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4. CAPÍTULO – Resultados e Discussão

4.1. PAISAGEM ATUAL

4.1.4. Contexto Bioclimático

53 possibilitou o desenvolvimento da paisagem ao longo do tempo, construindo uma paisagem poligenética (VALADÃO, 1998).

54 4.1.4.1. Intensidade Pluviométrica

A região de Milagres e, especificadamente, Lagedo Alto, apresenta um clima quente e sazonalmente seco, BSh de Köppen-Geiger. Sob o domínio semiárido, a dinâmica dos processos é controlada por um longo período de estiagem, seguido por outro com chuvas torrenciais e concentradas. Portanto, os processos morfogenéticos são também funcionalmente ativos de forma sazonal, visto que a capacidade de transporte e remobilização de materiais é efetiva e/ou intensificada quando há disponibilidade de água para o escoamento superficial.

O regime pluviométrico de Lagedo Alto é caracterizado pela concentração das chuvas entre os meses de novembro e março. Apresenta uma precipitação média anual de 458mm e um período mais seco que se estende de abril a setembro (figura 13).

Figura 13 – Intensidade pluviométrica da estação de Lagedo Alto (1964 – 1980) de acordo com a proposta de Crepani et al (2004). Fonte: HidroWeb/ANA, 2016.

Os maiores valores de intensidade de chuva - variável definida pela relação entre a pluviosidade média anual e a duração do período chuvoso (CREPANI et al, 2001) - também são representados nos meses de novembro a março, chegando a 297,2 no mês de dezembro. Isso evidencia uma maior intensidade da erosão, visto que o total de chuvas é distribuído para um número reduzido de dias durante o ano. Portanto, a curta duração das chuvas,

0 20 40 60 80 100

Pluviosidade Média (mm)

0 100 200 300 400

Intensidade Pluviométrica

55 principalmente no domínio semiárido, é o que condiciona a intermitência da rede de drenagem, a exuberância temporária da cobertura vegetal, a atividade incipiente dos processos pedogenéticos, a atuação efêmera dos agentes intempéricos e erosivos, da dissecação e denudação do relevo.

Como afirma Crepani et al (2001; 2004) quanto maiores os valores da intensidade pluviométrica maior é a erosividade da chuva e, portanto, maior a influência do clima nos processos morfodinâmicos. Para o mesmo autor, a precipitação anual mais reduzida que se despeja torrencialmente num período determinado do ano consiste na situação responsável pela extensiva denudação das regiões semiáridas.

A combinação de vários elementos, como as elevadas temperaturas, as altas taxas de evaporação e evapotranspiração, e o déficit hídrico no sistema natural, certificam a ação direta do clima sobre o relevo, a qual é bem observada no domínio morfoclimático semiárido. Como afirma Penteado (1983) essa ação direta do clima se faz pelos tipos de mecanismos atuantes que, por sua vez, respondem pela intensidade dos elementos. Portanto, sobre as precipitações, os dados de frequência e intensidade e a distribuição nos menores espaços de tempo são os que mais interessam.

Visto que a água é o principal agente responsável pelo arrasamento das formas de relevo da superfície terrestre (CREPANI, 2004), compreende-se que os altos valores de intensidade pluviométrica constituem o fator essencial no entendimento da dinâmica dos processos geomórficos em regiões secas. A gênese e a evolução de grandes superfícies planas e relevos residuais estão associados a um conjunto de mecanismos e ciclos ocorridos ao longo do tempo, que perpassam pela maior ou menor disponibilidade e atuação da água.

4.1.4.2. Flora de Inselbergs

A vegetação exerce uma função importante sobre os processos morfogenéticos e pedogenéticos, ao mesmo passo em que é comandada pelos condicionantes climáticos e edáficos. É através dela e dos solos que se tem a ação indireta do clima sobre o relevo (PENTEADO, 1983), mesmo quando se trata da caatinga - menos densas que as vegetações florestadas e sazonalmente desfolhada, e/ou das alterações antrópicas por ela sofridas.

56 As implicações da dinâmica de uso dos solos sobre a cobertura vegetal original em Lagedo Alto são evidenciadas pela supressão e substituição da caatinga pelas pastagens na região de entorno dos Inselbergs. O solo exposto contrasta com a vegetação preservada, que se desenvolve na base e sobre alguns setores das vertentes e dos topos.

