mortalidade no interior das fabricas era avassaladora. A mortalidade infantil ultrapassava 350/1000. Engels relatou em seu estudo que o processo de industrialização submetia os trabalhadores à incerteza de uma existência, ou melhor, à inevitável inexistência moral e física, expressa em uma vida exposta a violentos estímulos que transitavam entre a esperança e o medo. O perigo rondava os espaços do viver. A saída para o prazer é encontrada no álcool. Pais e crianças bebem coletivamente, especialmente licores, bebida de fácil acesso. O incentivo à ingestão de álcool na infância era a opção que os pais encontravam para silenciar seus filhos e, assim, terem um pouco de descanso. Havia uma urgência de lazer e uma forte tristeza no ar: no ar de má qualidade. Apesar de a realidade escancarar a falta de acesso a condições dignas de trabalho e de vida, Engels revelava que os trabalhadores alimentavam o capitalismo: vários medicamentos para as dores foram patenteados, na época, gerando lucros aos fabricantes. Esta pesquisa revelou a forma mais cruel de morte que pode assolar um povo – a morte sem direito à defesa –, pois quando a sociedade submete centenas de proletários a uma morte desumana, ela está matando e negando aos trabalhadores o direito à defesa (ENGELS, 1998).
Neste cenário de degradação da vida produtiva, o Movimento de Medicina Social construiu um modo europeu de pensar saúde, entre 1830 e 1875. Aliando-se aos inúmeros movimentos revolucionários em ebulição na Europa (Socialistas utópicos, Comunais, Populares, Socialistas, Anarquistas, para citar alguns), o Movimento defendia que para fazer saúde precisaria mudar a sociedade. Dentre as conquistas deste Movimento, cabe citar a inclusão, na Constituição Prussiana (atual Alemanha) de 1849, de saúde como direito social e dever de Estado; e b) breves momentos de vitória dos movimentos revolucionários, cabendo citar a Comuna de Paris (DA ROS, 2000).
Três anos após a divulgação dos resultados do estudo de Engels, em 1848, foi desenvolvido outro estudo importante, considerado um marco no Movimento de Medicina Social: o de Rudolf Virchow. Este médico alemão foi designado pelo governo da Prússia (atual Alemanha) para a missão de combater uma epidemia de tifo que acometia a população. Os resultados deste estudo demonstraram que o tifo era determinado pela “presença de um Estado autoritário e repressivo”, pelas condições
insalubres e pobreza (BERLINGUER, 2011, p. 202). Este ‘jeito’ socialmente determinado de pensar a doença mantém-se hegemônico até o começo dos anos 1880.
A partir da descoberta da bactéria por Pasteur, em 1881, a abordagem social da determinação das doenças é substituída pela lógica unicausal: deixava-se, a partir de então, de defender que quem determinava doenças era o modelo de Estado, condições insalubres e pobreza; passou-se a defender a lógica de que a bactéria era a causadora de doenças. Um dos efeitos imediatos desta teoria é a mudança na Constituição Alemã, aquela que havia reconhecido em 1849 que saúde era um direito social e dever do Estado. A partir da teoria da unicausalidade, os médicos pararam de se preocupar com a determinação social da doença e se voltaram para a teoria unicausal: quem causa doença é a bactéria (DA ROS, 2000). O raciocínio unicausal foi fundamental para a emergência de bases que permitiram ao capitalismo aplicar sua lógica no setor saúde: doença não deve ser combatida socialmente, mas na esfera privada individual por meio de medicamentos. Para tratar o doente, o melhor lugar era onde existia mais disponibilidade de recursos (equipamentos e remédios). Este lugar, para o sistema, chamava-se hospital. Exames + Remédios + Hospital estabeleceram o tripé do chamado complexo médico industrial, acrescido, depois, dos seguros de saúde. Portanto, com o surgimento da bacteriologia houve um arrefecimento do Movimento de Medicina Social.
Cabe assinalar que em ambos os movimentos, de Medicina do Trabalho e de Medicina Social, a saúde e a prevenção a doenças eram pensadas em termos coletivos. A lógica se desloca para o indivíduo, a partir da hegemonização da unicausalidade, como modelo teórico explicativo de saúde e doença.
