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CAPÍTULO III METODOLOGIA E ANÁLISES

3.1 Contexto do estudo

A proposta metodológica adotada nesta pesquisa parte da abordagem teórico metodológica do discurso social, apresentada anteriormente, sendo que o processo de coleta de dados foi orientado pelos procedimentos da Grounded Theory na multidisciplinaridade da análise de discurso.

Este arranjo de procedimentos reflete o desafio de basearmos nosso objeto do estudo a partir do discurso social de Marc Angenot (2010), uma vez que partimos do entendimento que há uma difusão dos discursos hegemônicos na sociedade, que

conseguem manifestarem-se em diversos campos discursivos. A necessidade de analisar vários suportes midiáticos entre portais de revistas e mídias sociais levou a optar por um aporte metodológico que trabalhe diretamente a partir da empiria, contribuindo com o desenvolvimento da teoria juntamente à análise discursiva.

Encontramos na Grounded Theory uma metodologia aplicada para se desenvolver uma teoria fundamentada nos dados que são sistematicamente coletados e analisados (GOULDING, 2001). Bittencourt (2017) aponta-a como uma opção para superar as problemáticas das pesquisas em mídias digitais, como é o caso do ambiente que foi realizada a coleta de dados, por ser utilizada para desenvolver estudos fundamentados nos objetos empíricos e criação de novas teorias.

Trata-se de um método qualitativo, que apresenta muitas semelhanças com os demais métodos deste tipo de pesquisa, tais como etnografia, fenomenologia ou interacionismo simbólico. Sendo que este último sofre uma forte influência, já que se trata de uma perspectiva metodológica que compreende observar e entender o comportamento a partir do ponto de vista dos participantes; aprender sobre o seu mundo, suas interpretações de si mesmos nos contextos de determinadas interações e sobre as propriedades dinâmicas das interações (LOCKE, 2001, p. 25), principalmente quando há uma forte ênfase na subjetividade da realidade construída pelos respondentes (HANNABUSS, 1996). Para Strauss e Corbin (2008, p. 25),

“Teorias fundamentadas, por serem baseadas em dados, tendem a oferecer mais discernimento, melhorar o entendimento e fornecer um guia importante para a ação”.

Criada por Glaser e Strauss (1967), a proposta metodológica foi apresentada na obra The Discovery of Grounded Theory, e na sua Introdução, os autores afirmam:

“A Grounded Theory é um método geral de análise comparativa […] e um conjunto de procedimentos capazes de gerar [sistematicamente] uma teoria fundada nos dados”

(GLASER; STRAUSS, 1967 apud TAROZZI, 2011, p. 7). Leite (2015) relata que a metodologia surgiu como resposta à forte linha positivista predominante nas pesquisas científicas de 1960, período de enfraquecimento e perda de espaço das pesquisas qualitativas. Frente ao cenário, a visão dos fundadores da metodologia era a combinação dos métodos para fortalecer e ampliar a compreensão dos objetos de investigação.

Logo após a divulgação da publicação da obra que apresentou a Grounded Theory, Glaser e Strauss tiveram uma divergência sobre a perspectiva teórica da

metodologia, dando origem a duas linhas de abordagem: a clássica (glaseriana) de Glaser e a straussiana com Corbin. Glaser manteve-se aos princípios fundantes:

um método de descoberta e tratou as categorias, produzidas mediante a sua aplicação, como algo cujo surgimento se dava a partir dos dados. Baseou-se para tanto no empirismo objetivo e, muitas vezes, restrito, e analisou um processo social básico. Strauss (1987) deslocou o método para a verificação […] (CHARMAZ, 2009, p. 22).

Muitos pesquisadores foram influenciados pelas abordagens de ambos, que colaboraram para o avanço do pensamento acerca da Grounded Theory, mas Charmaz (2006) é quem trouxe implicações práticas para a aplicação de metodologia em preceitos construtivistas. A pesquisadora foi aluna de Glaser e orientanda de mestrado de Strauss.

Para a realização da fase de coleta de dados e constituição do corpus de análise deste estudo optou-se pela abordagem defendida por Strauss e Corbin (2008) das adaptações no método atendendo contextos específicos da pesquisa. O caso deste estudo, que identificou na metodologia uma estratégia para desenhar uma trajetória no tratamento de vários dados de busca dos enunciados em diversas fontes e obtidos em variadas formas (textos, imagens e vídeos) coletados nas mídias sociais.

O ambiente digital oferece objetos empíricos que podem ser diferenciados em relação à linguagem, formato, estilo etc., e com grande possibilidade de não contarem com teorias que atendam por completo a sua análise.

Na compreensão de Bittencourt (2017), é comum encontrar pesquisas na área de comunicação que tratam os dados coletados em ambiente digital como fragmentos de análises com o intuito de legitimar pensamentos e constatações do pesquisador, em vez de explorar o objeto empírico em outro contexto de comunicação.

[…] para o meio digital isso ganha especial importância, pois muitos dos discursos, produtos e conceitos são novos e podem não encontrar amparo em modelos teóricos já estudados e publicados […] podem ser completamente diferenciados em relação à linguagem, formatos, estilos entre outros e, exclusivamente quando assim forem, será muito provável que não existam teorias que abarquem por completo as análises do material proposto (BITTENCOURT, 2017, p. 146).

A autora defende a Grounded Theory como uma opção para avançar nas pesquisas de comunicação em mídias digitais, devido às suas características em elaborar, a partir dos dados, a criação de novas teorias, podendo “oferecer bases

teóricas que carregam em seu cerne as possibilidades e necessidades específicas das mídias digitais e, por isso, enriquecer o campo por meio da oferta de novas bases teóricas” (BITTENCOURT, 2017, p. 146).

A defesa de Bittencourt (2017) refere-se aos pressupostos da teoria, como por exemplo: o pesquisador interage com a realidade e formata a teoria ao longo do tempo e processo; a teoria evoluiu durante o processo de pesquisa e é o resultado de contínua interpolação de dados e análise (GOULDING, 1998).

Trata-se de um processo indutivo dependente de coleta e análise de dados que acontece de forma sistemática e simultânea no exercício do questionamento sobre a predição e a explicação do comportamento dos objetos, da sua utilidade para o avanço da área da sociologia, aplicabilidade na prática, bem como manter uma perspectiva em comportamento. A teoria deveria conter categorias e hipóteses claramente desenvolvidas a fim de serem verificadas em estudos futuros (GLASER; STRAUSS, 1967 apud GOULDING, 2001).

Figura 5 – Fluxograma da Grounded Theory.

Fonte: Elaborado por Prigol; Behren com base em Charmaz (2009), 2019.

Assim como outras formas de pesquisa qualitativa (a etnografia e a fenomenologia, por exemplo), a Grounded Theory utiliza-se de qualquer tipo de informação, originada de inúmeras fontes (entrevista, observação, materiais escritos e relações envolvendo todas essas fontes). Ela é recomendada para situações em que pouco é conhecido e/ou não há referência sobre aquele assunto, principalmente, não se deve interpretar o objetivo do desenvolvimento de uma teoria com a ideia de

que não se considera a teoria, “um pesquisador traz consigo conhecimento de teorias e outros trabalhos empíricos e durante o processo de trabalho pode-se recorrer a fundamentos teóricos para auxiliar o tratamento dos dados” (BIANCHI; IKEDA, 2008, p. 237).

A seguir, são apresentados a evolução do processo de coleta de dados para a constituição do corpus a partir das etapas propostas pela metodologia.