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Há quem diga, não sem uma boa dose de razão, que mais difícil que começar a escrever um trabalho científico é conseguir terminá-lo.

A proposta desta investigação era, basicamente, verificar se os discursos condensados no Malleus maleficarum, uma obra escrita por dois freis dominicanos há mais de quinhentos anos, encontrariam ainda algum tipo de ressonância no saber-poder penal contemporâneo. Mais sinteticamente, o problema da pesquisa era descobrir se ainda resta na atualidade alguma coisa do “Martelo das feiticeiras” e, se a resposta for positiva, identificar o que sobrevive desse livro no tempo presente.

As hipóteses levantadas durante o trabalho foram, ao que parece, confirmadas: primeiro, há de fato uma lacuna na historiografia dos pensamentos criminológicos contemporâneos, já que não se estuda adequadamente os períodos anteriores ao Iluminismo.

Segundo, a criminologia, o direito e o processo penal, como integrantes de um único modelo integrado de ciências criminais, efetivamente surgem muito antes de Beccaria e Lombroso; aparecem de forma concomitante com a expropriação da função jurisdicional por parte do soberano, que passa a ser parte lesada pela prática de um delito (infração) e a descobrir e dizer a “verdade” por um método específico (inquérito), nos séculos XII e XIII.

Terceiro, os discursos presentes no Malleus maleficarum ultrapassaram o período medieval e influenciam, ainda hoje, os pensamentos criminológicos e a prática judiciária criminal, podendo-se identificar pontos de encontro com o saber- poder penal contemporâneo – daí a vital importância de estudá-lo na atualidade.

Assim, foram elencados alguns elementos, em rol meramente exemplificativo, os quais se entende presentes na contemporaneidade: a lógica da inquisição que persiste no processo penal atual; a visão de que a crítica ao sistema penal seria uma espécie de heresia moderna; o nascimento do que se chamou de

“maniqueísmo criminal”, ou seja, de que as agências que integram o poder punitivo atuam na lógica de uma “guerra” do bem contra o mal; e, por fim, o continuísmo da

estrutura discursiva do direito penal da emergência que acaba se transformando em direito penal do inimigo.

Com toda a certeza essa relação não esgota, nem de perto, o potencial teórico do “Martelo das feiticeiras”. Por isso é que, para muito além desses elementos, o que se ambiciona com esta dissertação é fomentar o estudo e desencadear o debate não só do Malleus maleficarum, mas de todas as manifestações do poder punitivo anteriores ao Iluminismo. Há muitas linhas de pesquisa a trilhar, bem como farta bibliografia a pesquisar, as quais por falta de tempo e de espaço não foi possível abordar na presente pesquisa.

Zaffaroni tem destacado a necessidade urgente da investigação genealógica das “verdades” do tempo presente, pois não será possível compreender o que se sucede no atual momento de ampliação do poder punitivo sem que se aprofunde a análise estrutural do discurso da Inquisição medieval, isto é, o exame crítico do Malleus maleficarum e de outras obras e práticas. Não se trata, como se tentou demonstrar, de mera curiosidade histórica: as estruturas discursivas edificadas pela primeira vez por Kramer e Sprenger são condicionantes das subjetividades contemporâneas e renascem a cada vez que alguém elabora um discurso legitimador do sistema penal.512

É necessário, no entanto, antes de encerrar, fazer uma advertência: seria um equívoco e uma ingenuidade asseverar que todos os discursos contemporâneos são filhos diretos do Malleus maleficarum, ou que o sistema penal atual é fruto exclusivamente do modelo elaborado por Kramer e Sprenger. Para além disso, jamais se pretendeu afirmar que quem sinceramente acredita na “capacidade provedora” da criminalização, ou ainda aqueles que tiveram suas manifestações ou pensamentos citados nessa pesquisa o fazem por maleficência ou porque se associaram ao obscurantismo medieval.

As pessoas que creem e confiam na resposta punitiva, na inflação das penas e na restrição das garantias de certos criminosos o fazem porque enfrentam problemas reais e honestamente acreditam que o sistema penal pode resolver

512 ZAFFARONI, Eugenio Raul. Notas sobre lo penal y lo religioso. p. 35

aqueles conflitos que lhe são confiados. Demonizar o discurso legitimador do poder punitivo somente impede e compromete o diálogo, tão necessário para a construção de um novo tipo de saber-poder.

Dito isso, a presente dissertação foi escrita sob o impacto do recente plebiscito que apartou a Grã-Bretanha da União Europeia e fez ressurgir com grande força ideologias nacionalistas e xenófobas. Se as políticas criminais “repressivistas”

e autoritárias hoje aplicadas sobre a população local já são causa de preocupação, caso venham a ser executadas em detrimento de “estranhos”, ou seja, de imigrantes ilegais e refugiados, amplia-se enormemente a possibilidade de se caminhar para um novo genocídio de proporções mundiais. A história, como se viu, está aberta à ação concreta de pessoas concretas, que podem muito bem alterar o seu rumo para frente ou para trás.

No campo do direito penal, o que se pode fazer é (r)estabelecer uma dogmática politicamente orientada à prevenção dos massacres e uma criminologia cautelar, como pretende Zaffaroni513. A jornalista e escritora Eliane Brum afirmou recentemente que “genocídio” é uma palavra que, no Brasil, já não diz: é como uma carta enviada que não chega ao seu destino, é uma palavra que não move nem comove – afinal, se não há escuta, não há dizer514.

Pessoas matam e morrem, diariamente, em nome e por causa do sistema penal, uma estrutura que não existe naturalmente, mas que foi criada e construída pelo homem e para o homem. A tarefa do jurista que conhece o passado de suas

“verdades” parece, portanto, ser a de fazer com que as palavras “digam” novamente:

fazer com que a barbárie, se não puder ser evitada, que ao menos seja contida;

fazer, enfim, com que ao menos a realidade seja menos cruel do que Kramer e Sprenger desejavam. E, para isso, cautela e prudência no exercício do poder de punir, como desejava Spee há cinco séculos, nunca será demais.

513 ZAFFARONI, Eugenio Raul. A palavra dos mortos: conferências de criminologia cautelar. p. 38.

514 BRUM, Eliane. O golpe e os golpeados: a barbárie de um país em que as palavras já não dizem.

Disponível em: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/06/20/opinion/1466431465_758346.html.

Acesso em: 30 jun 2016.