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defesa social. Ao adotar-se a política de penas alternativas à privativa de liberdade, como corolário de um direito penal mínimo e garantista, que pretende evitar a “dessocialização”

do condenado, não se pode deixar sem remédio a hipótese do condenado que, beneficiado pela conversão, vier, posteriormente, demonstrar eventual incompatibilidade com a pena substituída, com graves prejuízos à defesa social e aos fins da pena.

Assim, duas são as hipóteses de conversão. A primeira reside na ocorrência de condenação por outro crime113, sem aplicação do sursis. In casu, caberá ao magistrado decretar a reversão para que o apenado cumpra a pena privativa de liberdade também originariamente aplicada.

Outro fator que pode gerar a reversão é o descumprimento injustificado da pena restritiva de direitos nas condições estabelecidas na sentença. A LEP dispõe, em seu art. 181, §§1º, 2º e 3ª, os casos de conversão cabíveis para as penas referentes a prestação de serviços comunitários, limitação de fim de semana e interdição temporária de direitos.

Na prestação de serviços comunitários, ocorrerá a conversão quando o condenado encontrar-se em local incerto e não sabido, verificada a citação por edital; não comparecer sem motivo aparente à entidade ou programa em que deva prestar serviço; recusar-se, injustificadamente, a prestar a ocupação preposta; perpetrar falta grave, e, por fim, sofrer condenação à pena privativa de liberdade, com execução não suspensa. Tal condenação não deve ser confundida com a previsão do

113 Válido observar que a posterior condenação por contravenção penal não provoca a conversão.

§3º do art. 44 do Código Penal, pois a determinação de recato à prisão impede a aplicação cumulativa de penas restritivas de direitos ocorridas em processos distintos.

Restará razão para conversão quanto a de limitação de fim de semana quando o executado não comparecer ao estabelecimento designado para cumprir a reprimenda; recusar-se a exercer a atividade decidida pelo juiz; estiver em local incerto e não sabido, verificada a citação por edital ou praticar falta grave.

Por fim, a de interdição temporária de direitos sofrerá reversão quando o apenado exercer, sem justificativa, o direito interditado;

quando estiver o condenado em lugar incerto e não sabido; ou, ainda, sofrer condenação por outro crime à pena privativa de liberdade não suspensa.

A conversão dar-se-á pelo tempo da pena privativa de liberdade substituída – caso não tenha sido efetivamente iniciado o cumprimento da pena restritiva de direitos –, ou o tempo ainda por cumprir – pela aplicação do princípio da detração penal114, com o aproveitamento do tempo em que a pena foi atendida, conforme dispõe o art. 44, §4º, 2ª parte, do Código Penal115.

Após conceituar e conhecer das modalidades de penas alternativas no direito penal brasileiro, passe-se, conseqüentemente, ao enfoque fundamental deste trabalho, quer seja a argüição e cerceamento

114 Instituto de direito penal que abate o tempo de segregação provisória cumprida pelo condenado, tendo como fundamento o artigo 42 do Código Penal, que enuncia que se computam, na pena privativa de liberdade e na medida de segurança, o tempo de prisão provisória, no Brasil ou no estrangeiro, o de prisão administrativa e o de internação em qualquer dos estabelecimentos referidos no artigo 41 do Código Penal.

115 CP: “Art. 44, §4º, 2ª parte: No cálculo da pena privativa de liberdade a executar será deduzido o tempo cumprido da pena restritiva de direitos, respeitado o mínimo de 30 (trinta) dias de detenção ou de reclusão.

das teses quanto à promoção da reinserção do apenado na coletividade.

SISTEMA PRISIONAL, EFETIVIDADE DAS PENAS ALTERNATIVAS E A NECESSIDADE DE PROMOÇÃO DA REINSERÇÃO DO APENADO

O homem não é bom ou mau.

É apenas homem.

Shakespeare

3.1 O FRACASSO DO SISTEMA PENAL

A precariedade no sistema prisional brasileiro, que, segundo FARIAS JÚNIOR116, compreende xadrezes de delegacias, presídios, casas de detenção, penitenciárias e manicômios judiciários, deve-se à ineficiência da aplicação de verbas, à deficiência na organização e utópica tentativa de planejamento carcerário, o qual resulta em falta de qualidade operacional, além de estruturas prisionais defasadas e a precariedade em desassociar dos condenados as características criminógenas inerente aos mesmos. Aliam-se a estes fatores os problemas de base, como o desemprego e a banalização da educação básica.

