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DA JURISDIÇÃO E COMPETÊNCIA

processuais, pois a ausência dos mesmos, tornam o processo ilegítimo e injustificável. Tais pressupostos processuais são as condições sem as quais o processo não será válido. São três os pressupostos essenciais para a existência do processo penal, a jurisdição; a competência e a legitimidade para o processo103.

Em sentido amplo, jurisdição é poder de conhecer e decidir com autoridade dos negócios e contendas, que surgem dos diversos círculos de relações da vida social, falando-se assim em jurisdição policial, jurisdição administrativas, jurisdição militar, jurisdição eclesiástica etc. Em sentido restrito, porém, é o poder das autoridades judiciárias regularmente investidas no cargo de dizer o direito no caso concreto. [...]

Jurisdição é, pois, a faculdade que tem o poder judiciário de pronunciar concretamente a aplicação do direito objetivo, ou, “a função estatal de aplicar as normas da ordem jurídica em relação a uma pretensão”.

A jurisdição penal é a expressão do Estado-juiz, através da qual o Estado, por meio dos seus órgãos competentes para tal, aplica o direito penal objetivo com vistas a punir, através do devido processo penal, todos aqueles sujeitos da sociedade que tenha praticado uma conduta tida como delituosa e contrária à norma penal. O Estado tomou para si esta função quando a própria sociedade não mais aceitou a idéia da autotutela108.

Os magistrados, por simplesmente exercerem a sua função já são investidos de jurisdição, aliás, ao assumir o cargo o juiz adquiri o poder jurisdicional de “dizer do direito”109.

No tocante à competência Tourinho Filho110 assevera que:

Embora a jurisdição seja uma, como poder soberano do Estado, é evidente não pode ser exercida ilimitadamente por qualquer Juiz. Se a área do Estado fosse por demais exígua e a população diminuta, tal qual ocorre com pequenos municípios, seria compreensível que um dos ou

107 MIRABETE, Julio Fabbrini. Processo penal, 2004, p. 174.

108 TOURINHO FILHO, Fernando da costa. Código de processo penal comentado. 5. ed.

São Paulo: Saraiva, 1999, p. 164.

109 MIRABETE, Julio Fabbrini. Processo penal, 2004, p. 175.

110 TOURINHO FILHO, Fernando da costa. Prática de processo penal, 2006, p. 80.

dois Juízes fossem suficientes para dirimir todos os litígios que ali ocorrem. Todavia, nas sociedades modernas não é cabível um juízo único. Pelo contrário: exigidos são muitos órgãos jurisdicionais, em relação à quantidade da população, extensão territorial e número extraordinário de lides e controvérsias.

Como dito, a jurisdição é um poder soberano do Estado de dizer o direito, através dos seus agentes investidos deste poder em nome do próprio Estado. Entretanto, a jurisdição não é exercida de forma ilimitada pelo juiz, até mesmo porque, nos tempos contemporâneos dotado de complexas relações, muitos são os conflitos no meio social e, desta maneira se tornaria inviável que o juiz exercesse a jurisdição de maneira mais ampla111.

Em fase desta impossibilidade do exercício ilimitado da função jurisdicional do juiz, a jurisdição, no direito brasileiro se divide entre os diversos órgãos do Poder Judiciário em áreas de atuação denominadas de competência112.

Segundo Greco Filho113:

A competência, portanto, é o poder de fazer atuar a jurisdição que tem um órgão jurisdicional diante de um caso concreto. Decorre esse poder de uma delimitação prévia, constitucional e legal, estabelecida segundo critérios de especificação da justiça, distribuição territorial e divisão de serviço.

A distribuição das esferas de competências se dão por meio de critérios com base nas espécies de conflitos ou ainda em razão das funções exercidas pelos juízes. No primeiro critério a competência é

111 MIRABETE, Julio Fabbrini. Processo penal, 2004, p. 179.

112 MIRABETE, Julio Fabbrini. Processo penal, 2004, p. 179.

113 GRECO FILHO, Vicente. Manual de processo penal, 1999, p. 140.

tida como objetivo e no segundo é denominada de competência funcional114.

A competência objetiva, também denominada de material é delimitada com base em três características básicas, a primeira diz respeito ao direito demandado; a segunda diz respeito ao espaço territorial e, no que diz respeito à pessoa do réu115.

Tourinho Filho a respeito da matéria ensina que: “Essa delimitação do poder jurisdicional é feita em vários planos e levando em conta a natureza da lide (ratione materiae), o território e as funções que os órgãos podem exercer nos processos”.

No tocante ao direito demandado, diz-se que a competência é em razão da matéria, isto implica na condição de que o juiz somente poderá conhecer de determinadas causas. Esta competência é delimitada através das leis, incluindo as normativas internas dos próprios órgãos do judiciário, exceto aqueles delitos que o texto constitucional estende a competência a outra esfera, como no caso do Tribunal do Júri116.

Sobre a competência em razão do local onde se deu a prática ação delituosa, Nogueira117 assevera que:

Em razão do lugar – é o critério mais indicado para o processo, por vários motivos, dentre os quais se sobressaem dois: prevenção geral e a economia processual. O primeiro diz respeito à prevenção em geral, já que a pena, dentre suas diversas finalidades, tem a de prevenir o crime e castigar o culpado, o que dever ser feito no lugar do crime;

o segundo se refere à facilidade de se colherem, no lugar

114 GRECO FILHO, Vicente. Manual de processo penal, 1999, p. 140.

115 MIRABETE, Julio Fabbrini. Processo penal, 2004, p. 180.

116 MIRABETE, Julio Fabbrini. Processo penal, 2004, p. 180.

117 NOGUERIA, Paulo Lúcio. Curso completo de processo penal, 2000, p. 130.

do fato delituoso, as provas do crime, como exames, perícias, testemunhas e outros elementos necessários.

