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2 CULTURA, REPRESENTAÇÃO E IDENTIDADE

Nas ciências humanas e sociais o conceito de cultura é definido como um conjunto de códigos e práticas sociais veiculados de geração em geração dentro de uma determinada sociedade por seus participantes. Toda atividade humana é uma prática social, nos interessa, portanto, nas subseções seguintes, as práticas construídas dentro de um contexto relacional entre indivíduos em que as relações de luta e poder se estabelecem.

Tendo em comum dos mesmos códigos culturais, esses sujeitos tendem também a sentir e refletir o mundo que os rodeia de maneira similar e possuem um papel importantíssimo na permuta de significados, pois sendo participantes da cultura são responsáveis a dar sentido a indivíduos, a objetos e aos acontecimentos.

A linguagem, com todos seus sistemas sígnicos (imagens, sinais sonoros, cores, códigos linguísticos e verbais), tornou-se fundamental para os sentidos e para a cultura e vem sendo considerada uma temática de grande relevância para se entender valores, costumes e significados que circulam numa determinada cultura. É através da linguagem que pensamentos, ideias e sentimentos são representados no ciclo cultural.

Conforme a abordagem construtivista, a representação é o processo pelo qual se constrói sentido às coisas (pessoas, objetos, acontecimentos, ideias abstratas, etc.) através da linguagem. A linguagem é construída através de signos, símbolos e significados.

O sinal de trânsito é um signo no trânsito, quando em funcionamento suas cores vermelho, amarelo e verde transmitem uma mensagem, que é interpretada como pare, atenção e siga em frente. Estes símbolos só serão interpretados pelo sujeito se este tiver o mínimo de noção das regras de trânsito. Esse sistema sígnico passa a ter um significado quando o sujeito que está envolvido no processo de assimilação os interpreta. Logo, para que as mensagens enviadas tenham sentido, os participantes daquela cultura precisam compartilhar dos mesmos códigos.

Um livro, por exemplo, está carregado de signos que o simbolizam, a textura, o cheiro, as cores, os códigos linguísticos ali presentes, todos esses códigos são linguagens que representam o objeto livro. Aberto e não mãos de um leitor o livro ganha significado quando lido. Esses códigos de linguagem associados passam para o leitor uma mensagem, que será interpretada a partir de seu contexto social, filosófico, religioso e cultural.

A comida posta à mesa está carregada de signos e símbolos, o aroma, o sabor, as combinações de produtos e de cores podem simbolizar ideia de nacionalidade, de identidade individual e coletiva, de lugar. A depender da maneira como está sendo preparado o feijão, por exemplo, feijão branco, feijoada, baião de dois, acarajé, pode- se identificar de que lugar se fala, qual a cultura daquele lugar e qual sentimento de pertencimento estão sendo levados em conta através da representação presente no prato servido.

É a linguagem que nos permite “falar das coisas do mundo (realia): mediante os signos verbais me aproprio do objeto do que falo e, ao mesmo tempo, recrio este objeto numa outra dimensão simbólica, humana, social e cultural” (REIS, 1992, p. 66).

No entanto, uma das grandes problemáticas apontadas pelos cientistas sociais entre a cultura e a linguagem está na veiculação desses sentidos quando manipulados por instâncias de poder.

As ideologias construídas para fim de dominação social são sustentadas por grupos hegemônicos preocupados em se manterem no poder e são veiculadas através do discurso. O discurso nada mais é que a linguagem propagada através da palavra seja ela escrita, falada ou expressada através de seus símbolos. Stuart Hall conceitua discurso como:

[...] maneiras de se referir a um determinado tópico da prática ou sobre ele construir conhecimento: um conjunto (ou constituição) de ideias, imagens e práticas que suscitam variedades no falar, formas de conhecimento e condutas relacionadas a um tema particular, atividade social ou lugar institucional na sociedade. (HALL, 2016, p. 26).

O discurso desempenha um papel amplo na cultura, pois é carregado de sentidos e subjetividades, regula comportamentos, idealiza e estabelece identidades.

Os discursos ou formações discursivas:

[...] definem o que é ou não adequado em nosso enunciado sobre um determinado tema, área de atividade social, bem como nossas práticas associadas a tal área ou tema. [...] definem ainda que tipo de conhecimento é considerado útil, relevante e “verdadeiro” em seu contexto; definem que gênero de indivíduos ou “sujeitos” personificam essas características. (HALL, 2016, p. 26).

Os discursos científicos, religiosos, acadêmicos são intercambiados por meio da linguagem e definem ideia de valor, de adequação, de pertencimento, institui

“verdades” e saberes. Por trás de muitos desses discursos podem se esconder relações de poder e, quando manipulados, podem criar sujeitos desprovidos de análise e pensamento crítico.

O discurso presente na propaganda, por exemplo, através de jogos linguísticos e imagéticos, cria para as pessoas desejos, ao ponto em que aquele objeto de desejo passa a objeto de consumo. Através de um marketing de vendas muitas vezes agressivo e massivo, a propaganda induz as pessoas ao consumo desfreado, segrega e delimita os espaços sociais entre quem tem poder aquisitivo e quem não o tem.

O jornalismo informativo, através dos jogos de palavras, cria para o telespectador conceitos carregados de ideologias dominantes, aparentemente inofensivas que, repetido tantas vezes em vários momentos do seu dia, o sujeito toma aquele conceito como seu sem um julgamento crítico. Assim como a roupa, através do discurso da moda, estabelece o conceito de “alta costura” e passa a ditar para as pessoas o que elas devem ou não vestirem, dando-lhes um estilo, um traço, uma forma.

Por sua vez, o discurso literário cria padrões de comportamentos para os sujeitos baseado em perfis idealizados pela cultura vigente e exclui indivíduos que não se encaixem nesses padrões.

Todas essas práticas discursivas articuladas pelas significações, tecidas no seio de uma cultura, através de grupos de poder, produz e constitui sujeitos e identidades através de suas regras e convenções. Numa cultura euro-falo-etno- cêntrica, geralmente essas práticas são regidas a partir de padrões elitistas, racistas, sexistas e heterocêntricos.