BITENCOURT117 elenca as carências no sistema penal:

[...] 1º – Falta de orçamento. Infelizmente, nos orçamentos públicos, o financiamento do sistema penitenciário não é considerado necessidade prioritária, salvo quando acabam de ocorrer graves motins carcerários. 2º – Pessoal técnico despreparado. Em muitos países a situação se agrava porque o pessoal não tem garantia de emprego ou não tem carreira organizada, predominando a improvisação e o impirismo.

Nessas condições é impossível a ociosidade e não há um programa de tratamento que permita pensar na possibilidade de o interno ser efetivamente ressocializado.

116 FARIAS Júnior, João. Manual de Criminologia. Curitiba: Juruá, 1993, p. 195.

117 BITENCOURT, Cezar Roberto. Falência da Pena de Prisão: causas e alternativas. São Paulo:

Saraiva, 2001, p. 231.

Ainda, OLIVEIRA118 ressalta que:

Aos problemas preexistentes à experiência carcerária, outros tantos vão se aglomerando, fazendo com que o condenado pouco a pouco vá se embrutecendo, se pervertendo, se insensibilizando. O seu sentimento está dominado pela idéia fixa de que as autoridades não se preocupam com ele. O condenado se julga um marginalizado social. Por não ter meio de exigir um tratamento adequado, o preso se sente inseguro e envolvido pela subcultura da marginalização. A síndrome carcerária, a desanimação, a revolta, os motins e as tentativas de fugas são decorrentes da impossibilidade de se tornarem exeqüíveis as condenações às penas privativas de liberdade e às medidas de segurança detentivas, sob a égide da legalidade e da humanidade. O preso tem consciência de que se sua condição social fosse outra, certamente não estaria na prisão como normalmente não estão os mais prósperos.

O modelo de sistema penitenciário encontra-se absurdamente além dos ideais prescritos pela Lei. O problema da prisão é a própria prisão, o confinamento físico, cultural e psíquico que proporciona, o qual gera um alto custo social.

O panorama carcerário brasileiro é relatado por MUAKAD119:

[...] Como pretender melhorar ou sanar os problemas penitenciários, e especialmente os carcerários, se a progressividade no cumprimento da pena é desprezada, não respeitada na prática penológica, apesar de escrita em Lei?

Segundo pesquisas realizadas, verifica-se que não é propriamente a pena privativa de liberdade que terá falido, mas a forma como é executada, sua previsão exagerada. Os resultados dessa atitude são, entre outros, a superlotação carcerária, o enfraquecimento da autoridade penitenciária e por fim, a não traz em sua linha de pensamento, o caráter de preocupação com a reabilitação social do detento, influenciando no futuro comportamento deste cidadão no

118 OLIVEIRA, Edmundo. O Futuro Alternativo das Prisões. Rio de Janeiro: Forense, 2002, p. 92.

119 MUAKAD, Irene Batista. Pena Privativa de Liberdade. São Paulo: Atlas, 1998, p. 192.

momento de seu retorno ao convívio em sociedade.

LEAL120 diz que:

Não possuímos um sistema penitenciário, o que temos é uma situação penitenciária, constituída de estabelecimentos prisionais em situação precária para utilização humana, concluindo que: temos uma verdadeira ruína prisional, em cujos escombros vivem, ou melhor, vegetam, mais de cento e trinta mil presos [...].

Assim, a prisão é a mais clara demonstração de um sistema opressivo e díspar, o qual inegavelmente acaba por reforçar valores negativos no indivíduo, proporcionando uma falsa sensação de proteção e ilusória esperança de reinserção. HERKENHOFF121 preleciona que a finalidade da pena como meio de reinserção é inviável:

A ruptura de laços familiares e outros vínculos humanos, a convivência promíscua anormal da prisão, o homossexualismo não escolhido, mas forçado, são fatores que em nada ajudam a integração do ser (...).

A institucionalização do cárcere não reflete o fim da reinserção, por vez que somente afasta o infrator do seio da sociedade, repelindo qualquer tentativa de reinserção deste no convívio social122.