No entanto, na Revolução Russa o Movimento de Medicina Social vive um real recrudescimento. Em 1917, Nikolai Semashko, o então Ministro da Saúde da Rússia e amigo de Rudolf Virchow, baseando-se no Movimento de Medicina Social, especialmente nos estudos de Engels e de Virchow, criou o primeiro sistema universal de saúde do mundo: o Serviço Nacional de Saúde russo. Este Serviço Nacional concebia que saúde social (saúde da população) é determinada pelo regime sociopolítico e pelas condições de vida que dependem deste regime (condições ambientais de vida e de trabalho da população, salário, cultura, escolaridade, alimentação, relações familiares, qualidade e acesso à serviços de saúde, lazer;
fatores climáticos, geográficos, hídricos e meteorológicos) (SERENKO; ERMAKOV, 1984).
Vale assinalar que a Rússia do início do século XX era um país pobre, camponês, com aproximadamente 90% de sua população residindo no campo; um país “atrasado, semifeudal e semibárbaro”. A maior parte de sua população vivia em aldeias, o trabalho centrava-se na terra e os instrumentos utilizados eram tipicamente medievais. Havia poucas cidades, destacando-se São Petersburgo e Moscou, mas elas guardam traços ainda rurais. Segundo Bahro (1980), nesta época coexistiram no país três formações econômico-sociais: a asiática (aldeia), a feudal (ainda havia resquícios de feudalismo) e a capitalista moderna (nova e frágil). Enquanto isto, países como a Inglaterra, Alemanha, França e Estados Unidos viviam um capitalismo desenvolvido. O Serviço Nacional de Saúde russo durou dez anos: até a ascensão de Stalin (RODRIGUES, 2006, p. 13) que, gradativamente, rompeu com esse sistema, adotando a lógica ocidental biologicista (unicausal).
Ao longo do século XX, surgiram vários marcos teórico-conceituais que influenciaram fortemente o modo como o processo saúde-sofrimento-doença passava a ser compreendido na formação econômico-social capitalista, em suas diferentes roupagens, em função de eventos históricos, como a queda da bolsa de Nova York e as duas grandes guerras. Cabe citar: o surgimento da epidemiologia constitutiva (1872-1929), da epidemiologia de exposição (1930-1945), da epidemiologia do risco (1945-1975), nos Estados Unidos da América (EUA) (AYRES, 2008), sendo que no contexto estadunidense de desenvolvimento da epidemiologia do risco, foi elaborado o modelo teórico preventivista da multicausalidade, por Leavell e Clark, difundindo-se rapidamente a demais países.
Na medida em que o capitalismo avançava, expandia o Movimento de Medicina do Trabalho. Na segunda metade do século XX, em 1953, a Organização Internacional do Trabalho (OIT), com sede em Genebra, recomendou aos países ricos o estímulo à formação de médicos qualificados para a Medicina do Trabalho. Seis anos depois, a OIT produziu o primeiro instrumento normativo para o Serviço de Medicina do Trabalho. Os objetivos estabelecidos para este Serviço foram: a) garantir a proteção dos trabalhadores no trabalho contra todo risco que prejudique a saúde; b) contribuir para a adaptação física e mental dos trabalhadores, em particular pela adequação do trabalhador ao trabalho; e c) contribuir para o estabelecimento e manutenção do nível mais elevado possível de bem-estar físico e mental dos trabalhadores (MENDES;
DIAS, 1991). As universidades começaram a formar especialistas para a medicina do trabalho e as mais variadas instituições começaram a contratar médico do trabalho.
