Este subcapítulo destina-se à descrição da contextualização social e cultural a partir da qual surge a modalidade EAD ao longo dos anos, desde o final do século XX até os dias de hoje. Faz-se importante tal descrição, uma vez que a EAD é resultado das transformações ocorridas no contexto que será apresentado.
É inegável que a sociedade vem passando por várias mudanças desde o final do século XX, sobretudo no que se refere à maneira que se opera o relacionamento humano e também no que diz respeito à forma de pensar dos sujeitos, sendo essas desencadeadas, principalmente, a partir de alguns movimentos sociais e culturais, bem como ao advento das tecnologias digitais e da internet. Essas mudanças ocorrem de forma gradativa, ao passo que, a cada momento, novos recursos tecnológicos inserem-se em nosso meio social, de modo a impactar (positiva e/ou negativamente) a sociedade, que se vê diante da imersão de um novo paradigma social: a
“Era da Sociedade da Informação”, conceituada e discutida por vários autores, dentre eles, Castells (1999) e Lévy (1999).
A escolha dos referidos autores se deu pelo fato de ambos considerarem em suas análises os elementos históricos e sociais. Uma vez que o presente trabalho utiliza essa perspectiva, a escolha se faz também pela coerência.
Castells, importante estudioso da reconfiguração da sociedade a partir do uso das TIC, o seu interesse fundamental é mostrar o impacto das TIC na sociedade, nos níveis econômicos e as novas formas de se relacionar da sociedade. Para o referido autor, as TIC proporcionaram o surgimento do “informacionalismo” que possibilita a formação de novas redes e uma nova organização da atividade humana. A partir disto, a geração de riqueza, o poder e a cultura irá depender das TIC que se torna peça fundamental na reestruturação econômica, dando margem à economia globalizada (Castells, 1999).
Castells (1999) relata que os movimentos sociais, bem como as transformações de ordem econômica, envolvendo o capitalismo, ocorridos no final do século XX, mesmo sendo aspectos independentes, interagiram de tal forma com a revolução da tecnologia que culminaram numa estrutura social dominante, designada de “Sociedade em Rede”. A interação de tais aspectos também provocou mudanças a nível econômico e cultural, de modo a formar uma nova economia informacional e globalizada, bem como uma cultura da virtualidade real, cuja lógica da interação desses aspectos nos leva a um mundo global interdependente.
Portanto, a revolução da tecnologia resultou no que Castells (1999) denomina de
“informacionalismo”, termo sobre o qual afirma que a economia, as relações e os aspectos culturais de uma sociedade dependem da capacidade que os indivíduos têm de interagir com as tecnologias. Segundo esta perspectiva, o mundo emerge a partir de como as pessoas têm se relacionado com as tecnologias da informação e como estas servem às pessoas.
Castells (1999) afirma que a informação tem um papel importante na sociedade, não obstante deva-se considerar que esta pode exercer um poder de influência nas pessoas. Uma vez que a pessoa tem acesso à informação, isso não assegura que esta tenha conhecimento do assunto apresentado, pois o autor nos alerta para a diferença entre informação e conhecimento.
Informação é aquilo que nos é apresentado pronto, finalizado, em contrapartida, o conhecimento é aquilo que o sujeito elabora a partir dos elementos que lhes são apresentados.
Neste caso, o sujeito deve refletir sobre o que lhe é apresentado, pois, ao contrário, ao estar de posse apenas da informação, ele não precisará, necessariamente, elaborar os elementos apresentados, ficando mais propício a ser influenciado pelo poder da informação.
No final do século XX, a internet torna-se base da tecnologia da informação e passa a ser essencial para que essa sociedade se organize, resultando na SI. Castells (2003) ressalta que o fato de as pessoas terem mais acesso à informação está relacionado à propagação da internet.
Em suma, Castells (1999) descreve uma sociedade que surge a partir do uso das TIC e o uso dessas tecnologias só é possível pela existência da internet, que possibilita a interação (virtual) das pessoas com a informação e com a produção do conhecimento. A sociedade em rede é, portanto, alicerçada na internet, a qual proporciona uma interconexão no ambiente virtual comunicacional, podendo tanto libertar os poderosos que possuem acesso à informação, quanto oprimir os desinformados, excluindo-os dessa nova sociedade.
Outro autor importante para compreensão dessa nova sociedade da informação é Lévy.
Lévy (1999), assim como Castells (1999), preocupa-se em compreender os novos elementos que surgem a partir do uso das TIC na sociedade, para o que cria novos conceitos a fim de tentar explicá-los: Inteligência Coletiva, Ciberespaço, Cibercultura.
