38 exegese, mais sóbria e realista que a antiga, traz consigo o símbolo de uma fé mais profunda, ou seja, a experiência de fé, o Cristo que se manifesta a todo aquele que se aproxima de seu modo de viver e agir.
39 Jesus, enquanto judeu, vivia?”, “Quais são as questões que perpassavam na região em que Jesus pregava?” “Como o povo e as autoridades romanas e judaicas viam Jesus de Nazaré?”.
Todas essas perguntas são trazidas à tona com a terceira busca do Jesus histórico, também conhecida como Third Quest que tenta evidenciar o contexto social, cultural, judeu em que Jesus viveu na tentativa de trazer uma história mais fidedigna da pessoa de Jesus.
Interessante percebermos que a questão do milagre, rejeitada por vários pesquisadores na Old Quest volta como indiscutível para os pesquisadores da Third Quest,como a relevância dada por Bultmann ao querigma, que foi motivador da New Quest, se vislumbra dentre os novos exegetas e historiadores da Third Quest. Essas e outras questões nos descortinam os constantes desafios e mudanças que transitam ao longo da pesquisa histórica da pessoa de Jesus.
A nosso ver, há continuidade ao longo das três buscas do Jesus histórico. Essa continuidade é marcada pelo método histórico crítico que permeia a todas as buscas. A mudança está no enfoque que cada busca ressalta. O método histórico crítico é a linha que perpassa ao longo da história. Diversas vezes, usado de maneira parcial, como veremos no próximo capítulo, onde trataremos de forma pormenorizada sobre esse método. Por hora, consideramos válido somente fazer essa consideração a cerca do método histórico crítico.
Dessa forma, cabe a pergunta: teria sido a Old Quest superada? Cremos que podemos responder de forma objetiva e subjetiva.
Objetivamente, diríamos que sim. Ela foi superada. Como bem notou Albert Schweitzer, esse Jesus procurado pela pesquisa histórica não existe e é impossível de encontrá-lo através da pesquisa histórica. Há dessa forma uma ruptura ao longo da história. O enfoque é mudado: não mais o histórico enquanto aquele fato que pode ser comprovado como acontecido no tempo e no espaço é relevante, mas o contexto e interpretação dada e esses fatos por meio das comunidades que ouviram os primeiros testemunhos que se torna digno de nota e tem-se a pretensão de achar.
Subjetivamente, cremos que não. Ao longo das duas buscas que vieram posteriormente à primeira, a preocupação em recuperar aquilo que Jesus fez, disse e viveu nos contextos em que fez e viveu não seria uma tentativa de refazer a mesma pesquisa histórica proposta no início pela Old Quest? Não estaria através do método histórico crítico, a tentar encontrar aquilo que é comprovável historicamente? O que muda é somente a consciência de que não é possível encontrar a história de fato, mas o objeto da pesquisa continua o mesmo:
40 recuperar e encontrar quem é Jesus de Nazaré dentro da história. Nesse sentido, o método histórico crítico e sua pretensão marcam a cumulatividade ao longo das buscas pelo Jesus histórico.
O que sobra de toda essa busca do Jesus histórico? Talvez a resposta mais sensata que podemos ter é a de Daniel Marguerat quando este afirma que “a busca do Jesus histórico é uma ferida permanente infligida na tentativa de capturar a Jesus dentro de um sistema dogmático53”.
Mesmo com esse veredito, seria possível relacionar, de maneira satisfatória, esses dois conceitos? Se possível, como fazer de forma que seja fidedigno tanto com as questões de fé pregada pela Igreja como com as questões da razão tão imprescindível à história? O que teremos ao fazer essa relação? Algo totalmente divergente, assintótico, convergente?
Como Joseph Ratzinger relaciona esses dois conceitos?
Essa é a pergunta que tentaremos responder no próximo capítulo.
53 MARGUERAT, Daniel. El Jesús histórico y el Cristo de la fe: una dicotomía pertinente? Selecciones de Teología, V. 51, n. 201, p. 19-30, 2012.
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2 A convergência : uma resposta ao dilema?
Introdução
Como vimos no primeiro capítulo, a busca pelo Jesus histórico levantou diversas correntes e diversos pensamentos ao longo de suas pesquisas. Tudo isso visava responder ao questionamento principal sobre aquilo que poderia ser dito a respeito de Jesus de Nazaré e a respeito do Cristo que era pregado pelos cristãos.
Houve os que primaram pela explicação histórica, os que primaram pela pregação da fé e, finalmente, os que primaram pela representação social e antropológica da figura de Jesus. Todas essas linhas trouxeram grandes contribuições, seja para o conhecimento histórico propriamente dito, seja para o enriquecimento da experiência pessoal de fé que acontece em cada crente.
O maior perigo que notamos foi o da separação entre o Jesus histórico e o Cristo da fé. Os que privilegiavam o primeiro reduziam a mensagem cristã a simples contos de enganadores e criadores de mitos, fazendo da mensagem cristã uma afronta a toda ciência racional e a toda história.
Os que privilegiavam somente o Cristo da fé tornaram Cristo sem história e, dessa forma, os crentes creriam somente em um amontoado de palavras que se fizeram ao longo de um discurso de experiência dos discípulos. Faltava a esse segundo grupo o fato. Era como se o Cristo da fé fosse um manco que só caminhava na vida dos cristãos por meio do acreditar em um discurso feito.
Questionando esse pressuposto e dizendo que era necessária a história para que a fé no Cristo fosse uma fé que se baseia em um evento concreto é que surge, como vimos, a segunda busca do Jesus histórico, a partir de Käsemann.
É nesse contexto, dentro desse período, que se situa o teólogo de nosso estudo nesse capítulo. Começaremos falando um pouco de sua história, visto crermos que todo pensamento de uma pessoa passa pela experiência de vida que essa pessoa tem. Depois exporemos como se dá sua cristologia para, no final, tentarmos mostrar como responde a esse dilema, tão precioso à sua época: “o problema do Jesus histórico e do Cristo da fé”.
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