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Conhecendo e problematizando a realidade

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

4.1 Conhecendo e problematizando a realidade

Figura 1: Apresentação dos participantes da pesquisa

Fonte: Elaborado pela autora

Observa-se que todos os participantes estão atuando em sua área de formação, e investiram em pós-graduação para complementação de formação curricular e auxílio em sua área de trabalho.

Pela presença de psicólogos nas diferentes secretarias, teoricamente existe a viabilidade de um trabalho em rede, o que é citado apenas por P5, e apenas na dimensão do encaminhamento.

[...] fizemos uma avaliação inicial para pensar nos atendimentos que não são feitos para a saúde, para a assistência, para o CRAS, para o CREAS, para o Conselho Tutelar enfim a gente avalia qual é a necessidade da criança e faz os devidos encaminhamentos e orientações para a escola. [...].

Segundo Duarte et al. (2006), o trabalho em rede pressupõe articulações e conexões entre os sujeitos fazendo-se, portanto, necessário o estabelecimento de vínculos não apenas para a troca de experiências e fortalecimento de ambos, mas pela necessidade de se enfrentar problemas comuns que não podem ser resolvidos por apenas um dos lados.

Nesse sentido, segundo Santos et al. (2010), as ações em conjunto devem ser vistas como intervenções sustentadas pela articulação intersetorial e de participação social voltada à saúde, visando a melhoria das condições de vida de toda a população.

O trabalho em rede possibilita a materialização de vários princípios da Promoção da Saúde, saindo da lógica da intervenção clínica individualizada caracterizada pelo encaminhamento.

Os profissionais Psicólogos apresentados na Figura 1 relatam diferentes práticas dentro do repertório de possibilidades de atuação da psicologia.

[...] há dois anos eu trabalho aqui (...) localizada em uma atenção secundária que é o atendimento terapêutico individual e grupal (P1).

[...] trabalho (...) diretamente com a comunidade, um trabalho novo assim que senti bastante dificuldade por não ter tanta prática dentro da formação ela peca bastante nesse sentido e a gente viu na hora de atuar com a comunidade que era um trabalho bem diferente do clínico [...] (P2).

[...] é atendimento terapêutico individual e agora vou começar com grupo também (P4).

É possível identificar o predomínio do atendimento clínico individual e ou grupal, destaca-se a referência da dificuldade em realizar um trabalho diferenciado voltado à comunidade. Apenas um dos participantes pontua sua dificuldade na prática de trabalho oriunda também da formação acadêmica.

Esta dificuldade também foi identificada por Dimenstein (1998, p.58):

[...] a entrada do psicólogo nas instituições públicas de saúde, apesar de ter ampliado seu campo de trabalho, parece não ter alterado os modelos teóricos e práticos que fundamentam sua atuação. Daí, sua dificuldade em construir novas práticas voltadas para a produção social da saúde e da cidadania, práticas comprometidas com o bem estar social.

Ainda de acordo com esse autor, o psicólogo entra no setor público de saúde reproduzindo o modelo médico-assistencial privatista, que muitas vezes foi concebido em sua própria construção acadêmica. Tais aspectos corroboram com a vivência e discurso apresentados pelos participantes.

A psicologia devido seu caminhar histórico foi apenas com o tempo voltando seu olhar para as comunidades, na busca de uma construção coletiva de saberes.

Dificuldade apontada por P2.

Netto et al. (2001), ressaltam que a psicologia comunitária está direcionada, sobretudo, às populações em situação de risco. Uma vez que seu aporte teórico está fundado na desideologização do discurso neoliberal, não estando a serviço das classes dominantes, tendo como objetivo a desconstrução das relações de poder.

Tal possibilidade de transformação vem ao encontro da fala da participante citada abaixo, quando pontua o seu trabalho como algo que vai além do aluno, mas que abrange também os professores que serão durante a vida ativa profissional multiplicadores deste aprendizado.

