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Considerações finais

No documento Vida associativa no Brasil monárquico (páginas 73-77)

114 AN, CE: Caixa 526, Pacotilha 2, Envelope 1, Documento 21: estatutos de 1853.

Ao nos aproximarmos do final deste texto, um tanto confuso em sua exposição, devemos fazer o seguinte questionamento: qual a lógica da vida associativa na Corte nas últimas décadas da escravidão? Responder esta pergunta significa, em grande medida, atribuir sentido às escolhas feitas ao analisar historicamente aspectos do associativismo, especificamente o mutualista.

A perspectiva adotada consiste em conceber o mutualismo como manifestação da cultura da classe trabalhadora, sem que isso signifique um advento exclusivo deste segmento. A implicação imediata e óbvia de tal escolha é a negligência de qualquer modelo que interprete o mutualismo como tendo um fim em si mesmo, explicado unicamente pelo seu caráter assistencialista. É preciso, portanto, nos afastar das formulações que advogam as sociedades mutuais do século XIX como a fase de gestação dos elementos que irão compor a consciência dos trabalhadores durante a consolidação do capitalismo urbano industrial. Como vimos no primeiro capítulo, essa é uma postura tributária das reflexões de Tânia Regina De Luca e Cláudio Batalha, que avançaram substancialmente no entendimento dos elos de continuidade e ruptura das formas de organização coletiva dos trabalhadores. Posto isso, é necessário historicizar e propor questões ao mutualismo à luz das transformações características do contexto da monarquia escravista. Embora os estudos historiográficos tenham avançado bastante na abordagem do fenômeno associativo, sobretudo no que concerne a questões teóricas e empíricas, ainda se faz necessário apontar alguns caminhos para seu entendimento.

Sidney Chalhoub sugere que a segunda metade do século XIX foi marcada pela hegemonia, crise e corrosão do paternalismo senhorial escravista, cujo cerne da política de dominação estaria na inviolabilidade da vontade senhorial, no interior da qual os trabalhadores escravos, libertos, livres e demais dependentes “avaliam sua condição [sempre na] verticalidade”115. Na ótica da ideologia senhorial não haveria espaço para ações alternativas de solidariedades horizontais. O raciocínio de Chalhoub permite-nos entender, até certo ponto, o mutualismo como manifestação dos laços de solidariedade horizontal, que adquiriu força em meio aos arranjos sofridos pela ideologia paternalista que, em seus diferentes momentos, acabou por condicionar a intensidade com que o mutualismo se expressou. Talvez, identificar no paternalismo escravista a ideologia que organiza a sociedade monárquica possa oferecer elementos importantes para se entender

115 Sidney Chalhoub, Machado de Assis: historiador. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p.47.

como o mutualismo nasceu e adquiriu força na cidade do Rio de Janeiro. No entanto é preciso avançar um pouco mais e nos perguntar sobre quais as características e como se formam as relações horizontais e verticais de solidariedade.

Em primeiro lugar, e, mais uma vez, o mutualismo é a manifestação da cultura dos trabalhadores e é no seu interior que as solidariedades verticais e horizontais adquirem sentido. Olhar para a cultura significa identificar uma arena de conflitos permanentes, de trocas materiais, de relações de dominação, de tradições herdadas e compartilhadas116, que permeia e confere sentido ao espaço associativo das mutuais.

Significa ainda, entende-la como um sistema social amplo de significados e práticas humanas ativas, que vivencia, redefine e transforma uma determinada ordem social117. Entendida como tal as sociedades de auxílio mútuo deixam de ser definidas apenas pela aparência que lhe oferece o assistencialismo. Porém, não basta apenas considerar a cultura como um campo de lutas, de trocas no interior de um sistema de significados, sem dialogar com o sentido atribuído pelo próprio Thompson ao termo experiência.

Assim sendo, as iniciativas de associação não devem ser vistas apenas como produtos do capitalismo industrial ou do fim da escravidão, mas como resultado das experiências cotidianas dos trabalhadores no contexto de crise econômica e política do regime monárquico. Dito de outra forma, as iniciativas de associação dos trabalhadores seriam

“(...) a resposta mental e emocional (...) a muitos acontecimentos inter-relacionados”118; ao mesmo tempo em que, a materialização dessas iniciativas em formas institucionais e culturais surgem “(...) em resposta a certas experiências comuns”119.