Lévy (1999) destaca os aspectos culturais e sociais dessas transformações e enuncia que novas formas de organização estão se formando a partir do advento das TIC. Em consequência dessa nova organização, todo o contexto foi reestruturado e a forma como as pessoas se relacionam é modificada paulatinamente. Essa nova reestruturação social e cultural irá resultar no que o autor denomina de ciberespaço e cibercultura:
Ciberespaço é o novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores. O termo especifica não apenas a infraestrutura material da comunicação digital, mas também o universo oceânico de informações que ela abriga, assim como os seres que navegam e alimentam esse universo [...] Cibercultura especifica aqui o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do Ciberespaço (LÉVY, 1999, p. 17)
Sendo assim, temos um novo espaço social, que é virtual e que dispõe uma comunicação mediada pelo uso das TIC, e que, consequentemente, constrói novos hábitos, novas práticas sociais, e estabelece uma nova cultura. Esse novo espaço proporciona a formação da inteligência coletiva. Lévy (2007) refere-se à inteligência coletiva como aquela formada por várias inteligências individuais, que são compartilhadas dentro do ciberespaço. A partir disto, compreendemos que as pessoas constroem uma aprendizagem colaborativa, em que todos podem contribuir de alguma forma, isto é, “[...] a base e o objetivo da inteligência coletiva são o reconhecimento e o enriquecimento mútuo das pessoas, e não o culto de comunidades fetichizadas ou hipostasiadas. ” (LÉVY, 2007, p. 29).
Para que essas transformações na sociedade ocorram de forma assertiva, auspiciosa e numa perspectiva mais humanista, Lévy (1999, p.11) propõe que exploremos “as potencialidades mais positivas deste espaço nos planos econômicos, político, cultural e humano”, de modo a reconhecer as mudanças qualitativas que as TIC são capazes de oferecer.
Importa compreender também que as tecnologias, ou a técnica, podem ser usadas tanto a favor das transformações que ocorrem numa sociedade, como mencionada anteriormente, como num sentido contrário, inviabilizando avanços e mudanças qualitativas:
Uma técnica não é nem boa, nem má (isto depende do contexto, dos usos, dos pontos de vista) tampouco neutra (já que é condicionante ou restritiva, já que de um lado abre e de outro fecha o espectro de possibilidades). Não se trata de avaliar seus impactos, mas de situar as irreversibilidades, as quais um dos seus usos nos levaria, de formular os projetos que explorariam as virtualidades que ela transporta e de decidir que o fazer dela (LÉVY, 1999, p. 26).
As técnicas são produzidas a partir de determinado espaço social e cultural e servirão como meio de interlocução entre sociedade e mundo. Assim, temos uma técnica que é produzida dentro de uma dada cultura e, consequentemente, uma sociedade condicionada por suas técnicas. Do mesmo modo, para Lévy (1999, p. 25), “dizer que a técnica condiciona significa dizer que abre algumas possibilidades, que algumas opções culturais ou sociais não poderiam ser pensadas a sério sem sua presença”.
Corroborando essas ideias, Kenski (2008, p. 15) ainda considera que “as tecnologias são tão antigas quanto a espécie humana”, que se encontra em constante movimento de inovação à
medida que a humanidade evolui. Assim, resta-nos acompanhar essas evoluções e nos adaptarmos a elas, fato este que, segundo afirma Lyotard (1988, 1993 apud KENSKI, 2008), é um dos maiores desafios da espécie humana, nos diferentes ambientes sociais, principalmente na Educação.
Segundo Lévy (1999), os debates que envolvem a técnica devem ocorrer a partir de um olhar filosófico e político. Filosófico, pois é preciso debater a natureza dos problemas colocados à coletividade humana, e político, pensando em um debate coletivo sobre o tema, de forma que os fatos das transformações atuais que envolvem as técnicas não sejam tomados como cristalizados ou predestinados.
A tecnologia é definida por Kenski (2008, p. 24) como “o conjunto de conhecimentos e princípios científicos que se aplicam ao planejamento, à construção e à utilização de um equipamento em um determinado tipo de atividade”. E a habilidade necessária para desenvolver diferentes tecnologias, ou seja, como manejar as tecnologias, é chamado de técnica.
Kenski (2008) afirma que a tecnologia, e consequentemente, a técnica,24 sempre foram usadas pela sociedade e é através delas que o sujeito percebe e conhece o mundo que está inserido. Segundo Castells (2003, p. 43), “a tecnologia é a sociedade e a sociedade não pode ser entendida ou representada sem suas ferramentas tecnológicas”. Portanto, é por meio da tecnologia que ocorrem as transformações da sociedade. Desta forma, importa estarmos atentos às tecnologias e às diferentes formas e usos que delas fazemos, apropriando-nos destas na medida em que elas se transformam, mudando o mundo.
