4. ETNOGRAFIA COM OS MORADORES DO CONDOMÍNIO
4.3 A conduta da compra
A compra de uma casa possui diversos significados: pode simbolizar um investimento econômico, como a formação do patrimônio – que posteriormente pode ser vendido por um preço superior ao que foi pago ou mesmo ser alugado, servindo como renda extra –, e pode ser também um investimento social, formação de uma nova família, independência financeira, possibilidade de saída do aluguel, dentre outros.
Portanto, a compra não é realizada de maneira isolada, mas sim representa um trabalho de construção coletiva, pois são muitos os agentes que trabalham para que ela seja efetivada. E as propriedades do produto só se definem completamente na relação entre as características objetivas desse produto e os esquemas estéticos e éticos das disposições e/ou racionalidade que estruturam a percepção do comprador (BOURDIEU, 2000).
Quando Bourdieu (2000) propõe estudar o mercado da casa na França, por volta da década de 70/80, o autor aproxima esse mercado do mercado da arte, pois, na lógica das preferências, o predomínio é pela preferência à autenticidade do produto manufatureiro feito pelas mãos dos mestres. A compra constitui um lento processo de estudo das possibilidades. A compra a crédito lança um novo momento nesse processo,
pois além de se tornar o modo de aquisição mais frequente, não há mais a espera pela herança; os proprietários se tornam cada vez mais jovens.
A decisão pela compra e as preferências variam de acordo com os diferentes fatores como, por exemplo, a estrutura de capital, a trajetória social, a idade, o matrimônio, o número de filhos, entre outros.
O primeiro morador a ser entrevistado foi o Senhor Manoel41, aposentado, viúvo, que decidiu comprar o apartamento após o falecimento da esposa. Ele e a filha moram no apartamento e a antiga casa está à venda. A opção por morar nesse condomínio foi a segurança, e a ressignificação da vida após o enviuvamento.
A Senhora Alice, separada, mora com a filha no novo apartamento. Trabalha registrada como ―cuidadora‖ de um casal de idoso e faz faxina como ―bico‖, isto é, trabalho informal. A filha é corretora de seguro e foi ela quem convenceu a Sra. Alice de comprar o apartamento. Com o acerto que recebeu do antigo trabalho, a senhora deu a entrada na compra e financiou o restante do apartamento. Aqui, temos a influência da filha na aquisição da moradia, que por sua vez possui uma mentalidade de corretora de seguros, o que pressupõe um mínimo de planejamento, cálculo e disciplina.
O Senhor Pedro nos contou que não é proprietário do imóvel, pois ele paga o aluguel do apartamento em que mora junto com a esposa. Decidiu se mudar por conta da segurança, e se um dia comprar algum imóvel será em um condomínio, porque se sente mais seguro morando assim.
Quando indagado pelas motivações que levaram à compra do apartamento, o Sr.
Alceu disse que, ao passar pelo stand de vendas, se interessou pelo produto. Comentou com a esposa, que também se interessou pelo apartamento. Decidiram que iam vender o antigo ou alugar, e com o dinheiro adquiriram o novo apartamento. O Sr. Alceu foi aposentado por invalidez, e mora com sua esposa e seu filho no apartamento.
O Senhor Rogério optou pela compra por causa da localização. O condomínio, segundo ele, se localiza em uma região privilegiada, próximo ao centro, ao shopping, à rodoviária e à faculdade. Antes, ele morava em casa, mas quando seu filho engravidou a
41 Todos os nomes dos entrevistados foram substituídos por nomes fictícios a fim de se preservar a identidade dos moradores.
namorada eles passaram a morar todos juntos. Com intenção de deixar a casa para os dois, Sr. Rogério comprou o apartamento e atualmente mora sozinho. Ele é dono de uma empresa no ramo de extração vegetal (madeira).
A hipótese levantada por Bourdieu (2000) foi de que a ascensão à propriedade depende do volume de capital possuído; a propensão para comprar em vez de alugar está diretamente relacionada à estrutura desse capital, isto é, ao peso relativo do capital econômico e do capital cultural desses indivíduos(BOURDIEU, 2000, p. 46):
Tudo leva a concluir que a estrutura do capital desempenha um papel determinante na opção entre a compra e o aluguel: é entre as categorias que são sensivelmente mais ricas em capital econômico do que capital cultural, e que dependem principalmente do capital econômico para sua reprodução que as porcentagens de proprietários são mais elevadas.
A origem social também contribui para estruturar as estratégias residenciais das famílias, mas apenas através de todo um conjunto de mediações, como o tipo de aglomerado, o momento do ciclo de vida, a profissão e a origem do cônjuge; ou seja, a análise da estrutura dos capitais tornaria a análise completa.
Através da análise dos dados empíricos colhidos durante a pesquisa de campo, nosso objetivo é desenhar o sistema de fatores explicativos que orientam as opções dos agentes econômicos. Essas opções apresentam limites, os quais estariam ligados aos sistemas de disposições, que são influenciados pelo estado da oferta de habitação, dependente da política habitacional e da produção, como também pelos meios econômicos de que os indivíduos dispõem.
As entrevistas indicam diversas motivações, mas a preocupação com a segurança e planejamento para sair do aluguel foi uma constante nas entrevistas. Sobre a segurança, o Senhor Pedro, o Senhor Rogério e a Senhora Inês evidenciam que morar em apartamento hoje é bem mais seguro que morar em casa, além do Senhor Alceu e do Senhor Alberto, que já moravam em apartamentos em condomínio, afirmarem ter se mudado para outro apartamento em condomínio para manter a segurança que tinham.
Sobre o planejamento e o investimento, falas que levam a essa conclusão aparecem em quase todas as entrevistas. Para a Senhora Alice e o Senhor Alceu, por mais que aquisição do apartamento tenha reestruturado as finanças da família e hoje
passem por um período ―apertado‖ nas despesas, a compra significou um investimento no próprio patrimônio; assim como para os outros, caso do Senhor Manoel, Senhor Pedro, Senhor Rogério, Senhora Inês, Senhor Mário e o Senhor Alberto. Para alguns, há a possibilidade de ganhar dinheiro com ele (Senhora Inês, Senhor Mário e o Senhor Alberto), através da venda (posteriormente) ou do aluguel, seja do novo apartamento ou da casa onde moravam anteriormente, pois ao se mudarem, ficaram com o outro imóvel vazio (Senhor Manoel e Senhor Alceu).
4.4 A transformação das disposições econômicas e sociais e o