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Quando escolhemos estudar a obra de Graciliano Ramos no Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários, no primeiro momento foi pela admiração que Vidas secas havia nos provocado na primeira leitura, muitos anos atrás, ainda no Ensino Médio, na época chamado de Curso Científico. Na primeira vez, nos sentimos no lugar de Baleia, aquela cadelinha que nos causaria tanta comoção. Na segunda, estivemos no lugar de sinha Vitória. Na terceira, no lugar de Fabiano, e voltamos a tomar o lugar de sinha Vitória, dos meninos, de Baleia e de Fabiano.

Todas essas personagens traziam, em suas existências, as dores que todo ser humano experimenta ao longo da vida.

São Bernardo e Angústia foram agregados à pesquisa, e a releitura, com o olhar apurado para o objeto de estudo, também nos tocaram profundamente.

Personagens tão ricas e pobres ao mesmo tempo, a raiva de Paulo Honório, a coragem de Madalena, a febre ensandecida de Luís da Silva, a inocente malandragem de Marina, levaram-nos a enxergar nas personagens, as pessoas do cotidiano. Graciliano Ramos e sua escrita universal. As dores daquelas pessoas são nossas, mas ele soube criar clássicos, deixando um legado inesgotável, com possibilidades de infindáveis pesquisas sobre as mais diversas vertentes humanas.

Caetés e Infância chegaram por último, já com a perspectiva de pautar o estudo sobre as mulheres na obra do Mestre Graça. D. Maria Amélia, primeiro contato de Ramos com uma mulher, na condição de mãe, ora embrutecida, ora amorosa, representa um paradoxo que só conhece quem está na condição de mãe, agrava-se por contextos de vida completamente adversos, sobretudo quando mal deixara de ser menina e já carregava um filho nos braços. O trato rude se decantaria com o passar do tempo. Quem sabe a maturidade do filho ou até mesmo a saudade de quando estavam separados melhoraria a relação? Não sabemos, mas podemos idealizar: a literatura nos permite interpretar como quisermos. Luísa, a mulher que conservou a doçura, mesmo casada com um senhor mais velho e bastante mal humorado, cedeu aos encantos de João Valério, mas quem resistiria? Graciliano Ramos conservou-lhe a dignidade até o final da trama.

À proporção que a pesquisa avançava, fomos percebendo como o autor era respeitoso com as mulheres. Tendo tudo para agir de forma contrária, mas revelar- se-ia um homem, que, mesmo sendo criado em um lugar tão atrasado socialmente, com mentalidade à frente se seu tempo, anteciparia, por estas mulheres, o comportamento que estaria por vir. As mulheres da obra de Graciliano Ramos tinham voz, ainda que abafada pela sociedade repressora. Elas não sofreram censura por parte do autor.

Luísa, Madalena, Marina, sinha Vitória e d. Maria Amélia foram companheiras de homens angustiados, algumas vezes agonizantes, gananciosos, embrutecidos, com a alma em flagelo. Mas elas, mesmo em meio a muito sofrimento, portaram-se com dignidade. Acreditamos que Marina teria sido a única que não alcançaria a plenitude de ser humana, começando a obra fragmentada e terminando mutilada. Se Angústia tivesse continuação, talvez ela aparecesse mais madura, mas não se poderia exigir muito mais de uma ambiciosa e (quase) inocente mocinha de 18 anos.

Enquanto estávamos desenvolvendo os estudos para esta pesquisa, especialmente as teorias sobre a história das mulheres, os brasileiros – e o mundo – assistia a um episódio de retrocesso na história do Brasil. A primeira presidente eleita e reeleita no país sendo retirada do exercício do seu cargo sob acusações sem fundamento, nem comprovadas de forma convincente, quando, na votação da Câmara de Deputados, as justificativas favoráveis ao impeachment eram as mais esdrúxulas possíveis. Ora em homenagem ao torturador “terror de Dilma Rousseff”, ora em homenagem à tradicional família brasileira, que já não é mais tão tradicional, nem família, há algum tempo.

Graciliano Ramos, há quase cem anos sabia muito mais sobre os direitos das mulheres que os homens de agora. Ainda existe o desejo de fazer com que a mulher saia se seu lugar de poder, seja na presidência, seja no lar. O desejo é que voltemos a ser silenciadas, acatando deliberações estabelecidas pelo patriarcado.

Que a mulher volte a ser o que uma revista de circulação nacional estabeleceu como paradigma “bela, recatada e do lar”. Mas os avanços conquistados são irreversíveis.

Que a literatura possa ser usada sempre em favor das minorias, como fonte de

pesquisa ou como recurso para despertar a curiosidade e a compaixão para a história de pessoas que, como as personagens de Graciliano Ramos, se equilibram entre o opressor e o oprimido. Que os negros, prostitutas, pobres, LGBTs, crianças, entre tantos integrantes de grupos socialmente excluídos, possam ter a oportunidade de se enxergar em obras literárias de longo alcance, como aconteceu com as mulheres na obra de Graciliano Ramos. Afinal, é urgente mudar a condição dessas “vidas caladas”.

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