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INTRODUÇÃO

3. ESTUDOS DE CASOS

3.2. Casos

3.2.2. Dating Eleitoral (Portugal);

Pontos a absorver

A analogia com o aplicativo de relacionamento Tinder parece um acerto na comunicação da ferramenta. Apropriar-se de um modelo amplamente difundido garante a familiaridade no uso e, colocado como sátira, não corre perigo de ser interpretado como plágio. A decisão traz frescor e jovialidade para a comunicação da ferramenta, em relação aos outros exemplos — principalmente aqueles promovidos por veículos jornalísticos, que costumam prezar por uma imagem de seriedade e sobriedade.

Além disso, o caso utiliza um sistema de pontuação para calcular o match cuja metodologia é aquela mais semelhante à prevista para o Bom Partido, com algumas diferenças:

O jornal Público fez uma seleção de medidas dos programas eleitorais dos partidos, usando dois critérios: relevância e/ou fator distintivo face a outros programas. Para cada medida destacada, as posições de todos os outros partidos foram pontuadas…

+1 ponto em caso de concordância;

-1 ponto em caso de discordância;

0 pontos nos casos em que não é possível identificar com segurança a posição do partido.

Se o utilizador concorda com uma medida, marca um ponto para cada partido que tem +1 atribuído nessa, e não marca (nem subtrai) qualquer ponto dos partidos que têm -1 na referida medida;

Caso discorde, verifica-se o contrário: marca um ponto para cada partido que tem -1 atribuído nessa e não marca (nem subtrai) qualquer ponto dos partidos que receberam +1 na mesma medida.

Quando um partido não toma posição explícita no programa sobre um tema, mas há registo de intervenções públicas nesta legislatura sobre o mesmo, adotou-se a posição publicamente assumida. Quando o partido não toma posição explícita no programa e não há registo de intervenções públicas tomadas nesta legislatura, por regra, não foi atribuída pontuação (0 ponto).

O sistema de pontuação Concordância +1 / Discordância -1 / Neutralidade 0 parece funcionar também para a lógica do Bom Partido, pois é adequado para o formato de resposta binário — SIM / NÃO. No caso do Dating Eleitoral , essa opção parece partir da intenção de mimetizar o aplicativo Tinder . Para o Bom Partido, é a única opção coerente, pois segue a lógica das votações ocorridas no plenário da Câmara.

A sobreposição de uma contagem para os partidos e outra para o usuário, porém, parece ser desnecessária e pode ser simplificada para o Bom Partido.

A correspondência com partidos parece mais elucidativa acerca das diferentes correntes ideológicas presentes no universo político português, em comparação com uma correspondência com candidatos individuais, como no caso anterior, Match Eleitoral. Desta forma, o resultado do teste mantém mais valor por mais tempo.

Pontos a evitar

Um dos principais pontos a evitar está na formulação das declarações. As questões são colocadas em forma de proposta eleitoral, por exemplo:

“Alterar o modelo de financiamento da saúde e aumentar a liberdade de escolha entre privado e público”.

Figura 13. Página de questionário do “Dating Eleitoral”. Medida 1. (Público, 2022).

O usuário deve então responder se gosta (coração) ou não (x) da proposta, mimetizando o aplicativo de relacionamento Tinder . Este modelo de texto não gera um questionamento objetivo e causa distanciamento ao colocar o usuário como um observador (terceira pessoa). Adicionalmente, é apropriado que se forme uma oração completa (sujeito-verbo-predicado) para conferir maior clareza às colocações, em vez de se iniciar já pelo verbo, como no exemplo.

O exemplo mostra ainda outros pontos a se evitar. Questiona sobre “Alterar o modelo” sem explicar que alterações são essas, alterar do que para o quê, ou como . Diz apenas que “aumenta a liberdade de escolha entre privado e público”, escolha de palavras que causa certa tendência à concordância, pois

entre possibilidade e liberdade há um julgamento subjetivo. Além disso, acaba por unir dois questionamentos em um — “alterar o modelo” e “aumentar a liberdade”, sem estabelecer um nexo causal explícito entre eles.

Outro ponto questionável é a escolha de imagens que acompanham as medidas. Na intenção de apenas “ilustrar” a proposta, a mensagem final pode ser profundamente modificada. Na figura 14, a fotografia da mão de uma idosa com diversas agulhas de acupuntura aplicadas pode causar uma reação automática de desagrado a muitas pessoas — que temem agulhas, por exemplo —, o que causa enorme ruído na transmissão da mensagem. Acaba também por reduzir as inúmeras terapias não convencionais unicamente à acupuntura.

Figura 14. Página de questionário do “Dating Eleitoral”. Medida 3. (Público, 2022).

A figura 15, por outro lado, traz a fotografia de um veterinário beijando um cão carinhosamente e questiona se é bom alargar a oferta pública de acesso a serviços médico-veterinários. Imagens de animais de estimação são famosas por causarem um sentimento de compaixão e alegria nas redes sociais, e obviamente é mais difícil votar contra esta proposta com a imagem ao lado. O sentimento é que se está negando atendimento ao cão da foto, o que reduz a questão e conduz a resposta inapropriadamente.

Figura 15. Página de questionário do “Dating Eleitoral”. Medida 31.

Por fim, as figuras 16 e 17 mostram casos de dupla-negativa que dificultam a compreensão da resposta. Se a proposta é retirar a reforma, aqueles que são a favor da reforma devem votar não (x).

Seria mais simples questionar a reforma, e não a sua retirada. Do mesmo jeito, se a questão é a existência do SEF, seria mais fácil questioná-la diretamente do que a reversão de sua extinção.

Acabou-se por construir uma possível tripla negativa: ser contra a reversão da extinção.

Figura 16 e 17. Página de questionário do “Dating Eleitoral”. Medidas 37 e 41. (Público, 2022).

Adicionalmente, a extensão de 51 respostas parece excessiva, mesmo com a opção de terminar o questionário a qualquer momento. Supõe-se que a extensão seja consequência da metodologia adotada, que constrói cada pergunta a partir do posicionamento de um partido específico (e depois afere o posicionamento dos demais). Assim, todos os partidos devem ser tomados como ponto de referência em um número equilibrado de questões. Quanto mais partidos, maior a extensão do teste.