década. No último caso, a prisão para jovens negros das periferias urbanas das cidades ameri- canas tornou-se um fenômeno normal, parte previsível da experiência desses grupos. Usando o conceito de David Garland, pode-se perguntarse o Brasil está entrando no seu período de en- carceramento em massa. Apesar do país possuir taxas de encarceramento muito próximas dos países com igual nível de desenvolvimento e de desigualdade (ISRAEL, 2016), percebe-se que essas taxas são bem superiores que sua série histórica (INFOPEN, 2014). Resta saber se existe um estrato social mais susceptível ao encarceramento e seus reverses. Isso será investigado nas seções a seguir.
Western (2006) estudou adesigualdade invisívelproduzida pelo sistema penal ameri- cano. Segundo ele, o sistema penal nos EUA tem produzido uma desigualdade invisível em pelo menos três direções. Primeiro, nos dados oficiais sobre o mercado de trabalho, no qual as estatísticas oficiais sobrestimam significativamente a prevalência de jovens negros empre- gados. Segundo, sobre as taxas de não ocupação entre os jovens negros que, já são altas nas estatísticas oficiais, seriam somente entre 20% e 25% da não ocupação se a população carcerá- ria fosse considerada. Por fim, pela grande disparidade racial nos EUA, a desigualdade racial no mercado de trabalho é significativamente subestimada pelas pesquisas oficiais. (WESTERN, 2006) afirma que a“desigualdade invisível foi uma consequência não intencional do encarce- ramento em massa produzido pela mistura de elevadas taxas de crime, uma reviravolta política nas relações raciais e uma escassez crônica de empregos nas áreas pobres das cidades”.
No Brasil, os efeitos da população prisional nas estatísticas sobre o mercado de trabalho e renda ainda são pouco estudadas. Segundo o relatório do INFOPEN, o número de pessoas pri- vadas de liberdade em 2014 é 6,7 vezes maior que em 1990, num crescimento médio de 7% ao ano (totalizando crescimento de 161% no período). Enquanto a população brasileira apresentou um crescimento de 16% no período (média de 1,1% ao ano). A análise principal deste traba- lho consiste na comparação entre a população presa e a população livre na amostra do Censo de 2010 comparando com os agentes penitenciários. Os objetivos são: analisar as variáveis socioeconômicas que compõem o espaço de capacidades entre esses grupos, verificar se existe invisibilidade dos grupos prisionais nos dados da Amostra do Censo 2010 e verificar se o Brasil está entrando num período de encarceramento em massa, na condição do direcionamento das ações penais para grupos específicos.
Tabela 15 - Totais da amostra e estimativas populacionais.
Grupos Amostra Estimativa Erro Padrão Livres 14.306.452 134.151.413 18.621
Presos 32.772 308.427 2.044
Guardas 5.515 55.802 915
Fonte: Censo 2010. O autor, 2019.
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e inspetor de presídio. As características de interesse da população serão estimadas a partir da amostra usando metodologias descritas nas Notas Metodológicas do Censo 2010, produzidas pelo IBGE e pelo livro Elementos de Amostragem de Wilton Bussab e Heleno Bolfarine . Os microdados do Censo de 2010 são fornecidos no site www.ibge.gov.br. Os programas para análise dos dados, usando o programa R, podem ser obtidos em contato com o autor.
Da Amostra do Censo 2010 foram selecionados todos os indivíduos com idade a partir de 18 anos. A Tabela 15 apresenta os totais da amostra, as estimativas populacionais e os erros padrão das estimativas para este estrato51. Os Livres referem-se a todos os indivíduos do banco de dados das pessoas com 18 anos ou mais de idade e que não residiam em presídios no período de referência. Os Presos referem-se a todos os indivíduos com 18 anos ou mais que residiam em unidades prisionais no período de referência. Por fim, os Guardas compõem o subconjunto dos Livres que tinham como ocupação “agente de segurança penitenciária”. No relatório do INFOPEN (2014) o número de pessoas presas no Brasil em 2010 era de 496,3 mil pessoas, bem acima das 308,4 mil pessoas estimadas na Amostra do Censo. Isto constitui uma diferença de quase 200 mil pessoas (aproximadamente 10 vezes o erro padrão para essa estimativa).
As variáveis selecionadas para análise (com os códigos entre parênteses) foram: Sexo (V0601), Cor (V0606), Nível de Instrução (V6400), Religião (V6121) , Idade (V6036) e Ren- dimento Bruto no Trabalho Principal (V6511).
A Figura 29 apresenta os gráficos de barra para as proporções amostrais das variáveis:
Sexo, Cor, Nível de Instrução, Estado Civil e Religião. Os pontos em vermelho são as esti- mativas das proporções populacionais utilizando-se os pesos amostrais (variável V0010). No gráfico da variável Sexo observa-se que a prisão, assim como a profissão de guarda, é predo- minantemente masculina com estimativa populacional de 93,9% e 83,4% de homens presos e guarda, respectivamente.