3.1.1 Sistema prisional como fator criminológico

Resta claro, até então, que a criminalidade é uma característica inerente à sociedade, ao convívio social, e que tal

120 LEAL, João José. Curso de Direito Penal. Porto Alegre: Sérgio A. Fabris Editor, 1991, p. 68.

121 HERKENHOFF, João Baptista. Crime: tratamento sem prisão. Proto Alegre: Livraria do Advogado, 1995, p. 35.

122 FRAGOSO, Heleno Cláudio. Direitos dos Presos: os problemas de um mundo sem lei. In FRAGOSO, Heleno; CATALÃO, Yolanda; SUSSEKIND, Elisabeth. Direitos dos Presos. Rio de Janeiro: Forense, 1980, p. 16.

característica só se adquire (ou se torna mais presente no indivíduo) em razão do atraso das instituições carcerárias. Conforme dados coletados123, em 2002, o sistema penitenciário, o qual comportava a carga máxima de 182 mil vagas, tinha sob sua responsabilidade o número de 240 mil presos, ou seja, 58 mil presos a mais do que o sistema admite. Já em 2007, esse déficit já estava em 157 mil presos (437 mil para 262 mil vagas). Tanto que, presentemente, 13% dos detentos que já foram julgados estão cumprindo pena em delegacias.

MACHADO124 configura a pena de prisão como mecanismo propício à criminalidade, pois possibilita ao apenado toda gama de vícios e degradações. E DOTTI125 corrobora: “a decadência da instituição carcerária é somente a ponta do iceberg a mostrar a superfície da crise geral do sistema, para o qual convergem muitos outros fatores”.

Tais fatores podem ser diagnosticados como fatores materiais, psicológicos e sociais126.

Os fatores sociais podem ser visivelmente apontados como o descaso e a rejeição da sociedade no que tange a reinserção do apenado, este que, depois de sair do encarceramento, é obrigado a conviver com o estigma de ex-presidiário. SÁ127 invoca o relato de uma ex- presidiária:

123 SOUZA, Fátima, VERSIGANASSI, Alexandre. A Cadeia como você nunca viu. Super Interessante, edição 250, p. 54-65. Março 2008.

124 MACHADO, Luiz Alberto. A Execução das Penas em Espécies: penas privativas de liberdade. Revista Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná, a. 29, n. 29, p.

111-119, 1996, p. 116/117.

125 DOTTI, René Ariel. Bases e Alternativas para o Sistema de Penas. 2 ed. São Paulo: RT, 1998, p. 117.

126 BITENCOURT, Cezar Roberto. Falência da Pena de Prisão: causas e alternativas. São Paulo:

Saraiva, 2004, p. 158.

127 SÁ, Geraldo Ribeiro de. A Prisão dos Excluídos: origens e reflexões sobre a pena privativa de liberdade. Rio de Janeiro: Diadorim Editora, 1996, p. 180.

Se por um lado alguns visualizam no desprezo do presente o abandono do futuro, outros prisioneiros vislumbram a liberdade futura de maneira mais objetiva e cruel, sobretudo em relação à possibilidade de trabalhar.

O Estado não é o único culpado por tal disparidade. A participação social é indispensável na conscientização de que somente a repreensão será capaz de conter a práticas de novos crimes. Salienta BENJAMIM128:

É necessário criar uma poderosa esfera pública não estatal, de múltiplas faces, visando, sobretudo, a elevação cultural da população, o controle público sobre os meios de comunicação em massa, ou seja, nenhum fortalecimento do Estado é positivo se, em paralelo, não forem ainda mais fortalecidos os mecanismos de controle da sociedade sobre o próprio Estado, sem o que ele tenderá a maior burocratização, maior corrupção, maior arrogância e maior propensão a errar.

Não obstante, o fator psicológico surge com as ações delitivas dentro dos presídios. Um exemplo é o mercado imobiliário interno de vagas129, na qual, em um pequeno espaço da cela menos abarrotada custa entre cem e duzentos reais. Há, ainda, a extorsão em favor de abusos sexuais130 e agressões físicas, quando não há o risco de morte dentro das celas:

Valdinete, mãe de um preso de 24 anos que está há dois num presídio em Presidente Bernardes, interior de São Paulo, conhece bem essa tensão. Não fazia nem uma semana que ele estava na cadeia e tocou o telefone. ‘Meu filho disse que, se eu não depositasse R$ 10 mil numa conta, abusariam dele, diz. Depois de um tempo de conversa ficou acertado por R$ 3 mil, que eu tive de pedir emprestado. Não me arrependo: ele teria se matado se tivesse acontecido’.