Posto isto, é possível compreendermos, a partir destas considerações, como chegamos à configuração da sociedade atual, que passou e passa por transformações ao sofrer influência direta das tecnologias/técnicas, condicionando-se em uma organização mais globalizada, tecnológica e informatizada. A globalização, deste modo, pode ser vista conforme Ianni (1998, p. 1), “como um processo histórico-social” que acarreta muitas transformações, atingindo vários setores, como o econômico e o político. O foco deste trabalho, entretanto, está no setor da Educação.
Segundo, Vigotsky (1991) a educação tem um papel essencial nessa sociedade, sendo um caminho fundamental para que as transformações ocorram, pois é por meio dela que o indivíduo adquire conhecimento, compreende o mundo que vive e se relaciona com o seu meio social.
24 A partir do conceito de Kenski (2008) sobre tecnologias e técnicas, entende-se que uma não existe sem a outra, e, se a sociedade sempre viveu mediada pelas tecnologias/técnicas, não existirá sociedade sem estas.
Diante deste novo contexto de mudanças sociais e culturais condicionadas pelo uso das TIC, irão surgir outras formas de ensino e aprendizagem, mais condizentes com essa sociedade que é mediada por essas TIC. Moran, Masetto e Behrens (2004) afirmam que as formas convencionais e tradicionais25 de ensinar ficaram ultrapassadas e necessitaram de mudanças no modo de ensino, as quais estejam em conformidade com essa nova sociedade. Neste sentido, é preciso ter uma educação que construa o conhecimento na sociedade da informação, com novas concepções de aprendizagem, como a colaborativa, atentando-se constantemente para o papel do professor, das novas tecnologias, de forma a objetivar a aprendizagem dos alunos e não apenas a transmissão de informações.
É desejável que, a partir dessa configuração atual da sociedade, pautada num desenvolvimento tecnológico e econômico, emerjam novos paradigmas educacionais. Esse novo cenário social e cultural exige, portanto, o surgimento de outras culturas de ensino e aprendizagem, mais condizentes com essa sociedade da informação. A modalidade de EAD é um exemplo dessas transformações na educação, considerada, por vários teóricos, a saber:
Belloni (2011), Moran (2002) e Tori (2010), como estratégica, para proporcionar aos alunos novos recursos e meios que visam construir um novo formato de ensino e aprendizagem, dentro destes novos formatos, podemos citar a aprendizagem colaborativa26.
De acordo com a LDB 9.394/96, a educação está dividida em níveis (Educação Básica e Ensino Superior) e modalidades (Especial, Profissional, EJA e a EAD) para cada modalidade há características específicas. A modalidade EAD, conforme disposto no Decreto 5.622 de 19 de dezembro de 2005, é caracterizada como uma modalidade educacional na qual a relação professor e aluno é mediada pelas TIC, o que possibilita que estes estejam em tempo e lugares diferentes (BRASIL, 1996).
A modalidade EAD tem sido intensamente investigada, devido ao seu potencial para o processo de ensino e aprendizagem, no sentido em que aquela visa suprir algumas lacunas da modalidade presencial, como, por exemplo, a dificuldade de acesso à educação, sua democratização, ou seja, mais pessoas terão a possibilidade de estudar, independentemente de sua localização, entre outras. Apesar de estar presente na Educação desde o século XIX, por meio do uso de correspondências, seguidas pelo uso do rádio e televisão, seu avanço
25 Conforme Freire (2005), o modelo tradicional de ensino é baseado na repetição e reprodução do conhecimento, resultando no que ele denomina de “educação bancária”, em que o aluno se torna um mero depósito de conhecimentos transmitidos pelo professor.
26 Iremos discutir sobre aprendizagem colaborativa no capítulo 2.
significativo no Brasil ocorreu a partir dos anos 2000, com os avanços nos campos das TIC, o advento dos computadores e da internet.
A modalidade EAD tem se expandido e acompanhado as novas exigências do mundo tecnológico e globalizado no Brasil, principalmente nos últimos sete anos, ou seja, a partir de 2009, pois, nesse período, o avanço da modalidade tem se tornado mais expressivo, conforme consta na pesquisa realizada pela ABED, CENSO EAD.BR de 2009 a 2013, nesse período o número de alunos matriculados aumentou sete vezes27. Contudo, nessas mesmas pesquisas e nas informações obtidas do CIAR, podemos notar que esse avanço ocorre com disparidades.
Apresentaremos na sequência esses avanços da modalidade EAD no contexto brasileiro através da descrição histórica, bem como dos marcos legais que se efetuaram ao longo dessa história. Ao final, buscamos elementos necessários para se construir a configuração atual, no ano de 2016, da modalidade no país, principalmente em Goiás, destacando-se, especialmente, as disparidades existentes entre este Estado e os demais estados brasileiros.