[...] trabalho diretamente com a criança não é um trabalho clínico mais a gente forma grupos, faz atendimento com grupos de crianças principalmente com crianças que estão apresentando dificuldades em alguma área e que aparece na escola, trabalhamos muito com os professores [...] (P5).

Ampliar o campo clínico para a atividade em grupo abrange a possibilidade de criar multiplicadores referente a novos saberes, quando trabalho a criança automaticamente estarei criando emaranhados com os demais sistemas, família, comunidade, professores e colegas.

Após o primeiro reconhecimento, propõe-se na segunda oficina a formação de uma rede explicativa sobre as questões levantadas através da elaboração da figura da árvore na qual na raiz se aponta as dificuldades que foram apresentadas e o caule as consequências dessas dificuldades.

Os participantes formaram a figura abaixo:

Figura 2: Árvore

Fonte: Elaborado pela autora - Oficina 2.

Os participantes dialogam e trazem os seguintes discursos para as dificuldades apontadas na raiz da árvore.

Gestão:

[...] tem muitas pessoas que nem cargos políticos que são colocados lá dentro e não pessoas que tenham habilitação, que são formadas, técnicos que estão lá dentro que podem dar um outro perfil para aquela política [...]

(P3).

A gente passou por essa mudança recente também, voltou a ser uma política e a gente já viu que em torno de três, quatro meses acabam destruindo toda uma estrutura de funcionamento que estava pensada dentro das normativas, dentro dos instrumentos técnicos que a gente tem para conseguir trabalhar todos os cargos estavam mais ou menos agora mais prontos para atuarem mesmo nessas equipes mais prontas e eles se preocupam realmente, a gestão

é muito de quatro em quatro anos assim, parece que ela sabe quando precisam atuar eles vão enchem a pessoa e depois tiram eles realmente nunca se voltam para a população então é uma preocupação que eu percebo que eles não tem com a população, eles cumprem os objetivos deles na maioria das vezes são políticos mesmo e isso lógico vai prejudicar a nossa intervenção em saúde [...] (P2).

Acaba sendo um trabalho para o povo gostar e aplaudir porque nem sempre as pessoas sabem exatamente o que seria melhor para elas, se a gente for pensar em fazer um trabalho de promoção de saúde, nem todo mundo vai achar que isso é o que a gente realmente precisa, mais talvez vamos pensar em uma grande maioria ou em uma parcela do pessoal que entre um trabalho de promoção de saúde e um sacolão, por exemplo, vão achar que é muito mais vantagem ganhar um sacolão [...] (P5).

Os sujeitos apontam a ocorrência de ações de caráter imediato e a descontinuidade das ações caracterizadas por uma atuação política na qual o corpo técnico vê sua atuação afetada conforme coloca P2 eles cumprem os objetivos deles na maioria das vezes são políticos mesmo e isso lógico vai prejudicar a nossa intervenção em saúde.

Na base dessas ações encontra-se a troca de gestão, os participantes pontuam que as atividades que são ou poderiam ser executadas nas comunidades acabam prejudicadas com as ações políticas administrativas do município.

Tal concepção trazida vem ao encontro do que autores apresentam em relação à gestão de qualidade, ou a má gestão. A necessidade de bom planejamento, liderança e atenção mostram-se como pontos cruciais para o bom desenvolvimento das atividades.

Mezomo (2001), aponta que o processo de gestão em saúde exige medidas de planejamento, alocação de recursos escassos, avaliação de desempenho e outras atividades básicas de administração, além de reuniões de equipe, padronização de procedimentos, coordenação, direção e controle. O mesmo autor afirma que a atual gestão de saúde necessita de gestores responsáveis pela solução de muitos problemas apresentados pelos serviços de saúde. Isso requer que os gestores tenham sensibilidade, determinação e visão clara, sejam pragmáticos, responsáveis e inteligentes. A atenção à saúde é alcançada através de instrumentos como o planejamento, a organização, a coordenação e o controle.