128 BENJAMIM, César et al. A opção brasileira. Rio de Janeiro: Contraponto, 1998, p. 173.

129 SOUZA, Fátima, VERSIGANASSI, Alexandre. A Cadeia como você nunca viu. Super Interessante, edição 250, p. 54-65. Março 2008.

130 SOUZA, Fátima, VERSIGANASSI, Alexandre. A Cadeia como você nunca viu. Super Interessante, edição 250, p. 54-65. Março 2008.

E, por fim, os fatores materiais. Bitencourt131 afirma que tais fatores são as deficiências nas condições em que os apenados são submetidos, como precariedade na alimentação, superlotação e ociosidade (falta de lazer e atividades laborais). Farias Júnior132 elenca diversas condições: ociosidade, irrisória remuneração, superlotação, promiscuidade, grupo de dominadores e dominados, tóxico, bebidas alcoólicas e jogos de azar, motins, fugas, corrupção e o regime totalitário, entre inúmeras outras.

HERKENHOFF133 finaliza:

A prisão é uma universidade do crime. O sujeito entra porque cometeu um pequeno furto e sai fazendo assalto à mão armada (...). Uma pesquisa realizada em São Paulo concluiu que dois terços dos presidiários reincidiram no crime, porque a prisão os corrompe (...).

O sistema penitenciário brasileiro não vislumbra planejamento para fins de mudança e, acaso o faça, serão soluções para longo prazo. CARVALHO134 critica: “não há quem aponte, hoje, aspectos positivos do cárcere relacionados com o desenvolvimento humano. A prisão existe por ser necessária, porque ainda não se encontrou o que pôr em seu lugar”.

Porquanto o direito penal exercer papel adstrito na prevenção da criminalidade, deve-se sempre dar primazia à elaboração, o planejamento de um programa com ampla projeção no plano político e econômico do País, a fim de outorgar ao Estado a função de mantenedor e

131 BITENCOURT, Cezar Roberto. Falência da Pena de Prisão: causas e alternativas. São Paulo:

Saraiva, 2004, p. 158-159.

132 FARIAS Júnior, João. Manual de Criminologia. Curitiba: Juruá, 1993, p. 195-200.

133 HERKENHOFF, João Baptista. Crime: tratamento sem prisão. Proto Alegre: Livraria do Advogado, 1995, p. 128.

134 CARVALHO FILHO, Luis Francisco. A Prisão. São Paulo: PubliFolha, 2002, p. 68.

fiscal da ordem jurídica.

3.1.2 Busca por medidas alternativas à pena de prisão

Após obter-se clara idéia da situação do sistema prisional, a busca de alternativas para a pena privativa de liberdade enseja um reexame dos critérios de criminalização para limitar a solução punitiva à tutela dos bens jurídicos inerentes à pessoa e à sociedade.

Longe da figura do regresso do condenado à sociedade, encontra-se a figura da corrupção e profissionalização para o crime.

BITENCOURT135 alerta:

Há também direta relação entre as condições em que se desenvolve a pena privativa de liberdade e a maior ou menor influência do sistema social do recluso. Quanto mais o apenado for privado das vantagens da vida em liberdade, tanto maior será o efeito do sistema social carcerário.

Assim, quanto maior a privação, menor a possibilidade de reinserção do condenado na sociedade. Esse estigma que a prisão proporciona no indivíduo pode vir a ser uma característica vitalícia na vida do condenado. CARVALHO136 sintetiza que “quanto mais tempo atrás das grades, distante da dinâmica do mundo real, mais profunda a desadaptação e mais previsível o retorno a criminalidade.”

A procura por penas alternativas ancora como a basilar moção a fim de prevenir o torno do condenado à segregação. As alternativas à pena de prisão surgem para aplicação de uma punição justa

135 BITENCOURT, Cezar Roberto. Falência da Pena de Prisão: causas e alternativas. São Paulo:

Saraiva, 2004, p. 171.

136 CARVALHO FILHO, Luis. A Prisão. São Paulo: PubliFolha, 2002, p. 71.

e eficaz, vez que a segregação parece ser um caminho que não alcança os fins da pena. BATISTA137 esclarece que “o fracasso da pena privativa de liberdade influenciou concretas propostas de política criminal”. As penas alternativas devem sempre preponderar sobre as privativas de liberdade;

estas devem ser utilizadas como uma última circunstância, visando a mais certa possibilidade de reinserção, evitando-se o regresso dos condenados ao sistema penitenciário.