As condições ambientais sobre os inselbergs favorecem uma diferenciação do tipo de cobertura vegetal em relação às áreas circundantes, visto que formam ambientes microclimático e edaficamente particulares, ou seja, a flora é submetida a condições físico-químicas extremas, além de estar continuamente sofrendo o perigo de destruição pelo pastoreamento extensivo e pela extração de rocha para a pavimentação pública (FRANÇA et al, 1997, 2005).

Como caracteriza Porembski (2007), sobre encostas rochosas abertas a temperatura do ar e a insolação alcançam, regularmente, valores que são consideravelmente mais elevados; a falta generalizada do solo contribui ainda mais para uma dureza ambiental, visto que a ocorrência do solo em inselbergs localmente é muito restrito; a perda de água devido ao escoamento é consideravelmente reforçada pelos frequentes declives acentuados; a umidade sazonal e a baixa disponibilidade de nutrientes favorecem apenas o desenvolvimento local de alguns habitats. Tais condições revelam a formação de uma paisagem singular, da estruturação de uma cobertura vegetal caracteristicamente diferente da caatinga circundante, proporcionando em alguns casos o endemismo de espécies vegetais.

De acordo com Lima e Corrêa-Gomes (2015) além de apresentarem um microclima em particular na sua superfície, esse afloramentos rochosos são considerados como bancos de sementes, visto que podem repovoar uma parte das floras vizinhas originais quando são levados pelas enxurradas, pelas rajadas fortes e frequentes de vento e/ou dispersas pelos animais que procuram abrigo e alimentos na superfície da rocha. Isso também favorece a distribuição comum de algumas espécies sobre os inselbergs e compondo a sua vegetação na base.

Dentre os tipos de habitats que abrangem os inselbergs podem ser distinguidas áreas de rochas expostas cobertas por líquens e cianobactérias, que são responsável pela coloração escura frequente nas rochas; plantas vasculares como as suculentas e xerófitas sobre fendas e fissuras, que quando mais profundas oferecem condições para a fixação de espécies perenes; depressões

57 na rocha cheias de água (rook pools), que acomodam uma flora efêmera (POREMBSKI et al, 1996; POREMBSKI, 2007); e uma vegetação de base, que se liga com aquela que se estende sobre as superfícies planas que envolvem os inselbergs, apresentando um comportamento fenológico característico do domínio das caatingas.

Em resposta à sazonalidade, tanto a flora que se desenvolve sobre a rocha quanto a vegetação que a contorna, apresentam mudanças cíclicas nos aspectos funcionais e fisionômicos. O comportamento decíduo ressalta o contraste entre o período seco e o chuvoso (figura 14). A perda da folhagem consiste numa forma de adaptação xeromórfica durante os longos intervalos de estiagem, comuns sob as condições semiáridas.

Figura 14 – Mudança sazonal da cobertura vegetal sobre o pedimento da vertente orientada para sul do inselberg b. Registros a) e b) feitos em Fevereiro e Julho de 2016.

Ainda sobre as especificidades da cobertura vegetal dos inselbergs, Lobão e Vale (2006, 2015), utilizando o SRTM para detalhamento geomorfológico, consideram as principais diferenças existentes entre as encostas voltadas para os quadrantes SW e NE de inselbergs situados na periferia do semiárido baiano. Identificaram características e tipos diferentes de cobertura vegetal, condicionados pela maior ou menor umidade trazida pelas massas de ar, pela exposição à insolação e nível de faturamento do substrato rochoso. As autoras ainda reforçam a ideia de que a flora que ocupa os inselbergs é reflexo das limitações impostas, onde a natureza do substrato e do clima são as variáveis mais importantes desse sistema ambiental.

a) b)

58 Certifica-se que as estruturas controlam não apenas a evolução das formas, mas também a distribuição, a composição e estrutura da vegetação que se desenvolve sobre as rochas, visto que as falhas, fraturas e demais irregularidades facilitam os processos intempéricos e a consequente disponibilidade dos nutrientes, o que favorece a fixação de algumas espécies.

4.2. ANÁLISE MORFOMÉTRICA DO RELEVO DA REGIÃO DE MILAGRES

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