O que não se observa na fala do seguinte participante:

Não é pensado, não tem uma gestão que planeja, que olha, é tudo feito de qualquer jeito, é um sistema grande que é fragmentado ele acontece de forma fragmentada, a gente pode resistir, eu acho que cada um aqui resiste de uma forma, mas às vezes a gente se cansa justamente por isso, isso é

cansativo, resistir ao sistema, por que ele é grande, ele vem como uma avalanche (P1).

Segundo Novareti (2015), a falta de planejamento pode comprometer seriamente a gestão, acarretando em ações desnecessárias e que não atendam aos interesses dos usuários dos serviços de saúde e nem de seus profissionais. O planejamento tem papel vital no direcionamento de ações para que se alcancem os objetivos traçados. Sem planejamento, as atividades ocorrem por inércia e os serviços funcionam de maneira desarticulada, como aponta P1 tudo é feito de qualquer jeito, é um sistema grande que é fragmentado.

Ainda segundo Novaretti (2015), menciona a deficiência gerencial como um fator que compromete significativamente a gestão em saúde, pois em virtude do despreparo dos gestores em saúde, há grandes distorções na atuação destes gerentes, sendo estas distorções manifestadas através de algumas dificuldades em seu cotidiano de trabalho como falta de compreensão das estratégias governamentais, ocasionando entraves para que o gestor assuma uma postura de liderança. Além dos entraves da gestão, manifesta-se o cansaço dos trabalhadores e a necessidade de resistir.

No que tange um bom desempenho de trabalho a partir do olhar dos profissionais é segundo Novaretti (2015), que os serviços tenham estruturas adequadas, disponibilidade de materiais e equipamentos, número adequado de profissionais para que consigam prestar uma assistência de qualidade e que seja resolutiva. Pontos estes apresentados de forma negligenciada pela figura da gestão descrita pelos participantes da pesquisa.

A falta de estrutura entra totalmente em condições de trabalho [...] (P2).

Inclusive do tempo de atendimento, que também não é respeitado muitas vezes, tem que atender 10 por dia, em uma sala bem mais ou menos e bem menor (P3).

Se fosse pela gestão nós faríamos atendimentos psicoterapêuticos em meia hora (P1).

Eu tenho problema que não tenho telefone para ligar, a gente não tem linha, a menina não tem telefone para ligar para os pacientes (P1).

Além da estrutura os participantes apontam duas questões em relação a categoria profissional, a primeira é a dificuldade de inserção profissional e em seguida a isso o fazer do psicólogo após a inserção.

[...] dificuldade da inserção do profissional de psicologia e acho também que a dificuldade na questão aqui em (...) principalmente a gente tem muito isso que é a base, não tem a hierarquia dos serviços, os níveis de atenção quero dizer, básico, média complexidade, alta complexidade, não trabalhamos nessa lógica, porque as ESF´s não conseguem fazer promoção até onde eu sei, até onde a gente sabe que o NASF tenta. [...] (P1).

[...] eu acho que antes era por obrigatoriedade no NASF porque tinha que ter um profissional da saúde mental e hoje já não precisa mais (P3).

Eu acho que é isso, eu só acho também que a gente tem esse comportamento isso vai totalmente contra a criação de vagas, mas fortalece um ponto que a gente precisa, profissionais, é questão de criar, às vezes a gente precisa ser competitivo e às vezes não a um modelo curativo a gente acaba tendo que ter aquilo para ser diferencial, infelizmente a gente é ensinado a isso, é difícil ir contra mesmo, mas faz falta para nossa profissão essa luta que a gente tem contra o serviço social por exemplo. [...] (P2).

[...] o psicólogo será que ele também sabe fazer, ele sabe como chegar nesses locais e desenvolver estes trabalhos que possa depois gerar uma continuidade por alguém que venha depois ou que pense esta questão de promoção (P5).