BECCARIA138 afirmava:

O fim, pois não é outro que impedir o réu de causar novos danos a seus cidadãos e afastar os demais do cometimento de outros iguais. Conseqüentemente, devem ser escolhidas aquelas penas e aquele método de impô-las que, respeitada a proporção, causem uma impressão mais eficaz e mais durável sobre o ânimo dos homens e que seja a menos dolorosa para o corpo do réu.

A opção pela medida alternativa comporta a chance do condenado adquirir uma atividade laboral, assim como ocasiões de lazer, em contato com a sociedade e sua família, mantendo-o afastado da tênue linha que separa a marginalidade das condutas normas da cidadania139.

Ainda cumprindo a pena alternativa de liberdade, não resta ao condenado o estigma de ex-condenado, ex-presidiário, fato que comporta menos trauma ao condenado quanto à sua reinserção na sociedade140.

137 BATISTA, Nilo. Introdução e Crítica ao Direito Penal Brasileiro. 5 ed. Rio de Janeiro: Revan, 2001, p. 34.

138 BECCARIA, Cesare. Dos Delitos e das Penas. Tradução de Martin Claret. São Paulo, 1978.

p. 108.

139 SÁ, Matilde Maria Gonçalves. O Egresso do Sistema Prisional no Brasil. São Paulo:

Paulistana Jur, 2004, p. 33-35.

140 OLIVEIRA, Odete Maria de. Prisão: um paradoxo social. 3 ed. Florianópolis: Editora da

É de HULSMAN141 a seguinte afirmativa:

Em inúmeros casos, a experiência do processo e do encarceramento produz nos condenados um estigma que pode se tornar profundo. Há estudos científicos, sérios e reiterados, mostrando que as definições legais e a rejeição social por elas produzida podem determinar a percepção do eu como realmente ‘desviante’ e, assim, levar algumas pessoas a viver conforme esta imagem, marginalmente.

As penas alternativas pretendem ser instrumentos de renovação ao sistema penitenciário, pois muitas são as conseqüências negativas imbuídas ao encarceramento. Renovar os propósitos da pena, alternar a punição pela reintegração e reinserção no seio da sociedade formam o conjunto de princípios reabilitadores, que visa angariar recursos que possam amenizar o caos que vive o sistema penitenciário no País.

3.2 EFETIVIDADE DAS PENAS ALTERNATIVAS

Segundo GOMES142, a lei tem, dentre outros, os seguintes propósitos:

1) Diminuir a superlotação dos presídios, sem perder de vista a eficácia preventiva geral e especial da pena;

2) Reduzir os custos do sistema penitenciário;

3) Favorecer a ressocialização do autor do fato pelas vias alternativas, evitando-se o pernicioso contato carcerário, bem como a decorrente estigmatização;

UFSC, 2003, p. 63.

141 HULSMAN, Louk; CELIS, Jacqueline Bernat de. Penas Perdidas – O Sistema Penal em Questão. Niterói: Luam, 1997, p. 69.

142 GOMES, Luiz Flávio. Penas e Medidas Alternativas à Prisão. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1999, p. 96.

4) Reduzir a reincidência;

5) Preservar, sempre que possível, os interesses da vítima.

Com efetividade, não é fácil sopesar os resultados das medidas e penas alternativas. O Presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes143, na abertura do IV Congresso Nacional de Execução de Penas e Medidas Alternativas, realizado em Manaus, acredita no reingresso seguro do condenado à sociedade. “A palavra-chave deve ser sempre recuperar, nunca alijar”, afirma.

Em relação a números:

De acordo com o Ministério da Justiça, somente 60% dos encarcerados cumprem integralmente a pena estabelecida - contra mais de 90% dos que receberam penas alternativas.

Além disso, mais de 80% das pessoas que estão nos presídios são reincidentes. Essa taxa baixa para menos de 10% em se tratando do sistema alternativo.144

Relatos de presidiários e ex-condenados coletados por ALMEIDA145, Promotora de Justiça em Recife, comprovam a eficácia parcial que se espera da aplicação das medidas e penas alternativas:

Acho ótimo cumprir pena alternativa. Se não fosse essa decisão e eu fosse preso, quando saísse eu ia me vingar. Fiz doações antes do prazo e doei mais outras coisas. Acabaram os problemas com a vizinha (vítima). Voltamos a ser amigos. (E.