Resgatar a experiência significa, em grande medida, investigar com acuidade o modo pelo qual as relações verticais e horizontais conformam a cultura associativa.

Nesse sentido, exame das evidências empíricas das formas de implementação de cargos, bem como o “tipo” de sócio apto a exercê-lo; dos procedimentos formais de decisão através de assembléias; dos litígios entre os sócios e entre estes e o governo imperial, por meio da legislação que controlava suas atividades; dos significados em torno da proteção do imperador; das expectativas direcionadas às relações de ajuda mútua, como

116 E. P. Thompson, Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo:

Companhia das Letras, 1998, pp. 18-19.

117 Raymond Williams, Cultura, 2ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000, pp. 206-209.

118 E. P. Thompson, A miséria da teoria ou um planetário de erros: uma crítica ao pensamento de Althusser. Rio de Janeiro: Zahar, 1981, p. 15.

119 ______, op. cit., vol. 2, 2002, p. 316.

por exemplo, o auxílio à família do sócio falecido, enfermo e/ou inabilitado para o trabalho; dos valores em torno dos critérios de admissão, como, “ser livre”, “bem morigerado” e exercer um determinado ofício, cujo cumprimento é fundamental para que o interessado se adéqüe ao “código social” da sociedade em questão; e, por fim, do estabelecimento dos tipos de direitos sociais (no caso de beneficências como auxílio funeral e pensões) e políticos (o voto e o exercício de cargos administrativos, por exemplo) bem o tipo de sócio que tem direito aos mesmos.

Em segundo lugar, tais aspectos mostram a dinâmica do mutualismo e da vida associativa em geral, trazendo para perto de nossos olhos a história feita por certos grupos sociais. Igualmente, esses aspectos revelam as características de uma formação social e cultural com sua lógica própria, produzida e reproduzida pelas sociedades a partir de experiências, expectativas, valores e significados vividos como um sistema, constitutivo e constituinte da realidade social120, num complexo processo de fixação de limites e pressões que se inter-relacionam em todos os seus pontos121.

Nesse sentido, as transformações ocorridas na sociedade monárquica escravista, particularmente na capital nos anos finais do regime, foram vivenciadas cotidianamente pelos trabalhadores que se organizavam em sociedades mutualistas. Os efeitos dos processos sociais de formação do estado imperial, dos projetos de abolição do trabalho cativo, das mudanças estruturais na economia agrícola e da crise do paternalismo senhorial como aponta Sidney Chalhoub, trazem em seu bojo os ideais de civilização e progresso, cuja intensidade, compromete a permanência da ordem social escravista. O mutualismo e a vida associativa em geral relacionam-se a esses processos produzindo uma cultura emergente naquele contexto, que articula experiências, valores e significados comuns que define e limita as características e a intensidade da cultura associativa, cujos elementos não são dominantes e nem alternativos, mas emergentes, de acordo com o raciocínio de Raymond Williams122. Portanto, pode-se afirmar que, a atitude de se associar em mutuais de ofício específico e em organizações que agregavam várias categorias profissionais, demonstra de igual modo, diferentes maneiras de pensar, agir e atribuir valores que se materializavam em determinados fins políticos,

120 Raymond Williams, Marxismo e Literatura, Tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1979, p. 91

121 Idem, p. 113.

122 Raymond Williams, op. cit., 1979, p. 126.

econômicos e sociais, que revelavam o modo de vida da associação dos artífices mecânicos e liberais, assim como das outras sociedades de trabalhadores criadas na Corte.

Certamente muitas questões ficaram guardadas para pesquisas futuras. Algumas delas foram apontadas no decorrer do trabalho como problemas a serem examinados posteriormente. As escolhas feitas, no entanto, refletem os objetivos de cunho mais geral a que me propus, qual seja o de investigar os significados da experiência mutualista, a partir do exame da vida associativa como um todo. O balanço historiográfico e o diálogo com as fontes, juntamente com o exame de um dos processos do Conselho de Estado, permitiu que esse caminho fosse traçado. Longe de concluir o trabalho, a única coisa que podemos afirmar é que as inquietações que surgem no exercício cotidiano da pesquisa histórica, nos levam a aprofundar ainda mais a leitura do universo associativo, de investigar o conjunto de experiências de homens e mulheres que o construíram, procurando entender melhor seus significados e como interferiram na produção e reprodução sociedade na qual estavam inseridos.

No documento Vida associativa no Brasil monárquico (páginas 73-77)

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