Tendo sido a base da árvore constituída pela deficiência do olhar da Gestão e o Modelo Curativo enquanto pontos de dificuldade para a atuação em Promoção de Saúde, os participantes sentiram–se a vontade para verbalizar suas experiências enquanto profissionais ativos neste meio.

O grupo não realizou nenhum acréscimo às dificuldades no decorrer das discussões. Evidencia-se no discurso dos participantes o desconforto e dificuldade de trabalhar com os processos de mudanças realizados na e pela gestão, novamente reproduzem as queixas relacionadas à sustentabilidade, a não sustentabilidade das pessoas no local de trabalho, a não sustentação de projetos onde a comunidade encontra inserida. O fato pode se dar devido ao conflito de demandas, enquanto a gestão estabelece a busca de consultas médicas, os profissionais aqui participantes da pesquisa estão buscando a manutenção dos serviços.

A fala do participante P2 traz este sentimento e entendimento à tona.

[...] Eu acho que isso tudo pra mim afeta a falta de continuidade assim de poder dar um trabalho mais continuo e com tempo assim e com plano em longo prazo e principalmente por essas coisas de gestão mudar de visões, mudar de às vezes a gente ter que mudar tudo o que está acontecendo porque alguém entrou lá e disse que agora tem que ser diferente sem respeitar as características do local a gente trabalha bastante com comunidade então um território bem com sua forma de se relacionar e isso ajuda que é o principal (P2).

Cabe aqui salientar que estas situações são discutidas e vão ao encontro de reflexões de muitos autores da área social sobre a interface de nossa cultura brasileira, tradicionalmente autoritária em nosso cotidiano.

Segundo Sales (2009), as mudanças que ocorrem nos ambientes das organizações trazem consigo a instabilidade e a transformação impondo às empresas um posicionamento para acompanhar esta dinâmica. As organizações podem desenvolver formas diferentes de conduzir as mudanças. Sejam por meio de mudanças contínuas, de técnicas de intervenção, de mudanças radicais ou de mudanças estratégicas, o planejamento será fator de extrema importância para o gestor na condução do processo de modificação e na preparação da organização. Afinal, ao planejar as mudanças é possível diagnosticar a real necessidade, fixar objetivos, responsáveis, garantir sua continuidade, avaliar seus impactos e seus resultados. Além disso, é possível redefinir posturas culturais e comportamentais, anteceder as reações e preparar as pessoas para participarem do processo.

Segundo Baquero (2001), a tradição autoritária, bem como a instabilidade política permanente não tem proporcionado às bases fundamentais para a construção e consolidação de uma cultura política ativa e fiscalizadora além do que o comportamento dos próprios cidadãos se dá no sentido de privilegiar seus interesses privados, do qual possam tirar algum benefício a curto, médio ou longo prazo.

Torna-se notório o impacto das mudanças realizadas de forma radical nos ambientes onde existem projetos sendo executados, segundo os participantes da pesquisa o rompimento repentino e funções e a troca radical de gestão desmotiva a continuidade do trabalho que estão sendo executados.

[...] ali tem uma coisa enorme assim, uma coisa gigantesca de todas as possibilidades da atuação do psicólogo na educação, mas não existe algo que seja mais direcionado talvez que ai possa ver uma continuidade de trabalho independente da pessoa que está lá que este trabalho vá ter uma continuidade então acho que fica a maior dificuldade acho que e essa descontinuidade no fazer, do trabalho, dos projetos [...] (P5).

Chiavenato (2008), aponta que as técnicas de mudança organizacional planejadas são baseadas nas ciências comportamentais, são feitas também com o objetivo de continuidade e geralmente tem visões de médio e longo prazo. Resumem-se a mudanças culturais e comportamentais que de certa maneira impactam em toda a organização. As mudanças planejadas priorizam um planejamento de ação baseado em

diagnóstico prévio e com a utilização de técnicas de intervenção adequadas e pautadas em estudos. O alcance dos resultados almejados depende de uma interatividade entre os membros conduzindo ao aprendizado constante e à compreensão da experiência, percepção e comportamento.

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