C. S. - Comerciante. Ameaça/Violação de domicílio).

143 País discute eficácia do cumprimento de penas alternativas. In: Ministério da Justiça, 2008. Disponível em <http://www.mj.gov.br>. Acesso em 10 out. 2008.

144 País discute eficácia do cumprimento de penas alternativas. In: Ministério da Justiça, 2008. Disponível em <http://www.mj.gov.br>. Acesso em 10 out. 2008.

145 ALMEIDA, Sueli Gonçalves de. O Papel do Ministério Público na Aplicação das Medidas e Penas Alternativas. In: Ministério da Justiça, 2003. Disponível em

<http://www.mj.gov.br>. Acesso em 30 set. 2008.

Cessaram as agressões. Ele saiu de casa e me deixou em paz.

Vivo com meus filhos. (Relato de uma vítima, ex-esposa, de um agressor doméstico).

Se pudesse ficava lá empregado. Fiz amigos. Fui convidado para um contrato de trabalho. Não aceitei porque ia ganhar menos, mas falei que se precisassem ia ajudar no que puder.

(F. C. R. Comerciário. Ameaça/Agressão doméstica).

Ademais, indivíduos condenados a sanções restritivas de direitos têm índice menor de reincidência, quando equiparados a criminosos punidos com penas privativas de liberdade146.

A principal meta das penas alternativas é tornar o sistema judicial menos repressivo e o regresso do condenado à sociedade uma ação menos traumática. O Código Penal deve ser revisto, a fim de promover a sua instrumentalidade como um objeto de mitigação da criminalidade.

3.3 QUESTÕES POLÊMICAS ACERCA DA APLICABILIDADE DAS PENAS ALTERNATIVAS

Uma das questões que cerceia a aplicabilidade das penas alternativas é no que tange à sistemática dos crimes hediondos ou a eles equiparados.

3.3.1 Aplicação do benefício para condenados por crimes hediondos ou a eles equiparados

Com a integração da Lei 9714/98, impossível não suscitar a controvérsia acerca da aplicabilidade ou não das medidas substitutivas

146 SOUZA, Marcus Valério Guimarães de. A importância das penas alternativas na recuperação do apenado. In: Jus Navigandi, 1999. Disponível em:

<http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=954>. Acesso em 30 out. 2008.

aos crimes definidos como hediondos e aos a eles equiparados, nos termos da na Lei n. 8.072/90. Tais tipos considerados como crimes hediondos têm pena mínima inferior a quatro anos. É o caso do crime de tortura e o do tráfico ilícito de entorpecentes ou drogas afins.

Duas diversas correntes doutrinárias foram formuladas, com argumentação e fundamentação convincentes, e, no Superior Tribunal de Justiça, igualmente, também foram formadas duas linhas de inteligência:

a primeira suscitada e aprovada pela 6ª Turma, defendendo que, preenchidas as condições, exaustivamente, relacionados no art. 44 do Código Penal, não há óbice que impeça a substituição da pena privativa de liberdade pela pena restritiva de direitos.

A doutrina contempla alguns posicionamentos favoráveis;

SHECAIRA147 defende taxativamente tal proposição:

Nem toda conduta descrita no art. 12 da Lei de Tóxicos há de ser considerada ‘hedionda’. É comum a ocorrência de prisões de jovens que cederam gratuitamente um pequeno cigarro de maconha para um amigo dele fazer uso, e que se vêem processados como se traficantes fossem – e não o são.

JESUS148 compartilha do mesmo entendimento, ao afirmar que

As penas alternativas não são absolutamente incompatíveis com os delitos previstos na Lei dos Crimes Hediondos (Lei 8072 de 25.07.1990). São admissíveis em alguns casos. Cremos que não se apresenta como obstáculo o disposto no art. 2º, §1º, da Lei 8072/90, que disciplinou os delitos hediondos e deu outras providências, segundo o qual a pena deve ser executada integralmente em regime fechado. De ver-se que as penas

147 SHECAIRA, Sérgio Salomão. Penas Restritivas de Direitos. São Paulo: RT, 1999, p. 224.

148 JESUS, Damásio E. de. Penas Alternativas: anotações à Lei 9714, de 25 de novembro de 1998. São Paulo: Saraiva, 1999, p. 95.

No documento MEDIDAS E PENAS ALTERNATIVAS - Univali (páginas 67-73)