Verger foi um “mensageiro” entre a África, sobretudo a região do Golfo do Benin e partes da diáspora africana, no caso específico do nordeste brasileiro, a Bahia - cidade de Salvador. Buscou através de suas fotos e de suas pesquisas compreender os laços e os elementos interligados entres estas sociedades nos mais variados aspectos, os culturais, os religiosos, a organização social, os saberes, promovendo um importante intercâmbio transatlântico. Sendo também um exímio etnólogo, Verger procurou aliar sua prática fotográfica com a busca de conhecer as pessoas, compreender seu modo de vida, de uma maneira profunda e respeitosa.
Nas fotorreportagens, na parte fotográfica, é perceptível o esforço de Verger em estabelecer laços entre estas regiões. Tanto na série “Acontece que são baianos” em parceria com Gilberto Freyre quanto no conjunto com fotografia feitas na Bahia em busca da África em parceria com Odorico Tavares.
Verger retratou as heranças e as trocas nos âmbitos culturais, religiosos, arquitetônicos, o modo de viver, a sociedade, as pessoas e seu cotidiano. Assim, produziu uma apropriação sobre África e a Bahia africana centrada na procura do
“outro”, do modo de vida, do cotidiano, das festas religiosas com mistura das tradições africanas e do catolicismo, das festas populares, e, sobretudo das influências dos cultos africanos e afro-brasileiros. Em praticamente todas as fotorreportagens, Verger retratou algum elemento desta religiosidade.
Esta representação de África – Bahia através do olhar de Verger, passou pela apresentação e valorização desta religiosidade, desta forma de estar no mundo, que foi a busca do próprio fotógrafo, já que tanto na África, a partir do Ifá quanto na Bahia, a partir do candomblé, houve um mergulho nesta temática que acabou sendo revelado na revista.
As fotografias de Pierre Verger analisadas deram destaque para o universo negro na África e no Brasil. Conforme Souty,173 o mundo negro africano e afro-americano é parte essencial da obra de Verger, desde os anos de 1930 ele se debruçou sobre este universo. Especialmente a partir de 1946, fotografando no Brasil, nas Antilhas, Estados Unidos e África Ocidental. Isto renovou profundamente a representação fotográfica dos sujeitos negros. O autor considerou que Verger contribuiu significativamente para que
173 Jérôme Souty 2011 Op. Cit, p.127
ocorressem “mudanças do olhar eurocêntrico sobre o homem negro”. Em suas fotos, a
“humanidade do negro foi restituída”.
Foi retratada a preservação e reinvenção das culturas africanas na África e no Brasil ressaltando as semelhanças entres estes mundos e enaltecendo estes elementos, sobretudo, os religiosos. Lívio Sansone,174 considerou que Pierre Verger fez parte do grupo de intelectuais, antropólogos, sociólogos entre outros que na busca por
“africanismos” no Novo Mundo elegeram a Bahia como a área em que a cultura negra manteve os maiores traços africanos.
Portanto, identificamos nas fotografias de Pierre Verger em O Cruzeiro, uma representação de enaltecimento da África, do afro-baiano nos âmbitos culturais, de valorização do outro. Mas, a África de Verger foi à mesma apresentada nos textos que constituem o conjunto de fotorreportagem em pareceria com Gilberto Freyre? Como já foi dito, a África de Verger é diferente da África de Freyre. A África de Verger é a região do Golfo do Benin, já a África visitada por Freyre foi Angola e São Tomé.
Neste sentido, houve uma contradição entre a parte fotográfica e a parte textual das fotorreportagens. Esta contradição se estendeu também quanto às ênfases dadas por ambos. Verger evidenciou o “outro”, no dia-a-dia, na cordialidade, na beleza, mostrando as influências “brasileiras” nos chamados “retornados”. Já Freyre evidenciou nos textos a superioridade “luso-brasileira” em oposição a cultura e hábitos africanos, no caso, da região do Benin.
Conforme Souty,175 o sociólogo Gilberto Freyre, se consagrou por seus estudos nos quais defendeu a tese de que as relações interraciais foram bem mais harmoniosas no Brasil, principalmente no nordeste, devido à colonização portuguesa favorável as práticas de “mestiçagem biológica e cultural”, a chamada “democracia racial”. Tal tese acaba amenizando a realidade da escravidão baseada na “opressão racial e dominação sexual”. Freyre defendeu o chamado “lusotropicalismo”, uma visão sexuada, sensual e fraterna de pensar a realidade do Brasil. Que pode ser encarada como uma visão conservadora e paternalista da sociedade luso-brasileira e que Freyre apresentou no conjunto das fotorreportagens “Acontece que são baianos”.
174 SANSONE, Lívio. Da África ao Afro: uso e abuso da África entre intelectuais e na cultura popular brasileira durante o século XX. Afro-Ásia, 27, 2002, (249-269) p.254
175 Jérôme Souty 2011 Op. Cit, p.p.258, 259
O outro conjunto de fotorreportagens constituídas por fotografias de Pierre Verger e textos de Odorico Tavares versou sobre a busca da África na Bahia, particularmente, em Salvador. Em diálogo íntimo entre fotos e textos, os autores retrataram uma Bahia influenciada em diversos aspectos pela África, precisamente a região do Benin, que foi alvo das pesquisas desenvolvidas por Verger ao longo de sua vida. Odorico Tavares, jornalista e parceiro de trabalho de Verger foi colaborador e conhecedor da cultura afro-brasileira.
Portanto, este conjunto de fotorreportagens da Bahia africana de Verger e Tavares foi destacado as relações históricas entre o Brasil a África nos elementos como a culinária, as artes, as festas populares de tradição católica e africanas, e a religiosidade afro que permeou grande parte do conjunto. Houve uma junção das ideias de ambos os autores na contemplação da diversidade de influências africanas na Bahia e na busca desta Bahia “africanizada”, em uma representação de valorização e referência a África.
O Cruzeiro foi essencialmente uma revista de variedades. De modo que, teve profissionais com os mais variados interesses. Portanto, produziu apropriações e representações de África também variadas. Freyre, sociólogo consagrado defendeu nos textos sua tese sobre a importância do “lusotropicalismo” e assim, sua África passou bem mais por Portugal e Brasil. Já intelectuais como Pierre Verger e Odorico Tavares fomentaram na revista suas ideias de África relacionadas à valorização e compreensão desta e dos laços com o Brasil.
Portanto, considero que as possibilidades de pesquisa relacionando a revista O Cruzeiro, produção intelectual, e as relações entre África e Brasil estão longe de se esgotar. Assim, novas pesquisas podem ampliar as discussões sobre esta temática.