No entanto, durante a Segunda Guerra Mundial, as más condições de trabalho nas indústrias acabaram gerando muitos acidentes de trabalho, doenças do trabalho, agravos do trabalho, e mortes. Este cenário de destruição humana foi interpretado por patrões e companhias de seguro como pesados cursos diretos e indiretos. A partir de então, patrões e seguradoras começaram a pensar que era preciso mudar a Medicina do Trabalho. Além de os médicos do trabalho continuarem a avaliar os coletivos das fábricas, era necessário também: a) intervir no ambiente (nos locais de trabalho), para controlar os riscos de doenças e, assim, garantir a produção capitalista; b) analisar as doenças do trabalho; e c) analisar os acidentes de trabalho. Transformaram-se em médicos ocupacionais.
Essa nova lógica produtivista – saúde ocupacional – foi baseada no modelo de Leavell e Clark, recém-criado, para o qual micróbios e fatores alimentares, culturais, sociais, e demográficos causam a doença e as doenças têm uma história natural. O risco a doenças passa a ser a coisa mais importante para patrões e seguradoras. O modelo de Leavell e Clark descreve a evolução de uma doença, antes mesmo de ela existir, a partir de três níveis de prevenção: prevenção primária, secundária e terciária.
Nessa lógica, promoção da saúde é um nível primário de prevenção de doença. Na prática, a saúde ocupacional substituiu a medicina do trabalho, mas em alguns lugares ela ainda é conhecida como medicina do trabalho (DA ROS; LIMA; MAXIMO, 2016).
Antes de tecer considerações sobre condições de trabalho e processo saúde- sofrimento-doença, em contexto brasileiro contemporâneo, queremos dedicar algumas linhas a um estudo italiano, realizado em finais dos anos de 1960, que nos instigou profundamente e que nos ajudou a descobrir, um fio histórico com o preventivismo de base social de Ramazzini, em plena ebulição do modelo preventivista de Leavell e Clark nos EUA, bem como com um Movimento de Medicina do Trabalho de base social: “A saúde nas fábricas”, de Giovanni Berlinguer (1983).
“A saúde nas fábricas” correspondeu a uma vasta pesquisa sobre as condições de trabalho em fábricas italianas. Com o objetivo de conhecer a percepção de operários e operárias sobre as situações de trabalho consideradas por eles como danosas à sua saúde. O inquérito foi conduzido por Giovanni Berlinguer (docente de Higiene e Medicina Social), Marcello Marroni (especialista em Medicina do Trabalho) e outros colaboradores. Naquela época, 1967-1969, a problemática da saúde dos
operários italianos, na perspectiva dos danos à saúde determinados pelo trabalho submetido ao capital, era considerada ponto número 1 na agenda sindical. A hipótese do estudo residia na defesa de que “o tratamento passa necessariamente pela participação operária”. Berlinguer defendia que a mudança nas condições de trabalho exige “que os operários transponham os muros das fábricas e batalhem em muitas frentes políticas”, não bastando “se organizarem e lutarem em seus locais de trabalho”
(MELO, 1983 apud BERLINGUER, 1983, p. 8-9).
A coleta de dados foi realizada em 366 locais de trabalho, relativos a 225 empresas diferentes. A amostra examinada totalizou 267.978 operários, provenientes de fábricas metalúrgico-mecânicas, eletromecânicas e siderúrgicas (50%), fábricas químicas e de mineração (20%), fábricas têxteis e de confecção (12%), e o restante de empresas de outros setores (indústria de alimentos e de madeira, de produção de energia elétrica e termonuclear, de edificações e de construções, de transportes e outras atividades do setor terciário) (BERLINGUER, 1983).
O questionário compreendia questões abertas e fechadas relativas à:
condições climáticas (temperatura, umidade, ventilação, iluminação, ruídos, aglomeração de máquinas e de pessoas); fatores de insalubridade (vapores e gases venenosos, fumaças, pós, radiações e substâncias tóxicas em geral); cansaço físico;
horários, ritmos, trabalho parcelar; acidentes e doenças; efeitos de transformações técnicas nas condições de saúde; entidades e instituições que deveriam proteger a saúde; o modo como veem os organismos sindicais; a consciência ou não da relação entre exploração e saúde (BERLINGUER, 1983).
Os depoimentos expõem raiva, indignação, e a consciência de ser explorado;
revelam, de modo unânime, que o médico da fábrica “está a serviço do patrão” (p.
