• Nenhum resultado encontrado

Da escravidão por localidade

2.2 FORMAÇÃO ATUAL DO TRABALHO ESCRAVO NO BRASIL

2.2.2 Da escravidão por localidade

A escravidão por localidade teve o início de sua existência com a chegada dos negros africanos trazidos pelos portugueses ao Brasil. Os negros desamparados, sofrendo todo o tipo de expiação e humilhação, estavam a longas distâncias de suas origens. Então, os cativos africanos não teriam outra solução, senão permanecer nessa dura realidade em que eles foram colocados. O escravo que conseguisse fugir de seu cativeiro teria poucas chances de tornar-se

261 SECCHIN, Cláudio. Como funcionam as ações de fiscalização. Consulex, Brasília, DF, ano VI, n. 142, p. 18, dez. 2002.

262 SENTO-SÉ, Jairo Lins de Albuquerque. Trabalho Escravo no Brasil. São Paulo: LTr, 2000, p. 49.

263 SENTO-SÉ, Jairo Lins de Albuquerque. Trabalho Escravo no Brasil. São Paulo: LTr, 2000, p. 51.

264 SECCHIN, Cláudio. Como funcionam as ações de fiscalização. Consulex, Brasília, DF, ano VI, n. 142, p. 18, dez. 2002.

por definitivo um liberto. O esquisito lugar ao qual eles estavam inseridos proporcionava uma maior facilidade de recaptura.

O trabalho escravo contemporâneo, despontado desde as primeiras décadas do século XX, tem como traço marcante à escravidão por localidade. Os “gatos” aliciam “[...]

trabalhadores para laborar em fazendas normalmente distantes da sua terra natal, em troca de uma proposta supostamente atraente e vantajosa ao rurícola”265. Ao final, o campesino percebendo que foi enganado, não haverá outra saída, “[...] e termina se sujeitando a esta situação de espoliação e abandono [...]”266. O retorno para a sua cidade natal é praticamente impossível. Longe da família e dos amigos, sem dinheiro e sem maiores perspectivas, o trabalhador “[...] tende a ser tornar um alcoólatra ou um marginal que, dificilmente, poderá se readaptar e ser aceito naquele novo ambiente social”267.

No contrato de aviamento, por exemplo, averigua-se com louvor a entristecedora sina daqueles que se situam distantes do seu lar. O seringueiro, trazido principalmente do estado do Nordeste, depara-se com uma realidade bastante cruel. Sem família, afastado de sua comunidade de origem, enfrentando os perigos da floresta e exercendo uma atividade extremamente solitária constituem desajustes profundamente sociais e psíquicos. A saudade de casa e o desespero da impotência de desembaraçar-se do emprego, somente não são piores, do que o exacerbado endividamento contraído para desempenhar o trabalho, o qual resultará em uma longa permanência na atividade, enquanto não for pago aquilo que deve ao patrão268. A escravidão por localidade é um artifício peculiar de endividamento do trabalhador, bem como dificulta uma qualquer pretensão de fuga. As longínquas distâncias das cidades mais próximas do local do trabalho fazem com que o empregado utilize o armazém do empregador. Os produtos adquiridos são descontados do seu minguado salário, o que chega ao final do mês, tendo nada ou quase-nada a receber.

O trabalhador sujeito a esse tipo de escravidão, como igualmente ocorria ao negro africano, coloca-se em uma embaraçosa situação quando da ocasião da fuga. A isto é noticiado269 no caso da fazenda do Sul do Pará, no município de Xinguara. O jovem Sebastião, com 17 anos de idade, foi aliciado pelo “gato” João Moaramas para trabalhar na

265 SENTO-SÉ, Jairo Lins de Albuquerque. Trabalho Escravo no Brasil. São Paulo: LTr, 2000, p. 91.

266 SENTO-SÉ, Jairo Lins de Albuquerque. Trabalho Escravo no Brasil. São Paulo: LTr, 2000, p. 91.

267 SENTO-SÉ, Jairo Lins de Albuquerque. Trabalho Escravo no Brasil. São Paulo: LTr, 2000, p. 91.

268 cf. ESTERCI, Neide. A dívida que escraviza. In: SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE TRABALHO ESCRAVO, 1997, Goiânia. Trabalho Escravo no Brasil Contemporâneo. São Paulo: Loyola, 1999, p. 107- 109.

