junho de 2022, fossem registradas cerca de 33,1 milhões de pessoas em grave situação de insegurança alimentar e nutricional no Brasil.446 De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), os quadros alimentares e nutricionais brasileiros já vinham crescendo há cerca de 9 anos, mas a pandemia auxiliou a agravá-los ainda mais447. Este fato delineia o que será apresentado na seção a seguir, a relação entre a pandemia Covid-19 e o crescimento da segurança alimentar e nutricional.
como costuma ser o caso da produção de um texto científico, pode fazer com que os dados numéricos não produzam a repercussão que se deseja atingir. Por outro lado, a visualização destas mesmas informações em tabelas e gráficos é capaz de gerar um maior impacto no leitor, tendo em vista ser possível a comparação de todas elas em um curto intervalo de páginas.
No caso desta tese, a partir da experiência visual, torna-se mais fácil evidenciar que, antes mesmo da pandemia Covid-19, a insegurança alimentar já era uma matéria a ser combatida pela sociedade internacional. Embora a Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável já se mostrassem inquietos sobre a questão, ela ainda não parecia ter sido compreendida pela sociedade civil a ponto de assumir relevância global, mesmo que, desde aquela época, os dados quantitativos já alertassem sobre a situação, conforme visualização gráfica abaixo.
Gráfico 10 - Insegurança alimentar grave (2015-2021)
Fonte: Elaboração própria com base nos dados coletados ao longo da pesquisa
Como é possível verificar na tabela acima, entre os anos de 2015 e 2018, a insegurança alimentar em seu nível grave, também conhecido como fome, já se encontrava na marca de mais de 800 milhões de pessoas. Somente em 2019, 4 anos após a implementação da Agenda 2030 e no ano da confirmação do primeiro caso de Covid-19, a insegurança alimentar começou a apresentar uma redução. É bem verdade que, de 2020 para 2022, os números voltaram a crescer. Do mesmo modo, é verídica a informação de que a pandemia Covid-19 é uma das
principais causas desse crescimento. Contudo, é importante reafirmar que ela não se trata da única causa. Com base nisso, é necessário estar atento ao fato de que a estabilização da transmissão do vírus da Covid-19 não irá, por si só, reduzir a insegurança alimentar e nutricional em quaisquer dos seus níveis. Primeiro, porque, como dito anteriormente, o cenário pandêmico não se trata de causa exclusiva da fome. Além dela, eventos como conflitos armados e eventos climáticos também influenciaram no crescimento da insegurança alimentar. Depois, porque as consequências instauradas pela pandemia Covid-19 agravaram ainda mais as outras causas dessa situação.
Dentre os fatores que ocasionaram o aumento da insegurança alimentar nos anos durante a pandemia Covid-19, está a instabilidade socioeconômica representada por essa época. Por exemplo, o fechamento de diversas empresas e a consequente perda de empregos e o fechamento das fronteiras. Em ambas as situações, questões financeiras impactaram diretamente na dificuldade de acesso aos alimentos, quer seja pela redução da condição financeira, quer seja pelo aumento de seus preços. Nestas situações, é inegável que, além dos grupos de pessoas que já eram mais atingidos, novas famílias passam a integrar a régua da vulnerabilidade, tornando-se parte da sociedade que se encontra à sua margem.
Do mesmo modo, no panorama nacional, o aumento da insegurança alimentar seguiu a mesma regra mundial. Em termos metodológicos, não foi possível identificar os dados dos anos de 2016, 2017, 2018, 2019 e 2022. Além disso, as informações trazidas na maior parte do Capítulo 2 e deste Capítulo estão em formato de percentual, pois foi como foram apresentados nos relatórios domésticos. Conforme o gráfico abaixo, é possível visualizar que, entre os anos de 2015, 2020 e 2021, houve um aumento da insegurança alimentar, principalmente entre os anos de 2020 e 2021.
Gráfico 11 - Insegurança alimentar grave em percentual (2015, 2020, 2021)
Fonte: Elaboração própria com base nos dados coletados ao longo da pesquisa
Tendo em vista que o gráfico foi apresentado em formato percentual, entende-se essencial a apresentação do número absoluto no que diz respeito à população brasileira nos anos indicados no gráfico. No ano de 2015, era de 204,5 milhões de pessoas. Em 2020, 212,6 milhões. Por fim, em 2021, 214 milhões de pessoas. Neste sentido, a insegurança alimentar em seu nível grave representou cerca de 11,861 milhões de pessoas em 2015; 19,134 milhões de pessoas em 2020; e 33,17 milhões de pessoas em 2022.
Gráfico 12 - Insegurança alimentar em número absoluto (2015, 2020, 2021)
Fonte: Elaboração própria com base nos dados coletados ao longo da pesquisa
Assim como no cenário internacional, na perspectiva doméstica, o aumento da insegurança alimentar tem como base os eventos que aconteceram ao longo dos últimos anos.
Como já apontado anteriormente, entre os anos 2002 e 2014, foram adotadas políticas públicas favoráveis à população mais vulnerável. Estas medidas deram a oportunidade de desenvolvimento socioeconômico, trazendo consequências positivas em termos de educação, saúde e alimentação. No entanto, a partir de 2015, alterações políticas no cenário brasileiro levaram a uma mudança na aplicação destas políticas, o que impactou transversalmente na segurança alimentar. Portanto, assim como no panorama internacional, a pandemia Covid-19 foi um fator agravante, mas não o único responsável pelo crescimento tangencial da insegurança alimentar.
Mais uma vez, é importante observar que, como será tratado na próxima subseção, a insegurança alimentar e nutricional não é abstrata quando se trata das pessoas atingidas. Pelo contrário, seus casos mais graves são ilustrados por pessoas em situação de vulnerabilidade e que, em regra, vivem em regiões de instabilidade econômica, política e social. No cenário internacional, é possível observá-la com mais destaque nas regiões africanas e asiáticas. No contexto brasileiro, as regiões do norte e do nordeste sempre foram as mais afetadas.448 Em todas elas, pessoas em condição de vulnerabilidade, tais como os migrantes internacionais, sofrem com a inexistência de medidas efetivas para o combate da insegurança alimentar e nutricional.
4.3 NUDGE SOCIOALIMENTAR: RECONSTRUÇÃO DO DIREITO INTERNACIONAL