147); “na vizinhança de fornos, o calor atinge 40º a 50º” e, ainda, “cuidado ao abrir a janela, senão estraga a produção” (p. 91); “Por efeito dos vapores da fumaça e do forno, a visibilidade é reduzida a dez metros”; [...] “as máquinas de tinturaria exalam vapores e a direção não quer tomar medidas adequadas porque são prejudiciais à produção” (p. 98); [...] “levanto o braço 40 vezes por minuto e todo o corpo se ressente de vibração” (p. 105-106); o ritmo impõe enorme fadiga neuropsíquica; [...] o patrão quer uma produção dupla com o mesmo salário” (p. 114); silicoses, reumatismos, pneumonias, surdez, distúrbios digestivos, neuroses, infartos, dermatites, hérnias, câncer de bexiga (p. 125-126); [...] em alguns aumenta a consciência de classe; outros se abandonam ao deus-dará” (p. 161), entre outros. A pesquisa denunciou o modo
como a sociedade de classes e seus mecanismos geram sofrimento, doenças do trabalho e iniquidades sociais.
Dando um salto de sessenta anos e voltando para o nosso país, eu me pergunto que horizonte podemos vislumbrar sobre as condições de trabalho de brasileiros (para aqueles que estão conseguindo fazer-se no trabalho) e sobre os efeitos gerados em seus processos saúde-sofrimento-doença, nesse cenário de crise moral, política e econômica que se arrasta desde a suspensão do processo democrático.
As medidas tomadas por Michel Temer, que chegou à Presidência após a destituição de Dilma Rousseff, em 2016, refletem um poder político formal que redefine a participação do Estado na garantia das políticas sociais e que desmonta a maior política pública da história desse país: Sistema Único de Saúde (SUS). O SUS está em colapso. Agoniza dia a dia e leva a grande massa brasileira mais pobre a um sofrimento coletivo sem precedentes.
O novo Regime Fiscal, do âmbito dos Orçamentos Fiscal e da Seguridade Social da União, instituído pela Emenda Constitucional nº 95/2016 reduziu as despesas sociais per capita até 2036. Por vinte anos, o orçamento do Ministério da Saúde será reajustado, apenas, pelo cômputo da inflação (medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) (BRASIL, 2016).
A Reforma Trabalhista (BRASIL, 2017), aprovada recentemente, estabeleceu novas relações de trabalho, cabendo citar a legitimação do trabalho terceirizado para atividades-fim do Estado, a flexibilização nas modalidades de contratação, o desmonte da padronização da jornada, e remuneração variável das jornadas de trabalho. Uma mudança geradora de perplexidade é a permissão, concedida pela Reforma, para que grávidas e lactantes trabalhem em locais insalubres (GALVÃO et al., 2017). Ao desmontar os direitos sociais e trabalhistas, arduamente conquistados pelo povo brasileiro ao longo de cem anos, o governo de Michel Temer e o Congresso brasileiro golpearam a população mais pobre (KREIN, 2018) com maestria neoliberal.
Não bastasse, a revisão da Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), realizada logo após a aprovação da Reforma Trabalhista, reconheceu estratégias compatíveis com a flexibilização da jornada de trabalho; dificultou a indução municipal da Estratégia Saúde da Família, principal modalidade operativa de atenção básica;
oportunizou a criação de estratégia monoprofissional para agentes comunitários de
saúde; e condicionou a implementação de padrões ampliados de atenção à análise de gestores municipais (BRASIL, 2017).
O estímulo à contratação como autônomo e pessoa jurídica, autorizado pela Reforma Trabalhista (GALVÃO et al., 2017), somado ao congelamento de gastos com saúde (BRASIL, 2016) e à atualização da PNAB (BRASIL, 2017) favorecem o sepultamento da tão cara (e ainda incipiente) cultura de atenção primária do SUS e, com efeito, do SUS concebido e conquistado como universal.
No momento em que essa dissertação se desenvolve, os ventos nacionais sopram sem rumo.
3 MARCO CONCEITUAL