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6. Análise dos Resultados

6.1. Santa Rosa de Lima

6.1.2. De Município de Borda a Município de Centro

Mesmo estando a apenas 120 km da capital do Estado, Florianópolis, sua ocupação e o ingresso da tecnologia, apresentam-se de forma lenta em função da cidade estar localizada numa região de difícil acesso, por situar-se longe dos principais eixos rodoviários do estado e devido à precariedade das estradas que a ligam com outros municípios. (SCHIMIDT, 2000). Como então o município passa a registrar sua presença em meio a tantos municípios mais importantes no Estado? A explicação sobre como isso aconteceu podemos vislumbrar nas informações a seguir.

As cidades médias tradicionalmente percebidas como intermediárias entre as metrópoles e as cidades pequenas, no estado de Santa Catarina, devido à ausência de metrópoles, passam a desempenhar uma nova função, a de agir como um sistema de cidades médias polarizadas, dando origem a núcleos regionais. Dessa forma, o atual governo estadual confere a oito

cidades o status de pólos de influência regional: Joinville, São José, Blumenau, Itajaí, Criciúma, Lages, Chapecó e Joaçaba. (ANJOS, 2007).

Observa-se, portanto que muitos fenômenos manifestam-se de maneiras diferentes de acordo com a sua localização, alterando-se caso estejam nas bordas ou no centro de uma região. Dessa forma, se é necessário conhecer o centro pra que se possam definir as bordas, o contrário também se aplica:

partir das bordas para chegar ao centro. “Afinal, as marcas que a sociedade vem imprimindo na paisagem carregam os centros e multiplicam as bordas, de distintas origens, que se entrelaçam numa trama complexa de influências e formas de subordinação” (PICKENHAYN; GUIMARÃES, 2007, p. 188).

Não possuir uma metrópole e ser dividida em pólos regionais, faz com que o estado catarinense sofra influência direta das metrópoles dos estados vizinhos, e não seja visto como protagonista nas dinâmicas socioeconômicas nacionais, embora possua uma economia diversificada e se destaque entre os demais estados brasileiros como o maior Índice de Desenvolvimento Humano - IDH. Essas novas formas espaciais passam a exigir assim novas possibilidades analíticas. (ANJOS, 2007).

Estar na borda não significa estar em local de menor importância, basta lembrar que as fronteiras e a costa marítima são regiões de borda, contudo locais de grande importância política e geográfica. A questão é que são distintas as formas de percepção do território se estamos na borda ou no centro e uma determinada região, além de ser possível estar ao mesmo tempo na borda de um processo e no centro de outro. (PICKENHAYN; GUIMARÃES, 2007).

Nesse quesito, Santa Rosa de Lima apresenta tal característica peculiar.

Por encontra-se localizada na mesoregião Sul, fazendo limites com o município de Anitápolis da mesoregião da Grande Florianópolis e com Urubicí da mesoregião do Planalto Serrano, sofre as influências das três áreas. (ver Fig.

4). Esse fato gera uma sensação de pertencer a todas as três mesoregiões e ao mesmo tempo de não pertencer plenamente a nenhuma delas. Por outro lado, por ser pioneira do movimento agroecológico e sediar os escritórios de entidades como AGRECO e Acolhida na Colônia, configura-se também como centro desse processo que se instalou em vários outros municípios do estado.

Santa Rosa de Lima

Urubicí

Anitápolis Figura 5 – As Bordas

Fonte: O autor adaptado da Wikipédia 2007.

Em tempos de globalização, novos papéis são atribuídos às cidades localizadas nas bordas e como resultado desse processo observa-se uma realidade urbana diferenciada da metrópole. Concomitantemente, a globalização induz interferências e alterações na relação entre as cidades e aumenta ainda mais as desigualdades intra-urbanas. (GUIMARÃES et al., 2005).

Nesse sentido, à medida que as cidades médias dinamizam vários pontos do território, também agem promovendo o esvaziamento de funções tradicionais em outras cidades de seu entorno. Em conseqüência direta desse fato, temos uma modernização, sofisticação e dinamização dos centros médios, enquanto que as áreas urbanas menores sofrem os efeitos contrários

desse processo, gerando um atraso tecnológico, desemprego e uma diminuição das condições de vida da população. (SOARES, 2007).

Em conseqüência dessas alterações nas relações entre as cidades, observamos de acordo com Blos (2005), que as populações campesinas demonstram cada vez mais o desejo em quebrar os isolamentos econômicos, sociais e culturais do meio rural. A imagem de um espaço produtor de bens primários, decadente e de vida lenta e estagnada, já não mais as satisfaz.

Atualmente, as facilidades como o acesso a serviços e à cultura do mundo moderno, são igualmente almejadas seja nas áreas urbanas ou rurais. Nesse sentido o autor coloca ainda que:

Uma abordagem sócio-espacial do desenvolvimento traz a idéia de que desenvolver com base local significa abandonar a crença nas soluções universais e milagrosas. Confirma a capacidade e sabedoria das comunidades locais na identificação dos seus problemas e na tentativa de encontrar soluções originais, com base na sua própria experiência e na de outros grupos similares (BLOS, 2005, p. 37).

Quando esses grupos similares estão localizados numa mesma borda, essa troca de experiências em busca da solução de seus problemas é fortalecida, e caso desenvolvam uma atividade comum, Pickenhayn e Guimarães (2007, p. 211) afirmam: “que podem se transformar em eixos de conexão que integrem esses espaços, numa trama complexa de influências cruzadas”.

Seguindo essa linha de pensamento, observamos que o processo que se desenvolveu em Santa Rosa de Lima apresenta tais aspectos. Baseado nas suas características agrícolas, aliando a preservação ambiental ao desenvolvimento local, inicia um movimento agroecológico. Posteriormente essa atividade agrega o agroturismo. Todo esse processo apresenta-se forte e integrado devido ter sido originado em conjunto com as demais cidades do seu entorno, em especial com os municípios constituintes da interseção das bordas das mesoregiões vizinhas (Anitápolis e Urubici).

Hoje o projeto do agroturismo serve de modelo para diversas áreas do estado e continua em expansão. Por mais paradoxal que possa parecer Santa Rosa de Lima tornou-se o município de centro, quando nos referimos às

influências e impactos gerados pelo projeto da Acolhida na Colônia, mesmo sendo um município de borda no quesito geográfico.

6.1.3. O movimento de organização da AGRECO/Acolhida na Colônia