269 cf. MOREYRA, Sérgio Paulo. Introdução: Declaração III. In: SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE TRABALHO ESCRAVO, 1997, Goiânia. Trabalho Escravo no Brasil Contemporâneo. São Paulo: Loyola, 1999, p. 28.

referida fazenda. O transporte, em uma carreta de transportar gado, ocorreu, primeiramente, a uma fazenda denominada Lagoa das Antas e, posteriormente, a fazenda Flor da Mata, ambas situadas no município de Xinguara. Da última fazenda, foram transportados de avião até o local contratado. As péssimas condições de trabalho e os maus-tratamentos foram decisivos para a fuga. O trabalhador Sebastião empreendeu a sua fuga ao anoitecer, embrenhando-se na mata: “[...] e cheguei na estrada Sul do Oeste, fiquei perdido pela mata sem saber onde era a cidade mais próxima, segui uma hora na estrada, outra na mata, e quando amanheceu escutei a

‘zuada’ de um carro e esperei, [...]”. Neste ponto, o jovem Sebastião se referia a um caminhão que passava pela estrada, logo, continuou: “pedi carona e perguntei para onde estava a cidade mais próxima, porque eu não conhecia nada, tinha vindo de avião, [...]”. A escravidão por localidade tende a inibir, portanto, as escaladas de fugas, decorrentes das desalentadoras condições de trabalho que ficam submetidos os rurícolas.

Em linhas gerais, o Ministério Público do Trabalho em posse da denúncia da prática da escravidão trata logo de iniciar as investigações, por meio do inquérito civil público, para apurar o desrespeito flagrante de submissão do trabalhador ao detentor do poder econômico.

As escaladas da averiguação consistem pelo auxílio de diversificados profissionais, onde dentre tantos, citam-se os fiscais do trabalho, profissionais responsáveis pelo levantamento das provas no local do trabalho. Havendo a constatação dessa perversa atividade, o Ministério Público do Trabalho lavrará o auto de infração. A partir daí, o Parquet Obreiro “opta” por dois caminhos: o primeiro, diz respeito ao termo de ajustamento de conduta, que é quando o explorador “colabora”, isto é, reconhece “prontamente” todos os direitos omitidos aos seus trabalhadores, e; o segundo, quando não sendo possível a solução por meio do termo de ajustamento de conduta, ou sendo desrespeitado-o, instaura-se ação civil pública, fazendo-se recair sobre àqueles malfeitores todo o poder punitivo do Estado270.

As características que acompanham a atividade contemporânea da escravidão não são detectáveis tão facilmente pelos fiscais do trabalho. Atribuem-se não somente as escravidões por dívida e por localidade como marcas essenciais do trabalho escravo, mas há uma gama de fatores que demarcam para a efetiva incidência da prática, como “[...] o descumprimento da legislação mínima reguladora do trabalho, relativamente à higiene, à saúde, à alimentação, ao necessário descanso, à segurança”271. Incluem-se, ainda, os demais procedimentos necessários para o recrutamento dos obreiros a essa atividade aviltante, sendo desde o aliciamento da força de trabalho na cidade de origem, passando pela hospedagem e pelo transporte até seu destino final272. Enfim, a ocorrência da escravidão necessita de observações minuciosas e criteriosas, a fim de coibir “[...] como instrumento para ampliação dos lucr os do empresário e proprietário rural, às custas da exploração gananciosa do trabalhador campesino”273.

O terceiro capítulo será composto pelo desenvolvimento daqueles instrumentos jurídicos, o inquérito civil público e a ação civil pública, que o Ministério Público do

270 cf. SENTO-SÉ, Jairo Lins de Albuquerque. Trabalho Escravo no Brasil. São Paulo: LTr, 2000, p. 124;

SECCHIN, Cláudio. Como funcionam as ações de fiscalização. Consulex, Brasília, DF, ano VI, n. 142, p. 18, dez. 2002.

271 MEDEIROS, Francisco Fausto de. O papel da Justiça do Trabalho no combate ao trabalho escravo e ao trabalho degradante. Consulex, Brasília, DF, ano VI, n. 142, p. 21, dez. 2002.

272 cf. CORRÊIA, Lélio Bentes. Um fenômeno complexo. In: SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE TRABALHO ESCRAVO, 1997, Goiânia. Trabalho Escravo no Brasil Contemporâneo. São Paulo: Loyola, 1999, p. 77.

273 SENTO-SÉ, Jairo Lins de Albuquerque. Trabalho Escravo no Brasil. São Paulo: LTr, 2000, p. 127.

Trabalho se utiliza para recuperar a estabilidade jurídica antes devastada e, bem como, para resguardar os direitos sociais dos trabalhadores que são postos nessas condições desumanas de trabalho.