Na variável Cor há um fenômeno interessante, observando a proporção estimada ocorre um aumento da proporção de guardas brancos (55,9%) frente a população livre (49%) e uma re- dução da proporção de brancos dentre os presos (37,6%), se comparado com os livres. Quanto
51Foram tomados os limites do erro padrão para as estimativas segundo a Tabela 14.39 da Metodologia do Censo 2010.
Figura 29 - Variáveis Sexo, Cor, Nível de Instrução, Estado Civil e Religião.
Fonte: Censo 2010. O autor, 2019.
Tabela 16 - Estatísticas sobre a Idade dos estratos na amostra.
Grupos 1 Q Mediana 3 Q Média Desv.Padrão
Livres 27 39 53 41,4 16,8
Presos 24 29 35 30,7 9,1
Guardas 30 36 44 37,1 9,6
Fonte: Censo 2010. O autor, 2019.
ao Nível de Instrução, os códigos significam: N1, “nunca estudou ou até nível fundamental incompleto”; N2, “nível fundamental completo ou até nível médio incompleto”; N3, “nível médio completo ou até nível superior incompleto”; N4, “nível superior completo” e N5, “inde- terminado”. No gráfico do Nível de Instrução observa-se que os presos, predominantemente, não possuem nível fundamental completo (71%) ou têm nível fundamental completo com nível médio incompleto (21%). No entanto, o nível de instrução dos guardas está, em sua maioria, em N3 (65%), ou seja, possuem nível médio completo. Neste caso, o nível de instrução dos guardas destoa bastante do nível de instrução da população livre em geral.
No gráfico sobre o Estado Civil o que mais chama atenção é a proporção de presos soltei- ros, refletindo a faixa etária desse grupo como será visto a seguir. A distribuição do Estado Civil dos guardas não difere estatisticamente da distribuição da população livre. No gráfico sobre as religiões, também chama atenção que a distribuição das religiões dos Livres é a mesma que a dos Guardas, mas os presos têm um aumento substantivo dos autodeclarados Sem Religião, sendo estimados 7% e 8% para os Livres e Guardas contra 29% dos presos.
A Figura 30 exibe os gráficos da distribuição das Idades e dos Rendimentos Brutos no Trabalho Principal. No gráfico da variável Idade nota-se que a distribuição dos presos está à esquerda da distribuição dos guardas e dos livres. As idades dos guardas, por estarem em idade laboral, encontram-se mais à esquerda que a dos livres. A Tabela?? apresenta as principais estatísticas dessa variável. As estimativas para a população usando os pesos amostrais não diferiram dos valores tabelados em mais de um ano para nenhum dos grupos, portanto não serão exibidos.
No gráfico sobre a distribuição de rendaper capita(na escala do logaritmo) da Figura 30 fica evidente que os presos ganham menos que os livres que por sua vez ganham menos que os guardas. A distribuição de renda dos presos só foi possível porque havia alguns registros de rendimento no banco de dados da amostra (em torno de 5% para os presos), contudo, uma tarefa futura é estimar as rendas esperadas dos presos caso eles estivessem no mercado de trabalho.
Esta tarefa de imputação das rendas de presos foi feita por Neri (2006), com os dados do Censo de 2000, e por Western (2006), usando metodologias diferentes. A Tabela 17 apresenta as medidas resumo para a renda per capita considerando também os níveis educacionais, nesse último caso somente para os Livres e Guardas. Ao considerar os pesos amostrais no cálculo das médias de rendaper capita obtém-se: R$ 769,38, para os Livres, R$ 38,23, para os Presos, e
Figura 30 - Distribuição das variáveis: Idade e Rendimento Bruto no Trabalho Principal.
Fonte: Censo 2010 (produzido pelo autor).
Grupos 1 Q Mediana 2 Q Média Desv.Padrão
Livres 510 650 1.082 1.130 2.786
Presos 28 100 382 278 527
Guardas 1.400 1.800 2.300 1.952 1.206
Livres(N3) 510 780 1.200 1.153 2.411
Guardas(N3) 1.400 1.800 2.200 1.855 876 Livres(N4) 1.000 1.800 3.000 2.955 5.688 Guardas(N4) 1.600 2.000 2.600 2.437 1.837 Tabela 17 - Estatísticas sobre a renda (R$) no trabalho principal da amostra.
Fonte: Censo 2010. O autor, 2019.
R$ 1.983,20, para os Guardas.
A Figura 31 apresenta o cruzamento entre Nível de Instrução e Idade (dividida em faixas etárias). Na figura, quanto mais clara for a célula da imagem maior é a porcentagem de indiví- duos nela, e quanto mais escura (próximo ao vermelho) menor é a porcentagem de indivíduos na célula. Pode-se notar que a distribuição das idades e nível de escolaridade é muito diferente entre os três