No que diz respeito à competência com base na pessoa do acusado, determina a legislação processual penal que não serão todos os juízes que serão competentes para julgar determinadas pessoas, por possuírem estas, foro privilegiado, como no caso do Presidente da República, que somente pode ser julgado pelos Ministros do Supremo Tribunal Federal118.

Quanto a competência ela se subdivide em três espécies, que, a saber, são: a competência funcional por graus de jurisdição; a competência funcional por fase do processo e a competência por objeto do juízo119.

Mirabete120 tratando da matéria leciona que:

Em princípio a competência de um juiz refere-se a todos os atos do processo: o de conhecer do pedido; o de instruir o processo, o de decidir e o de executar a sentença. Pode, porém, ser ela limitada, retirando-se do juiz alguns desses poderes, ou seja, distribuindo entre dois ou mais juízes as atribuições jurisdicionais conforme a fase do processo. No processo referente aos crimes dolosos contra a vida, por exemplo, há o juiz competente para a instrução e o competente para o julgamento (júri). Pode haver também o juiz do processo, o juiz da execução (art. 65 e 66 da LEP);

atos de juiz substituto e atos exclusivos do juiz vitalício etc.

Para Greco Filho121:

Determina-se a competência funcional por graus de jurisdição quando a lei, em razão da natureza do processo

118 MIRABETE, Julio Fabbrini. Processo penal, 2004, p. 180.

119 TOURINHO FILHO, Fernando da costa. Prática de processo penal, 2006, p. 141.

120 MIRABETE, Julio Fabbrini. Processo penal, 2004, p. 180.

121 GRECO FILHO, Vicente. Manual de processo penal, 1999, p. 141.

ou do procedimento, distribui as causas entre órgãos judiciários que são escalonados em graus. De regra, as ações penais devem ser propostas no primeiro grau de jurisdição (juízos de direito ou varas), cabendo, de suas decisões, recurso para um segundo grau, considerando hierarquicamente mais elevado porque colocado em posição de reexame dos atos do primeiro.

Outra modalidade de competência funcional é a que diz respeito ao objeto do juízo, isto é, existem diversas questões no processo que necessitam serem conhecidas e decidas por mais de um juiz, como no caso dos Tribunais Colegiados122.

Cabe ressaltar que independe da espécie de competência funcional, há a presunção indispensável da existência da jurisdição com base na competência em razão da matéria e na competência em razão do lugar123.

Vários fatores podem ocasionar a necessidade da alteração da competência funcional e material. O ordenamento jurídico penal brasileiro prevê que a prorrogação da competência poderá se dar pela prorrogação do foro; pela delegação e pelo desaforamento124.

A competência também pode ser conferida ao juiz por distribuição e, a este respeito Noronha125 leciona que:

É freqüente que no território jurisdicional haja mais de um juiz competente para o processo e julgamento do crime. A competência será determinada, no caso, pela distribuição:

funcionará o juiz a quem forem distribuídos os autos. Vale dizer que, findo o inquérito, é ele remetido à distribuição, que encaminhará à vara a que tocar recebê-lo.

122 MIRABETE, Julio Fabbrini. Processo penal, 2004, p. 180.

123 MIRABETE, Julio Fabbrini. Processo penal, 2004, p. 181.

124 MIRABETE, Julio Fabbrini. Processo penal, 2004, p. 180.

125 NORONHA, E. Magalhães. Curso de direito processual penal, 1995, p. 44.

A delimitação da competência poderá se dar pela conexão ou pela continência, isto é, podem ocorrem fatos que alterem a direção do processo no tocante ao crime ou seu agente, que, por conseguinte, alterarão a competência podendo ocorrer a união num mesmo processo de mais de uma infração ou de mais de um acusado126.

A competência poder ser definida por meio da prevenção e a este respeito Nogueira127 leciona que:

A prevenção se dá quando, havendo dois ou mais juízes igualmente competentes ou com jurisdição cumulativa, venha um deles, antecipando-se aos outros, a praticar algum ato, ou a determinar medida, mesmo antes de oferecida a denúncia (prisão preventiva, fiança) que o torne competente para o processo, excluindo os demais.

Finalmente, a competência pode ser determinada em razão da prerrogativa de função. Trata-se de competência ligada à pessoa que está sendo processada, que terá foro privilegiado justamente por exercer uma função de destaque ou de grande importância, como, por exemplo, o Presidente da Republica, os Ministros de Estados, os Deputados Federais e Senadores, etc128.

O presente capítulo procurou fazer uma breve abordagem a respeito do Processo Penal brasileiro, sem ter a pretensão de discorrer sobre todos os seus aspectos, até mesmo porque demandaria um trabalho somente a respeito da matéria e, não é este o objetivo desta monografia.

Por outro lado, procurou-se tratar de alguns pontos considerados importantes para o desenvolvimento do próximo capítulo,

126 GRECO FILHO, Vicente. Manual de processo penal, 1999, p. 164.

127 NOGUERIA, Paulo Lúcio. Curso completo de processo penal, 2000, p. 147.

128 MIRABETE, Julio Fabbrini. Processo penal, 2004, p. 199.

uma vez que o mesmo versará a respeito das espécies de prisão no ordenamento jurídico brasileiro.

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